segunda-feira, maio 18, 2009

Sem fôlego

O fim

Caros amigos,

Iniciei este blogue há três anos com o intuito de proporcionar um espaço de discussão de assuntos moçambicanos com privilégio especial para a abordagem sociológica. A minha ideia inicial era de encorajar estudantes de sociologia, em particular, e das ciências sociais, em geral, a trocar ideias entre si partindo dos instrumentos conceituais, teóricos e analíticos da sociologia. Tinha em mente, sobretudo, aqueles que estudaram sociologia e ciências sociais na altura em que era professor visitante na Universidade Eduardo Mondlane, mas também um círculo alargado de jovens genuinamente interessados numa abordagem distanciada, mas crítica do país. Inicialmente, alguns submeteram textos que foram calorosamente discutidos. O entusiasmo inicial, contudo, não perdurou, embora um e outro tenham continuado a frequentar o blogue através de comentários pontuais.

Pela dinâmica das discussões na blogosfera o blogue “ideias críticas” foi ganhando um cunho cada vez mais político com incursões mais ou menos ousadas nos meandros do quotidiano político do país, principalmente através das rubricas “o fenómeno da bicha” e “fala sem consequências”. O carácter sociológico foi ficando menos vincado tendo encontrado refúgio na rubrica “a caixa de ferramentas do sociólogo”. Ultimamente, o interesse pelas questões das ciências sociais foi preservado apenas nas rubricas “xithlangu” e “direito à razão” com comentários sobre a cultura de debate.

Penso que apesar disto tudo o blogue cumpriu com o seu objectivo principal de estimular reflexões sobre o país baseadas na distância crítica. Alguns debates foram bem quentes e tenho, inclusivamente, a sensação de que a minha insistência numa atitude crítica de princípio na abordagem de seja qual for o tema levou algumas pessoas ao desespero ou mesmo à dúvida sobre se com o tipo de sociologia que privilegio se pode construir qualquer país que seja. Não tenho respostas para muitas perguntas, mas para essa sobre a utilidade dessa sociologia tenho: de facto, quem esperar por ela para construir um país vai esperar, esperar e... esperar. A sociologia não produz o tipo de conhecimento susceptível de construir um país nos moldes imaginados por aqueles que acham que o útil é só aquilo que constrói (visivelmente). A sociologia, na realidade, não serve para muita coisa.

É uma maneira de estar no mundo. É um ponto de vista que se desdobra em vários, curioso, de olhos abertos, sempre à procura de novas maneiras de apreender o mundo. É uma maneira de estar no mundo que nos devolve à infância dando-nos os olhos das crianças para redescobrirmos as coisas, mas também equipando-nos com alguns instrumentos que nos permitem interrogar o nosso próprio olhar. A sociologia é uma ciência narcisa: está muito ocupada consigo própria para se meter com as coisas da vida. É um acto de introspecção sobre as razões que temos para descrevermos o mundo da forma como o descrevemos. E a pergunta é sempre de saber não só se o mundo que descrevemos corresponde ao que vemos, mas também como vemos, de onde vem a certeza que temos de que vemos e de que o mundo que descrevemos realmente existe. Portanto, a sociologia é teoria de conhecimento, mas também metodologia.

A sociologia é a aventura do conhecimento. Ela permite-nos não só apreendermos o mundo, mas também saber como o apreendemos e, através de interpelações críticas feitas pelos outros, revermos a nossa maneira de apreender, aperfeiçoar posturas, posições, perspectivas e ângulos. A sociologia é uma longa conversa que só tem início, mas não tem fim. Um assunto conduz a outro. Cada interpelação, cada opinião, cada ponto de vista representam atalhos irresistíveis pelos quais descemos, e caminhamos, sem a certeza de um dia voltarmos à estrada principal. Por vezes levam-nos a outras estradas principais. A sociologia é um labirinto cheio de musas a assobiarem. Ela é a perdição.

Tanto papo para dizer que registo a passagem recente do 50.000mo visitante (de certeza que metade das visitas foram feitas por mim próprio!) com orgulho na esperança de que todos quantos passaram por aqui tenham conseguido pegar um pouco do entusiasmo que eu tenho pela sociologia. Os textos reunidos aqui no blogue são o meu monumento especial e particular a esse entusiasmo. O vosso interesse empresta estética a este monumento.

Tempo de dizer adeus!

Decidi, depois de longa e difícil reflexão, que é altura de fechar este capítulo. Há praticamente um ano que venho lutando com o tempo, e sempre a perder. A vida académica, quando levada a sério (e eu tento fazer isso), é impiedosa para quem não sabe gerir o seu tempo. E eu não sei. Dar aulas, corrigir trabalhos, supervisar teses, ler (não só livros de sociologia, mas também obras de literatura geral), proferir palestras, escrever artigos, compilar livros, organizar conferências, participar em conferências, discutir com colegas, pesquisar, preparar projectos de pesquisa, procurar financiamentos, ler e comentar todo o tipo de trabalhos que colegas, estudantes e mesmo desconhecidos submetem à minha atenção, avaliar artigos para publicações em revistas especializadas, fazer política académica e uma série de outras coisas não é coisa fácil. Tentar dar conta de tudo isso significa ficar a dever muita coisa e a muita gente. E as minhas dívidas subiram astronomicamente nos últimos tempos. De alguns colegas até tenho que me esconder para não me cobrarem certas coisas. E isso não dá. Isso é para não falar de todas as outras coisas que também fazem parte da vida: dançar, cantar, praticar desporto, portar-se mal, brincar com as crianças, relaxar, enfim, gozar a vida. Tudo isso fica parado. Também não dá.

No próximo mês de junho começa uma série de conferências que precisam de ser conciliadas com as aulas. Depois disso vou passar praticamente dois meses na África Austral a fazer pesquisas longe, provavelmente, da internet ou, pelo menos, com acesso difícil. Ao regressar, em meados de setembro, vou me preparar para abraçar novo emprego e novos desafios (com mais responsabilidades administrativas) o que vai exigir de mim mais concentração e empenho. Não vejo como, nessas circunstâncias, poderia continuar a manter o blogue com o mínimo de qualidade que exijo a mim próprio. Ainda não alcancei os níveis de erudição que me permitiriam escrever um texto – por mais curto que fosse – sem necessidade de consultar outras obras, confirmar certas abordagens, certificar-me de que um determinado conceito é de facto empregue dessa maneira. Curto ou longo, todo o artigo custa-me, na verdade, horas de trabalho de pesquisa que me fazem falta noutras coisas, sobretudo nas coisas que me dão o pão de cada dia.

Vou continuar, na medida do possível, presente na blogosfera comentando aqui e ali, enfim, participando nos debates que de certeza vão continuar e com mais força ainda. Qualquer interpelação aos textos aqui reunidos – recentes ou antigos – vai continuar a merecer a minha atenção. Vou regressar ao convívio intelectual com o país pelo jornal, sobretudo pelo jornal Notícias e pela revista Prestígio, que não exigem de mim atenção constante e me permitem marcar o passo com o resto da nação. Nos últimos tempos descurei bastante a minha relação com o jornal Notícias, outra vítima da minha falta de tempo. Tratando-se dum órgão de grande circulação parece-me importante continuar a manter presença nele.

Aprendi muito com todos vocês. Aprendi com os que me deram palmadinhas nas costas. Aprendi com os que divergiram. Aprendi com os que queriam aprender de mim. Aprendi com os que se zangaram comigo e lançaram impropérios. Aprendi muito com todos, sem excepção. Os textos aqui reunidos são não só o meu monumento ao vosso entusiasmo, mas são também a memória de tudo quanto é possível aprender. Não posso fechar o blogue sem deixar pelo menos um conselho que resume tudo quanto tentei demonstrar nele. Uma das experiências mais dolorosas para mim nesta aventura do blogue foi de ver a forma disibinida como alguns, sem conhecimento de causa, eram capazes de não só defender posições logicamente problemáticas como também de ostentarem essa ignorância como acto de coragem.

A mais bela experiência foi de ver que há muitos mais que usam o debate de ideias como momento de questionamento daquilo que eles pensam saber. E esse é o meu conselho, na verdade: Usem a interpelação que fazem ao país e aos outros como um momento de aprendizagem. O desafio é esse. O desafio não consiste em dizer como o país é, como a política deve ser, como os outros devem ser, enfim, como o mundo deve ser. Não. O desafio consiste em sempre perguntar o que nós próprios podemos aprender a partir da interpelação que fazemos. O sentido crítico nasce aí mesmo. E uma vez nascido, não o deixem morrer, por favor!

Um grande abraço a todos!

Elísio

n.b. fico a dever esclarecimentos, séries interrompidas, artigos prometidos, etc. Um dia serei ajustado estruturalmente e aí vou saldar todas as minhas dívidas. Ou, sendo oficialmente declarado absolutamente pobre, vou conquistar o direito de contrair mais dívidas até novo ajustamento estrutural. E assim sucessivamente, njalu-njalu...

quinta-feira, maio 14, 2009

A caixa de ferramentas do sociólogo

Utilidade

Um dos nossos problemas na abordagem crítica das coisas da nossa terra está ligado ao facto de haver razões muito fortes para que ao fazermos ciência sejamos o mais prático e úteis possíveis. Estas razões introduzem, consequentemente, critérios extra-científicos na avaliação da “plausibilidade” do que cada um de nós dizemos. Podemos, por exemplo, achar que seja necessário distribuir alimentos aos pobres para aliviar a pobreza, mas a abordagem crítica obrigar-nos a considerar o lado económico disso, incluíndo a questão de saber que incentivos negativos isso pode representar. Aí muitos de nós podem preferir ignorar os argumentos económicos e clamar pela acção “útil”. Tenho notado esta tendência na discussão de vários assuntos, desde o Zimbabwe de Robert Mugabe passando pela homossexualidade, direito à informação, combate ao crime até, já agora e actual, a questão dos desequilíbrios regionais.

Então lembrei-me duma passagem do texto de Max Weber “ciência como vocação” que traduzo aqui livremente para vocês:

… Qual é, dadas as condições subjectivas aqui mencionadas, o significado da ciência como vocação com o desaparecimento de velhas ilusões do tipo “a rota para o verdadeiro sentido”, “a rota para a verdadeira arte”, “a rota para a verdadeira natureza”, “a rota para o verdadeiro Deus”, “a rota para a verdadeira felecidade”? Tolstoi deu a resposta mais fácil da seguinte maneira: “ela não tem significado porque ela não tem resposta para a única pergunta que realmente interessa, nomeadamente ‘que devemos fazer? Como devemos viver?”. Que ela não nos proporciona esta resposta é incontestável. A questão, porém, é saber em que sentido é que ela não nos proporciona “nenhuma” resposta e se, ao contrário, ela não daria mesmo assim alguma coisa aquele que coloca bem a pergunta. As pessoas gostam hoje em dia de falar de uma ciência sem condicionalismos. Existe esse tipo de ciência? Depende do que se entende disso. Todo o trabalho científico parte do princípio de que as regras da lógica e do método são válidas: isto é, a validade da base geral sobre a qual assenta a nossa orientação no mundo. Ora, estas condições não são problemáticas pelo menos para a nossa questão especial. Parte-se também do seguinte princípio: o que resulta do trabalho científico é importante no sentido em que “vale à pena sabê-lo”. E é aqui, provavelmente, onde se amontoam os nossos problemas. Na verdade, este princípio não pode ser comprovado com recurso a instrumentos da ciência. Só é possível reduzir isto ao seu significado final, o qual podemos depois rejeitar ou aceitar de acordo com a posição de cada um de nós em relação à vida.

Uma outra questão completamente diferente refere-se ao tipo de relação entre o trabalho científico e estes princípios de acordo com a estrutura destes últimos. As ciências naturais como, por exemplo, a física, química, astronomia dão por adquirido que – de acordo com os limites da ciência – valha à pena conhecer as leis finais do que acontece ao nível cósmico. E isto não só porque com estes conhecimentos podemos alcançar sucessos tecnológicos, mas também e pelo simples facto de os querermos adquirir enquanto vocação. Mesmo este princípio em si não é passível de comprovação. Muito menos a questão de saber se o mundo que descrevem deve existir, se, pior ainda, faz algum sentido que ele exista. Essas ciências não colocam esse tipo de perguntas. Peguem, alternativamente, numa arte prática tão altamente desenvolvida como a medicina moderna. O princípio geral do negócio da medicina é, colocado de forma trivial, o seguinte: responder afirmativamente à tarefa de manter a vida como tal e à possibilidade de redução do sofrimento como tal. E isso é problemático. Com os seus medicamentos o médico mantém em vida o doente terminal, mesmo quando ele suplica para ser aliviado da sua vida, mesmo quando os seus parentes, para quem esta vida em particular não tem nenhum valor, para quem os custos de manutenção desta vida sem valor são insurpotáveis – se calhar trata-se do coitado dum maluco – desejam, ou devem desejar confessadamente e sem limites a sua morte. Só apenas os princípios da medicina e o código penal é que impedem o médico de mudar de posição. Todas as ciências naturais dão-nos uma resposta à seguinte pergunta: o que devemos fazer se quisermos dominar o mundo tecnicamente? Se devemos ou não dominar o mundo tecnicamente, e se isso tem algum significado profundo, aí eles simplesmente se calam ou, quando muito, partem do princípio de que alguém já respondeu à pergunta.

São apenas notas de leitura para situar algumas coisas, conter expectativas e contextualizar a nossa actuação. Reparem que isto não nos liberta das nossas responsabilidades morais como cidadãos e membros da comunidade política. O interesse pelo rigor na nossa abordagem das coisas da nossa terra justifica-se, creio, pela necessidade de vincarmos esta responsabilidade que trazemos connosco. Uma reflexão problemática sobre as coisas pode ser tão má quanto uma má intervenção política. Especular, sem aparentemente conhecimento de causa, que um governador provincial oriundo do norte teve que ir procurar tratamento no seu distrito natal porque o governo em Maputo, que é dominado por gente do sul, não quiz que ele recebesse melhor tratamento na África do Sul por ser do norte, parece-me extremamente irresponsável, independentemente da real situação no que diz respeito aos equilíbrios regionais. A este propósito procurei informar-me nos últimos dias através de pessoas conhecidas lá no Xai-Xai e as versões que oiço de lá dão conta de questões que ultrapassam de longe a mera problemática do desequilíbrio regional. Fala-se lá, conforme eu havia suspeitado, de funcionários do governo que estavam contra o governador não por ser do norte, mas por ter querido “limpar” a casa. Fala-se também dum ambiente supersticioso bastante tenso, o que pode explicar porque o governador foi ao distrito e não a Nelspruuit ou mesmo Maputo, Nampula ou Quelimane para “tratamento”. Enfim,...

terça-feira, maio 12, 2009

Xithlangu IX

Cuidado com revoluções que comem os seus próprios filhos

Na mitologia grega existe a história de Cronos, uma divindade, que tinha o hábito de engolir os seus próprios filhos. Da rebelião de um deles, Zeus, escondido e protegido desde pequeno pela mãe, surgiu a ordem natural das coisas constituída pela terra e céu, mar e submundo. Cronos engolia os filhos para não crescerem e constituírem ameaça para si próprio. Curiosamente, Zeus, que lutou com seu pai e venceu-o, acabou confirmando os receios de Cronos. A lenda é antiga, mas repete-se com muita frequência. Tem sido um dos maiores calcanhares de aquiles de revoluções. E isto por uma razão simples: revoluções parecem precisar de gente fanática que, por sua vez, só encontra sentido na vida e naquilo que faz, criando e recriando inimigos. Quando esses inimigos acabam lá fora, os revolucionários viram-se para o inimigo interno e continuam na auto-destruição até a própria revolução já não fazer sentido. Foi assim com Estaline, Mao e mesmo connosco num passado muito recente. Alguns simpatizantes do MDM estão em vias de recriar a mesma situação.

Refiro-me a um texto de Jonathan McCharthy publicado no seu blogue (conferir aqui). É um texto estranho e inquietante ao mesmo tempo. Estranho porque como texto do género político é demasiado incendiário para constituir uma verdadeira proposta de debate. Inquietante porque como reflexão crítica sobre um assunto importante da nossa sociedade é demasiado superficial na abordagem. O assunto é o que ele chama de unidade nacional. O argumento, que dá muitas voltas, é de que esta unidade não é e nunca foi realidade no nosso país em virtude do facto de os governos da Frelimo terem sempre optado pela dominação das etnias do sul. Ele sustenta esta tese com base naquilo que ele chama de factos matemáticos e que dão conta de que as últimas nomeações do Presidente Guebuza privilegiaram gente do sul em consonância com uma prática tradicional da Frelimo de colocar gente desta proveniência em posições de direcção a todos os níveis como se nas outras regiões não houvesse quadros. Ele conclui o texto levantando o espectro duma calamidade que ainda se pode abater sobre o país se isto não mudar.

Este é um ponto de vista que, infelizmente, é partilhado por muita gente no nosso país. Escrevo “nosso país” sem certeza se isso ainda faz sentido nestas circunstâncias. A melhor reacção a este tipo de ponto de vista seria, na verdade, ignorá-lo e esperar que os seus proponentes subam ao poder para depois descobrirem que, afinal, o “norte” desdobra-se em centro, oeste, sul do norte, centro do norte, norte do norte, macua, chuabo, sena, ndau, etc. e todos eles com elites dispostas a usar o trunfo da diferença para extorquirem posições, regalias e benesses. E mesmo os de uma única etnia, digamos, os macuas, iriam descobrir que afinal são muçulmanos, cristãos, ateus, formados, não-formados, rurais, urbanos, comerciantes, operários, etc. Argumentos políticos têm tanta coerência quanto sempre dependerem do mau da fita para ganharem plausibilidade. E o problema com isso é que o “mau da fita” nunca desaparece, apenas muda de cara. Desaparece o mau da fita “sul”, vão ter que ser criados outros, sobretudo na ausência de um programa político e de convicções políticas profundamente enraizadas na abordagem crítica das coisas. Ignorar seria, portanto, o melhor. Não obstante, pode ser útil prestar atenção a este ponto de vista, pois ele revela muito do que não está bem na forma como abordamos o nosso país e constitui um desafio às ciências sociais. As ciências sociais não vão obviamente resolver os problemas deste país, mas elas têm instrumentos à sua disposição que permitem abordar os desafios do desenvolvimento com cautela, medida e utilidade. É esta convicção que me leva a reagir ao texto do Jonathan MacCharthy.

Argumentos incendiários

Logo à partida chamo a vossa atenção para uma série de dificuldades ligadas à discussão deste tipo de assuntos. A unidade nacional é um desafio enorme. A percepção de que ela não está realizada é legítima e muito provavelmente correcta. Ninguém com a cabeça no devido lugar pode negar que haja um problema aqui, mas lá está: Que problema? Quando é que a unidade nacional está realizada? Quando houver uma distribuição etnica ou regionalmente proporcional de postos políticos, económicos e sociais? E como se determinaria isso? Com base em que critérios? E se para os postos reservados aos machangana só houvesse lugar para gente não abalizada na matéria, deveríamos mesmo assim colocar essas pessoas em nome da “unidade nacional”? A primeira dificuldade está na própria noção de unidade nacional. Não é, na verdade, algo que se realize, pois nenhum critério é susceptível de agradar as pessoas. Portanto, o argumento de fundo não é de que não haja unidade nacional, mas sim que há dominação dum grupo ou duma região sobre o resto. Este é que é o argumento central para o qual, infelizmente, existem poucas evidências. É um argumento que depende de evidências anedóticas que me parecem extremamente problemáticas, mas populam o texto em questão.

Assim, os que vivem no norte são apresentados como gente pacata e tolerante ao contrário dos que vivem no sul que, no caso do governador Rosário Mualeia, originário do norte, até perseguiam a escolta gritando “chingondooo”. Pior ainda, só para provar a maldade dos governantes do sul, quando ele caiu doente não teve direito a tratamento em Nelspruuit ou Joanesburgo; teve que ir se curar lá para as bandas de Mecubúri. O pobre homem nem aceitava comida preparada pelos seus administradores (de certeza do sul) por medo de ser presumivelmente envenenado. Só esta evidência anedótica mereceria da parte de alguém que quer abordar o país com cuidado e medida várias interrogações. O menos difícil é, claro, mostrar quão ridícula é a suposição de que no norte haja mais tolerância do que no sul tanto mais que se há alguma justiça no mundo é na distribuição mais ou menos equitativa dos níveis de estupidez e irracionalidade (exceptuando a Beira, claro, que é um paraíso de relações étnicas harmoniosas...). Curiosamente, se de facto fosse assim, isto é que o norte fosse mais tolerante que o sul, então nem haveria nenhuma razão para o texto em questão alertar para a calamidade que se vai abater sobre nós se nada fizermos para corrigir a situação. Mas isso é o mais fácil. Mais difícil é interpelar os termos do relato perguntando, por exemplo, se caso for verdade que o tal governador foi tratado no seu distrito, se isso se deve ao facto de os do sul não terem querido que ele recebesse melhor tratamento na África do sul. E supondo que tivesse havido de facto essa falta de vontade dos do sul, podíamos ainda perguntar o que fizeram os outros do norte que estão no governo, por exemplo, a própria Primeira Ministra. Ficaram indiferentes à sorte do seu correligionário ou a força do sul é tanta que eles não puderam fazer nada? Mesmo o receio de envenenamento mencionado no texto: vamos supor que esse receio fosse mesmo real. A intolerância da gente do sul seria a única explicação possível? Não é concebível que, por exemplo, pudesse ter havido administradores, digamos, corruptos, que pudessem querer fazer mal ao governador não por ele ser do norte, mas por ser, digamos, uma pessoa íntegra que estivesse a tentar combater essa corrupção? Ou será que o facto de ser do norte, mas em conluio com o sul, faz dele um corrupto também?

Há uma segunda dificuldade. O argumento de que a unidade nacional é uma ficção usada por um grupo étnico e regional para dominar o resto assenta, para uma boa parte da sua plausibilidade, no espectro duma ameaça (no texto em questão usa-se o Ruanda como exemplo do que pode vir a acontecer!). Em postagem já antiga (conferir aqui) reflecti sobre este tipo de argumentos convidando os leitores para a consideração de certos elementos que me parecem importantes na avaliação da sua plausibilidade e solidez. Não faria mal reler esse texto, pois no seguimento vou partir do princípio de que o leitor está familiarizado com o que vem lá escrito. Na verdade, o problema aqui é que argumentos com base em consequências assentam em suposições que precisam de ser avaliadas criticamente. Se a dominação do sul continuar, o país vai arder como aconteceu no Ruanda. Temos aqui três suposições que precisam de ser avaliadas criticamente. (a) há dominação do sul; (b) essa dominação é má coisa; (c) se continuar o país vai arder. Vou apenas analisar a primeira.

O problema da nossa esfera pública é que logo que alguém diz uma coisa destas não há preocupação de o interpelar. Concorda-se imediatamente com essa pessoa. Assim, e à semelhança do que vimos mais acima em relação à noção de “unidade nacional”, o (a) que é dominação do sul? Que eu saiba, no “sul” (que vai de Maputo a Inhambane), nem todos se revêem, digamos, em Machel, Chissano ou Guebuza. E isto não só por razões étnicas. No sul, como aliás em todo o país, pertencer a uma igreja protestante ou católica ou mesmo ser muçulmano pode ser mais importante do que ser “changana” ou “ronga”, “chope” ou “gitonga”. Ao contrário do que pensou Barnabé Nkomo, por exemplo, na sua biografia de Uria Simango, a socialização em meios protestantes e a adopção dum nacionalismo de cariz racial foi mais preponderante para as divergências entre aqueles que ele considerou mais nacionalistas e aqueles que ele chamou dos da supremacia do sul. A diferença entre Samora Machel e Uria Simango não foi simplesmente a diferença entre sul e centro, mas sim entre concepções do nacionalismo, elas por sua vez ancoradas em vivências e experiências religiosas – só para ficarmos pela religião – diferentes. E a coisa não pára por aqui. No sul, assim como no norte, há diferenças entre o urbano e rural; entre formado e não formado; entre costeiro e do interior; entre ter nascido e crescido na região ou ter nascido ou crescido fora da região; entre saber falar a língua local, e não saber falar a língua local; entre trabalhar para o Estado ou trabalhar no sector privado; entre estar na “sociedade civil” ou não estar. Eu tenho mais em comum com um sociólogo ou pessoa formada do norte do que com um camponês da periferia do Xai-Xai. E isto é só sobre o “sul”, ainda nem começamos a interrogar a noção de dominação. Quando é que uma região domina, se partirmos da ideia de que “região” é uma noção susceptível de ser definida com utilidade? Quando é que a supremacia numérica na distribuição de postos implica necessariamente “dominação”?

Para o texto não ficar demasiado longo, vou chamar a vossa atenção para os desafios que este tipo de argumentos nos colocam e apelar a todas as pessoas de bem que os tomem a peito. Esses desafios são todos de natureza lógica.

Seriedade na abordagem

O primeiro é o que se chama de “argumentum ad ignorantiam”, isto é o argumento que parte da ignorância. Trata-se duma falácia que diz que uma coisa é verdadeira por não ter sido ainda demonstrado ser errada. É difícil, efectivamente, provar que não existe dominação do sul no país. Essa dificuldade, porém, não tem, em minha opinião, nada a ver com os méritos da questão. Tem a ver com a suposição de que ela existe e que se apoia em critérios difusos e problemáticos. O simples questionamento das noções de “dominação” e de “sul” já mostra as fraquezas do argumento. O desafio que se coloca a alguém que quer abordar as coisas criticamente é perder mais tempo a definir os termos. E tentar chegar a acordo sobre o seu significado e utilidade. Infelizmente, no caso do dominação do sul, temos feito pouco disto, razão pela qual, provavelmente, gostamos muito de evidências anedóticas.

O segundo desafio está ligado a este primeiro. Quem deve provar que há dominação do sul é quem diz que ela existe. Não é quem refuta isso. Muitas vezes nas nossas discussões transferimos a responsabilidade aos que contestam desafiando-os a demonstrar que ela não existe. Isto é facilitado pelo uso de critérios que só na aparência são úteis. A simples contagem de postos não constitui, em minha opinião, prova da existência da dominação do sul; diferenças de rendimento entre as regiões não constituem prova da existência da dominação do sul; o facto de nunca termos tido um chefe de Estado do norte não constitui, por si só, prova da existência da dominação do sul. Quando muito estes critérios só descrevem um facto, mas um facto só começa a falar quando se elabora um argumento à sua volta. Que argumento é desenvolvido à sua volta pelos que dizem que há dominação do sul? É esse argumento que eles devem apresentar e ser discutido.

O terceiro desafio é complicado e, provavelmente, pouco susceptível de ser enfrentado com sucesso. É o problema da repetição constante desta ideia de que o sul domina. Esta ideia é tão repetida, e por tantas pessoas, que a gente começa de facto a acreditar na sua veracidade. Tem a morfologia dum rumor. Repetimo-la irreflectidamente, ninguém se queda para interpelar os seus termos, ela vai se impondo como critério de observação e sem nos darmos conta estamos a analisar coisas a partir dela: se não singramos profissionalmente, se somos incompetentes, se somos preguiçosos, se temos brio profissional, se fazemos bem as coisas, tudo isso se remete ao prisma dessa ideia repetida por todos. Ninguém pergunta porque Daviz Simango deve ser visto apenas como “sena” ou “pessoa do centro ou norte” e não como engenheiro, como formado, como político, como religioso, como urbano, enfim, como todas as outras coisas que o definem como ser humano. Nada, reduzimos as pessoas a uma única variável.

E mesmo para concluir: não me vou admirar se aparecer um engraçadinho qualquer por aqui – de certeza “anónimo” – a dizer “pois é, é do sul, o que iria dizer?”. Essa é que é a verdadeira pobreza absoluta. Enquanto isso, os problemas do país estão à espera de formulação. O problema da penalização do actor político por má actuação; o problema da responsabilidade; o problema da participação, enfim, o problema da cidadania e do valor que ela deve ter. Antes, de me acusarem a mim de estar a reagir como “changana” deviam pelo menos reflectir um pouco no mal que estão a fazer aos milhares de moçambicanos do “norte” que se identificam com o governo do dia. De certeza que eles agem por falsa consciência, não sabem o que fazem, foram comprados pelo sul. Luísa Diogo, Eduardo Mulémbué, Filipe Couto, Aires Ali e tantos outros por aí só estão a fazer número ao serviço da supremacia do sul. Tanta arrogância junta que parte de gente que crê ter os interesses do país no mais fundo do seu coração é simplesmente incrível. E deprimente.

Lanço um apelo aos jovens que querem abordar o país de forma séria: sejam claros, e não confusos na cabeça; lúcidos, e não obscuros; racionais, e não irracionais; tenham a certeza sobre coisas que podem justificar com base em argumentos e provas. Vale à pena tentar isso. Não vos convido a rejeitarem a existência da dominação do sul; convido-vos a aprenderem a pensar o problema. Só isso. Caso contrário, vão enveredar por um caminho que vos levará apenas a procurar bodes expiatórios por todo o lado. Vão ser engolidos pelas vossas próprias convicções.