Raptos
Caiu na minha caixa de correio, através do Moçaçambique online, a “notícia” que reproduzo mais abaixo. É assinada por Ivone Soares, ao que parece responsável pela informação no partido Renamo. Acho a notícia estranha. Não faz absolutamente nenhum sentido e como é veiculada por alguém que representa um partido político, seria de esperar que essa pessoa tivesse a mínima preocupação de dizer como a notícia deve ser lida e entendida. O único que consigo entender é uma crítica indirecta – mas ao que tudo indica, legítima – do aparente desleixo do comandante da polícia. Leiam o texto e depois digo-vos porque acho isto um atentado ao nosso direito à razão:
No dia 23/01/2008 foi raptado, por desconhecidos, em Mocímboa da Praia o cidadão Momade Hamade que fora conduzido para um acampamento onde se encontravam cerca de vinte pessoas de ambos sexos que se encontravam igualmente na condição de raptadas. Dentre os malfeitores seis eram brancos e dois negros falantes de português, mas com sotaque xangane segundo reporta o Sr Hamade que escapuliu-se alegando pretender ir a casa de banho. Este aproveitou-se da distracção dos guardas que se comunicavam mimicamente. Hamade solicitou despedir-se dos seus familiares via celular para segundo disse"dar a última palavra de vida" e foi emprestado um rádio comunicador tendo conseguido falar cerca de um minuto com um seu tio. Um dos guardas havia deixado escapar que chegaria naquela noite um avião que os evacuaria para lugar incerto. Na altura em que Hamade pede para ir a casa de banho aproveitara para escapulir-se diante a distracção dos guardas. Este empreendeu uma fuga pela mata adentro tendo chegado a Mocímboa apresentou-se ao Comandante da polícia local e relatou o que lhe sucedera. Contudo, o Comandante limitou-se em dar seu próprio contacto apelando que Hamade lhe contactasse caso visse a viatura dos seus raptores. No dia 27/01/2008, chegaram a Mocímboa Parlamentares da RENAMO, os Deputados Quivela e Alicora e tendo acompanhado aquele episódio que poderia ter sido fatídico solicitaram que Hamade os contasse na primeira pessoa o que sucedera e estedescreveu as circunstância em que teriam acontecido os factos. Levaram-o a Pemba e no dia 29/01/2008, portanto, hoje, fizeram àS 11horas uma conferência de imprensa para denunciar o caso que havia sido ignorado pelo Comandante de Mocímboa (Ivone Soares).
O caso em si é demasiado insólito. Em que circunstâncias foi “raptada” esta pessoa? Parece-me importante para percebermos as ilações indirectas que a notícia tira, sobretudo no que diz respeito à estranha perspectiva de o pobre Momade Hamade ser morto pelos “malfeitores”. Já agora, os tais “malfeitores” deram-lhe a entender que o iam matar? Porque é que ele teve necessidade de “dar a última palavra de vida” aos familiares? E porque é que os “malfeitores” não viram nenhum problema nisso? Não poderia ele dar aos familiares indicações de onde estava? Os “malfeitores” não receavam nada? E as “cerca de vinte pessoas de ambos sexos” aparentemente raptadas pelos “malfeitores”, porque é que ainda não tinham sido mortas? Estavam à espera de também “dar a última palavra de vida” aos respectivos familiares? Ou os “malfeitores” ainda não tinham tido a oportunidade de “comunicar mimicamente”? Estranha notícia esta!
E continua. O tal Momade Hamade – quem é? Um político? Um homem de negócios? Um funcionário público? Isto é, há alguma lógica por detrás deste rapto que nos permita dar maior coerência à história? Enfim,... – o Sr. Hamade, portanto, conseguiu notar que havia dois negros falantes de português, mas com sotaque xangane no seio do grupo dos “malfeitores”. Achei esta observação interessante, sobretudo numa altura em que algumas pessoas na blogosfera dão destaque renovado às questões regionais no país. Em Xai-Xai, minha cidade natal (peço desculpas por isso), nunca ouvi ninguém a dizer um negro falante de português com sotaque macua. Dizemos um negro falante de português com sotaque do norte. Acho que dizemos isto por não sabermos como distinguir sotaque maconde do macua, ajaua e por aí fora. O Sr. Hamade, contudo, conseguiu perceber que os dois negros falantes de português tinham sotaque xangane. É como se diz lá no norte? Sotaque xangane e não sotaque do sul? Apenas uma curiosidade. Uma curiosidade que uma vez por ter sido suscitada por um texto da autoria de alguém metido nas lides políticas levanta a questão da responsabilidade na abordagem de assuntos públicos. O que se pretendia dar a entender com esta observação do Sr. Hamade? Que os “xangane” andam a raptar moçambicanos no norte do país? E como, na percepção de algumas pessoas, “xangane” é coisa da Frelimo e “norte” é coisa da Renamo, que a Frelimo anda a raptar gente da Renamo?
Porque é que o Sr. Hamade foi à polícia? Acho esta decisão estranha tendo em conta o clima de desconfiança que enforma a notícia. Eu, no lugar do Sr. Hamade, não teria ido à polícia. Nem teria regressado à Mocímboa. Alguém percebe esta notícia melhor do que eu? Alguém me pode dizer como é que alguém pode tornar público um texto tão incoerente, incompleto e implausível? Reparem que não estou a pôr em causa a possibilidade de o rapto ter acontecido. Estou a pôr em causa o texto que veicula essa informação. Informação? Parece-me um atentado ao nosso direito à razão.