terça-feira, julho 24, 2007
Férias do blogue
A caixa de ferramentas do sociólogo
Consultorias (c) – tipos
Hoje quero falar dos tipos de consultoria que há e que pode haver. Consultoria não é igual a consultoria. Há consultorias e consultorias. Não se deixem irritar com estas platitudes. Aprendi de livros que prometem riqueza às pessoas que é preciso repetir lugares-comuns do estilo “acredita nas tuas próprias capacidades e verás que vences”, “Deus não quer que desanimes”. Não sei porquê, mas essas coisas caiem sempre muito bem. Devia, se calhar, empacotar isso tudo em power-point e mandar para toda a gente registada no meu email e dizer para enviarem para mais cinco pessoas. Já que estou a falar disto, aproveito para lançar um apelo a todos: não me mandem nenhuma mensagem power-point com flores, nuvens e platitudes religiosas ou humanistas sobre a amizade e amor. Estou farto disso! Nem mesmo sobre vírus perigoso. O meu servidor encarrega-se disso.
Saí do assunto como se diz em changana. Estava a falar sobre os tipos de consultoria. Os tipos correspondem mais ao menos ao que nós sabemos fazer em sociologia. O mais comum é o que quer auscultar as atitudes, crenças e comportamentos das pessoas. Existe, inclusivamente, uma metododologia que vem já desde os anos sessenta que se chama “estudos de comportamento, atitudes e conhecimentos”. O que sabem as pessoas sobre as formas de infecção do HIV? O que pensam as pessoas sobre a prevenção? Como é a sua vida sexual? As perguntas que fazemos em qualquer questionário de pesquisa referem-se sempre a uma destas três dimensões: atitudes, crenças ou acção. As nossas lacunas em termos de conhecimento nos vários domínios da nossa vida em Moçambique fazem a cabeça girar com vertigens só de pensar na quantidade de oportunidades para consultoria. Quantas empresas não gostariam de saber o que pensam as pessoas sobre determinadas coisas? Quantas empresas não gostariam de saber a atitude das pessoas em relação a certas cores, produtos, preços, etc? Quantas empresas não gostariam de saber como as pessoas se comportam em certos domínios?
O segundo tipo é aquele que faz o levantamento sobre uma determinada problemática. Corresponde mais nitidamente àquilo que chamo de formulação de problema. Recentemente, o governo da província do Niassa lançou um concurso para um estudo de base sobre o desenvolvimento da província. Não estava bem feito, infelizmente, mas corresponde um pouco a este tipo. O que é, que opções, o que pode vir a ser? É mesmo um levantamento. Não precisa de ser à escala de uma província. Uma organização não-governamental que queira intervir na promoção de poupanças no bairro do Chamanculo B pode encomendar um levantamento de base. O consultor pode recolher informação sobre as receitas dos moradores, fontes, estabilidade, despesas, oportunidades de rendimento, padrões de consumo, etc. Com base nessa informação, a ONG pode perspectivar melhor a sua intervenção. Nesta área também há milhares de oportunidades, sobretudo nas províncias, onde o conhecimento ainda é bastante escasso. Sabe-se muito pouco sobre quase tudo quanto é necessário saber para se poderem tomar decisões sólidas com conhecimento de causa.
O terceiro tipo de consultoria é a avaliação. Insisto na ideia de que no nosso país fazemos ainda muito pouco nesta área. Normalmente, até, quem o faz são estrangeiros, muitas vezes com pouco conhecimento da realidade do nosso país. Veem por uma semana ou duas, conversam com algumas pessoas, analisam relatórios, consultam publicações e redigem o seu relatório. Desde que ficamos independentes fizemos tanta coisa. Houve programas disto mais aquilo, projecto daquele outro, iniciativa para isto, etc. Cada ministério, governo provincial, direcção estatal e todas as outras instituições que podemos imaginar já fez qualquer coisa. Como é que correu? Foi bem feito? Os recursos foram suficientes?
A falta do hábito da avaliação é um dos problemas mais graves. A título de exemplo: Tivemos uma unidade anti-corrupção que foi dirigida por uma jurista, Isabel Rupia. Essa unidade foi abolida com base no argumento segundo o qual teria sido inconstitucional. Muito bem. Entretanto, ela funcionou durante vários anos. Nos meios de comunicação de massas existe a percepção de que a decisão de abolição foi mais política do que jurídica. Não importa. O mais importante seria avaliar o trabalho que essa unidade, apesar de tudo, fez. Fez o que devia ter feito? Como? E se não o fez, porque não? Faltaram meios? Faltou vontade política? Não há corrupção? O único que me parece insensato é deixar pairar no ar a sensação de que os políticos não deixaram a unidade funcionar. Isso não basta.
Devo dizer uma palavrinha sobre o papel do sociólogo nisto tudo. Até aqui tenho vindo a falar como se o sociólogo só pudesse estar envolvido numa consultoria como líder. Não é necessariamente assim. Na verdade, o sociólogo é o indivíduo que conhece os métodos de recolha de informação. Ele pode, portanto, ficar encarregue de executar determinadas tarefas: organizar, elaborar e aplicar inquéritos, conduzir entrevistas, fazer revisão de literatura, formar os entrevistadores e analisar os resultados. O sociólogo deve saber identificar o método de recolha de informação mais apropriado para o trabalho em mãos. Cada tipo de consultoria tem as suas especificidades e o sociólogo distingue-se pela sensibilidade em relação a elas.
segunda-feira, julho 23, 2007
O fenómeno da bicha XI
Brigada do Ministério do Trabalho visita mineiros na RSA
22/07/2007
Uma brigada conjunta do Ministério do Trabalho e das Alfândegas de Moçambique está a efectuar visitas às minas onde trabalham cidadãos moçambicanos na República da África do Sul.
A equipe está a divulgar junto dos mineiros o Decreto 30/2002, que aprova as regras gerais do desembaraço aduaneiro.
A visita surge no âmbito da busca de soluções, por parte do governo, dos problemas que os mineiros moçambicanos têm apresentado em relação ao limite do valor de mercadorias autorizadas no seu regresso ao país.
Refira-se que projecta-se actualmente a abertura de um Balcão Único para o atendimento exclusivo de mineiros na fronteira de Ressano Garcia.
É assim: na África do sul temos uma embaixada, um consulado e uma representação do Ministério do Trabalho. Em princípio, os trabalhadores moçambicanos lá residentes deviam também ter formas de auto-organização, por exemplo, sindicatos ou mesmo representação de associações de imigrantes. Qualquer uma destas instituições, organizações e órgãos do Estado é suficiente para divulgar seja o que for junto dos mineiros. Ou melhor, devia ser sua obrigação. Não me parece fazer sentido enviar “brigadas” – esta linguagem horrível do período revolucionário – que, para o meu espanto (considerando que já está tudo aprovado) efectua esta visita “... no âmbito da busca de soluções, por parte do governo, dos (sic) problemas que os mineiros moçambicanos têm apresentado em relação ao limite do valor de mercadorias autorizadas no seu regresso ao país”.
Este é o fenómeno da bicha numa das suas formas mais insidiosas: transferir para os outros os problemas quando nós próprios é que somos o problema. Fazer de contas que estamos a trabalhar ao invés de melhorarmos as nossas formas de intervenção.
Exemplar!
A caixa de ferramentas do sociólogo
Consultorias (b)
Se ser assessor é o cúmulo da realização profissional, ser consultor, ou melhor, fazer uma consultoria é o paraíso de um sociólogo. Tem classe dizer “fiz aí uma consultoria” ou ainda com ar cansado “para a semana tenho aí uma consultoria por fazer”. Consultoria é o que está a dar, é o sonho secreto de muitos estudantes de ciências sociais que vislumbram mundos e fundos cuja condição de possibilidade é a nossa miséria. Pessoalmente, não gosto da influência negativa que as consultorias estão a ter sobre o desenvolvimento das ciências sociais no país. Já falei, inclusivamente, da morte anunciada que elas representavam para a nossa actividade.
As minhas reticências, contudo, são de ordem estrictamente epistemológica e estratégica. Não dizem respeito às consultorias como tal. Moçambique precisa delas, os sociólogos precisam delas, enfim, elas são provavelmente a única maneira segura de produzir conhecimento sólido para a tomada de decisões. Já houve colegas que entenderam as minhas reservas como uma rejeição total das consultorias. Acho isso infeliz, pois eu próprio já fiz consultorias e se me aparecessem pela frente não hesitaria, desde o momento que dispusesse de tempo e o tema me interessasse. Portanto, devemos diferenciar entre o que as consultorias fazem às ciências sociais e o que elas representam para cada um de nós como profissionais do conhecimento.
Vou abrir agora uma série de reflexões sobre esta actividade para ajudar o sociólogo em formação, mas também àquele que já se encontra a trabalhar, a saber identificar oportunidades de consultorias, negociá-las, planificá-las, executá-las e ganhar dinheiro com elas. Já que normalmente quem ganha dinheiro com manuais sobre como ganhar dinheiro é o próprio autor devia, se calhar, vender estes textos no mercado. Já não vou a tempo. Peço, contudo, a todos que ganharem dinheiro com base nestas “dicas” para me darem um dízimo das suas receitas. A minha intenção é de reflectir sobre esta actividade. Portanto, não vão necessariamente encontrar fórmulas do estilo “como fazer...”. Espero, todavia, que encontrem elementos que vos permitam fazer uso do vosso conhecimento sociológico para participar na indústria das consultorias. O negócio não é mau, ainda que superlotado.
O que é uma consultoria? No nosso país é quase tudo que não seja feito no âmbito de uma instituição empregadora. É a recolha, análise e exposição de informação sobre um determinado assunto, problema, estratégia, iniciativa que uma determinada instituição não está em condições de realizar com os seus próprios meios, mas de cujos resultados necessita para tomar determinadas decisões. É um campo muito vasto. As instituições – empresas, ministérios, organizações – não dispõem de todo o pessoal de que necessitam para recolher e analisar certas informações que precisam para o seu trabalho. Muitas vezes sai-lhes mais barato encomendar esse trabalho a instituições que têm essa vocação ou a indivíduos que têm a formação técnica que lhes permita fazer o trabalho. Para esse efeito, lança-se um concurso público – pelo menos as instituições públicas têm essa obrigação – aberto a todos. As possibilidades de um Zé-Ninguém vir a ganhar um concurso são, para sermos realísticos, mínimas, mas nunca se sabe. Nem sempre os esquemas funcionam e, no fundo, a qualidade vence, nem que leve muito tempo.
Um aspecto importante a ter em conta aqui é que as instituições encomendam consultorias; esta é a prática normal. Partimos, nesse contexto, do pressuposto segundo o qual as instituições têm a capacidade de identificar as suas necessidades em termos de assessoria. É um pressuposto arriscado e que custa oportunidades aos sociólogos. Nem todas as instituições sabem o que necessitam. Um sociólogo esperto – e inteligente – tem que ser capaz de ajudar as instituições a identificar as suas necessidades nesse contexto. É verdade que a ignorância das instituições está ligada ao facto de muitas delas dependerem de auxílios externos para encomendar um trabalho. Sem esse auxílio, nada feito. Mas um olhar de realce pelas nossas instituições mostraria verdadeiras minas de ouro para sociólogos com imaginação, iniciativa e espírito empreendedor. Peguemos, a título de exemplo, na área da saúde. Que impacto têm as diferentes políticas de saúde seguidas? Quem usa os serviços de saúde em diferentes contextos? Como é que esses serviços são usados? Em combinação com outros recursos? Que importância tem o posto de saúde para os residentes de não-sei-aonde? Porque é difícil observar regras de higiene em certos hospitais? Haverá factores culturais envolvidos? Ah, os factores culturais! Que impacto teria a introdução de taxas disto e mais aquilo na disponibilização de certos serviços? Que providências individuais são feitas pelas pessoas para a eventualidade de doença? Como articular com a polícia de trânsito para diminuir a incidência de certo tipo de acidentes? Como articular com o Ministério do Trabalho e Sindicatos para controlar certos riscos laborais? E por aí fora. As questões são intermináveis.
Não é por falta de temas que não há mais consultorias. É por falta de dinheiro – lá está – mas também é por incapacidade dos sociólogos de formular um problema. Mais uma vez a formulação de problemas! Uma vez identificada uma questão, um sociólogo com imaginação poderia tentar formular o problema. Quando as pessoas reconhecem um problema, normalmente querem agir sobre ele. O desafio que se coloca ao sociólogo muitas vezes é de trazer à atenção de quem de direito um problema que precisa de acção urgente. Para esse efeito, não precisa de revelar muito, pois a ideia é de ser encarregue de realizar o tal estudo que vai identificar o problema! Suponhamos que identifico o problema do uso exagerado dos postos de saúde. As pessoas vão aos postos de saúde mesmo quando não há nenhuma necessidade para tal; dessa maneira, sobrecarregam o sistema nacional de saúde desnecessariamente. Posso levar este assunto à atenção do Ministro da Saúde se tiver a sorte de o apanhar em descanso de mais uma rusga nocturna no tenaz combate ao espírito do deixa-andar. Vou propor a realização de um estudo que vai identificar as razões que conduzem a essa situação bem como formas de a sanar. A promessa que vou fazer ao Ministério é de o ajudar a reduzir despesas e usar as suas infraestruturas de forma mais eficiente. Quem resistirá a isso?
Há temas à nossa espera. Devemos identificá-los, trabalhá-los e vendê-los aos que têm dinheiro para os comprar. Não é sofismo. Um problema formulado sociologicamente não é um falso problema. É um problema. Alguém mais inteligente do que eu já disse que o problema não é haver problemas; o problema é esperar que não haja problemas e pensar que ter problemas é um problema. Einstein rematou assim: os problemas que o mundo tem hoje não podem ser resolvidos com o nível de reflexão que os criou. Aquilo que escrevi numa contribuição anterior sobre a importância de cada um de nós se especializar numa área revela-se de extrema importância aqui. Para ser bom consultor, é necessário que a pessoa domine um assunto, seja saúde, educação, energia, comércio, etc. Sem esse domínio do tema, nada feito. Vou ainda falar dos tipos de consultorias, da negociação dos termos de referência, da realização e da elaboração do relatório final.
sexta-feira, julho 20, 2007
A fala sem consequências X
A fala sem consequências é um fenómeno muito complicado. Ele refere-se à falta de articulação entre a fala e a prática consubstanciada num nível extremamente baixo de responsabilização política. O conceito central na fala sem consequências é a responsabilidade. A hipótese é simples: quanto mais fala sem consequências, mais irresponsabilidade e, mutatis mutandi, quanto mais responsabilidade, menos fala sem consequências. Aí está uma hipótese de trabalho para tese de licenciatura...
Um dos desafios de construção de um espaço político racional e sólido devia consistir no incremento da responsabilidade. Estrategicamente até vejo mérito em atribuir menos importância à solução imediata dos problemas do povo – que no nosso contexto fomenta o neo-patrimonialismo, a falta de iniciativa e níveis confrangedores de centralização – e, pelo contrário, dar mais destaque à promoção da responsabilidade. Se fosse conselheiro de algum político, esta é a mensagem que transmitiria. Esqueça os problemas, pense apenas na responsabilidade!
Mas não sou, por isso posso procurar conforto na cómoda posição de crítico (controverso). A partir desta posição gostaria de chamar a vossa atenção para o artigo que extraí do jornal O País Online. Leiam-no e encontramo-nos mais abaixo:
Hospital privado de Maputo vai custar 16 milhões de dólares
19/07/2007
Um hospital privado de grandes dimensões com capacidade para cerca de 220 camas será erguido na cidade de Maputo através de um investimento privado de 16 milhões de dólares. Os fundos são provenientes das empresas INVALCO e LENMED HEALTH, que vão repartir, respectivamente, 40 e 60%.
No bairro Sommershild II é onde se projecta construir o Hospital, que terá uma área total de cobertura de aproximadamente 8.500m². Assim que for aprovado o projecto pelo Conselho Municipal, a construção e equipamento vai levar aproximadamente 18 meses. Com o arranque deste projecto na capital, espera-se que as províncias possam, a longo prazo, também se beneficiar de uma unidade sanitária desta empresa.
Este empreendimento terá uma diversidade de serviços: três blocos operatórios, medicina, maternidade, obstetrícia, pediatria, ginecologia, ortopedia, cirurgia, radiografia e patologia, cuidados intensivos, blocos de consultas médicas, farmácia, morgue, serviços auxiliares e um parque de estacionamento privativo com capacidade para 100 viaturas.
A iniciativa surgiu quando, em finais de 2003, a INVALCO constatou existir um acentuado défice no tratamento de doentes que recorriam ao sector privado devido aos serviços básicos oferecidos pelas clínicas, défice de equipamento para diagnóstico dos doentes, défice de serviços especializados, sendo a África de Sul a alternativa, entre outros.
Depois de dar muitos passos para a concretização da ideia, em 2005 a INVALCO rubricou com a empresa sul-africana LENMED HEALTH uma “joint venture” que culminou com a formação da empresa. A mesma terá um conselho de administração constituído por seis pessoas, presidido por Izidora Faztudo.
Acho que estamos aqui perante o fenómeno da fala sem consequências. Empreendimentos comerciais só fazem sentido quando fazem sentido. Dito de outro modo, alguém só se predispõe a gastar 16 milhões de dólares se achar que vai tirar benefício. A não ser que seja louco. Não acredito que seja o caso, tanto mais que as pessoas que querem construir este hospital já estão a falar de alargar a coisa às outras províncias. Porque isto é fala sem consequências? Isto é fala sem consequências do ministério da saúde que depois que saímos do regime formal de partido único nunca mais apresentou ideias claras e autónomas sobre o tipo de saúde que queremos para o país. O ministério da saúde simplesmente gere fundos. Fundos dos outros. Não perde nem um minuto a pensar como estruturar a saúde no país a partir do que somos, do que existe, do que podemos fazer. Gere apenas os fundos dos outros. Portanto, estamos aqui perante uma fala sem consequências por omissão. O ministério da saúde usou a fala sem consequências por não dizer nada. E os outros, infinitamente mais espertos do que nós, vão reconhecendo as brechas, abrem-nas ainda mais e, para facilitar as coisas, criam conselhos de administração onde vão meter políticos para agilizarem o processo.
E anos a fio vamos continuar a dizer que a saúde é coisa complicada sem fundos. Vamos promover conferências nacionais de medicina tradicional. Vamos proibir clínicas privadas nos hospitais estatais. Vamos fazer rusgas e exonerar directores nacionais dentro do processo normal de organização do sector. Enfim, vamos fazer política sem ideias, criatividade e, sim é verdade, sem auto-estima. Para mim este artigo traz uma má notícia.
quinta-feira, julho 19, 2007
Novo blogue de Noa Inácio
Novo Blogue de Milton Machel
A caixa de ferramentas do sociólogo
O assessor-sociólogo
Suponho que no nosso país o cúmulo da realização profissional para um sociólogo seja o convite para ser assessor de um decisor político. Refiro-me, como é óbvio, aos sociólogos que preferiram enveredar pelo caminho profissional não-académico. Pessoalmente, sempre me fascinou a ideia de estar em posição de contribuir com o meu conhecimento para uma melhor tomada de decisões por parte daqueles que têm a responsabilidade política para esse efeito. Não sei quantos sociólogos se encontram nesta situação neste momento; conheço apenas dois, cuja solidez na formação me sugere que estejam a fazer bom trabalho. Oxalá façam mesmo bom trabalho para o bem da inserção profissional da sociologia no mundo decisor.
Não tenho a certeza se existe algum manual do assessor, quer seja para o sociólogo, quer seja mesmo para qualquer outro incumbido com essa tarefa. O que faz um assessor? Ou melhor, o que, idealmente, pode fazer um assessor com formação em sociologia? O primeiro aspecto a ter em conta ao responder a esta pergunta é que o sociólogo, ao contrário do economista e do jurista – as duas opções óbvias para este cargo – não tem necessariamente um conhecimento técnico susceptível de ser aproveitado directamente por quem de direito. Isto, repito, não é nenhuma desvantagem. Antes pelo contrário. Vivemos num mundo em que o conhecimento técnico especializado só é necessário em situações também especializadas. A maior parte do conhecimento que o mundo precisa para continuar a andar é do domínio público. Qualquer pessoa inteligente com formação superior é capaz de aprender o conhecimento básico que economistas ou juristas usam para fazer valer a sua formação. Não me refiro aqui, é claro, às situações mais especializadas de parecer técnico sobre matéria económica ou jurídica que precisa de outros recursos científicos. Insisto, contudo, que esses pareceres são raros.
O sociólogo, portanto, traz consigo ao mundo profissional uma formação que, em princípio, lhe dá uma visão global das coisas e a capacidade de estabelecer relações estratégicas entre os assuntos. No fundo, o sociólogo é aquilo que toda a gente com formação superior devia ser. Perspicaz, estratégico, racional, crítico e consequente na sua abordagem do mundo. Neste sentido, um sociólogo pode, em minha opinião, trabalhar em qualquer sector. Pode assessorar o ministro da educação, do comércio, da saúde, da energia, das obras públicas, etc. Se eles quiserem ser assessorados, é claro. Em que consistiria uma assessoria da parte de um sociólogo? Basicamente, o ponto de partida do sociólogo deve ser a formulação de problemas. Repito: em Moçambique há mais soluções do que problemas! Ao formular os problemas, o sociólogo está a proporcionar ao decisor político uma base sólida para ele escolher uma solução. Escrevi propositadamente “escolher”, pois o sociólogo-assessor nunca deve apenas dar uma proposta de solução. Depois de formulado um problema, o sociólogo-assessor deve indicar várias soluções possíveis com os argumentos a favor e contra cada uma delas. Compete ao decisor político fazer a sua opção com conhecimento de causa.
O mais importante para mim, porém, é a organização do trabalho do assessor-sociólogo. O nosso trunfo é a nossa capacidade de lidar com o conhecimento. Devemos usar este trunfo com ousadia. Suponhamos que a Ministra do Trabalho me nomeasse sua assessora. De certeza que ela indicaria uma área específica sobre a qual ela gostaria de obter subsídios da minha parte. Ela podia indicar a “segurança social”, por exemplo. Se quero realmente fazer bem o trabalho, a primeira coisa que iria fazer era formar uma equipa de trabalho. Não acredito na seriedade do trabalho de um assessor-sociólogo que trabalhe sozinho. É verdade que as condições do país não permitem muito, mas é preciso reconhecer aí uma grande limitação. A equipa podia ser de duas pessoas: eu próprio e um pesquisador, também sociólogo (ou antropólogo). A segunda coisa que iria fazer seria dar ao pesquisador a tarefa de reunir toda a informação (leis, relatórios, estudos, livros) que existe sobre a segurança social moçambicana. Isto é o que chamamos de revisão da literatura. Essa revisão iria permitir identificar lacunas no nosso conhecimento sobre os actores, instituições, interesses e estruturas envolvidos na produção e reprodução da segurança social. A terceira coisa que faria seria reflectir sobre como suprir essas lacunas. Podia, por exemplo, entrar em parceria com universidades (economia, sociologia, direito) para encorajar a realização de trabalhos de fim de curso sobre essas temáticas ainda pouco conhecidas. É a forma mais barata de obter conhecimento. Não vou entrar aqui nas modalidades de financiamento que são coisas que pouco percebo. O importante é vincar a ideia de que o assessor-sociólogo não é uma biblioteca móvel, mas sim um arquivista. Ele gere o conhecimento. Quarta coisa que iria fazer seria identificar políticas em curso e elaborar critérios para a sua avaliação. Será que a nossa política de aposentação – nem sei se existe uma coisa assim – está a corresponder aos objectivos traçados? Será que o Instituto Nacional de Segurança Social é a melhor forma institucional de organizar esse assunto? Aqui também não vou ser eu a fazer esse trabalho; vou encomendar estudos a empresas de consultoria, a estudantes (licenciatura, mestrado e doutoramento).
É com base neste fundo de conhecimento que serei capaz de reagir às solicitações da minha patroa em termos de subsídios técnicos. Ela tem que ir ao parlamento falar sobre a segurança social? Não há problema! O que precisa de saber sobre o assunto? Que informação tenho? Quais são as várias maneiras de ver o assunto? Quais são as implicações de cada uma? Que opções de acção se apresentam? Ela tem que ir ao Conselho de Ministros? Não há problemas. Idem mesma coisa, como se diz em xangane. O assessor-sociólogo fornece argumentos. Tudo isto tem que ser feito, escusado será dizer, de forma concisa e clara. Ministros, por mais inteligentes que sejam, têm limitações de espaço no seu disco duro. O que não pode ser dito no espaço de uma página não interessa.
É assim que vejo o trabalho de um assessor-sociólogo: fazer o ponto de situação sobre um assunto; recolher a informação existente; identificar lacunas em termos de informação e de pesquisa; encomendar estudos; avaliar políticas. Não falei da perspectivação do futuro para não entrar muito nos detalhes daquilo que compete ao próprio decisor político. Acima de tudo, o assessor-sociólogo deve ter a coragem de dizer ao seu chefe a verdade, isto é aquilo que os seus instrumentos de trabalho lhe revelaram como sendo conhecimento válido. Um dia teremos chefes em Moçambique que vão ter a coragem de dizer aos seus assessores: digam-me a verdade, mesmo que corram o risco de perder o vosso emprego!
quarta-feira, julho 18, 2007
A caixa de ferramentas do sociólogo
O problema (e)
Vou encerrar esta reflexão sobre o problema com uma pequena mãozinha aos que estão a escrever uma tese. Justificação do tema: é porque gosto muito de crianças; é porque os doentes de HIV me metem pena; quero contribuir com mais um estudo para a compreensão da exclusão social no nosso país ... estas são algumas das justificações que tenho lido em projectos de tese. Nenhuma delas me parece útil do ponto de vista académico. Têm um pouco – e aqui lanço todo o tipo de impropérios às famosas consultorias – o carácter de um pequeno projecto de desenvolvimento. A coisa piora quando vejo, na proposta, coisas como “objectivos gerais” e “objectivos específicos”. De hipóteses nem rasto. Um projecto de tese ou trabalho académico não é projecto de desenvolvimento. A sua utilidade não se mede pelo impacto que vai ter na sociedade. A sua utilidade mede-se pela contribuição que vai fazer à ciência: redefinição de conceitos; redimensionamento de uma teoria; melhoria de métodos; promoção do interesse numa determinada abordagem ou tema.
Infelizmente, a dificuldade em justificar o tema resulta de vários mal-entendidos. Vou apontar apenas três. O primeiro é simples. Muita gente pensa que precisa de produzir resultados e entende esses resultados como soluções a problemas práticos. Discordo. O trabalho de tese não precisa de produzir nenhuma solução prática. O trabalho de tese é uma oportunidade que o estudante tem para demonstrar que sabe trabalhar sociologicamente e de forma autónoma. Isso significa que ele deve formular uma problemática, ler literatura relevante, avaliá-la, seleccionar métodos, aplicá-los e submeter isso por escrito à apreciação crítica dos seus pares. É só isso: o resto é conversa de gente que confunde ciência com política.
O segundo mal-entendido já é um pouco complicado. Muitos pensam que um trabalho académico só é bom quando confirma a hipótese formulada. Isto é grave. Se essa fosse a função da pesquisa a ciência, que depende do debate de ideias, não avançava. Estava todo o mundo a falsificar resultados! Um trabalho académico pode confirmar assim como infirmar uma hipótese. Se eu parto, por exemplo, da ideia de que a proibição de venda de bebidas alcoólicas nas bombas de combustível manifesta certas relações estruturais entre o poder e certos sectores económicos o meu trabalho não está apenas bem quando, de facto, comprova isso. Mesmo se chegasse à conclusão de que estava enganado, o trabalho continuaria bom. Para isso, contudo, é necessário que o estudante demonstre ter obedecido a todos os procedimentos que fazem parte do trabalho científico. Só isso conta, o resto, mais uma vez, é conversa fiada.
O terceiro é mesmo complicadíssimo. Muitos pensam que podem formular um projecto de pesquisa sentados num “chapa” com os olhos postos na carteira ou no bolso onde arrumaram o “celular”. Alguns podem, mas isso é muito complicado. Formular um projecto de pesquisa é muito trabalho. É, provavelmente, a parte mais trabalhosa de todo o empreendimento. É preciso ler estudos sobre a temática que nos interessa, livros e artigos sobre os conceitos que nos atraiem, conversar com pessoas abalizadas, formular e reformular perguntas e hipóteses. Não é raro ser abordado por pessoas com uma única frase “doutor, gostava de escrever sobre a exclusão social das crianças do bairro de Hulene”, seguida das inevitáveis perguntas “qual é o quadro teórico que posso usar?”, “onde posso encontrar literatura?” e “quais são os conceitos que devo utilizar?”. Escrever uma tese é complicado, muito mesmo, sobretudo para quem o quer fazer de ânimo leve. Escrever uma tese significa saber em primeiríssimo lugar o que a comunidade científica já disse sobre o assunto. Só nessa base é que podemos formular um projecto de pesquisa.
E é daí onde virá a relevância do trabalho. O que diz a sociologia em relação à exclusão social de crianças? Quais são as abordagens mais usadas? Porquê? Que resultados já produziram? Existe alguma coisa feita em Moçambique sobre esse assunto? O que foi apurado? Se não existem, porque não existem? Alguma razão científica? Que metodologias são empregues para analisar esse assunto? São as mais adequadas? Podem ser replicadas? Normalmente, estas perguntas todas vão desembocar em três lugares. O primeiro lugar pode ser lá onde o estudante acha que existe um silêncio total da sociologia sobre o assunto. Ele vê-se na obrigação de abordar o assunto pela primeira vez. Duvido que isto seja possível. A originalidade revela apenas pouca leitura. Muitos, por regra, escondem-se por detrás da ideia de que não há nada publicado em Moçambique. O segundo lugar pode ser lá onde o estudante acha que já se fez alguma coisa. Face a isso ele considera necessário verificar se as metodologias e abordagens empregues cumprem o que prometem. É aí onde alguém, por exemplo, poderia pegar num estudo feito por João Colaço, Carlos Serra, Teresa Cruz e Silva ou Conceição Osório, entre outros, e ver se replicando-o ele produz os mesmos resultados. A ideia não é de chegar à conclusão de que eles nos enganaram, mas sim confirmar as suas observações, melhorar os instrumentos, descobrir novos caminhos e aprofundar a discussão. Finalmente, o terceiro lugar pode ser lá onde o estudante considera que existem aspectos que a sociologia ainda não considerou na abordagem de um certo assunto. Por exemplo, os excelentes trabalhos sobre a exclusão social orientados por Carlos Serra privilegiam uma abordagem fenomenológica. Que resultados obteríamos se optássemos por uma outra abordagem teórica? Os mesmos? E se fossem diferentes, o que ganhávamos nós? O que ganhava a sociologia? O que ganhavam aqueles que utilizaram a abordagem fenomenológica?
Espero que isto já esteja claro. A próxima vez que ler uma tese e ver uma frase como esta “com este estudo espero contribuir com mais um trabalho para a melhoria das condições das mulheres vendedoras de mercado em Maputo...” desconfie da sua utilidade científica. Foi de certeza elaborada por alguém que se não preparou devidamente. Não leu literatura relevante, não abriu os seus horizontes metodológicos e está refém da razão sofista que domina a nossa esfera intelectual: conhecimento é para se vender. Se queremos realmente avançar com a nossa ciência temos que intervir ao nível de conceitos, metodologias e teorias, e não ao nível de resultados práticos. De resto, práticos para quem?
O pior, contudo, é o que costuma vir na conclusão: Recomendações. Recomendações? Dirigidas a quem? Ao Ministro da Educação? Ele é que vai avaliar a tese? Se a conclusão tem alguma utilidade para além de resumir o que foi dito, essa utilidade consiste em dizer o que a sociologia ganha com este trabalho. Um trabalho que não é capaz de se pronunciar sobre isto é um trabalho problemático do ponto de vista académico. Revela que a pessoa que o elaborou devia ainda continuar nos bancos da faculdade até perceber o que é fazer sociologia. Ou abandonar a coisa e deixar-nos a sós.
segunda-feira, julho 16, 2007
O direito à razão VII
Leiam esta notícia do jornal O País Online e digam-me se faz mesmo sentido. Vemo-nos mais abaixo:
Advogado torturado pela polícia detalha o sucedido
10/07/2007
Aquinaldo Mandlate, advogado estagiário que foi submetido a severas sevícias pela Polícia de Investigação Criminal (PIC) na 2ª esquadra da Machava, no passado dois de Julho corrente, confirmou ter saltado o murro da esquadra em referência, em consequência do mal-estar que se tinha instalado a dada altura das audiências. Confirma também os disparos mas diz não se lembrar se terá sido alvejado na cabeça ou não, a verdade, porém, é que contraiu ferimentos graves.
Aquinaldo Mandlate que estava a acompanhar três constituintes de uma instituição bancária que tinham sido notificados para prestar depoimentos na PIC da Machava a respeito de um assunto que em seu entender envolve muitas somas de dinheiro, disse que o clima mudou quando insistiu em querer entender uma parte do processo que a polícia estava a manter em penumbra.
Na sequência da sua insistência, avança, o agente que conduzia a investigação disse que “os advogados são muito bem pagos neste processo e depois esquecem-se dos agentes que tem acompanhado o processo” e o mesmo agente acrescentou que a polícia estava preparada para emitir mandatos de captura para as pessoas que o causídico assistia.
O nosso entrevistado afirma ter ficado mais ofuscado pois o mandato de captura quem emite não são agentes da PIC mas sim agentes legalmente capacitados, tal é o caso de comandantes de esquadras, juízes, etc.
Como saltou o muro
Coincidentemente, quando decorriam as audiências, um grupo de criminosos disparou tiros quando assaltava uma agência do Banco Austral, localizada algures e é com esta situação que o nosso afirma ter se sentido constrangido e simulou estar a receber um telefonema para poder sai da sala para testemunhar o que se estava a passar.
Entretanto, quando retoma à sala, entrou um agente que posicionou a arma por cima da mesa, com o cano virado para si, momentos depois entrou uma agente que estava a paisana e mais tarde entrou um agente da Brigada Anti-crime que ordenou que as pessoas que estavam na sala se retirassem, excluindo o advogado.
Entretanto, intimidado com aquela situação tentou despistá-los, saindo da sala, e pulou o muro da esquadra e o da vizinhança para tentar se sair da encruzilhada. Neste contexto, os agentes o perseguiram e dispararam ao ar para o limitar, foi quando começou a pancadaria que o levou ao leito do hospital. (sublinhados todos meus, EM)
Os depoimentos do advogado não me parecem fazer muito sentido, a não ser que a reportagem seja defeituosa. Não há dúvidas de que a polícia procedeu de forma vergonhosa e que se houver seriedade em relação à legalidade no país haverá consequências não só para os agentes envolvidos como também para os seus superiores hierárquicos. Não obstante, não está claro para mim o que o tiroteio no banco tem a ver com a história, porque os agentes o intimidaram e quiseram só ficar com ele e porque ele saltou o muro. De certeza que ele teve razões fortes para proceder dessa maneira, mas quais foram essas razões? Porque é que os agentes queriam ficar só com ele e porque achou ele que se tratasse de intimidação? Porque pensou ele que o melhor fosse “fugir”? Não percebo a história. Alguém aqui – o advogado ou o repórter – está a violar o nosso direito à razão omitindo informação que nos permita perceber o que se passou.
sábado, julho 14, 2007
O crime
Inquéritos
De quem é a responsabilidade pelo crime e insegurança no país?
| Ministro do Interior | ||
| 41% | |
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| Comandante-geral da Polícia | ||
| 40% | |
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| Agentes da polícia | ||
| 20% | |
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O jornal o País Online tem este novo inquérito online. Não se trata de um inquérito, para bem dizer. É um comentário à procura de confirmação. Com efeito, o que o inquérito diz são duas coisas. Primeiro, está a dizer que há crime e insegurança no país. O inquérito não prevê a opinião de quem não está de acordo com este diagnóstico. Parte do princípio de que há crime e insegurança no país. Leiam este comentário do Patrício Langa para perceberem porque é que esta suposição é problemática, ainda que aparentemente trivial. Segundo, o inquérito diz que a responsabilidade só pode ser de três órgãos: ministro do interior, comandante-geral da polícia e agentes da polícia. Mais ninguém. Procurador-Geral da República, nada. Sociedade, nada. Presidente da República, nada. Políticas económicas, nada. Acontecimentos na região (leiam o palpite de Ericino de Salema aqui no blogue do Egídio Raposo), também nada.
Interessante. Não estou a criticar o jornal pelo inquérito. Estou apenas a chamar a vossa atenção – já há muito que não o fazia – à forma como a realidade social pode ser artefacto da nossa metodologia.
A caixa de ferramentas do sociólogo
O problema (d)
O problema tem problemas. Fica bem dizer, como eu o faço, que a melhor contribuição que podemos fazer consiste na formulação de problemas? Esta afirmação faz mais sentido num contexto como o nosso, onde me parece haver uma maior preocupação com a elaboração de soluções para problemas ainda não definidos. Alguns entre vocês podem, todavia, contrapôr um outro argumento; podem, efectivamente, perguntar-me o que sobra para a sociologia num contexto em que o problema já está formulado. No caso da venda de bebidas alcoólicas, por exemplo, qual é o papel do sociólogo uma vez apurado que a questão é das bombas de combustível ao longo das avenidas com muitas discotecas e que os acidentes ocorrem às sextas e sábados?
A resposta simples a esta pergunta é: venha daí a solução! Sim, dirão alguns. Mas, e depois? O que acontece à ideia de que devemos formular problemas? Já podemos abandoná-la? Já podemos voltar ao conforto de “implementar” soluções? A pergunta é boa e a resposta vai ser, para alguns, um banho de água fria. Na verdade, o sociólogo deve, em minha opinião, ver a solução como um problema! Os problemas, lamento ter de dizer, não acabam. É só pensar um bocado em todas as “soluções” que cada um de nós conhece: quantos problemas não criaram? Puderam ser aplicadas da forma imaginada? Até que ponto alteraram a estrutura social do meio em que agiram? Que novos comportamentos suscitaram? Soluções são intervenções em meios sociais vivos e, por conseguinte, produzem efeitos difíceis de prever.
A independência foi a solução ao problema da opressão colonial. Vejam no que isso deu? Alguém teria imaginado o que depois aconteceu? As vacinas contra várias doenças foram também uma solução; alguém teria imaginado o desafio que a explosão demográfica, o aumento de população com necessidade de emprego, saúde, alimentação, etc. viriam a constituir? A melhoria da estrada que liga Maputo a Xai-Xai foi uma boa solução; alguém teria imaginado que o aumento do trâfego iria produzir mais acidentes? Que mais populações do interior iriam afluir às cidades bem como à berma da estrada para vender castanha? Que donas de casa haviam de abandonar as lides caseiras para ir comprar – “guevar”, como dizem – fruta no mercado da Macia para vender à berma da estrada?
É evidente que não quero sugerir, com estas perguntas todas, que devemos evitar as soluções a todo o custo. Não. Quero apenas dizer que há muita utilidade em considerar as soluções como problemas, pois é a partir dessa postura que teremos maiores probabalidades de fazer valer a nossa formação. A solução, repito, é uma intervenção num meio social vivo. O que é que isso significa para esse meio, para as pessoas que vivem nesse meio e para todos quantos estão de uma ou de outra maneira ligados a esse meio? Esta é que é a famosa “dimensão social” de não-sei-quantos de que tanta gente fala quando tem na mente práticas culturais, mulheres, crianças e os pobres.
Então, o Ministro do Comércio pediu ao seu sociólogo soluções. O sociólogo formulou o problema e identificou várias soluções. Delineou alguns cenários prováveis em resultado da opção por uma solução e pediu ao Ministro, diplomaticamente, para escolher a solução que ele acha politicamente responsável. A partir daí a tarefa do sociólogo começa a ser de elaborar os critérios de avaliação da aplicação da solução. Para esse efeito, ele precisa de ter uma ideia dos actores envolvidos, dos interesses em jogo, das articulações com outros factores e, sobretudo, da grande possibilidade de emergência de uma situação social nova que anula completamente a solução inicial. A nossa experiência está cheia deste tipo de situações. É só olhar para a liberalização económica. A ideia era de que com ela seríamos capazes de estimular a iniciativa privada. Isso aconteceu. Mas também a fraqueza do Estado daí resultante criou um novo tipo de funcionário público, um novo tipo de empresário, um novo quadro de trocas económicas que começou a fazer da solução um grande problema. A solução não é de anular a solução, mas sim de estar atento à sua implementação. A prevenção ao HIV: vamos distribuir preservativos. Muito bem, mas também, provavelmente, isso aumentou a promiscuidade, banalizou as relações sexuais, atentou contra a moral tradicional, criou novas formas de estar no mundo. Por mim podem continuar a distribuir os preservativos – sobretudo àquele preço! – mas nós os sociólogos devemos estar atentos às novas situações que isso cria.
Um aspecto que me parece de importância crucial, mas muitas vezes os nossos decisores políticos e nós mesmos descuramos, é o aspecto da avaliação do que é feito. Uma vez adoptada uma solução, como é que sabemos que ela surtiu os efeitos desejados? Como é que sabemos que foi bem aplicada? Como é que sabemos que pode ser alargada a outros problemas? Isto também faz parte da contribuição que um sociólogo pode dar. Que lições aprendemos da aplicação de uma solução? Será que a estrutura do Ministério ou da Organização em que trabalhamos é a mais adequada para responder a este tipo de situações? Será que existe pessoal suficiente? Será que existe necessidade de maior articulação com outras instituições? Nando Menete: Sei que ainda te devo uma resposta!
Quando oiço alguns jovens formados em sociologia a reclamarem das condições de trabalho, da falta de ocupação ou mesmo da ocupação em “coisas que não têm nada a ver com a sociologia” – som original – só me dá vontade de virar a cabeça e chorar amarga e copiosamente. Tanta água e tanta sede! Há tanto que podemos fazer. Não é o Ministro do Comércio que nos vai dizer o que fazer, somos nós que devemos dizer a ele o que podemos fazer. Não há nada neste mundo que não seja de interesse sociológico, nada onde o sociólogo não possa meter a sua colheirinha. É verdade que a generalidade pode ser um problema, mas nos dias de hoje, em que muita coisa técnica é feita por máquinas e computadores, leva vantagem quem tem a visão geral, quem pode estabelecer relações entre as coisas e, sobretudo, quem – vamos todos respirar fundo... – formula problemas!
terça-feira, julho 10, 2007
O direito à razão VI
"Conceituado" e "controverso"
O Patrício Langa acaba de me enviar uma notícia publicada no Diário de Notícias de hoje contendo excertos de uma postagem deste blogue. O título é “Governo de Guebuza é incompetente” e essa afirmação é-me atribuída. O artigo começa assim: O conceituado e mais controverso sociólogo da praça, Elísio Macamo, acaba de publicar mais uma das suas críticas sobre o pulsar do país e conclui que o Governo do Presidente Armando Guebuza é incompetente. Com a devida vénia trasncrevemos em partes a sua visão sobre a actuação do actual executivo moçambicano”.
Acho isto horrível, desonesto e pouco sério. Leiam, por favor, a postagem original aqui. É do dia 29 de Maio! Recente... !? O artigo não diz em parte nenhuma que o Governo é incompetente. O artigo diz apenas que certas actuações do Governo parecem estar apostadas em dar razão aos que dizem que ele é incompetente. Parecem-me coisas diferentes. Quando tiver razões para dizer que o Governo é incompetente di-lo-ei. Que há membros do Governo com uma actuação de abanar a cabeça, lá isso há. Mas não é o Governo. A nossa esfera pública precisa de maior discernimento para poder enfrentar os problemas que temos. Jornalismo desta natureza não ajuda.
O que significa “conceituado”, “controverso” e “com a devida vénia”? Parece-me mais um atentado ao nosso direito à razão. Estamos mal. Muito mal.
A caixa de ferramentas do sociólogo
O problema (c)
Que quadro teórico? Esta é a grande pergunta de qualquer estudante de sociologia empenhado na elaboração da sua tese. Posso utilizar a teoria de Goffman para analisar esta problemática? Ou a teoria da exclusão social? O meu problema é não ter ainda quadro teórico, dizem alguns. A minha caixa de correio está cheia de emails com estas inquietações todas. Onde está o problema? Ah, o problema de novo! Na verdade, o quadro teórico é um problema falso. Ninguém precisa dele, ou melhor, só precisa dele – e desespera – quem não reflectiu o seu problema devidamente. Dito de outro modo, um problema bem elaborado sugere ele próprio o tal quadro teórico.
O que é um quadro teórico? Ou melhor ainda, o que é uma teoria? Uma teoria é uma maneira de ver a realidade. É uma espécie de lentes que usamos para apreender o mundo. A teoria permite-nos ver certas coisas ao mesmo tempo que nos obriga a ignorar outras. A teoria sugere-nos problemas, questões, inquietações. No nosso dia a dia, usamos teorias sem nos darmos conta. Apreendemos a realidade de uma determinada maneira. Por exemplo, muitos de nós temos a convicção de que a polícia moçambicana é corrupta. Quando temos que lidar com ela prestamos muita atenção a tudo quanto relacionamos com esse comportamento. Se a polícia de trânsito nos manda parar e constata que o nosso pisca-pisca não funciona, interessamo-nos por tudo quanto nos possa indicar se é seguro propôr um pagamento ilícito ou não. Por exemplo, se o polícia disser, em resposta a nossa surpresa ao constatarmos que o nosso pisca-pisca de facto desapareceu – alguém tirou-o enquanto jantávamos no “Mundo’s” – “estamos mal, chefe! Que fazemos?”, alguns de nós podem ver nisso uma proposta discreta para “falarmos como homens”. Começamos a olhar para os olhos do polícia, perscutamos a sua expressão, vemos se tem barriga grande ou não – normalmente, os de barriga grande são corruptos, suponho – reflectimos sobre a melhor maneira de continuar a conversa cuidadosamente para sabermos se é de facto isso que o polícia quer.
Tudo o que fazemos nessa interacção não é mais nada senão o uso de um quadro teórico para entender uma situação. Devemos, portanto, dismistificar um bocado a noção de “quadro teórico”. Temos que a abordar como a coisa mais natural deste mundo. Algumas pessoas mais espertas do que nós, ou que nos antecederam na reflexão de certos problemas, propõem-nos certas formas de abordar um problema. Não é, contudo, obrigatório ter um
“quadro teórico” sancionado pelos manuais de sociologia. Pelo que me toca, um trabalho académico que não tenha referência directa a alguma teoria sociológica é perfeitamente legítimo, desde o momento que formule o problema devidamente. O quadro teórico ajuda aos que ainda não dominam as ferramentas da sociologia a encontrar a terminologia, as questões e possíveis respostas para descrever e resolver um problema. É mais fácil usar a perspectiva que outros elaboraram do que andar eu próprio à procura da linguagem mais apropriada. Porque reinventar a pólvora?
Voltemos ao nosso exemplo da venda de bebidas alcóolicas nas bombas de combustível. Este caso pode ser abordado de várias maneiras. Posso olhar para o caso na perspectiva do desvio. Esta perspectiva parte do pressuposto segundo o qual certas pessoas se comportam de uma maneira diferente da norma. Conduzem bêbados e provocam acidentes. Sendo assim, posso colocar várias questões: Existe uma norma sobre o perfil de um bom condutor no nosso país? (que eu saiba, predomina, entre nós, a ideia de que conduzir bêbado é sinal de masculinidade; é por isso que muitos condutores regozijam quando chove em Maputo, pois assim vão “mijar” água aos peões! portar-se mal na estrada é sinal de importância). Quem estabelece essa norma? Instituições? Pessoas? Como fazem isso? Quem são os que agem conforme a norma? Porque o fazem? Na mesma linha de pensamento podia adoptar uma perspectiva oposta, nomeadamente a da rotulagem. Diria, seguindo os preceitos dessa perspectiva, que o mais importante não é de facto o comportamento de desvio, mas sim o processo através do qual se define um determinado comportamento como sendo “anormal”. Podia também adoptar uma perspectiva funcionalista. Podia dizer que o comportamento de desvio é funcional à sociedade. É dessa maneira que aprendemos a valorizar o comportamento correcto.
Podia, por oposição, usar perspectivas mais agressivas, estilo conflito. Podia me referir a algumas abordagens marxistas para dizer várias coisas: (1) a proibição obedece a uma certa economia política. Quem sabe, se calhar os donos de supermercados ou de “bottle-stores” são grandes financiadores do partido no poder e acham que as bombas de combustível estão a tirar-lhes o negócio; (2) a proibição tem como função desviar a atenção das pessoas dos verdadeiros problemas como, por exemplo, más estradas, má sinalização e falta de condições de manutenção de viaturas – porque alguém deixou entrar muitos carros do Dubai; na verdade, o problema da relação entre álcool e acidentes não é pacífico. Muitas vezes, quando a polícia chega ao local do acidente a primeira coisa que faz é ver se os condutores estavam bêbados; mas se calhar o acidente se deveu ao mau estado da estrada e não tanto à condução corajosa que resultou da bebedeira; (3) a proibição é uma forma de disciplinar a classe média moçambicana que não tem outra maneira de manifestar o seu bem-estar senão pelo consumo conspícuo de álcool em público.
O importante neste exercício todo é reter a ideia de que o “quadro teórico” limita a nossa visão ao mesmo tempo que nos permite ver certas coisas com maior clareza. As teorias não abrem as nossas cabeças. Fecham-nas. Já cruzei com pessoas que estão preparadas a morrer em defesa de uma teoria. Deixam-se envolver por ela, esquecem completamente que ela é apenas um instrumento de trabalho. As teorias não podem ser usadas de forma doentia. Elas são mesmo um instrumento de trabalho. Se não nos permitem ver bem as coisas, temos que ter a coragem de as abandonar. O mundo que apreendemos por intermédio de uma teoria é um mundo necessariamente incompleto. É o mundo de uma única perspectiva. A realidade é uma ilusão, disse uma vez Einstein. E acrescentou: Muito embora seja persistente.
A prática da sociologia é isto. O mundo está na nossa cabeça. Se queremos ver o mundo bonito, limpo e coerente temos que enfeitar, limpar e organizar as ideias da nossa cabeça. O problema da onda de crime em Maputo presta-se ao exercício de formulação de perguntas. Que perguntas podemos colocar? O que sabemos mesmo? O que pensamos apenas que sabemos? Que ligações é que podemos estabelecer entre as manifestações do crime e outros aspectos da nossa sociedade e política?
O fenómeno da bicha X
Leiam a notícia que se segue e que extraí do jornal O País Online. Encontramo-nos mais abaixo:
Ministério da Educação e Cultura interrompe aulas
09/07/2007
A actividade lectiva do segundo trimestre vai registar uma interrupção de 14 de Julho a 17 de Agosto face ao Recenseamento Geral da População e Habitação a decorrer de vinte de Agosto a vinte e oito de Outubro.
O Ministério da Educação e Cultura indica que os Conselhos de notas decorrerão no período compreendido entre vinte e 24 de Agosto.
As Direcções Provinciais de Educação e Cultura deverão planificar actividades concretas a serem realizadas pelos alunos e professores que não estarão directamente envolvidos no Censo Populacional e habitacional.
O recenseamento populacional é importantíssimo para a organização da nossa sociedade e Estado. Não existe nenhum país organizado sem conhecimento sólido sobre a sua própria população. Não é à toa que a estatística tem esse nome. É a ciência do Estado. Trata-se dos números do estado. Há mais de três décadas que estamos independentes e depois dos revezes que sofremos – por exemplo, a guerra da Renamo – precisamos de voltar a tomar o pulso para podermos continuar em frente. Até aqui tudo bem.
O que não me parece estar bem é a forma como fazemos estas coisas. Interromper aulas não é coisa que se faça de ânimo leve num país que sabe o que está a fazer. Vai ser um mês inteiro durante o qual os alunos não vão ter aulas. Professores vão ser pagos sem estarem a fazer quase nada; funcionários vão ser pagos sem estarem a fazer quase nada; encarregados de educação vão ser obrigados a reorganizar o seu quotidiano só porque têm o azar de viver num país onde as coisas se fazem por cima do joelho. Compreendo a necessidade do recenseamento. Não compreendo a interrupção das aulas. Não percebo porque o Ministério da Educação pode ter tanta facilidade em tomar decisão tão pesada. Não entendo a quem pode servir tanta ausência de planificação, perspectivação e respeito pela sociedade.
A notícia diz que o Ministério manda as direcções provinciais de educação e cultura “planificar actividades concretas a serem realizadas pelos alunos e professores que não estarão directamente envolvidos no Censo Populacional e habitacional”. Acho que esta parte da notícia revela a dimensão do problema. Não são as direcções provinciais que devem planificar seja o que for. É o próprio Ministério da Educação. Este reparo sugere-me a ideia de que o nível de centralização do nosso sistema político não é bom para a saúde da governação. As direcções provinciais de educação deviam ter a possibilidade de recusar este tipo de “orientações”. Essa seria uma maneira de garantir a responsabilidade nos “níveis centrais”.
Este é um exemplo muito complicado do fenómeno da bicha. O problema não é a falta de informação demográfica sobre o país. O problema é a incapacidade de integrar o processo de estruturação do país no ritmo normal da sociedade. Os que trazem a solução para o problema da estruturação do país são, infelizmente, parte integrante do problema. Ilídio, Júlio, Steyler: o que diz a nossa legislação sobre uma decisão tão pesada como esta? Os encarregados de educação podem reclamar? Os governos provinciais podem recusar a medida em defesa dos seus alunos? Existem mecanismos jurídicos para que as pessoas e órgãos inferiores se protejam da prepotência dos órgãos centrais? Eugénio, como se podem contabilizar os custos de uma operação desta envergadura? Não existem realmente outras formas eficientes de fazer estes levantamentos? Vai ser o mesmo fiasco da função pública?
segunda-feira, julho 09, 2007
O direito à razão V
Li no País Online uma entrevista feita pelo jornalista Lázaro Mabunda ao Procurador-Geral da República com o título “Polícia é fraca” (leiam-na aqui). Li a entrevista com o interesse natural de saber que ideias é que as instituições e pessoas de direito têm do crime.
O Procurador-Geral da República faz, a dado passo da entrevista, uma chamada de atenção muito importante em relação à necessidade de distinguir claramente entre quantidade e qualidade do crime. Já critiquei em tempos aqui a ausência dessa distinção nas nossas estatísticas. Na verdade, a espectacularidade do crime não nos deve levar a supor que o crime tenha aumentado. Esta distinção é muito importante e está de parabéns o Procurador-Geral da República por a fazer.
Infelizmente, isto é tudo quanto se pode dizer em abono desta entrevista. As restantes declarações nela prestadas são não só uma perca de tempo para quem quer perceber a ideia que a Procuradoria-Geral da República tem sobre o crime como também um autêntico atentado ao nosso direito à razão. A afirmação segundo a qual a nossa polícia seria fraca (polícia é fraca) não se refere a nada de substancial. Segundo o Procurador-Geral da República tudo se resume aos meios. Ela é fraca porque não tem meios. Segundo ele, “[O]lha, eu costumo dizer que a força do Estado tem que ser mais forte do que a força do crime, por mais organizada que seja. Nós conhecemos países em que os criminosos utilizam até helicópteros. Vocês conhecem, costumam a acompanhar o que acontece na América Latina. É preciso dizer que a nossa polícia tem que ser mais potenciada. A nossa polícia não pode continuar a caminhar a pé, por aqui ou por ali”.
Acho isto é grave. É verdade que a nossa polícia não dispõe de meios. Contudo, devemos perguntar se esse é de facto o problema. Se a nossa polícia tivesse meios seria mais operacional? Que conceito de crime é que a polícia tem? Será que esse conceito de crime é adequado para a natureza do crime em Maputo? Será que a estrutura das nossas forças de lei e ordem é adequada para absorver os meios que lhe faltam? Dispõe ela de capacidade institucional e humana para se reforçar? Faz sentido dar meios a uma polícia que se deixa surpreender por bandidos só porque, já sabemos, não tem meios? Acho isto grave porque não me parece apropriado que o Procurador-Geral da República – ou qualquer outro dignatário – insistam constantemente nesta tecla dos meios. O disco está furado. Os meios só são um problema para quem tem uma ideia clara de como quer combater o crime.
Depois tem este argumento enformado pela lógica de Manhenje: em todo o mundo também acontece. Eis o Procurador-Geral no original: “Há situações em que – nós sabemos que nos países desenvolvimentos – há assassinato de primeiro-ministro. Vocês podem perguntar como é que isso é possível, se é protegido? Pode acontecer! O criminoso prepara-se, o criminoso planifica. Nós não sabemos o que é que vai acontecer. Um ataque surpresa espectacular pode-nos desorganizar, mesmo com a nossa força, porque é surpresa. Vocês conhecem situações em que a polícia tem estado a neutralizar criminosos. Nós temos situações aqui em que a polícia trocou tiros com criminosos. Portanto, os criminosos da nossa sociedade também têm meios”. Este parece-me o maior atentado à nossa razão.
O problema, só para voltar a bater na mesma tecla, não é que os bandidos não possam surpreender a polícia. O problema, insisto, não é que a polícia não seja capaz de prender os bandidos. O problema é que exercício de reflexão é feito na sequência de um acontecimento dessa natureza. Um faz visita relâmpago, outro diz que em todo o mundo acontece. Que confiança é que devemos ter nestas pessoas? Eu pelo menos não tenho nenhuma. Perdi-a não por achar que a nossa polícia deva realmente controlar o crime, embora se trate de uma expectativa legítima.
Perdi-a porque não tenho a certeza de que esta gente faça a mínima ideia do que está a fazer, e isto na melhor das hipóteses, ou do que é preciso fazer, na pior. Perdi a confiança pelo simples facto de que esta gente persiste em nos tratar como imbecis. Nós temos direito à razão e temos que insistir nisso. Pode acontecer em todo o mundo que os bandidos ludibriem a polícia, mas o Estado e a política têm que torcer o nariz e interrogar os seus próprios meios, medidas, reflexão e ideias sobre o crime e trabalho da polícia. Os bandidos não se saíram bem porque estão melhor organizados. Saíram-se bem porque a polícia está aparentemente completamente desorganizada estimulada por gente que pensa que visitas relâmpagos resolvem problemas e que remeter ao que acontece em todo o mundo explica tudo quanto é preciso explicar.
Quando instituições do Estado violam o nosso direito à razão isso é sinal claro de que a noção de responsabilidade não faz parte do repertório de valores que orientam a acção do aparelho estatal e da política. Fiquei preocupado com as notícias sobre crimes espectaculares em Maputo nas últimas semanas, mas não fiquei desesperado. Agora sim, depois de ler esta entrevista estou desesperado. Salve-se quem puder!
domingo, julho 08, 2007
Argumentar
O bom e o bom
Acabo de acompanhar o relato do jogo Desportivo-Maxaquene do Moçambola pela RM. Ouvi um dos locutores presente no local da contenda a criticar severamente a arbitragem. A dado momento da sua contestação ele rematou que “bons jogos” precisam de “bons árbitros”.
Acho que se exprimiu mal. Na verdade, o que ele queria dizer é que jogos que envolvem equipas importantes como é o caso do Desportivo e do Maxaquene precisam de árbitros consagrados capazes de garantir que a expectativa suscitada pelo facto de se tratar de duas equipas boas se confirme através de um bom jogo. Ou por outra, o “bom jogo” não é anterior ao jogo, mas pode se consumar se o árbitro for “bom”.
Acho este assunto curioso. Não sei como é que os adeptos do futebol entre nós reagem a afirmações desta natureza. Acenam com a cabeça e dizem, “sim, senhor!”? Suspeito que sim. E os sociólogos, como reagem? Acho que este tipo de afirmações proporcionam-nos documentos muito interessantes da forma como argumentamos no quotidiano. No fundo, o locutor tem razão, isto é, a sua exigência faz sentido. Mas aí está o problema. Ele tem razão porque por um grande esforço de abstração e reflexão lá conseguimos interpretar o que ele quer nos dizer. A letra da sua afirmação não nos diz o que ele quer realmente dizer. Temos que fazer um grande esforço de reflexão. As coisas começam mal logo com a própria palavra “bom” que é, de certeza, diferente nos dois casos. Quais são os critérios de “bom” em “jogo” e quais são os de “bom” em “árbitro”? Vimos mais acima que o mais provável é que ele quisesse dizer “importante” e “consagrado”, respectivamente.
Porque insisto nisto? Em parte por ser mesquinho, mas em larga medida por achar que a nossa esfera pública emperra justamente aqui. Nem tudo o que dizemos e ouvimos faz sentido. Contudo, todos nós partimos do princípio de que faz sentido. Não cultivamos o hábito de obrigar as pessoas a falarem coisa com coisa. Libertamos as pessoas dessa obrigação completando nós próprios o sentido. Acho mau. Assuntos como o crime, o grande tema agora, teriam melhor tratamento se prestássemos atenção à forma como deles falamos. Em suma: precisamos de aprender a formular problemas. É mesmo uma questão de formular problemas. Qual é o problema da arbitragem em Moçambique? Bons jogos precisam de bons árbitros? Ou o problema é que há grandes desníveis na arbitragem e que é preciso nivelar as coisas? Jogos entre equipas “grandes” devem ser arbitrados pelos melhores profissionais e os outros vão para as urtigas? Qual é o problema?
A caixa de ferramentas do sociólogo
O problema (b)
Quando escrevia que a identificação de uma “abordagem sociológica” de um problema e a elaboração de uma tese são duas faces da mesma moeda, queria dizer que, na essência, o desafio é o mesmo. Formular um problema significa estabelecer uma relação entre duas variáveis ou, para ser mais geral e menos técnico, entre dois conceitos. Vimos o problema da venda de bebidas alcoólicas nas bombas de combustível e o número de acidentes de viação. Há vários outros problemas que poderíamos imaginar. Na recente iniciativa presidencial sobre o HIV houve grupos cívicos que formularam o problema da indumentária feminina e o aumento dos índices de infecção; o Conselho Superior da Comunicação Superior, a propósito da publicação das caricaturas de Maomé pelo jornal Savana, formulou o problema da violação da lei de imprensa e a inviabilização do projecto de unidade nacional. Como podem ver, é sempre conceito em relação a outro conceito.
Isto não quer dizer que a relação seja sempre causal. Podemos também estabelecer relações em que os dois conceitos se influenciam mutuamente ou relações em que os conceitos juntam forças para ir influenciar outros conceitos. Mais detalhes sobre este assunto podem ler no livro “A leitura sociológica” (2004, Imprensa universitária, Maputo) por mim organizado. No artigo anterior concentrei a minha atenção sobretudo na forma como um sociólogo – fora da universidade – deve encarar as tarefas que lhe são colocadas. Ele tem que formular o problema por si próprio e não se dar por satisfeito pela formulação que outros fizeram. No fundo, esta atitude não é diferente daquela que um estudante de sociologia deve assumir ao formular o seu projecto de tese. A pergunta é a mesma: qual é o problema?
O trabalho académico difere do desafio profissional porque o académico tem que tornar mais explícitos os seus pressupostos teóricos. Ou por outra, o que mais interessa num trabalho de tese – pelo menos para mim como supervisor – não são os resultados, mas sim a demonstração, pelo estudante, da sua capacidade de observar procedimentos sistemáticos na sua elaboração. Alguém me pode dizer, por exemplo, como conclusão do seu trabalho de tese, que a corrupção está a comprometer o desenvolvimento de Moçambique. Contudo, se eu não puder ver como é que esse estudante chegou a essa conclusão, não posso aceitá-la. Eis aqui, por acaso, uma diferença entre a ciência e a superstição: os procedimentos da ciência reclamam-se transparentes!
É verdade que alguns de nós teimamos em fazer ciência como se estivéssemos a fazer superstição, mas isso não significa que as coisas sejam, na sua essência, assim mesmo. A este propósito vejam, por favor, o decálogo do cientista social preparado por Carlos Serra. No ano passado, houve pessoas no Xai-Xai que me disseram que havia pessoas que voavam. Deram como exemplo o caso de uma senhora encontrada nua e estatelada numa árvore, de madrugada. Escusado será dizer que nenhuma dessas pessoas que me contou a ocorrência vira a tal senhora: ouviu de “fonte digna de confiança” que viu com os próprios olhos. Isso até nem interessa. Porquê a suposição de que essa senhora teria “voado”? A resposta é de que as bruxas voam, que essa senhora esgotou a poção mágica que lhe permitia voar por razões ainda desconhecidas, e que normalmente voam nuas. Só acredita nisto quem “quer” acreditar.
Na ciência, contudo, precisamos de muito mais do que a simples vontade de “querermos” acreditar. É aqui onde os conceitos desempenham um papel extremamente importante na elaboração de um trabalho académico. Já vimos que opomos dois conceitos. O que significam, porém, esses conceitos? Voltemos ao exemplo do álcool e acidentes: o que significa “venda de bebidas alcoólicas nas bombas de combustível”? e “acidentes de viação”? Basta olhar apenas para a quantidade global de bebidas alcoólicas vendidas pelas bombas ou tenho ainda que ver quem compra, quando, que tipo de bebida e com que fim? Igualmente, basta olhar apenas para os acidentes que se registam em Maputo ou então tenho também que ver se esses acidentes envolvem pessoas embriagadas, pessoas que compraram a bebida nas bombas, tipo de acidente, etc.? Quando é que estou a falar de “venda de bebidas alcoólicas nas bombas de combustível” ou de “acidentes de viação” quando estou a falar de “venda de bebidas alcoólicas nas bombas de combustível” ou de “acidentes de viação”? É aqui onde o trabalho académico se torna interessante. Não é aconselhável formular problemas na base de conceitos vagos. É preciso defini-los, condição essencial da sua operacionalização, mesmo para aqueles que tendem para o trabalho qualitativo.
É na reflexão sobre o sentido dos conceitos onde encontramos subsídios para a interrogação do que nos é sugerido como problema, como também elementos para a clarificação da nossa questão de partida. Se no meu trabalho preliminar de clarificação de conceitos chego à conclusão de que há bombas de combustível que vendem mais álcool que as outras, e que nem por isso há um grande envolvimento das pessoas que compraram das líderes do mercado em acidentes de viação, posso, com toda a propriedade, colocar uma questão de partida: será que o tipo de clientes que uma determinada bomba de combustível tem explica a relação entre venda de bebidas alcoólicas e acidentes de viação? Afinal, é bem possível que não seja só o consumo de álcool que conduz aos acidentes, mas sim o tipo de pessoas que consome álcool. Alguns engraçadinhos vão, de certeza, perguntar que diferença isso faz? Em minha opinião muita. Se calhar a solução não é de proibir a venda, mas sim de trabalhar com o tipo de pessoas vulneráveis ao consumo descontrolado do álcool. Quem sabe, se calhar trata-se de maridos ou esposas abandonados que vão afogar as suas amarguras no álcool, de preferência à noite, longe dos olhares dos demais familiares e em sítios onde são anónimos. Quem sabe? O sociólogo nunca sabe, é curioso, informa-se, certifica-se, desconfia.
Portanto, não basta estabelecer uma relação entre dois conceitos – isto é, formular uma hipótese – é preciso também formular uma questão. Na verdade, é a partir dessa questão que podemos formular hipóteses claras e exequíveis. No fundo, elaborar uma tese consiste em formular uma questão de pesquisa que nos permite formular hipóteses. Essas hipóteses são uma espécie de trabalho de casa. Elas orientam-nos para o tipo de informação que precisamos de recolher para podermos responder à nossa pergunta. Este reparo dá-me a oportunidade de chamar a atenção de alguns de nós para algo que tenho visto com certa frequência. Algumas pessoas usam o princípio do operário que só tem uma ferramenta: o martelo. Para ele todos os problemas são um prego. Isso não é correcto. Depois de elaborar as hipóteses não coloco a pergunta que toda a gente instintivamente coloca de saber, nomeadamente, como elaborar o guião de entrevistas.
Tenho primeiro que olhar para as minhas hipóteses: Que tipo de informação é que elas exigem? Onde e como posso obter essa informação? Lendo relatórios oficiais? Abancando numa bomba e ficando a “piar” o movimento? Falando com pessoas? Que pessoas? Falando o quê? A entrevista não é o único método à nossa disposição para a recolha de dados. Há trabalhos que não precisam de entrevistas. Mesmo os que precisam, não precisam de 30, 50, 70 ou 100. Podem só precisar de 10. Tudo depende das hipóteses e da questão que se pretende responder! Aqueles que fazem sociologia automaticamente é que nos dão mau nome por aí. É preciso reflectir, sempre, sem parar, a cada passo. Sei que ainda não esgotei o tema. Ainda falta falar sobre a famosa “perspectiva teórica”. Fica para a próxima. Enquanto isso, porém, vão formulando questões e hipóteses em torno deste problema. Acima de tudo, peguem nestes subsídios e comecem a interpelar o crime no nosso país. O que significa “polícia” no nosso contexo? O que significam afirmações como “o crime está a aumentar no país?”, “a polícia é ineficiente”, “o ministério do interior não aguenta com isto”, etc.? que relações estão a ser estabelecidas e que sustento empírico é que podem ter?
sexta-feira, julho 06, 2007
A caixa de ferramentas do sociólogo
O problema (a)
Tenho dito e escrito que a maior contribuição que a sociologia pode fazer à sociedade, política e economia consiste em formular problemas. Tenho consciência de que nunca consegui convencer ninguém a este respeito. Mesmo os estudantes aceitam esta máxima por conveniência académica – notas! Reconheço, é claro, que esta ideia não é incontroversa. Na verdade, ela entra em dissonância com uma ideia mais ou menos positivista, segundo a qual a função da actividade científica devia ser de ajudar na resolução de problemas. A ideia de uma ciência positiva vem justamente daí: através do conhecimento positivo seremos capazes de tornar o mundo num lugar mais agradável.
Podia insistir sobre este ponto para procurar descrever uma linha genealógica entre o positivismo e o totalitarismo. Não o vou fazer para não misturar assuntos. Fico apenas pela minha própria convicção. O que significa, então, dizer que a sociologia formula problemas? Bom, isso significa que não damos as coisas por adquirido, somos críticos e exercemos o nosso dever cívico brilhantemente resumido por Carlos Serra como a recusa de aceitar verdades simples. Na realidade, um dos nossos maiores problemas (!) em Moçambique – já escrevi sobre isto – é de procurar sempre por soluções – quase que como reflexo – para problemas mal definidos ou que ainda nem foram formulados: vamos combater a corrupção! Vamos eliminar a pobreza! Vamos acabar com a criminalidade! Vamos reduzir os índices de infecção do HIV! Vamos acabar com a intolerância! Vamos promover a Unidade Nacional!
É aqui onde residem, talvez, algumas dificuldades dos sociólogos ainda em formação ou que se encontram já a trabalhar. Dos estudantes tenho recebido pedidos de apoio na formulação da tese; dos que estão a trabalhar recebo solicitações para ajudar a “abordar o problema sociologicamente”. Trata-se de duas faces da mesma moeda. Tanto num como no outro caso, o desafio central é de formular um problema. Ou por outra, onde está o problema? Qual é o problema? Porque o problema é um problema? Que razões temos nós para supor que estejamos perante um problema? É problema para quem exactamente? Como é que o problema se articula com outros problemas ou mesmo soluções?
Vamos ser mais práticos. No ano passado, o Ministério do Comércio convocou os proprietários de bombas de combustível para discutir a questão da venda de bebidas alcóolicas. A ideia do Ministério até era de proibir a venda. Apoiava-se nos elevados índices de acidentes de viação no país para dizer que a proibição poderia contribuir para a redução desses acidentes. Suponhamos que o Ministro tivesse pedido ao seu assessor sociólogo para propor soluções ao problema, o que diria ele? Iria o sociólogo (ou socióloga, subentenda-se) fazer o mesmo que o Ministro fez e mandar proibir a venda? Iria ele propor campanhas de sensibilização dos automobilistas? Iria ele sugerir a compra pela polícia de trânsito de aparelhos de detecção de álcool? Como é que o nosso sociólogo iria “abordar o problema sociologicamente”? Já agora, de que maneira é que esta questão poderia ser transformada num trabalho de tese?
O sociólogo iria, em primeiro lugar, desconfiar. Ele iria procurar saber se entendeu o problema. Qual é o problema? O Ministério do Comércio pareceu estar a sugerir uma relação entre a venda de bebidas alcólicas nas bombas de combustível e o número de acidentes de viação no país. É uma hipótese clássica: quanto mais álcool for vendido nas bombas de combustível, maior será o número ou a frequência de acidentes de viação. Temos duas variáveis em relação causal: venda de álcool e número de acidentes. Está claro este problema? É evidente que não! Há várias inferências que são feitas: (1) As pessoas que compram álcool nas bombas de combustível, consomem-no logo ali, entram no carro e pufff! (2) as pessoas que compram álcool nas bombas de combustível compram-no em quantidades suficientemente grandes para ficarem de tal maneira “grossas” que perdem o controlo do carro; (3) os acidentes que se verificam em Maputo resultam da condução em estado de embriaguês; (4) essa embriaguês vem de álcool comprado em bombas de combustível; (5) todos os acidentes que ocorrem em resultado de condução em estado de embriaguês precisam necessariamente de ser reduzidos; e por aí fora. Deixo como trabalho de casa à imaginação de cada um de nós prosseguir com as inferências. São muitas, vão ficar espantados!
O sociólogo iria, em segundo lugar, interrogar esta formulação do problema. Existem provas que fundamentam esta hipótese? Aproveito este ponto da discussão para chamar atenção para um aspecto muitíssimo importante, frequentemente discurado por muitos de nós: a formulação de um problema (no Ministério ou na faculdade) não é coisa que se faça à sombra de uma acácia na base de cogitação. Não se faz na praia, no cabelereiro ou na barraca. Muito menos se faz perguntado simplesmente ao supervisor. É um trabalho de investigação! É preciso informar-se, obter dados, ler relatórios sobre problemáticas idênticas, entrevistar pessoas, observar o comportamento das pessoas, etc. O que dizem as estatísticas dos serviços de viação do Ministério do Interior? Quais são as quantidades de álcool vendidas pelas bombas de combustível? Chegam mesmo para justificar a inferência? Quando é que se compra mais álcool nas bombas? Os acidentes verificam-se nesses dias? Quem compra álcool? Homens? Mulheres? Jovens do sexo masculino? Feminino? Nacionais? Estrangeiros? Gente de Maputo? De fora? Onde se verificam os acidentes? Perto das bombas? Em que tipo de estradas? A que horas do dia ou da noite? Que tipo de viaturas estão envolvidas? Que tipo de acidentes são? Atropelamentos? Choques? Derrapagens? Aqui também deixo como trabalho de casa à imaginação de cada um de nós formular mais perguntas necessárias à compreensão da dimensão do problema. Há mais, não duvidem!
O sociólogo iria, em terceiro lugar, partir da resposta a estas perguntas todas para as soluções. É bem provável que a proibição se afigure, realmente, como a melhor solução para o problema – se, de facto, o problema se apresentar dessa maneira. Mas é também possível chegar à conclusão de que o problema não é do álcool vendido nas bombas de combustível, mas sim do tipo de pessoas que vão lá comprar o álcool. Se não for nas bombas de combustível vai ser noutro sítio. O Ministro vai também proibir? A solução, nesse caso, seria, talvez, de fazer uma daquelas famosas campanhas de sensibilização dos automobilistas, tipo cartazes publicitários com dizeres “conduzir sóbrio é maningue naice” ou “conduzir sóbrio é que está a dar” ou ainda “pode ser a nossa cerveja, à nossa maneira, mas a morte é a mesma”. Isto é que é fazer sociologia. FORMULAR PROBLEMAS! Mais uma vez, dêem largas à imaginação e verão que há várias formulações possíveis do problema. Não é o álcool, mas sim as estradas, os sinais de trânsito, o estado mecânico das viaturas,...