sexta-feira, agosto 31, 2007

Não tem sistema

Ausência

Estive ausente durante muito tempo. Mais de um mês. Estranhamente, o país não deixou de funcionar por causa disso. Os acontecimentos não ficaram à minha espera com medo de não serem comentados. Foram acontecendo. A fala sem consequências. Por exemplo, o edil da Beira, Deviz Simango, perdeu um pouco do apreço que eu tinha pelo que dele se diz com uma resposta a despropósito a encerrar uma entrevista na edição de agosto da revista POSITIVA. Perguntaram-lhe que tipo de relacionamento tinha com a administradora da Beira e ele respondeu: não a conheço. Ponto final. Estranho. Bastante estranho. É assim que queremos mesmo construir uma democracia estável? Mesmo que ele esteja farto dos outros, o respeito pelas pessoas que o elegeram não o devia obrigar a conhecer as pessoas que, pela lei, partilham a responsabilidade pela gestão da Beira?

Mas como dizia, as coisas foram acontecendo. O direito à razão. O Comandante Geral da Polícia finalmente falou. Concedeu uma entrevista ao jornal Notícias em que parecia estar a revelar porque ficara calado todo este tempo: por não fazer a mínima ideia do problema que tem em mãos. Pelo menos a julgar pelas respostas ao jornalista. Vejam a entrevista aqui. Não deu nenhuma resposta substancial às perguntas que lhe foram colocadas. Limitou-se apenas a apelar à fé dos moçambicanos. Tenham fé que havemos de combater o crime. E desfiou teorias obscuras sobre a origem do crime. Mesmo assim, está de parabéns por ter falado. O que faz falta ao nosso país é isto mesmo: gente que fala, sobretudo, governantes com coragem para dizer porque imaginam que os problemas são como eles são. A esfera pública fica a ganhar. Nem que seja pelo facto de ficarmos a saber que deles não podemos esperar muito.

O fenómeno da bicha. Moçambique tem novo Procurador-Geral da República. Ninguém, com a honrosa excepção do Presidente da República (e do ex-PGR, esperemos), sabe porque foi exonerado. Ver este e este comentário. Não pode ter sido por incompetência porque disso já tinha dado fortes indicações aquando da explosão do paiol e do último informe ao parlamento. Incompetente seria não ser capaz de ver que aquilo eram provas de incompetência. O fenómeno da bicha: onde está o problema? Nos outros ou em nós?

Entretanto, as coisas foram acontecendo, na verdade, muito mais do que aqui referi. Os acontecimentos não entraram em greve por eu estar ausente. Não ficaram renitentes, nem foram possuídos pelo espírito do deixa-andar e mandaram às urtigas os jornalistas que precisam sempre de informação. Foram acontecendo com aquela perversidade regular com que visitam o nosso país. É a caixa de ferramentas do sociólogo. Os acontecimentos aconteceram porque nenhum de nós é seu proprietário. Nem mesmo nós os sociólogos, por mais que acreditemos firmemente na ideia de que os nossos conceitos, os nossos quadros analíticos e os nossos métodos sejam anteriores à realidade. Ninguém ainda foi dizer à realidade que ela depende dos nossos instrumentos para ser o que ela é. E como ela não sabe isso, vai acontecendo. Que pena. Mas que pena! Imaginem só que a sociedade fosse tal e qual os nossos conceitos. Imaginem! Imaginem a força que a sociologia teria. Era só dizer “o desemprego causa criminalidade” para a sociedade ficar a saber o que deve fazer e FAZÊ-LO!

É evidente que não escrevo isto apenas para lamentar a minha impotência, nem me vingar dos acontecimentos por me ignorarem. Escrevo isto para chamar a vossa atenção para as origens da sociologia. O reconhecimento de impotência está na origem da sociologia. Estou a forçar a metáfora um bocado, mas dá. Um dos grandes percursores da sociologia foi o francês Saint Simon que escandalizou a França inteira, sobretudo a nobreza, com a seguinte pergunta: o que aconteceria à França se de um dia para o outro toda a nobreza e todos os governantes morressem? Imaginem a pergunta! De um dia para o outro, o país fica sem governo e sem a sua fina flôr, o que aconteceria? Na verdade, o escândalo não foi a pergunta. O escândalo foi a resposta. Saint Simon respondeu: nada. Nadinha. Seria pior, e impensável, se de um dia para o outro o país perdesse os seus operários, agricultores, comerciantes, etc. Aí sim, haveria problemas. O país ficava, para usar linguagem tecnológica moçambicana, “sem sistema”.

Essa pergunta deu o pontapé de saída para o edifício conceitual que a sociologia tem vindo a construir desde esses tempos. Há muita sociologia por aí que não se entende sem essa pergunta. Mesmo Marx e Engels. Em certa medida, Marx e Engels não queriam construir o socialismo. Nisso só acreditaram os ideólogos mal formados da Frelimo. Marx e Engels queriam acabar com a burocracia, isto é com o Estado. O Capital e todos aqueles títulos que aprendemos nas aulas de educação política eram uma resposta à pergunta de Saint Simon: o que aconteceria se essa classe parasita desaparecesse? Mesmo Weber não faz mais nada senão isso, isto é procurar uma resposta para essa pergunta.

O nosso país dará um passo gigantesco em frente quando para além de mim – sim, é arrogância – alguém mais, sobretudo os governantes, reconhecerem que a realidade não depende muito de si. Não é niilismo, nem coisa parecida, pois os homens, na verdade, é que fazem o mundo. Mas nem todos. Muito menos aqueles que repetem isso religiosamente. Da mesma maneira que os acontecimentos não vão ficar à minha espera, o desenvolvimento e o bem-estar de Moçambique e moçambicanos não dependem de quem se arroga esse direito. Quem se arroga esse direito só pode estragar as coisas. O desenvolvimento do país e o bem estar dos moçambicanos dependem do espaço que estes últimos têm para resolverem os seus problemas. Um exemplo muito interessante do que estou a reflectir aqui é o trâfego em Maputo. Horrível, mas estranhamente funcional. Se os motoristas respeitassem as regras de trânsito na cidade, tudo parava. As regras de trânsito são apenas um quadro de orientação que permite às pessoas agirem, negociando espaços, logrando o possível, fazendo a vida. Tenho a certeza de que há mais acidentes fora da cidade – onde há menos trâfego – do que dentro dela. É um caso para reflectir.

É um desafio que a filosofia política nos lança. Aliás, são os acontecimentos. Então, cá estou de novo para me inspirar nos acontecimentos.

terça-feira, agosto 21, 2007

Inquéritos

E cá estamos nós em mais uma análise de inquérito. Reproduzo-o aqui, extraído do jornal o País Online, para chamar a vossa atenção para a formulação da pergunta e para as opções de resposta. Leiam-no:

Inquérito

Acha que as eleições provinciais irão decorrer dentro da normalidade sem intervenção dos doadores?

Sim

Não

Provavelmente

O que quer saber a pergunta? Se as eleições vão ter um decurso normal se os doadores não intervirem ou se as eleições vão ter um decurso normal sem que os doadores intervenham? E que tipo de intervenção? Como observadores? Dando dinheiro para a realização? Apoiando alguns partidos? O que é que o inquérito pretende saber?

Quanto às opções de resposta: não devia ser “não sei” no lugar de “provavelmente”? Provavelmente sim ou provavelmente não?

segunda-feira, agosto 20, 2007

A caixa de ferramentas do sociólogo

Esta é a última postagem sobre este assunto. Lamentavelmente, talvez por causa da forma errática como fui fazendo as postagens, houve pouco - ou nenhum - diálogo. Nem mesmo de quem me interpelou a este respeito... devem estar a tomar notas! Bom proveito.


Consultorias (f) – relatório final.

Muitos de nós, infelizmente, escrevemos mal. Muito mal. Não tenho nenhuma vergonha em dizer isto porque é um problema real. Tenho usado todas as oportunidades que tenho para chamar a atenção de todos os estudantes de sociologia que cruzam comigo para este problema. Há trabalhos escritos por estudantes de sociologia cuja qualidade linguística é arrepiante. Agora, é verdade que em Moçambique há muitos problemas; o ensino primário e secundário é deficiente. Os professores não são sempre os melhores; não há materiais; não há livros para as pessoas se acostumarem à palavra escrita; enfim, vivemos num contexto multi-lingue que nem sempre constitui uma vantagem. Toda a gente sabe isso e compreende também as dificuldades. Só que trabalho de qualidade é trabalho de qualidade. Quem quer realmente fazer trabalho de qualidade tem que se preocupar em superar as suas próprias lacunas. Desculpas não nos levam longe.

Por muito bem feita que for uma consultoria, se a pessoa que a fez não for capaz de produzir um relatório final legível, estamos mal. Corre o risco de deitar por água abaixo todos os ganhos feitos. O relatório final é a cereja no bolo e ao mesmo tempo uma espécie de recomendação. É a cereja porque é o lugar onde o consultor mostra tudo quanto fez. É a coroação, por assim dizer. É também uma recomendação porque é com base na plausibilidade e legibilidade do relatório que os que encomendam consultorias se sentem encorajados a voltar a depositar confiança no consultor. O relatório final é, talvez, o elemento mais crucial de toda uma consultoria.

Escusado é dizer que a pontualidade na redação e entrega deste documento constitui trunfo. Os maus hábitos da faculdade não servem: os computadores estavam ocupados; tive malária; faleceu o tio mais novo da irmã mais velha do padrinho de casamento do meu colega de serviço, etc. Isso não vai impressionar ninguém. Antes pelo contrário, só vai predispor negativamente em relação à toda a profissão de sociólogos. Isto não quer dizer que imprevistos não surjam. Infelizmente, a vida contém dessas coisas. Mas quando é assim, a obrigação do consultor é de entrar em contacto com os seus patrões e explicar a nova situação e propor novas datas realísticas. Ficar silencioso como muitos fazem com os seus trabalhos de fim de curso não ajuda, com a agravante de que se corre o risco de se não ser pago por violação do disposto no contracto.

Passemos para o menos importante. O que deve conter um relatório final? O relatório final deve conter uma exposição clara e concisa do trabalho que foi feito bem como a resposta à pergunta colocada nos termos de referência. O consultor deve indicar que informação achou necessário recolher, porquê e como o fez. Inevitávelmente, terá havido dificuldades e imprevistos na realização desse trabalho. Isso tem que ser integrado no relatório. Aqui também é preciso ter a coragem de abandonar os maus hábitos da faculdade. Não é aconselhável dizer apenas que não foi possível falar com toda a gente com a qual teria sido necessário falar; não é bom dizer apenas que algumas bibliotecas estavam fechadas; não é útil dizer que não foi possível ir ao distrito de Mopeia porque as chuvas bloquearam os acessos. Isso na faculdade ainda funciona, mas num relatório final é a receita certa para nunca mais ser convidado a fazer seja o que for. É preciso apresentar dificuldades de forma inteligente. Como é que foi contornado o problema? Como se fez para se compensar a falta da informação que devia ter sido obtida pela via falhada? Qual é o grau de fiabilidade da informação obtida por outros meios? Se o consultor tem a consciência de que as alternativas não foram tão boas, tem que o dizer. O importante quando produzimos conhecimento não é sempre reproduzir a “verdade”, mas sim a transparência do processo de obtenção da informação. É sempre mais aconselhável dizer às pessoas honestamente o que vale a informação que lhes está a ser facultada, do que ficar silencioso à espera de que ninguém note. Isso é desonesto. E faz mal à sociologia.

O consultor deve reflectir sobre o processo de recolha de material e apresentar isso aos que encomendaram o trabalho como uma lição aprendida. As instituições querem sempre aprender. Quando encomendam consultorias estão, no fundo, a participar, ainda que indirectamente, no processo de criação de um espaço público de discussão e debate de ideias. Reflectir sobre a produção do conhecimento é uma contribuição muito importante nesse sentido. Sociologia não é superstição nem magia. Em relação a isso já Carlos Serra lançou um alerta no seu decálogo. Quem ainda não leu esse documento, por favor, que o faça. É importante!

O relatório final deve conter também as conclusões a que o estudo chegou. É aqui onde o consultor responde à pergunta colocada nos termos de referência. O estudo foi encomendado pela Renamo e queria conhecer o impacto da iniciativa presidencial sobre o HIV no seio da camada juvenil? Muito bem, qual foi o impacto? Positivo, negativo ou nem uma nem outra coisa? A consultoria difere, neste aspecto, fundamentalmente de um mero trabalho académico. Enquanto que o trabalho académico continua perfeitamente legítimo, mesmo se conclui que a sua suposição inicial não se confirma, a consultoria produz resultados positivos. Positivos, isto é, no sentido de responder afirmativamente à questão central do estudo. A consultoria não é um tactear no escuro. É trabalho de alguém abalizado que sabe que pergunta colocar para poder ter a resposta certa.

Depois vêm as famosas recomendações. É aqui onde elas têm lugar, nunca num trabalho de tese como muitos ainda insistem em fazê-lo. Com base no constatado que cursos de acção é que o consultor aconselha? O que o patrão deve fazer? Aqui como em tudo o resto que o sociólogo faz, é preciso ter abertura de espírito suficiente para reconhecer várias saídas para um problema. O desafio consiste, depois, em indicar os argumentos a favor e contra cada um dos cursos de acção. Para que é que a Renamo queria saber isso? Para reagir? Muito bem, o que o nosso consultor sugere? O impacto foi positivo? Pois bem, o que a Renamo deve fazer? Pagar jornalistas para comentarem negativamente a iniciativa? Realizar uma iniciativa idêntica por parte do líder da Renamo? Apresentar uma política própria de combate ao HIV? Que fazer?

Não resisto à tentação de deixar uma “dica” extremamente importante: o consultor deve procurar, na medida do possível, “empacotar” as recomendações de maneira a deixar em aberto a continuação do seu trabalho. Cada qual tem que ganhar o seu pão...

domingo, agosto 12, 2007

A caixa de ferramentas do sociólogo

Mais uma postagem:

Consultorias (e) – termos de referência.

Não há negócio que se faça sem uma definição clara dos deveres e obrigações de cada parte. Com as consultorias é a mesma coisa. Como a própria expressão diz, os “termos de referência” são as linhas de orientação que cada parte usa para se situar em relação ao trabalho que deve ser feito. São muito importantes. Do ponto de vista jurídico, os termos de referência servem de base para o esclarecimento de eventuais conflitos. É com referência (!) ao que eles trazem disposto que quem encomenda e quem recebe uma consultoria podem discutir o cumprimento ou não do que foi acordado. Nesta reflexão, contudo, interessa-me um outro aspecto, nomeadamente a oportunidade que os termos de referência oferecem ao sociólogo para definir aquilo que ele é capaz de fazer bem.

Por mais importante e desejável que seja, uma consultoria não pode fazer tudo. Se, por exemplo, o Ministério da Agricultura gostaria de encomendar um estudo para analisar os factores sociais e culturais que, por ventura, condicionam a atitude dos moçambicanos em relação à abolição de barreiras proteccionistas no mundo, não seria sensato partir do princípio de que a consultoria fosse capaz de esgotar este tema. Ao aceitar uma consultoria, o sociólogo deve estar ciente do que é capaz de fazer, dos meios que estarão ao seu dispôr, das condições de trabalho e do estádio de conhecimento actual sobre a temática. Quem promete coisas que não é capaz de cumprir, compromete as suas próprias possibilidades de voltar a ser convidado a fazer uma consultoria como também mancha o nome de todos quantos trazem a mesma designação profissional. O sociólogo tem que ser comedido e pensar nos seus colegas.

A negociação dos termos de referência é o momento durante o qual o sociólogo tem a oportunidade de vincar o seu próprio perfil académico ao partir de uma problemática clara e bem formulada. Já vi por aí consultorias tão vastas e gerais, cuja seriedade me suscita imensas dúvidas. Normalmente, o concurso para uma consultoria tem a tendência de ser vasto e geral. Compete ao sociólogo que concorre circunscrever o tema com base nas considerações acima indicadas. Por exemplo, ao concorrer para um concurso como o sugerido mais acima sobre os factores sociais e culturais que condicionam a atitude dos moçambicanos em relação à abolição de barreiras proteccionistas o sociólogo tem que encetar vários passos. O primeiro passo consiste em formular o problema. Qual é a atitude geral dos moçambicanos face às barreiras proteccionistas? Negativa ou positiva? Será que essa atitude é influenciada por ideias que as pessoas têm do papel do Estado na economia? Donde vêm essas ideias? Vêm dum sentido profundo de legitimidade do poder político? Será que os factores sociais e culturais de que se está a falar estão de alguma forma ligados a noções de legitimidade?

O segundo passo consiste em definir uma unidade de análise e justificá-la. Faz sentido fazer o estudo à escala nacional? Será que uma região circunscrita como a Zambézia se adequa ao estudo uma vez que a agricultura é muito importante e o problema da legitimidade do Estado se coloca com muita premência lá? Em que condições é que os resultados que se obtiverem deste estudo serão aplicáveis ao resto do país e vão permitir ao Ministério da Agricultura encontrar respostas à sua inquietação? Será necessário fazer um estudo de controlo num outro sítio? O terceiro passo é mais mecânico. Que instrumentos de pesquisa vão ser utilizados? Como será feita a análise? Quanto tempo é necessário? Quais são os meios materiais e humanos necessários à realização deste trabalho? Que imprevistos é possível imaginar e que ideias podem ser propostas para os contornar?

Espero que estejam a notar aqui um aspecto de extrema importância: um concurso público para consultoria é uma espécie de trabalho de casa que uma instituição está a marcar. Os termos de referência são, de uma forma geral, a nossa resposta a esse trabalho de casa. É como quando se diz na faculdade que os estudantes devem começar a preparar os seus trabalhos de fim do curso. Já uma vez propuz temas que me interessavam pessoalmente e que teria gosto em supervisar. Alguns estudantes responderam positivamente a isso indo ler sobre o assunto e formulando projectos de fim de curso fortemente influenciados por essas leituras. É assim que deve ser. É a mesmíssima coisa com as consultorias. Vou dar um exemplo extremo para ilustrar a questão. Se o PNUD anunciasse um concurso público para a elaboração de um relatório sobre a situação de pobreza em Moçambique, seria perfeitamente legítimo fazer uma proposta de estudo sobre a pobreza na província de Gaza. Podíamos dizer que nos últimos doze meses esta província se tornou na quarta mais pobre e que, portanto, o estudo dessa dinâmica pode proporcionar elementos muito importantes para a compreensão da situação de pobreza em Moçambique. Atenção, isto é apenas um exemplo. Não creio que alguém fosse aceitar isso, mas o importante é apenas reter a ideia de que ao respondermos a um concurso público estamos, efectivamente, a circunscrever o tema e a dizer o que consideramos sensato como forma de satisfazer as preocupações dos que o lançaram.

Falta um elemento sobre o qual se tem insistido pouco, infelizmente, e que podia servir para corrigir o efeito nocivo das consultorias sobre as ciências sociais. A questão coloca-se em termos de saber quem é o dono do conhecimento produzido e o que deve acontecer a esse conhecimento. Por razões de confidencialidade – dependendo do assunto, é evidente – impõem-se cláusulas que impedem a publicação dos resultados mesmo em contextos académicos. Por uma questão de princípio e em defesa das ciências sociais, os sociólogos incumbidos de fazer uma consultoria deviam sempre procurar se livrar dessa cláusula para terem a oportunidade de discutir as suas experiências com os seus pares. Não vai ser sempre possível, mas é importante não só para a própria ciência como também para a qualidade das propostas de consultorias que hão-de vir de dentro do país. A consultoria é tanto melhor quanto mais vigoroso for o debate académico.

sexta-feira, agosto 10, 2007

O direito à razão IX

Mais uma vez o nosso direito à razão é violado. Isso obriga-me a interromper as férias. Caiu-me na caixa de correio a mensagem que transcrevo abaixo. Leiam-na e se não estiverem muito assustados encontramo-nos mais abaixo ainda:

CUIDADO!

ESTA É UMA HISTÓRIA REAL, ACONTECEU COM UMA PESSOA CONHECIDA

No domingo passado dia 5 de Agosto de 2007, uma viatuta mini bus de 15 lugares, (chapa) com destino a Manhiça ou Palmeiras, começou a carreira algures no Benfica, onde procurava passageiros com destino àquele Distrito ou outro. Durante o percurso, procurava passageiros para preencher os lugares vagos.

Na rotunda de S. Roque, o “motorista” imobilizou a viatura e o “cobrador” começou a chamar MANHIÇA, MANHIÇA, como de costume e os passageiros aflitos em chegar aos seus destinos entraram (cerca das 8h45m). O carro foi recolhendo os passageiros até que ficou quase cheio. Qual não foi o espanto! Quando um dos passageiros (o meu conhecido) chegou a Tavira, seu destino, clamou: Paragem! O “Motorista não ligou, clamou com viva voz, PARAGEM, uma vez mais, mas o motorista não acatou o pedido.

Começou a semear-se pânico no interior da viatura, porque muitos passageiros, apercebendo-se deste comportamento, exigiram ao motorista que parasse e ele uma vez mais não aceitou.

Volvidos alguns minutos, eis que um dos passageiros corajosos, apoiado pelo seu físico, saltou do seu assento e apertou o pescoço do motorista, o qual perdendo controle do carro, fez zig-zags. Na altura, circulava, no sentido contrário, um carro da polícia que, vendo o incidente tratou de inverter a marcha para ver o que estava acontecendo.

Afinal no banco da frente, os passageiros faziam parte da turma do motorista e um deles começou a disparar para o ar, mas desta vez a polícia mostrou a sua eficiência, tendo imobilizado a viatura e obrigado todos os acupantes a permanecer no carro, ao que se seguiu uma vasculha no interior da viatura. O motorista, os dois ocupantes do banco da frente e dois do banco de trás eram portadores de pistolas.

Afinal o que se passava? Era um grupo de bandidos que se dedicam à decepação de orgãos genitais para fins não esclarecidos e que se faziam passar por transportadores.

Faço este e-mail para compartilhar com todos, para que nos possamos precaver de falsos transportadores duvidosos. Procurem no mínimo ver que tipo de passageiros a viatura leva e tenham um cuidado especial com carros cujo banco frontal e traseiro é ocupado apenas por homens, pois podem ser bandidos.

Esta história é verídica, pode ser confirmada mesmo pela PRM. PREVINA-SE!

É o crime no país misturado com superstição. A plausibilidade desta história depende, como é frequente entre nós, da nossa credulidade. Não me parece improvável que haja gente à caça de orgãos genitais, gente que acredita na possibilidade de fazer remédios poderosos com esses orgãos. Infelizmente é assim entre nós. O que me perturba, contudo, é a forma como falamos uns com os outros. Ou melhor, preocupa-me a nossa ideia do que serve como critério de plausibilidade. Nesta história “verídica” o critério de plausibilidade não é proporcionado pela própria história, mas sim pela forma como ela é contada.

Assim, o primeiro aspecto a ter em conta aqui é que a nossa polícia tem que ser apresentada de outra maneira. Ao invés da ideia de ineficiência que preferimos a história exige que a imagem seja outra. Reparem que não estou a dizer que não seja possível que a nossa polícia seja de facto melhor do que a sua reputação. Estou apenas a dizer que nesta história a imagem da polícia é funcional à plausibilidade. Portanto, a polícia nota algo estranho, volta e, quase que magicamente, imobiliza uma viatura à deriva com quatro indivíduos armados, não dispara à toa, enfim, actua como deve ser. Parece incrível. Mais incrível ainda é a ideia de que a PRM pode confirmar a veracidade da história. A mesma PRM que, na nossa imaginação, não é fiável.

O segundo aspecto tem a ver com os detalhes da própria história. Estou sem palavras. Quatro indivíduos armados recolhem gente para a Manhiça. Ao longo do percurso nenhum destes malfeitores toma precauções no sentido de tornar claro aos “passageiros” que são reféns. Ficam à espera que o amigo de quem conta a história vá apertar o pescoço do motorista (salto por cima deste detalhe: porquê apertar o pescoço e não tentar travar a viatura?). Os outros passageiros entraram em pânico e exigiram que o motorista parasse. Só isso. Não foram apertar-lhe o pescoço. Entraram em pânico e exigiram que ele parasse. Não tentaram saltar do carro, partir vidros ou seja o que for. Entraram em pânico e exigiram que o motorista parasse. Voltemos aos quatro indivíduos armados que se esqueceram do que estavam a fazer na viatura. Um deles começou a disparar para o ar. Foi um dos que estavam atrás ou à frente? Porque nenhum deles foi apontar a arma ao passageiro corajoso amigo do contador da história? Os nossos bandidos são mesmo assim tão estúpidos? Quem me dera ser assaltado por eles! Quem me dera, meu Deus.

O terceiro e último aspecto é o aviso. Temos que nos prevenir. Não entrar em chapa com homens à frente e atrás! Sem comentários.

Atenção: não estou a dizer que isto não tenha acontecido. É bem provável que tenha. Se nas coisas importantes da vida não somos mais inteligentes porque iríamos ser no crime? De qualquer maneira, o que me preocupa nesta história é a forma como é contada. Devíamos exigir mais dos outros. Não devíamos deixar que o nosso quotidiano fosse preenchido por histórias de plausibilidade duvidosa. Isso é perigoso porque alguns de nós ficamos incrédulos por risco próprio. Isso não é bom.

A caixa de ferramentas do sociólogo

Já agora, coloco mais uma postagem da série interrompida.


Consultorias (d) – avaliação.

Neste texto vou ser mais técnico, sem, contudo, ser profundo. Um conselho que sempre me esqueço de dar: nenhum destes textos deve substituir a leitura de livros mais abalizados sobre as temáticas que eu, de forma muito irresponsável, abordo aqui. Quem pensar que vai ser bom sociólogo ou consultor a partir destes textos, engana-se redondamente. Nada substitui a leitura, o estudo e o trabalho árduo. Não há “sociologia em 30 dias”. Os 30 dias e muitos mais é que cabem dentro da sociologia. Ler, estudar, ler e estudar, estas são as palavras de ordem. Como exorta Carlos Serra: Duvidai e investigai. Comecem aqui mesmo, hoje, não amanhã porque como reza o velho ditado “não deixe para amanhã o que pode fazer hoje”. Esta vai, sobretudo, para aqueles que ficam meses e meses a tentar escrever um trabalho de tese de apenas 30-40 páginas! E querem ser sociólogos...

A avaliação é muito traiçoeira. É uma actividade técnica que está sujeita a vários constrangimentos de ordem política. Os que encomendam um estudo de avaliação de um projecto, por exemplo, não o fazem apenas no intuito de saber o que melhorar. Muitas vezes fazem-no porque querem argumentos “técnicos” para deixarem de financiar a coisa. O consultor que for produzir um documento a emular as virtudes desse projecto pode, nesse sentido, prestar um “mau” serviço aos seus patrões. Quem quer ser honesto, como cantam os jovens da G Profam, arrisca-se a ficar pobre. Atenção: não estou a encorajar ninguém a “produzir” resultados; estou apenas a alertar para os perigos à espreita quando recebemos a tarefa de fazer uma avaliação.

A avaliação pode ser feita:

  • no início de um projecto;
  • no meio de um projecto; e
  • no fim de um projecto.

Os termos de referência são, como é óbvio, diferentes. Uma avaliação que se faz no início de um projecto é aquilo que muitos chamam de “estudo de viabilidade”. É, na realidade, a apreciação das probabilidades de sucesso de uma determinada medida. Não é, tecnicamente falando, uma avaliação, pois esta tem muito a ver com a apreciação do grau de satisfação de certos critérios de desempenho. De qualquer maneira, é importante reter a ideia de que a avaliação das probabilidades de sucesso é um exercício perfeitamente legítimo. O problema foi bem formulado? O que é necessário para que a solução seja implementada? Os meios materiais e financeiros foram disponibilizados? (atenção: nesses meios diz-se alocados!); e as pessoas que vão fazer? Estes dados todos são necessários para que o consultor possa desenhar cenários de evolução da implementação do projecto e possa, com base neles, sugerir respostas. O estudo de viabilidade é uma coisa muito arriscada. É um pouco como o boletim meteorológico ou, para ser mais maldoso, é como uma dessas previsões que os economistas gostam de fazer. É mais certeira na explicação das razões que fizeram com que os seus prognósticos não se materializassem do que de facto em prever o futuro.

A avaliação que se faz no meio já é diferente. É um exercício técnico. Precisa de critérios claros de desempenho – aquilo que a indústria do desenvolvimento chama, curiosamente, de indicadores. Se o projecto não tem estes critérios, então trata-se de um projecto mau. Suponhamos que o Ministro do Comércio nos pede para avaliarmos a sua iniciativa de redução da incidência de acidentes de viação resultantes do consumo de bebidas alcoólicas compradas em bombas de combustível. A avaliação que se faz no meio não vai consistir em saber se já há menos acidentes; a avaliação vai consistir em saber se os passos considerados essenciais à prossecussão desse objectivo foram todos dados ou não. Por exemplo, se calhar era necessário montar um esquema de controlo das vendas nas bombas de combustível; se calhar era necessário formar pessoas para fazer esse controlo; se calhar era necessário iniciar uma campanha de sensibilização dos proprietários das bombas de combustível; etc. Avaliar no meio significa verificar se essas coisas foram feitas; se não foram feitas, porquê, e que alternativas se podem sugerir (Nando Menete: é neste sentido que uso a expressão critérios de desempenho). Ultimamente, as organizações tornaram-se flexíveis na elaboração dos seus projectos. Já não têm planos fixos. Elas têm uma estrutura flexível que lhes permite reajustar as metas de acordo com a evolução do projecto. Chamam a isso de “gestão do ciclo do projecto”. O consultor tem que ser capaz de dizer qualquer coisa sobre as metas.

Finalmente, a avaliação que se faz no fim corresponde à ideia clássica de avaliação. Este exercício pretende saber se o projecto teve sucesso ou não. E o sucesso do projecto não é algo que está na cabeça do consultor. Não é nada subjectivo. O sucesso é o alcance das metas inicialmente traçadas. Se, por exemplo, as metas da cruzada anti-álcool do Ministro do Comércio consistiam em reduzir o número de acidentes causados pelo consumo de álcool comprado em bombas de combustível em 24 por cento, então o critério de avaliação é esse: 24 por cento. Não importa se o projecto poderia ter alcançado mais. Tem sucesso quando alcança esse meta. Se a meta era apenas acabar com a venda de bebidas alcoólicas nas bombas de combustível, prontos, a meta é essa. A avaliação quer, naturalmente, também tirar lições. O que se pode aprender para o futuro? Para programas idênticos? Para a capacidade organizacional do Ministério? Que fazer agora?

Mas conforme avisei, a avaliação é um assunto político. Os que trabalham dentro de um projecto vão exagerar as dificuldades para obterem mais recursos, vão pintar de côr de rosa o projecto para evitar que seja cancelado se tiverem razões fortes para supor que essa seja a intenção dos decisores. É aqui onde as competências de um sociólogo se revelam. Na verdade, ele tem que ser capaz de apreciar a economia política de um projecto que está a ser avaliado. É só olhar para a indústria do desenvolvimento. Alguém pensa mesmo que a imagem que ela dá do nosso país corresponde verdadeiramente à nossa realidade? Ou é ela função das necessidades de reprodução dessa indústria? Há anos o Fundo Monetário Internacional andou aí com ideias de acabar com o Banco Mundial com base no argumento segundo o qual as forças de mercado iriam tomar conta de tudo. Acham que o Banco Mundial disse “sim senhor, vamos acabar com isto”? Nada disso! Começou a insistir na dimensão social do ajustamento estrutural como forma de se tornar imprescindível!

Prestemos atenção a estas coisas, são importantes.

O direito à razão VIII

Passei pelo escritório, consultei a internet e vi este atentado ao nosso direito à razão. Leiam-no, extraí-o do País Online:

Banco Mundial financia o ensino superior

05/08/2007

O Banco Mundial aprovou um crédito de quinze milhões de dólares para o Projecto do Ensino Superior em Moçambique.

Dentre várias acções o crédito irá servirá para melhoria do acesso equitativo ao ensino superior e da qualidade do ensino e aprendizagem.

Há duas coisas que não estão bem nesta notícia. A primeira é do âmbito jornalístico. Sei que é notícia breve. Mas não podiam facultar mais detalhes? O que significa a afirmação segundo a qual o Banco Mundial financia o ensino superior quando o único que nos é dado a conhecer é apenas que o crédito vai servir, entre várias acções, para a melhoria do acesso equitativo ao ensino superior e da qualidade do ensino e aprendizagem? Que mais sobra depois da melhoria da qualidade do ensino e aprendizagem? O que é acesso equitativo? Alguém sabe?

A segunda é do âmbito político. 15 milhões de dólares não é pouco. E é crédito. Crédito para uma frente bastante sensível do combate à pobreza, nomeadamente o ensino superior. Quando é que se vai instalar entre nós o hábito de submeter este tipo de coisas a um debate amplo antes de se tomarem decisões? 15 milhões é muita mola para passar para ser confiada de ânimo leve a pessoas que ainda não deram nenhuma indicação clara de saberem o querem fazer do e com o ensino superior. Não será atentado ao nosso direito à razão simplesmente supor que é suficiente apenas anunciar factos consumados? Eu acho que é.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Rectificação

Não há férias do blogue. Eu é que estou de férias. Um abraço ao Bayano, Basílio, Patrício, Jorge, Ilídio, Eugénio, Egídio, Stayleir e Rildo. Enquanto nos encontrávamos no sindicato nacional dos jornalistas para falarmos mal e bem de tudo e todos na última quarta-feira os seus blogues marcavam presença na net. Foi bom. Espero que o que decidimos não seja fala sem consequências...