Ausência
Estive ausente durante muito tempo. Mais de um mês. Estranhamente, o país não deixou de funcionar por causa disso. Os acontecimentos não ficaram à minha espera com medo de não serem comentados. Foram acontecendo. A fala sem consequências. Por exemplo, o edil da Beira, Deviz Simango, perdeu um pouco do apreço que eu tinha pelo que dele se diz com uma resposta a despropósito a encerrar uma entrevista na edição de agosto da revista POSITIVA. Perguntaram-lhe que tipo de relacionamento tinha com a administradora da Beira e ele respondeu: não a conheço. Ponto final. Estranho. Bastante estranho. É assim que queremos mesmo construir uma democracia estável? Mesmo que ele esteja farto dos outros, o respeito pelas pessoas que o elegeram não o devia obrigar a conhecer as pessoas que, pela lei, partilham a responsabilidade pela gestão da Beira?
Mas como dizia, as coisas foram acontecendo. O direito à razão. O Comandante Geral da Polícia finalmente falou. Concedeu uma entrevista ao jornal Notícias em que parecia estar a revelar porque ficara calado todo este tempo: por não fazer a mínima ideia do problema que tem em mãos. Pelo menos a julgar pelas respostas ao jornalista. Vejam a entrevista aqui. Não deu nenhuma resposta substancial às perguntas que lhe foram colocadas. Limitou-se apenas a apelar à fé dos moçambicanos. Tenham fé que havemos de combater o crime. E desfiou teorias obscuras sobre a origem do crime. Mesmo assim, está de parabéns por ter falado. O que faz falta ao nosso país é isto mesmo: gente que fala, sobretudo, governantes com coragem para dizer porque imaginam que os problemas são como eles são. A esfera pública fica a ganhar. Nem que seja pelo facto de ficarmos a saber que deles não podemos esperar muito.
O fenómeno da bicha. Moçambique tem novo Procurador-Geral da República. Ninguém, com a honrosa excepção do Presidente da República (e do ex-PGR, esperemos), sabe porque foi exonerado. Ver este e este comentário. Não pode ter sido por incompetência porque disso já tinha dado fortes indicações aquando da explosão do paiol e do último informe ao parlamento. Incompetente seria não ser capaz de ver que aquilo eram provas de incompetência. O fenómeno da bicha: onde está o problema? Nos outros ou em nós?
Entretanto, as coisas foram acontecendo, na verdade, muito mais do que aqui referi. Os acontecimentos não entraram em greve por eu estar ausente. Não ficaram renitentes, nem foram possuídos pelo espírito do deixa-andar e mandaram às urtigas os jornalistas que precisam sempre de informação. Foram acontecendo com aquela perversidade regular com que visitam o nosso país. É a caixa de ferramentas do sociólogo. Os acontecimentos aconteceram porque nenhum de nós é seu proprietário. Nem mesmo nós os sociólogos, por mais que acreditemos firmemente na ideia de que os nossos conceitos, os nossos quadros analíticos e os nossos métodos sejam anteriores à realidade. Ninguém ainda foi dizer à realidade que ela depende dos nossos instrumentos para ser o que ela é. E como ela não sabe isso, vai acontecendo. Que pena. Mas que pena! Imaginem só que a sociedade fosse tal e qual os nossos conceitos. Imaginem! Imaginem a força que a sociologia teria. Era só dizer “o desemprego causa criminalidade” para a sociedade ficar a saber o que deve fazer e FAZÊ-LO!
É evidente que não escrevo isto apenas para lamentar a minha impotência, nem me vingar dos acontecimentos por me ignorarem. Escrevo isto para chamar a vossa atenção para as origens da sociologia. O reconhecimento de impotência está na origem da sociologia. Estou a forçar a metáfora um bocado, mas dá. Um dos grandes percursores da sociologia foi o francês Saint Simon que escandalizou a França inteira, sobretudo a nobreza, com a seguinte pergunta: o que aconteceria à França se de um dia para o outro toda a nobreza e todos os governantes morressem? Imaginem a pergunta! De um dia para o outro, o país fica sem governo e sem a sua fina flôr, o que aconteceria? Na verdade, o escândalo não foi a pergunta. O escândalo foi a resposta. Saint Simon respondeu: nada. Nadinha. Seria pior, e impensável, se de um dia para o outro o país perdesse os seus operários, agricultores, comerciantes, etc. Aí sim, haveria problemas. O país ficava, para usar linguagem tecnológica moçambicana, “sem sistema”.
Essa pergunta deu o pontapé de saída para o edifício conceitual que a sociologia tem vindo a construir desde esses tempos. Há muita sociologia por aí que não se entende sem essa pergunta. Mesmo Marx e Engels. Em certa medida, Marx e Engels não queriam construir o socialismo. Nisso só acreditaram os ideólogos mal formados da Frelimo. Marx e Engels queriam acabar com a burocracia, isto é com o Estado. O Capital e todos aqueles títulos que aprendemos nas aulas de educação política eram uma resposta à pergunta de Saint Simon: o que aconteceria se essa classe parasita desaparecesse? Mesmo Weber não faz mais nada senão isso, isto é procurar uma resposta para essa pergunta.
O nosso país dará um passo gigantesco em frente quando para além de mim – sim, é arrogância – alguém mais, sobretudo os governantes, reconhecerem que a realidade não depende muito de si. Não é niilismo, nem coisa parecida, pois os homens, na verdade, é que fazem o mundo. Mas nem todos. Muito menos aqueles que repetem isso religiosamente. Da mesma maneira que os acontecimentos não vão ficar à minha espera, o desenvolvimento e o bem-estar de Moçambique e moçambicanos não dependem de quem se arroga esse direito. Quem se arroga esse direito só pode estragar as coisas. O desenvolvimento do país e o bem estar dos moçambicanos dependem do espaço que estes últimos têm para resolverem os seus problemas. Um exemplo muito interessante do que estou a reflectir aqui é o trâfego em Maputo. Horrível, mas estranhamente funcional. Se os motoristas respeitassem as regras de trânsito na cidade, tudo parava. As regras de trânsito são apenas um quadro de orientação que permite às pessoas agirem, negociando espaços, logrando o possível, fazendo a vida. Tenho a certeza de que há mais acidentes fora da cidade – onde há menos trâfego – do que dentro dela. É um caso para reflectir.
É um desafio que a filosofia política nos lança. Aliás, são os acontecimentos. Então, cá estou de novo para me inspirar nos acontecimentos.