
Aqui vai mais uma fala sem consequências. Recebi, através do Moçambiqueonline, um “comunicado de imprensa” da autoria do Conselho Nacional da Juventude. Reproduzo-o para que não me acusem de má fé na interpretação. É um documento cheio de imprecisões e chavões ao ponto de me interrogar se alguém se pode orgulhar de uma juventude assim. O comunicado diz que se lançou um concurso público no âmbito da capacitação institucional dos distritos, mas não diz para que foi esse concurso. É possível depreender, contudo, que se tratou de qualquer coisa em que recrutavam pessoas para trabalhar em alguma coisa. Depreendo isso a partir da afirmação segundo a qual teriam ficado apurados 26 jovens.
A imprecisão continua no terceiro parágrafo com a informação segundo a qual alguns dos jovens que ficaram apurados beneficiaram do facto de terem participado no projecto “férias desenvolvendo os distritos” (ver este comentário). O benefício parece ter vindo do facto de terem obtido um “conhecimento real das potencialidades e das áreas aonde intervir para o desenvolvimento dos mesmos, bem como do pleno domínio da visão e dos planos do Governo para tornarem os distritos nos verdadeiros pólos de desenvolvimento”. A imprecisão aqui reside no facto de não estar claro que tipo de testes foram, o que é um “conhecimento real das potencialidades” e porque é que o “pleno domínio da visão dos planos do governo” (como se mede?) é critério para um concurso público. Concorreram para quê exactamente? E ainda não chegamos ao fim das imprecisões.
No quarto parágrafo escreve-se que os jovens estão já numa formação de capacitação que vai culminar com a sua contratação numa cerimónia oficial. Capacitação em quê? Em que consiste essa “capacitação”? Mais imprecisões estão no parágrafo seguinte, no sexto, onde se destaca que esta contratação é diferente por “... dar enfoque aos jovens dos 18 aos 35 anos e de não exigir os já habituais e estigmatizantes 5 anos de experiência profissional, facto que vem de encontro ao tão almejado primeiro emprego para jovens”. Não percebo esta frase. “Jovens dos 18 aos 35 anos” é muita e variada gente. Em que medida se aplica a regra dos 5 anos de experiência para cada grupo etário, profissional e educacional contido nessa categoria? E porque é que o Governo de Cabo Delgado não está interessado na experiência profissional? Não está? O que significa “estigmatizante”? Que tipo de pessoa é essa que tem 35 anos e ainda não tem experiência profissional? O problema ainda pode ser da regra dos 5 anos?
No parágrafo a seguir vem uma frase simplesmente críptica: “a contratação de jovens para o primeiro emprego, quer para o sector público, quer para o privado, é uma via, se não a mais importante, para acabar com as altas taxas de desemprego no seio da camada juvenil e de todos os males que dele advêm, posto que com o primeiro emprego, os jovens adquirem capacidade de endividamento e assim poderão estar em condições de recorrerem a empréstimos Bancários para implementarem seus projectos pessoais de criação de riqueza, lá nos distritos aonde estiverem residindo, traduzindo em realidade em solo fértil toda a bagagem teórica adquirida nos bancos da escola”. Alguém me explica o sentido disto? Os jovens percebem esta linguagem críptica? É fala codificada? O que se está a dizer aqui? Que há altas taxas de desemprego juvenil e que elas têm a ver com o facto de os jovens não conseguirem o primeiro emprego (por causa da regra estigmatizante dos 5 anos de experiência profissional)? Que basta ter o primeiro emprego já se pode pedir empréstimos bancários? Que os jovens sem emprego estão cheios de ideias de como criar riqueza (leiam este e mais este comentário sobre palavras nojentas), mas não podem porque lhes falta o primeiro emprego? Que quando tiverem a oportunidade de contrair empréstimos hão-de ir (ou ficar no) ao distrito criar riqueza? E que males são esses que a falta do primeiro emprego cria? Socorro, a nossa juventude está incoerente!
Finalmente, a apoteose de toda a imprecisão vem no último parágrafo: “bem haja o Governo de Cabo Delgado que faz jus a tradição deste nosso Moçambique, ao ter sido lá disparado o primeiro tiro contra a opressão colonial portuguesa, e de lá, ser hoje lançada a fórmula para um maior engajamento dos jovens nas várias frentes da luta contra a Pobreza Absoluta”. Que tradição moçambicana consiste no facto de se ter dado o primeiro tiro contra a opressão colonial em Cabo Delgado? Referem-se à Luta Armada de Libertação Nacional? É tradição moçambicana? Fazer concursos de contratação de “jovens” dos 18 aos 35 anos é a “fórmula” para maior engajamento dos jovens na luta contra a pobreza absoluta? Era disso que estávamos à espera? Os jovens que escreveram este comunicado impreciso estão mesmo a honrar alguma “tradição moçambicana”? A nossa independência teria sido possível com tanta imprecisão e chavões? Mas o mais grave reservo para depois da leitura do “comunicado de imprensa”. Encontramo-nos mais abaixo:
“26 jovens admitidos pelo Governo de Cabo-Delgado”
No âmbito da capacitação institucional dos distritos da Província de Cabo Delgado, o Governo Provincial, com apoio do PNUD através do Programa de Descentralização e Capacitação Distrital da Província de Cabo Delgado (PROCADIS) lançou um concurso Público em Abril último do qual ficaram apurados 26 jovens de idades compreendidas entre os 18 aos 35 anos.
Uma grande parte destes jovens, participaram no projecto “férias desenvolvendo os distritos” coordenado pelo Conselho Nacional da Juventude (CNJ) e pela Associação dos Estudantes Finalistas Universitários (AEFUM), o qual tem vindo a ocorrer desde 2006, tendo já sido abrangidas as províncias de Niassa, Nampula, Manica, Sofala, Inhambane e Gaza.
Segundo os jovens, participar no Projecto “Férias Desenvolvendo os Distritos” e nos seminários de preparação que antecederam a sua deslocação aos distritos em trabalho voluntário, em muito contribuiu para as altas classificações obtidas nos testes de apuramento, porquanto os proporcionou um conhecimento real das potencialidades e das áreas aonde intervir para o desenvolvimento dos mesmos, bem como do pleno domínio da visão e dos Planos do Governo para tornarem os distritos nos verdadeiros pólos de desenvolvimento.
Estes 26 jovens apurados já se encontram na província de Cabo Delgado numa formação de capacitação há 22 dias, a qual irá culminar com a cerimónia oficial de sua contratação no dia 29 de Maio corrente, a ser orientada pelo Governador da Província e na qual conta com, para além dos membros do Governo Provincial, Administradores Distritais e os formadores, a presença da Autoridade nacional da Função Pública e do Presidente do CNJ.
Para o CNJ, a diferença desta contratação com os habituais concursos públicos lançados na praça, está no facto de dar enfoque aos jovens dos 18 aos 35 anos e de não exigir os já habituais e estigmatizantes 5 anos de experiência profissional, facto que vem de encontro ao tão almejado primeiro emprego para jovens.
A contratação de jovens para o primeiro emprego, quer para o sector público, quer para o privado, é uma via, se não a mais importante, para acabar com as altas taxas de desemprego no seio da camada juvenil e de todos os males que dele advêm, posto que com o primeiro emprego, os jovens adquirem capacidade de endividamento e assim poderão estar em condições de recorrerem a empréstimos Bancários para implementarem seus projectos pessoais de criação de riqueza, lá nos distritos aonde estiverem residindo, traduzindo em realidade em solo fértil toda a bagagem teórica adquirida nos bancos da escola.
Bem haja o Governo de Cabo Delgado que faz jus a tradição deste nosso Moçambique, ao ter sido lá disparado o primeiro tiro contra a opressão colonial portuguesa, e de lá, ser hoje lançada a fórmula para um maior engajamento dos jovens nas várias frentes da luta contra a Pobreza Absoluta.
Esperamos e aguardamos pelo mesmo exemplo noutras províncias.
Obrigado Governo de Cabo Delgado!
Gabinete de imprensa do CNJ
“Esperamos e aguardamos pelo mesmo exemplo noutras províncias” é assim que termina o comunicado. Isto é fala sem consequências da nossa “juventude”. Fazer o que é absolutamente necessário para o desenvolvimento do País depende da vontade individual dos governos provinciais: “esperamos e aguardamos”. Melhor resumo da inconsequência da fala política não poderia haver. Esperar e aguardar. Mais nada. Esperar e aguardar pela vontade dos governos provinciais. Se quiserem vão fazer; se não quiserem, prontos, paciência, que fazer? A “juventude” vai esperar e aguardar. Na verdade, porém, o problema está no diagnóstico. Que não existe. Que problema é que o CNJ está aqui a abordar? Sabe que problema está a abordar? Conhece os desafios que os jovens e o resto da sociedade enfrentam? Sabe o que é preciso fazer? Que tipo de gente anda por essa CNJ? Alguém anda a obrigar essas pessoas a não pensarem as coisas com profundidade ou é por iniciativa própria?
Sem clareza sobre estas coisas vai ser difícil tirar os governos provinciais da sua possível sonolência. Felizmente o CNJ vai esperar e aguardar em nome da tradição moçambicana. Estamos fritos. Se nem mesmo os jovens escapam a esta maneira de pensar o País estamos mesmo fritos!