segunda-feira, novembro 17, 2008

E se Mugabe fosse americano?

Mugabe americano branco
Já agora, porque não entrar na onda das especulações encorajado pelo sempre interessante texto do Mia Couto (que circula pela internet), mas também pela interpelação incisiva feita pelo Patrício Langa? Porque não? Mas como entender a pergunta: e se Mugabe fosse americano? Difícil. Ou melhor, depende. Branco ou preto? Descendência directa africana ou descendência indirecta por via dos americanos-africanos? Qualquer que seja a resposta que dermos a estas perguntas, as coisas mudam de perfil. A análise não pode ser a mesma. Se Mugabe fosse americano branco, como professor primário que ele é, nunca teria chegado a lado nenhum. Precisava de ter estudado direito ou gestão e decidido, muito cedo, meter-se na política em defesa de certos interesses que não têm necessariamente muito a ver com a sorte da maioria. No Zimbabwe ele formou-se politicamente na defesa dos interesses de uma maioria espezinhada, oprimida e constantemente ferida na sua dignidade humana. Os que o criticam hoje esquecem isso com muita facilidade.
Ele passou anos na cadeia, passou privações no exílio e na guerra de libertação guiado não só pelo ideal de um dia vir a fazer vida negra a Morgan Tsvangirai e cuspir na cara do mundo, mas guiado, também, pela esperança da recuperação da dignidade humana de todo um povo. E recuperou essa dignidade, mas o simples facto de ter tido que consentir esses sacrifícios todos pela recuperação de algo apregoado (mas não cumprido) por gente aparentemente decente e sensata há-de o ter marcado como político. Nada justifica atrocidades cometidas em nome de seja qual for o ideal, mas ignorar o papel formativo que certas experiências têm na vida de um político é também a forma mais segura de nunca poder perceber porque os políticos agem como agem e o que deve ser feito para os envolver no diálogo que é sempre necessário. Um Mugabe americano branco teria consentido sacrifícios pelos negros americanos e ganhar projeção nacional? Esses negros americanos teriam dinheiro suficiente para financiarem a sua campanha? Ou teria ele usado a causa “negra” simplesmente para se projectar como, aliás, alguns políticos liberais norte americanos o fazem? Uma vénia aqui e acolá pelas causas desta mais aquela minoria a caminho do capitólio em Washington... Ou fazer de Michael Moore com as suas críticas enfadonhas e mal articuladas à consciência liberal americana?
Nos Estados Unidos da América, como aliás no Brasil também, há reservas de índios, verdadeiros antros de alcoolismo e decadência. Ter-se-ia inspirado nessa realidade um Mugabe branco americano para se livrar do problema dos fazendeiros brancos no Zimbabwe? Estilo meter todos esses fazendeiros que teimam em controlar a riqueza do país conquistado com luta e sacrifício em reservas? Estilo organizar aí excursões turísticas para ir ver “brancos africanos”? Ou teria ele legislado de forma restrictiva como alguns estados o fazem lá nos EUA contra “ilegais”, submetendo-os ao tratamento mais ignomioso que uma nação que se considera civilizada pode submeter a outros seres humanos? Ou então, porque não, encorajar os fazendeiros brancos a regressarem às raízes como, aliás, as missões cristãs fizeram lá nos EUA em relação aos negros que foram enviados para a Libéria? Comprava-se um pedacinho de terra em Cornwall na Grã-Bretanha para os fazendeiros zimbabweanos e, prontos, estava resolvido o problema. Estava?
Ou seria ele, caso conseguisse chegar à Casa Branca com essa agenda, aliado de Tony Blair na inviabilização de uma solução para o problema do Zimbabwe? Meios para tal não lhe faltariam. Era só fazer como os Bush fizeram. Era só fazer como administrações anteriores fizeram em relação a muitos outros países e a muitos outros conflitos: Nicarágua, Panamá, Granada, Cuba, Vietname, etc. Aliás, era só ser igual a si próprio e tolerar durante anos a fio regimes de minoria branca na África do Sul e na Rodésia do Sul. Anos a fio. Porque é que nós – agora estou a falar de nós os africanos em África – começamos as nossas homilias sempre do zero? Assim que o Ocidente muda de ideias – estilo, a partir de agora é errado ter governo de minoria branca – já não nos interessamos em recordar a esses fulanos que no passado defenderam – ou, pelo menos, não levantaram nenhum dedo contra – esse tipo de regimes. Será uma maneira de os ilibarmos da sua responsabilidade na formação de uma cultura política niilista entre nós? Será uma maneira de evitarmos ver que, quer a gente queira, quer não, somos produtos desta relação com o Ocidente? Será isso?

Mugabe americano negro

Está bem. Suponhamos que Mugabe americano fosse negro. E aí? Como professor que ele foi teria chegado a algum sítio? Teria sido professor? Se ele se tivesse envolvido na campanha dos direitos cívicos, estaria hoje vivo? E se estivesse vivo, seria como político moderado, político radical ou o quê? Quantos milhões de negros não votam nas eleições americanas por estarem na cadeia? E porque estão na cadeia? Porque são criminosos? Só por isso? Num país civilizado e democrático como os EUA só se pode estar na cadeia por se ser criminoso? Só? Que oportunidades é que aquela nação dá aos seus? Como são distribuídas essas oportunidades? Como se pode articular o desconforto em relação a isso? Pela sua idade, Mugabe teria começado a fazer política nos EUA no período de McArthur. Portanto, é bem provável que tivesse sido logo rotulado de comunista com todas as consequências que daí adviriam.
Obama conseguiu, portanto, vamos supor que um Mugabe negro também conseguisse. E depois? Vamos supor que uma vez chegado à Casa Branca ele decidisse distribuir melhor a riqueza do país. Vamos supor que ele quisesse que os negros americanos fossem compensados por tudo quanto tiveram de sofrer naquele país. O tratamento indigno como escravos; as humilhações que atingiram o seu auge na declaração de independência que proclamava a liberdade natural do homem no mesmo momento em que milhões eram mantidos em situação de escravatura; as violações, os maus tratos, a longa e dura caminhada pelo reconhecimento da sua humanidade, as vicissitudes sofridas às mãos do Ku Klux Klan, etc. Então, chegado à Casa Branca e com o intuito de corrigir esses erros do passado: haviam de o deixar fazer? Os amantes da democracia e do Estado do direito haviam de deixar? Não iriam usar o pretexto de alguns dos seus conselheiros se enriquecerem ilicitamente para chumbarem todo o projecto? Transformarem-no num diabo para que seja cada vez mais difícil falar com ele? E ele, como reagiria? Diria “muito bem, já que não querem, vou deixar”? Diria isso? Ou iria ser perseverante? Pior: não é provável que ele também se radicalizasse e passasse a ver todos quantos estivessem contra os seus métodos como inimigos da causa legítima? Eu acho que é e creio ser, em parte, o problema que temos no Zimbabwe. Aqui, como em várias outras coisas, o nosso sentido crítico espontâneo não tem ajudado muito.
E há um precedente histórico que gostaria de citar longamente para temperar o entusiasmo por Obama, mas sobretudo para mostrar a longa caminhada feita para que Obama fosse possível, isto é, para mostrar o que foi necessário fazer para que Obama pudesse fazer a campanha nos moldes como a fez. No dia 16 de Abril de 1963 Martin Luther King Jr., o grande activista dos direitos cívicos (reparem: direitos cívicos, não direitos de negros!), escreveu uma carta da prisão de Birmingham (no sul dos EUA) onde se encontrava detido por ter participado em manifestações pacíficas contra as leis de segregação nessa cidade. A carta era dirigida a clérigos judeus e cristãos que, por sua vez, haviam escrito uma carta aberta a condenar a “impaciência e inoportunidade” do movimento cívico e seus “métodos” de luta que atentavam contra a ordem pública. É uma excelente carta, um dos exemplos mais finos de retórica que existem por aí. Quem quiser a versão completa é só googlar: “Letter from a Birmingham prison”. A carta responde a esses clérigos e eu, em tradução livre, vou salientar apenas algumas passagens:

vocês lamentam as manifestações que estão agora a ter lugar em Birmingham. Contudo, na vossa declaração esqueceram-se de exprimir a mesma preocupação em relação às condições que conduziram a essas manifestações. Tenho a certeza de que nenhum de vocês ficaria contente com o tipo de análise social superficial que lida apenas com os efeitos e não se preocupa com as causas de fundo. É lamentável que haja manifestações em Birmingham, mas é ainda mais lamentável que a estrutura do poder branco da cidade tenha deixado a comunidade negra sem nenhuma outra alternativa...
Sabemos a partir da nossa experiência dolorosa que a liberdade nunca é dada voluntariamente pelo opressor; ela deve ser exigida pelo oprimido. Francamente, nunca estive envolvido em nenhuma campanha de acção directa que tivesse sido “oportuna” na perspectiva dos que sofreram injustamente a doença da segregação. Durante anos a fio tenho ouvido “espera!”. Soa com familiaridade cortante no ouvido de todo e qualquer negro. Este “espera” tem significado quase sempre “nunca”. Devemos concordar, com um dos nossos mais conceituados juristas, que ‘justiça que demora muito a chegar é justiçada recusada’.
Esperamos mais de 340 anos pelos nossos direitos divinos e constitucionais. As nações da Ásia e de África estão a caminhar com a velocidade de jacto rumo à conquista da independência política, mas nós rastejamos à velocidade de cavalo e carroça rumo ao direito de tomarmos uma chávena de café na cantina. Se calhar é fácil para quem nunca sentiu as setas pontiagudas da segregação dizer “espera”. Mas quem viu multidões viciosas a lincharem as suas mães e pais de qualquer maneira e a afogar as suas irmãs e seus irmãos por capricho; quem viu o polícia cheio de ódio a insultar, chutar e mesmo matar os seus irmãos negros e irmãs negras; quem vê a grande maioria dos seus vinte milhões de irmãos negros sucumbindo numa gaiola de pobreza hermeticamente fechada no meio de uma sociedade afluente; quem de repente se vê com a língua amarrada e com a fala entrecortada ao tentar explicar à sua filha de seis anos porque ela não pode ir ao parque público de entretenimentos que acaba de ser publicitado na televisão, e vê as lágrimas a subirem-lhe aos olhos quando alguém lhe diz que o parque de diversões está interdito a crianças de côr, e vê nuvens ameaçadoras de inferioridade a formarem-se no seu pequeno céu mental, e vê-a começar a distorcer a sua personalidade através do desenvolvimento de uma amargura inconsciente em relaçãos aos brancos; quem tem de inventar uma resposta para o seu filho de cinco anos que lhe pergunta: “pai, porque é que os brancos tratam assim tão mal as pessoas de côr?”; quem guia de carro pelo meio rural e se vê obrigado a dormir noite após noite em cantos desconfortáveis do carro só porque o motel não o aceita; quem é humilhado dia após dia por sinais persistentes que dizem “branco” e “de côr”; quem vê o seu primeiro nome ser transformando em “negro”, o nome do meio em “rapaz” (independentemente da idade) e o último se transforma em “John”, e a sua mulher e mãe nunca são tratadas com a forma de respeito “senhora”; quem é acossado de dia e atormentado à noite pelo facto de ser negro, vivendo constantemente na ponta dos dedos, nunca sabendo o que esperar no momento seguinte, e é assolado por receios internos e ressentimentos externos; quem está sempre a lutar contra um sentido degenerativo de “ser ninguém” – esse compreende porque nos é difícil esperar. Chega um momento em que o copo do sofrimento em silêncio transborda, e os homens não estão mais dispostos a se deixarem empurrar para o abismo do desespero. Espero, meus senhores, que compreendam a nossa impaciência legítima e inevitável. Vocês revelam uma boa dose de preocupação em relação à nossa vontade de violar leis. Esta preocupação é naturalmente legítima. Uma vez que nós também nos empenhamos em exigir que as pessoas obedeçam a decisão de 1954 do Tribunal Supremo que torna ilegal a segregação em escolas públicas, pode parecer, à primeira, algo paradoxal que nós conscientemente violemos leis. Pode-se com legitimidade perguntar: “como é que vocês podem advogar a violação de algumas leis e a obediência a outras?”. A resposta reside no facto de que há dois tipos de leis: justas e injustas. Eu seria o primeiro a advogar a obediência a leis justas. A responsabilidade de obedecer a leis justas não é só jurídica, mas também moral. Pelo contrário, existe uma responsabilidade moral de desobedecer leis injustas. Eu concordaria com o Santo Agostinho que “uma lei injusta não é praticamente nenhuma lei”.


Se Mugabe fosse americano negro teria crescido neste meio de desespero, ressentimentos no meio de tanta hipocrisia, um meio que Obama não deve ter conhecido porque, felizmente, ele pertence a um outro meio social, o meio social de sua mãe não só branca como de certeza de um certo nível de educação e com outra estrutura de oportunidades. O que torna Obama diferente de Jesse Jackson, Malcolm X e vários outros, estilo Al Sharpton da Fogueira de Vaidades de Tom Wolfe, é, também, capaz de ser isso. Um Mugabe americano seria muito provavelmente um Mugabe quase igual ao Mugabe real. O contexto muitas vezes faz a pessoa.
Isto não invalida as críticas legítimas que devemos fazer ao que anda mal entre nós; não torna ilegítimas as nossas preocupações pela democracia e respeito dos direitos humanos em África. Mas uma crítica feita constantemente sem referência à história real, ao contexto que fez as pessoas e aos grandes desequilíbrios que até hoje persistem é uma crítica pouco susceptível de nos levar adiante na nossa luta pela emancipação. 1963 foi há bem pouco tempo, historicamente falando. Quem pode ousar esquecer isto? Quem pode ter a coragem de dizer que isso é passado, não conta mais, agora não há mais desculpas? Nunca aplaudi Mugabe pelo que ele faz no seu país; já escrevi textos a condenar a sua política, as suas tentativas de tornar o marxismo ainda válido para a solução dos problemas do seu país e a sua mão dura contra a oposição. Nunca, contudo, vou diabolizar o tipo, pois na sua política errática e na sua maldade está o que a história fez de nós todos. Compreender não é concordar. Mas sempre esquecemos isso.
Se Obama fosse africano teríamos dado um passo muito grande nos nossos esforços de emancipação. Que ainda não existam condições para o surgimento de um Obama entre nós não significa que estejamos entregues aos maus. Os maus não existem. Existe apenas esta horrível história que teimamos em ignorar.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Para atiçar o lume

Sobre a côr de Obama
Aviso, desde já, que coloco esta postagem sem garantir que possa participar com regularidade no debate que ele vier a suscitar. Pareceu-me, contudo, oportuno fazê-lo para aproveitar a boleia da postagem anterior sobre a explicação.
Eis um problema bicudo. De que côr é Obama? Ou melhor, qual é a sua raça? Até aqui muita gente pensou que ele fosse preto. E dentro desse equívoco, muitos pretos e muitos brancos amigos de pretos festejaram a sua vitória. Houve também os que festejaram a vitória do democrata Obama, por sinal muitos, ainda que não me largue a suspeita de que alguns desses muitos só digam isso para não terem de admitir que a sua alegria vem do factor raça. Caiu-me, ontem, na caixa de correio electrónico – por via do Moçambique Online – uma mensagem com o seguinte teor:
Professor, Admiro o Homem, Obama, independentemente das suas origens e desejo-lhe os maiores sucessos. Porém, permita-me o preciosismo seguinte: NUMA ÓPTICA RACIAL: sendo OBAMA filho de pai negro (originário de Àfrica) e de mãe branca (ascendentes originários da Europa), GENÉTICAMENTE, é um AFRO-EUROPEU, ou EURO-AFRICANO. Afro-Americano só na perspectiva da NATURALIDADE dos progenitores, que é irrelevante, em termos raciais. Sabendo o PROFESSOR que, em regra, o Mulato é visto em África (e Moçambique não é excepção) com pouca simpatia, em alguns casos mesmo com desconfiança, por grande parte da população negra (quase como apátrida), como interpreta este repentino "ORGULHO AFRICANO" - com a chegada dum Mulato ao poder? Germana.

Segui o elo indicado e fui dar no blogue “Diário de um Sociólogo” do Professor Carlos Serra e lá encontrei uma discussão bem acesa sobre se os pretos moçambicanos deviam festejar a vitória do “primeiro” Presidente “mulato” dos Estados Unidos quando eles desprezam e oprimem os mulatos no seu próprio país. Sendo Obama filho de mãe branca e pai preto, ele não podia ser, em Moçambique, preto, mas sim mulato. Numa outra discussão, no mesmo blogue, o antropólogo português, Paulo Granjo, perguntava se era concebível a eleição de um mulato para um cargo importante na Frelimo ou na Renamo e dava a entender que a resposta era negativa. Esta última questão levantada pelo antropólogo é mais simples de abordar, pois parece evidente que os termos de comparação em si são problemáticos. Comparações só são úteis quando os critérios são relevantes. Nos Estados Unidos estamos perante uma situação em que “opressores” se abrem para o “oprimido”; em Moçambique estaríamos perante uma situação em que “oprimidos” se iriam abrir a gente, com ou sem razão, que é vista como fazendo parte dos “opressores”. Para além de reconhecer aqui o grande passo dado pelos americanos rumo à reconciliação racial não há muito que se possa aproveitar analiticamente para Moçambique. Há também a própria estrutura dos partidos políticos na América que é diferente de tudo quanto existe no mundo, sendo talvez mais próxima do que Museveni está a tentar fazer no Uganda. E mais. Obama ganhou porque arriscou. A única maneira de sabermos se um mulato iria ser eleito para alguma coisa em Moçambique seria de ele concorrer para vermos. Enquanto isso não acontecer, toda a discussão a esse respeito parece-me fútil, embora as razões que nos levam a supor que isso nunca venha a ser o caso mereçam reflexão.
Voltemos, então, à questão colocada pela mensagem. A resposta que alguns dão é de que somos todos mulatos. Não há preto, branco, amarelo, etc. Somos todos mulatos. Esta constatação, infelizmente, padece dos mesmos males da já conhecida história da professora que no espírito de combater o racismo declara que todos os alunos passam a ser verdes. Para fazerem distinções – já os filósofos gregos diziam que perante contradições, e a vida está cheia delas, devemos fazer distinções – as crianças tiveram que introduzir tonalidades: mais verde, menos verde, verde assim, verde assado... A questão constitui um desafio metodológico muito grande para a sociologia, pois remete para o problema da definição e para o problema da articulação de fenómenos sociais com a sociedade. Dizer que todos somos mulatos é a resposta política, e provavelmente sensata, de acabar com a discussão. Não é a forma sociologicamente satisfatória. Aprendemos, quando crianças, a vermos as pessoas como brancas, pretas e mulatas, mas na verdade somos todos mulatos. Não dá. Não somos, ou melhor, para os efeitos da nossa vida quotidiana – e isso é que conta na sociologia – não somos todos mulatos. Somos pretos, brancos e mulatos. Também dizer que no fundo não existem raças, existem apenas os significados sociais que são atribuídos a estas categorias não ajuda muito. É difícil ficar-se esclarecido com esse tipo de abordagem.
O mulato é uma categoria social bastante problemática em Moçambique. Há muitos preconceitos em relação a ela, muitos deles negativos. O mulato é, na imaginação popular, ladrão por natureza; a mulata é leviana por natureza. Sei do que estou a falar, pois para além de ter sido socializado nesse meio, ganhei sensibilidade para esse tipo de apreciação quando me juntei ao grupo dos que fazem filhos mulatos. Alguns amigos, sem se aperceberem, dizem-me no meio de uma conversa “já sabes como esses mulatos são...”, e lembram-se com quem estão a falar e ficam sem jeito. Portanto, a categoria “mulato” tem um sentido e conteúdo claro no dia a dia das pessoas; essa clareza confere-lhe objectividade e, nesse sentido, se quisermos abordar a questão de forma séria não devemos tentar mostrar que essa categoria não tem nenhum sentido, nem conteúdo, mas sim como ela é empregue no quotidiano das pessoas e ganha substância. Isso passa por, num primeiro momento, definir o próprio termo. O que é um mulato? Num segundo momento devemos, então, articular o conceito que ganharmos dessa definição com a sociedade que contextualiza e estabiliza o seu significado.
A definição é um tema bastante bicudo nas ciências sociais. Nos estudos de natureza quantitativa temos a tendência de privilegiar definições operacionais que nos permitem identificar as dimensões e indicadores de um conceito por via de uma operação como a entrevista. Um “mulato”, por exemplo, pode ser definido de acordo com a sua própria auto-avaliação. Para esse efeito só preciso de perguntar: Qual é a categoria racial que acha que o descreve melhor? Branco; Preto; Mulato. Mulato é aquele que diz que é mulato. Posso, também, definir o “mulato” como aquele indivíduo que é filho de pais de raças diferentes. Posso ir mais longe e identificar critérios materiais, religiosos, etc. Qualquer que seja o meu procedimento, contudo, não há nenhuma garantia de que com a minha definição toque na “essência” do conceito. Nem existe nenhuma obrigação para que o faça. Mas essa ausência de garantia é crucial para perceber os problemas que a definição apresenta ao empreendimento científico.
De uma forma geral, as definições científicas reclamam a capacidade de recuperar a “essência” de alguma coisa. O problema, do lado das ciências sociais, é que essa essência pode incluir elementos negativos ou positivos, o que faria com que a definição resvalasse para o campo da persuasão. Este é o problema apresentado pela definição de “mulato” em Moçambique. Para podermos abordar os problemas que esse termo apresenta teríamos de recuperar a definição convencional empregue e entendida por quase todos no país. Contudo, essa definição incluiria necessariamente elementos bastante pejorativos. Um “mulato” seria, portanto, alguém que não é visto nem como branco, nem como preto, tem, em virtude da cor da sua pele, um lugar especial no acesso e distribuição dos recursos de existência no país, e não inspira confiança nem aos que se consideram pretos, nem aos que se consideram brancos. A definição seria, como podemos ver, bastante grosseira, mas é exactamente nessa qualidade que ela nos permite apreciar devidamente a complexidade da análise do fenómeno, uma complexidade que mostra quão problemático é dizer simplesmente que não há raças ou que somos todos mulatos.
Uma forma de abordar os problemas metodológicos apresentados por esta categoria social é seguir o raciocínio do sociólogo alemão, Georg Simmel, na sua reflexão sobre aquilo que ele chamou de “tipos sociais”, por exemplo, o estrangeiro, o pobre, o renegado, etc. O que molda estes tipos sociais são é o conjunto de reacções e expectativas dos outros. O tipo torna-se o que é, por assim dizer, através das suas relações com os outros que lhe atribuem um lugar especial e esperam dele que se comporte de maneiras específicas. A ideia de Simmel, ideia com a qual estou de acordo, era de que essas características que são atribuídas ao tipo social são vistas como atributos da estrutura social. Assim, o que se pensa em Moçambique sobre o “mulato” é o que as pessoas pensam sobre a estrutura social do nosso país. Pensar o mulato seria reflectir sobre a maneira como os moçambicanos pensam a sua sociedade: desconfiança, desigualidade, injustiça. As pessoas não precisam de ter razão sobre isto. Mas é assim que pensam. Aliás, um bom trabalho sociológico teria também de identificar os sectores da nossa sociedade que olham para o assunto desta maneira, quando, e em que condições a sua apreciação varia.
Ainda não teríamos uma explicação para o fenómeno do “orgulho africano” levantado pela mensagem, mas para as explicações há outros colegas mais abalizados e afoitos. A mim interessa mais formular o problema. E um reparo muito importante que devemos fazer é de que a incoerência é prerrogativa daqueles que agem no dia a dia. Neste sentido, não há nada peculiar no “orgulho africano” tanto mais que a observação em si é anedótica demais (sabendo que o mulato em regra é visto com pouca simpatia...) para servir de base para uma explicação. E este reparo não contradiz o que escrevia há pouco sobre a definição do “mulato” no quotidiano moçambicano; mostra apenas o trabalho empírico que precisa de ser feito para, por exemplo, identificar os pretos que se rigozijam da vitória de Obama por este ser, na sua percepção, preto, e suas ideias em relação aos “mulatos” em Moçambique. Algo que a mensagem só pressupõe.

quinta-feira, novembro 06, 2008

A caixa de ferramentas do sociólogo

No dia 19 de Março de 2008 falei aos estudantes de ciências sociais no ISCTEM de Maputo. Infelizmente, falta-me tempo para blogar com regularidade. Vou participanto em algumas discussões, mas eu próprio não estou a tirar nada. Tenho visto em alguns blogues, sobretudo na esteira da vitória de Obama nas eleições presidenciais americanas, escritos de gente a reclamar ter vaticinado esta vitória. O assunto Obama nunca me interessou assim tanto e devo até reconhecer que se alguém me tivesse perguntado se ele iria ganhar ou não, é provável que eu tivesse dito não, ou que não sei. Contudo, acho estranha esta atitude de alguns de confundirem o que desejavam com um prognóstico do que iria acontecer. Este é um problema que abordei na palestra que proferi no ISCTEM. A razão imediata dessa palestra eram os acontecimentos de 5 de Fevereiro de 2008 na capital do país e que levaram alguns académicos e jornalistas a reclamarem para si o prognóstico correcto do que viria a acontecer.

Enquanto não regresso ao convívio regular na blogosfera, deixo o longo texto da minha palestra aqui como um convite à reflexão sobre o que significa pensar em ciências sociais e um desafio àqueles que pensam que o que acontece por aí e coincide com o que havíamos pensado é resultado do que pensamos.

O que as ciências sociais não sabem

O título é um bocado pomposo, apesar de simples. Na verdade, refiro-me ao que eu não sei, não ao que as ciências sociais não sabem. Não foi fácil chegar a um entendimento sobre que título dar a esta comunicação. A primeira sugestão foi de falar sobre os limites das ciências sociais, mas mesmo aí podem imaginar os problemas. Meus ou mesmo das ciências sociais?

Vou falar, na verdade, sobre a explicação e seu papel e função nas ciências sociais. Como sabem, a explicação mais simples que podemos ter para alguma coisa é dizer que ela não faz sentido. Melhor ainda, temos que saber o que queremos dizer com essa explicação: o que significa dizer que uma coisa não faz sentido? Aí está a diferença entre as ciências sociais e o “resto”. Nós vivemos numa sociedade que tem uma necessidade grande de explicar as coisas. Pensamos que o que existe tem que ter explicação. Pior ainda, imaginamos que um cientista social tem que ser capaz de explicar tudo e que fica mal ser convidado à televisão para ir dizer que não temos explicação para um determinado fenómeno.

Isto parece-me problemático e é por isso que gostaria de me debruçar sobre o assunto. Há tanta coisa que gostaríamos de saber. Eu, por exemplo, gostaria de saber o que aconteceria se toda a gente com autoclismo no mundo o puxasse no mesmíssimo momento. Acabava a água? Ouvia-se em todo o mundo? E que factor estaria por detrás desta ideia ou necessidade simultânea de fazer isso? Gostaria de explicar esse fenómeno, mas não sei como, por isso até nem me preocupo. A minha vida não perde qualidade por causa dessa impossibilidade. Pensem na nossa própria sociedade e na sua tendência de explicar tudo e imaginem o mal que fazemos a nós próprios. Na tradição cultural que melhor conheço, nomeadamente a do Sul do país, há um tipo de estórias infantis que procura satisfazer essa curiosidade. E fá-lo da forma mais pedagógica possível, ainda que problemática.

Estórias-porquê

Por exemplo, existem várias estórias que eu chamo de “estórias-porquê”. Porque é que há noite e dia? Porque é que as mulheres – bom, a maior parte! – não têm barba? Porque é que o gato e o rato não se dão? Deixem-me contar-vos esta última, pois é relevante para os meus propósitos de hoje. Dizem que em tempos que já lá vão o gato e o rato eram amigos inseparáveis. Faziam praticamente tudo juntos. Um dia, o rato convidou o gato a atravessarem o rio para a outra margem porque ele queria visitar uma amiga. O gato disse que não podia porque tinha medo da água. O rato insistiu e até chegou a questionar a amizade do gato. Aí o gato decidiu arriscar. Então, o rato fez uma canoa a partir de mandioca (fez um buraco para se sentarem) e os dois lançaram-se à água. Antes mesmo de chegarem ao meio do percurso, o rato disse ao gato que estava com fome e que por isso ia comer um bocado da própria embarcação. O gato, com medo das consequências, disse que não era boa ideia, mas o rato insistiu e disse que não haveria problemas. E assim fez. Já no meio o rato voltou a dizer que continuava com fome e que ficava mal ir ter com a namorada com o estômago a fazer barulho. O gato continuou a dizer que não era boa ideia. O rato não ligou; comeu até furar a embarcação. Começou a entrar água. Começaram a afundar-se. O rato, que sabe nadar, saltou e nadou para os braços (!) da sua querida. O gato bebeu uns bons goles, mas por sorte, pescadores que andavam ali perto salvaram-no. Desde esse dia o gato e o rato são inimigos. Ou melhor, nesse dia acabou a sua amizade. Quando o gato apanha o rato, como vocês já devem ter reparado, ataca-o, e põe-se a brincar com ele durante muito tempo. Na verdade, aquilo não é brincar, nós é que estamos a ver mal. O gato está a interrogar o rato, a perguntar-lhe porque fez aquilo...

E desta maneira ficamos com uma explicação coerente da hostilidade entre gato e rato. Mas é uma boa explicação? É uma explicação? Não é. É simplesmente a satisfação desta nossa tendência supersticiosa de explicar tudo porque tudo deve ter explicação confortante. Não sabemos viver com a incerteza ao contrário da ciência que pode fazer isso. A ciência sabe viver com a incerteza porque sabe distinguir uma má explicação de uma boa explicação. Lembram-se da célebre frase de Sócrates, o filósofo grego? Eu só sei que nada sei! Muita gente pensa que esta frase é uma manifestação de modéstia. Nao é. O que Sócrates está a dizer é que “saber que não sei” significa saber o que tem de saber para poder saber.

Isto é importante. Alguém dizia que uma boa parte de teorias é rejeitada não porque elas não se tenham confirmado em testes experimentais, mas porque contêm más explicações. Há diferença entre prever alguma coisa e explicar essa coisa. Portanto, para voltar ao gato e ao rato, a ideia de que a amizade traída explica a hostilidade permite-nos dar sentido ao comportamento empírico que observamos, mas não explica nada. Insisto nisto porque é muito característico da nossa esfera pública. Temos muitos analistas que estão constantemente a dizer “eu disse, não disse?” quando as coisas, por um acaso qualquer, são como eles, numa das suas inúmeras previsões, disseram que seriam. Aqui só vos digo: felizes são os que só precisam de acertar uma vez em 50 previsões; infelizes somos nós que nos enganamos uma vez em 100 e ficamos mal aos olhos do público!

Agradeço ao Dr. António Matabele pelo convite que me formulou para vir falar convosco. Agradeço ao Hélder Jauana, ao Filimone Meigos e, naturalmente, à direcção da universidade por este convite que me honra. Não há melhor lugar para falar sobre a nossa ignorância do que num centro de ensino onde o empreendedorismo é praticado. Suponho que seja forte a tentação de se verem como pessoas especiais só pelo simples facto de estarem neste lugar exclusivo. De onde vem essa especialidade? Será mesmo do facto de serem pessoas especiais? Duvido. Acho ser um dever de humildade reflectir sobre estas coisas como forma de contribuirmos para a melhoria da qualidade do debate na esfera pública. Venho falar convosco sobre esta temática para vos dizer uma coisa simples: o direito de sermos ouvido não é o mesmo que o direito que os outros nos tomem a sério. Pensem nisto, por favor. Não é pelo simples facto de sermos cientistas que havemos de falar a verdade. Não fica mal reconhecermos que não sabemos.

Vou tentar ser concreto nesta intervenção. Vou abordar convosco alguns tipos de explicação que aprendi da metodologia das ciências sociais. Vou articular esses tipos com a pergunta “porquê” para vos sugerir o que devemos saber antes de podermos dizer que temos uma “explicação”. O sentido de “porquê” varia e coloca-nos, nessa variação, desafios diferentes. Noto, no caso específico do dia 5 de Fevereiro, que existe pouca sensibilidade para essa variação, o que tem contribuído grandemente para uma certa perplexidade na abordagem desse fenómeno.

Os tipos de explicação que vou abordar são os seguintes: dedutiva, teológica ou funcionalista, genética e indutiva. Vou pegar como exemplo as manifestações do 5 de Fevereiro, mas, relaxem, que não vou tentar explicá-las!

Porquê, porquê, porquê, porquê?

Antes de entrar no assunto propriamente dito deixem-me fazer alguns reparos metodológicos. As explicações que temos ouvido e lido sobre o 5 de Fevereiro levantam problemas relacionados com duas coisas muito importantes, nomeadamente com os conceitos e com a metodologia. O conceito refere-se à descrição da realidade, isto é, à pergunta de saber o que aconteceu. Com ele damos visibilidade à realidade. O conceito, na verdade, é o nosso principal instrumento de trabalho. Quanto mais claro for, melhor apreenderemos a realidade. Ligada ao conceito está a questão da metodologia, naturalmente. Aqui a questão é de saber como sabemos que o que aconteceu realmente aconteceu. Reparem numa coisa muito curiosa: a designação que fazemos de um fenómeno já pode ser, em si, uma explicação. Que palavras foram usadas para descrever o 5 de Fevereiro? Manifestações, revolta, sismo, protesto, desordem, rebentamento da caldeira, ausência de outras formas de participação, etc. Porque é que digo que a designação em si já pode ser uma explicação? É porque se eu digo que o que aconteceu no dia 5 de Fevereiro foi um protesto estou, com efeito, a dizer que pessoas estavam a mostrar a sua oposição a alguma coisa de interesse público. Portanto, os conceitos que usamos não são inocentes e prestar atenção a isso é fundamental para a higiene do debate. Reparem que digo sempre “5 de Fevereiro” e não “manifestações” ou coisa parecida. É pelo medo de ser comprometido pelas palavras que uso!

Com estes reparos em mente podemos, então, passar para os tipos que referi brevemente há pouco. Chamo a vossa atenção para um pormenor que devem ter em mente enquanto falo. Quando explicamos – ou tentamos explicar – estamos basicamente a fazer um relato (descrição) do mundo. Tenho em mim que o relato não só descreve como também estrutura o mundo. O nosso relato procura dar coerência ao mundo e fá-lo estruturando-o segundo as nossas próprias categorias. O que vemos é muitas vezes o que podemos ver, não necessariamente o que é.

dedutivo

O primeiro tipo de explicação é o dedutivo. Isto vem da lógica, cujo exemplo mais simples é o “modus ponens” que todos nós conhecemos. Temos uma conclusão que se apoia necessariamente nas premissas. As premissas não podem estar certas e a conclusão errada. Assim, só para refrescar a memória, podíamos dizer que todos os estudantes e docentes do ISCTEM são inteligentes. Isso é uma premissa. A segunda precisa podia ser que o José é estudante do ISCTEM. A conclusão deve ser, por isso, que o José é inteligente. Nesta ordem de ideias, há um modo de explicação que assenta neste procedimento e que consiste em clarificar conceitos e juntar factos que estão em linha com esses conceitos.

Se eu definisse o conceito “manifestação” da seguinte maneira: é um protesto popular contra alguma coisa, de preferência, contra o governo, o significado que a pergunta “porque houve manifestações no dia 5 de Fevereiro?” não seria de querer saber o que levou as pessoas a se manifestarem. A pergunta quer saber o que nos leva a dizermos que o que aconteceu nesse dia foram manifestações. Portanto, ao responder a esta pergunta estou a proporcionar razões que justificam o emprego do conceito “manifestação”. Quais são as suas propriedades? Que verdades necessárias estão aí encerradas e sem as quais não faria sentido utilisar o conceito “manifestação”? E isso obriga-me a fazer mais coisas. Obriga-me, por exemplo, a ir para além da constatação segundo a qual pessoas teriam descido à rua e dizer porque essas pessoas, que pessoas, porque essas pessoas são representativas da vontade popular, etc.

Uma pergunta dedutiva só nos proporciona uma explicação quando somos capazes de dizer porque é legítimo utilisar determinado conceito, porque o conjunto de fenómenos que associamos a esse conceito revelam a existência empírica desse fenómeno e, acima de tudo, que condições objectivas devem existir na nossa sociedade para que esses fenómenos sejam possíveis. Posto isto, só posso perguntar se vocês se dariam por satisfeitos com algumas das “explicações” que andam por aí.

funcionalista

O tipo de explicação funcionalista já é algo diferente. Aqui não é o conceito em si que interessa, mas sim como nós enquadramos certos fenómenos numa determinada visão das coisas que temos. Cada um de nós opera com visões do mundo. É assim que vemos o mundo. Vamos lá, para algumas pessoas Moçambique é um país de injustiça social. Quando alguém pergunta “porque houve manifestações no dia 5 de Fevereiro?” a pergunta é entendida como um desafio para enquadrar esse acontecimento nessa visão do mundo. Responder à pergunta significa, portanto, fazer esse enquadramento. Muitos fizeram isso, na verdade. Disseram que como nós vivemos num país com um governo indiferente e injusto as manifestações foram um acontecimento que revelava o fim da paciência do povo, ou coisa parecida.

Essas pessoas não estavam a explicar o 5 de Fevereiro. Estavam a descrever a sua visão do mundo. Independentemente de toda a coerência que o acontecimento possa ter com a sua visão do mundo, as pessoas podem ter feito o que fizeram naquele dia movidos por outras razões. Por exemplo, aproveitar-se da situação; criar confusão; etc. A este propósito, acho interessante o que Mia Couto é citado como tendo dito. Ele disse que as manifestações só terão falhado se não houver mudanças. Vemos aqui um exemplo claro de uma abordagem do assunto que tenta conciliar o acontecido com uma certa visão do mundo. E, por favor, não quero com isto dizer que as pessoas estariam enganadas ou que não seria legítimo fazer isto. Estou apenas a dizer que temos que estar cientes do que está a acontecer nesse momento de “explicação”.

Devemos, por exemplo, perguntar a quem nos proporciona este tipo de explicação que ideia de sociedade ele tem e como é que ele enquadra o que aconteceu nessa ideia de sociedade. Devemos perguntar o que ele diz sobre as motivações e razões das pessoas que se manifestaram e, naturalmente, é imperioso sabermos que ideia é que a pessoa que nos explica tem do objectivo das manifestações. Como podem ver, neste caso também não é fácil dizermos que temos uma explicação.

genético

Faltam ainda dois tipos. Há o tipo genético que me parece um dos mais simples. A ideia aqui é de mostrar que um determinado acontecimento faz parte de uma longa cadeia de coisas geneticamente ligadas. Alguns dos nossos analistas avançaram, por exemplo, com a ideia de que estava a rebentar a caldeira, isto é houve um progressivo deterioramento das condições de vida que teria conduzido ao 5 de Fevereiro. Mais uma vez enfatizo para o vosso benefício que o desafio não é de dizer que quem diz isso não está bem de cabeça. É bem possível que esteja. O desafio, em minha opinião, consiste em interpelar criticamente essa pessoa chamando a sua atenção, por exemplo, ao facto de que no dia 5 de Fevereiro houve duas coisas, no mínimo. Houve manifestação e houve manifestação violenta. O deterioramento das condições de vida pode explicar a manifestação. Mas o que explica a violência dessa manifestação? Tenho reparado que ninguém, tanto quanto sei, tem levantado esse problema.

Portanto, perante uma explicação de tipo genético devemos perguntar como é que se pensa que se chegou a este ponto, porque a coisa assumiu o carácter que assumiu, porque a coisa aconteceu onde aconteceu, quando aconteceu, como aconteceu e nos moldes em que aconteceu. É muita coisa que é preciso tomar em consideração e vocês vão compreender, tal como eu compreendo, que alguns dos nossos analistas – na pressa de emitir opinião na televisão e em blogues na internet – não têm tempo de reflectir.

indutivo

Finalmente, vou falar-vos do tipo indutivo. Aqui, como o próprio nome diz, estamos no reino da especulação. Trata-se de especulação informada, todavia. Não sabemos ao certo, mas achamos que uma coisa se explica assim. Quando perguntamos “porque houve manifestações no dia 5 de Fevereiro?” estamos, na realidade, a perguntar que factores se combinam para produzir esta situação bastante específica. Isto é, estamos interessados em regularidades estatísticas que nos mostram que quando certas circunstâncias se conjugam algo de uma determinada natureza acontece. Ora, da história sabemos que distúrbios populares são coisa normalíssima. Há um grande historiador britânico, E.P. Thompson, que ficou famoso pelos seus trabalhos sobre as revoltas do pão na Inglaterra do século XVII. Ele mostrou que essas revoltas estavam ligadas à negociação dos termos em que o sistema capitalista devia funcionar. E notou uma coisa muito interessante para a discussão que fazemos do 5 de Fevereiro no nosso país e que pode deitar por terra algumas das explicações que andam por aí. Ele mostrou, de facto, que os que protestam não são os que não têm nada. Os que protestam são sempre os que têm alguma coisa a perder!

Portanto, quando alguém aparece a dizer que os pobres de Maputo finalmente se ergueram, pode não estar a perceber as coisas lá muito bem. Como é que associamos a subida do preço do pão, combustível, chapas, governo indiferente e precariedade – estas são as circunstâncias que podemos ler por aí – ao que aconteceu nesse dia? Porque consideramos estas circunstâncias relevantes para a explicação do 5 de Fevereiro? Só depois de esclarecermos isto é que podemos ter a certeza de que temos uma explicação indutiva do fenómeno. É nesta base que devemos interpelar quem tenta nos proporcionar uma explicação.

Aqui estão, então, os quatro tipos. Permitam-me, posto isto, passar para as minhas conclusões.

Conclusão

Tentei mostrar-vos aqui que não é fácil explicar seja o que for. Por causa disso mesmo, não fica mal não ter uma explicação. É muito trabalho e quem tem sensibilidade para isso vai ser mais comedido. O que nos distingue a nós como académicos e intelectuais é justamente a modéstia nos nossos pronunciamentos públicos. O que motiva o génio, alguém disse isto uma vez, e o inspira no seu trabalho, não são as novas ideias. É, sim, a sua obsessão com a ideia de que o que já foi dito ainda não é suficiente. Gostaria de incutir esta postura aos que se iniciam na ciência, sobretudo nas ciências sociais. É possível viver com a incerteza; basta ganharmos a convicção de que um dia teremos explicações muito simples para as coisas que nos preocupam.

Sei que não estamos numa faculdade de teologia, mas acho útil recorrer a Tomás de Aquino. Ele disse, e tomem nota por favor, que para aquele que tem fé não é necessária nenhuma explicação, enquanto que para o que não tem fé não é possível nenhuma explicação. Parece-me uma visão radical das coisas. Precisamos de encontrar um meio-termo. O meio-termo é a curiosidade, por um lado, mas também, a aversão e hostilidade, por outro lado, às fórmulas simples, por muito plausíveis que nos pareçam.

Se calhar, os nossos avós chegaram à conclusão de que o acidente no rio estava na origem da inimizade entre o gato e o rato por terem visto o gato a “brincar” com o rato depois de o ter morto. Se calhar, quem pode saber isso? Se calhar não era preciso forçar assim tanto a imaginação. Se calhar o gato gosta da carne do rato porque o rato é o único animal de porte considerável ao seu alcance. Se calhar o gato “brinca” com o rato não tanto porque quer saber porque é que o rato roeu a canoa, mas sim porque a temperatura do rato morto precisa de baixar para não criar problemas digestivos ao gato...

Muito obrigado pela vossa atenção!