A planificação de um projecto
O Jorge Saiete levanta, num comentário ao meu texto anterior, uma questão muito importante que eu havia sugerido: como reintroduzir a qualidade na nossa discussão política? Penso que uma maneira de responder a esta questão é tentando fazer uma breve sociologia do processo de planificação de um projecto. Para esse efeito, vou me orientar no esquema que foi introduzido para dar resposta aos problemas constatados com a concepção quantificadora e rígida do desenvolvimento no passado. O esquema coloca os objectivos no centro da planificação. Vou descrever este aparato e ir indicando os lugares onde podemos e devemos discutir as coisas.
Gostaria que entendessem o esquema que vou apresentar como uma espécie de tipo-ideal onde podemos, inclusivamente, remeter a “estratégia”, este grande instrumento de planificação que usamos e abusamos no nosso país. A planificação de um projecto envolve três momentos cruciais, nomeadamente a análise da situação, a análise do problema e a análise dos objectivos. Estes momentos são progressivos e terminam com o que podemos chamar de estratégia ou plano de acção. Acho importante entrarmos um pouco no detalhe de cada um destes momentos, pois o diabo está mesmo lá. Cada um desses momentos é complexo, está cheio de armadilhas e constitui uma intervenção em meios sociais vivos.
A análise da situação
A análise da situação comporta vários momentos, mas os mais importantes dizem respeito ao ponto de partida e aos que estão envolvidos no assunto. O ponto de partida refere-se aos recursos ao nosso dispor, e isto inclui capital humano, financeiro e material. Vamos usar a educação como um exemplo. Se queremos fazer um projecto na área da educação em Moçambique, por exemplo, para a melhoria da qualidade, ao fazermos a análise da situação começamos por determinar o nosso ponto de partida. Quantos professores temos? Qual é o seu nível de formação? De que orçamentos podemos dispor? Que infra-estruturas temos? Que outros programas de apoio à educação existem? Que experiências podemos colher desses programas? Este ponto de situação é importante.
Igualmente importante é saber quem está envolvido na coisa em termos do tipo de interesses que essas pessoas ou grupos possam ter. Vamos lá, um grupo de interesse é naturalmente dos professores que podem ver no projecto, num primeiro momento, uma oportunidade para melhorarem as suas condições materiais; o director há-de ter na mira uma motorizada ou um 4X4. Depois temos os encarregados de educação que, em princípio, estão interessados ou na formação dos seus filhos, ou então (nas zonas rurais, por exemplo) em que a escola não atrapalhe nas tarefas lá da machamba. Há ainda os empreteiros de obras que vão querer que o projecto passe pela construção de certo tipo de edifícios. Há também os políticos de um e de outro lado. Uns querem “resultados”, outros querem mostrar que não há “resultados”. Estão a ver como a situação começa a complicar-se. Não nos esqueçamos das ONGs, dos próprios doadores que querem imperiosamente um projecto, etc. Tenho a impressão de que a própria indústria do desenvolvimento reflecte, por vezes, muito pouco sobre os processos que ela própria desencadeia.
A análise do problema
A seguir vem a análise do problema, outro grande quebra-cabeças. Aqui o desafio é de identificar os problemas existentes, estabelecer relações entre eles e decidir qual deles é o mais importante e de que maneira ele influencia os outros. Aqui as coisas não são fáceis. Voltemos ao nosso exemplo da educação. Que tipo de problemas pode haver ao nível da educação? Má formação dos professores; má gestão das unidades escolares; fraca articulação entre as escolas e as direcções de educação; altos índices de reprovação; altos índices de interrupção (por parte, sobretudo, de raparigas); longas distâncias para se chegar à escola; insuficiência de material didáctico; fraca capacidade financeira dos encarregados de educação; falta de interesse dos encarregados de educação pela formação dos filhos; insuficiência de professores por estarem a morrer como baratas de HIV-SIDA; fraca alimentação dos alunos; e por aí fora.
O desafio aqui é identificar as ligações entre os problemas e estabelecer uma hierarquia. Não é fácil, sobretudo porque aqueles interesses de que falava há parágrafos podem entrar em jogo. Os empreteiros podem tentar influenciar as coisas no sentido de que o problema formulado seja da insuficiência de infra-estruturas; os professores vão insistir nas condições materiais; os encarregados de educação vão falar de dificuldades financeiras. Os doadores podem querer que o problema seja de ingressos. Etc. Que fazer? Eu não sei, mas isto serve de chamada de atenção para aquele que pensa que o problema que se formula é necessariamente o problema real.
A ideia é de formular um problema principal do qual depende a solução de uma boa parte de outros problemas identificados. Por exemplo, podia se decidir que o problema é mesmo de altos índices de reprovação. Sendo assim, os professores não se sentem motivados a dar o seu melhor; os pais não mandam os filhos à escola; as direcções de educação encolhem os ombros e dizem “pois é, são burros”, a coisa vira círculo vicioso. É dessa análise de problema que pode ter vindo a decisão do Ministro de ordenar a aprovação em 100 por cento. A nossa discussão com ele, Jonathan McCharty e Jorge Saiete, podia ser a este nível: será que ele analisou bem o problema? Para que problema é que a aprovação a 100 por cento é uma solução? É isto que quero dizer com a reintrodução da qualidade na discussão política.
A análise dos objectivos
A coisa continua. Depois da análise do problema faz-se a análise dos objectivos. Aqui toda a porca na pocilga torce o rabo. Esqueci-me de dizer que pelo menos na versão alemã da planificação de um projecto o problema principal formula-se transformando o problema numa solução. Por exemplo, se achamos que o problema é dos altos índices de reprovação dizemos, como os economistas gostam de fazer, “vamos partir do princípio de que os índices de reprovação são baixos”. A partir daí imaginamos o que pode acontecer e definimos, dessa maneira, as nossas prioridades em termos de acção. A prioridade, no nosso caso, é de garantir que os alunos passem de classe, aliás que todos os alunos passem de classe. Reparem num pormenor muito importante, por favor. O facto de o Ministro ter dito que todos devem passar de classe não significa necessariamente que os professores devem deixar toda a gente passar de classe mesmo que não saibam nada. O Ministro ainda pode nos surpreender com essa chamada de atenção dizendo simplesmente que o que queria dizer é que os professores devem elevar a qualidade do ensino, fazer horas extras se for necessário, ou simplesmente matricular apenas bons alunos. É preciso prestar atenção antes de criticarmos!
Então, chegado o momento de fazermos a análise dos objectivos temos que concentrar a nossa acção em três aspectos muito importantes. O primeiro aspecto refere-se aos riscos. O que pode acontecer e vir a comprometer o nosso plano de acção? Vamos supor que o plano de acção (para aumentar até 100 por cento o índice de aprovação) implica melhorar a qualidade de ensino. Que tal se os professores recusarem fazer o estágio em Maganja da Costa e preferirem workshops no Pemba Beach Hotel? Que tal se o Millenium “não há sistema” BIM tiver problemas com os seus computadores e não puder mandar os per diem a tempo? Que tal se os doadores mudarem repentinamente de país-modelo em África? Que tal se a educação deixar, repentinamente, de ser prioridade para o doador que havia prometido dinheiro para o programa de melhoria da formação dos professores?
O segundo aspecto diz respeito aos pressupostos. De que pressupostos partimos para estabelecermos o tipo de metas que estabelecemos? É óbvio que alguns dos riscos fazem parte desses pressupostos. Por exemplo, partimos do princípio de que os cursos serão feitos, que o dinheiro chegará a tempo, etc. Abro aqui um parêntesis para dizer que um dos grandes déficits das nossas discussões políticas em Moçambique reside justamente aqui. Cada qual estabelece metas como lhe der na gana e quando não as alcança inventa desculpas. E não há maneira de discutir com essa pessoa porque no momento de estabelecer as metas ninguém o obrigou a dizer abertamente que pressupostos tinha em mente. Jonathan McCharty e Jorge Saiete: eis outro lugar para a reintrodução da qualidade na nossa discussão política. Quais são os pressupostos do Ministro para a meta que ele estabeleceu?
O terceiro aspecto é dos indicadores. Como é que sabemos que estamos no bom caminho ou que já chegamos? Por exemplo, o Ministro podia dizer que a realização de cinco seminários de capacitação na Maganja da Costa são importantes indicadores da implementação do programa; ele podia também dizer que os resultados das provas do primeiro trimestre têm que estar acima de 70 por cento; e por aí fora. Finalmente, o nosso projecto tem sucesso quando os 100 por cento aprovados sabem, dependendo da classe em que se encontram, realmente fazer isto mais aquilo. O plano pode prever modalidades de verificação da coisa. Aqui também, Jorge e Jonathan, há muito pano para manga. Podemos insistir nisto como forma de reintroduzir a qualidade na discussão política.
Acho que chega. Por enquanto.