A estrutura social segundo o Marxismo
A fechar a última postagem sobre a diferenciação social perguntei como era possível regular as relações sociais com base em subsídios extraídos da solidariedade mecânica num contexto social tão orgânico como o Moçambique de hoje. O Marxismo tem uma resposta, digamos, histórica, para este problema. O Marxismo baseia-se, como todos sabemos, no materialismo dialéctico, isto é na evolução da capacidade produtiva das sociedades em resultado de contradições internas que produzem continuamente teses, antíteses e sínteses. O principal motor destas contradições é o que se passa ao redor do modo de produção, nomeadamente a luta de classes. Com efeito, o Marxismo pressupõe que modos de produção opõem pessoas com interesses divergentes que ajem, contudo e talvez até de forma inconsciente, no interesse da prossecução da história até ao seu destino final: o comunismo.
A análise do capitalismo feita pelo Marxismo opõe, portanto, uma classe detentora dos meios de produção, os capitalistas, e uma classe que apenas vende a sua força de trabalho, o proletariado. Os capitalistas vivem da mais-valia, isto é do lucro que o operário produz para além da satisfação das suas necessidades básicas. Essas necessidades seriam calculadas de acordo com o que um operário precisa para reproduzir a sua força de trabalho. Ou por outra, o operário trabalha para trabalhar para o capitalista. É daí que vem a noção de “exploração do homem pelo homem”, cuja eliminação (muito antes da pobreza absoluta) constituiu o principal objectivo da Frelimo. Os marxistas estão divididos quanto à melhor forma de interpretar a exploração. Uns dizem que é justamente aí onde reside a injustiça do sistema capitalista; outros, porém, dizem que a exploração não é injusta, antes pelo contrário, ela é necessária para que a história prossiga a sua marcha inexorável.
Não quero resolver essas diferenças aqui. O que importa reter é a ideia de que a luta de classes, portanto a oposição entre os interesses dos capitalistas e dos operários, é o motor da história, o que estrutura uma sociedade. Surgem daqui vários conceitos interessantes desenvolvidos por marxistas mais recentes como Gramsci que fala da hegemonia, Althusser que fala dos aparelhos ideológicos estatais ou mesmo Negri e Hardt, muito recentemente mesmo, que falam do império. Todos estes conceitos procuram nos dar subsídios que nos permitam descrever as contradições bem como as condições de reprodução do modo de produção na base da sociedade capitalista. O problema que para nós se coloca é se o modo de produção capitalista nos ajuda a descrever a nossa sociedade. Ou por outra, existe capitalismo em Moçambique? Existiu na altura em que a Frelimo ensaiou uma transformação socialista? Aí teremos que recuar à pergunta que abre a reflexão.
Na verdade, este problema colocou-se também na União Soviética e foi respondido por Lénine com a ideia de que tudo quanto é necessário é um grupo de pessoas que interpreta correctamente a história e apressa a resolução dos conflitos de classe introduzindo formas socialistas de organização social. Daí a ideia de partido de vanguarda. Daí também a ideia de que uns sabem melhor o que é bom para o resto. Daí mesmo a profunda aversão da Frelimo revolucionária pelo pluralismo político, uma aversão que se fundava na ideia de que um moçambicano que não é a favor do projecto socialista tem simplesmente falsa consciência. Isto é crítica política e leva-nos para fora do assunto. O assunto é saber de que maneira caracterizar Moçambique em termos marxistas. A Frelimo decidiu que existia um sistema colonial-capitalista baseado na exploração dos habitantes das colónias. Essa exploração implicava a negação de direitos fundamentais, um dos quais Eduardo Mondlane brilhantemente analisou no seu livro “Lutar por Moçambique”, a saber a política de assimilação que consistia em aceitar o africano como pessoa apenas se ele abandonasse a sua identidade como africano.
O sistema colonial-capitalista era feito de várias componentes, dentre as quais destaco, por exemplo, o trabalho migratório para os países vizinhos, cujas consequências sociológicas foram muito bem descritas no melhor livro de ciências sociais produzido em Moçambique: O mineiro moçambicano. Tudo isto criou uma estrutura própria da sociedade moçambicana que podíamos, em termos marxistas, reduzir à oposição entre os que beneficiavam do sistema colonial-capitalista e os que eram vítimas desse sistema. Dito de outra maneira, o sistema criou desequilíbrios estruturais entre regiões, entre raças, talvez, entre praticantes de religiões, entre falantes de uma ou outra língua, entre assimilados e indígenas, e por aí fora. Não tenho a certeza se o discurso revolucionário e marxista da Frelimo teve a consciência exacta da estrutura social dentro da qual estava a intervir. O livro “O mineiro moçambicano” tinha, mas a política da Frelimo desses anos revelou pouco conhecimento dos resultados do trabalho feito pela equipa. O discurso insistiu numa simples oposição entre as massas operário-camponesas, por um lado e coadjuvadas por um partido de vanguarda esclarecido, e a pequena burguesia que precisava ainda da estrutura colonial-capitalista para se reproduzir socialmente.
Penso que alguns problemas que temos agora em perceber as transformações resultantes da implementação de políticas neo-liberais estão ligados a uma compreensão ainda deficiente das consequências estruturais do tal sistema colonial-capitalista e, naturalmente também, do uso bastante descuidado de terminologia científica como “burguesia”, “classe” e mesmo “capitalismo”. Na perspectiva marxista, não estamos hoje perante a incompatibilidade de sistemas sociais mecânicos num contexto orgânico, mas sim perante a sobrevivência de elementos “retrógrados” que é preciso ultrapassar para o bem da progressão histórica. É quase a mesma coisa, mas há nuances importantes que até nos ajudam a perceber a confusão que paira ao nível da análise das nossas opções económicas e políticas. O que significa “formar uma burguesia nacional”? O que significa “valorizar a autoridade tradicional”? O Marxismo ainda não perdeu a sua relevância analítica, mas como todo instrumento analítico precisa de ser manuseado com cuidado e conhecimento de causa. Infelizmente, nem muitos dos que o adoptaram nos gloriosos tempos chegaram a percebê-lo. De que maneira é que ele nos pode ajudar a perceber a estrutura social actual do nosso país?