sábado, janeiro 31, 2009

Advinhem lá!

A hora do fecho
No entretanto, como o regime por cá anda um pouco apertado por estar a ser listado na lista dos conservadores por detrás de Mad Bob (até os bispos querem a mudança), o escriba de serviço para assuntos delicados, voltou uma vez mais à carga para explicar que as complicações em Harare são devidas às intransigências ocidentais. É fácil analisar da Europa o que se passa no país dos triliões…”
(Semanário Savana)
Agora, quem quiser usar este texto para exercitar faculdades críticas pode responder às seguintes perguntas:
1. Quantos bispos mandaram matar pessoas que negavam o mito da criação (se esta pergunta for muito difícil respondam à seguinte: que bispo está com que problemas actualmente por ter negado o holocausto?)?
2. Esta é difícil: o que é um conservador?
3. Esta é fácil, por isso não há pontos: quem é o escriba de serviço para assuntos delicados?
4. Qual é a diferença entre citar (o Professor Mutambara) e fazer uma afirmação?
5. Porque estando o Savana tão perto dos triliões analisa com dificuldade?
6. Porque só é fácil para o escriba de serviço analisar da Europa o que se passa no país dos triliões? E todos os outros analistas na Europa que dizem o contrário do que o escriba de serviço diz? Também fácil?
7. A que se refere o adjectivo “independente” quando aplicado a um jornal? Do pensamento?
Cábula: consultem os videntes que financiam o jornal.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Xithlangu VII

A cólera e as reacções populares

Prossigo com a minha reflexão sobre o sentido crítico. Desta feita gostaria de me debruçar sobre um fenómeno bastante interessante que está a abalar o país neste momento. Refiro-me à colera e a reacção popular nas províncias de Cabo de Delgado e Nampula que consiste em ataques às autoridades sanitárias que são acusadas de trazer a doença com o cloro que distribuem. Este tema insere um potencial muito elevado de mistificação pelos cruzamentos que se podem fazer com a questão da tradição e modernidade, analfabetismo, ignorância e, como não podia deixar de ser, fragilidade ou indiferença do Estado em meios locais.

Os jornais têm vindo a noticiar com muita frequência estes ataques. A questão que me interessa neste texto não é de explicar as reacções populares. Para fazer isso teria de investigar o assunto ou ler uma quantidade considerável de trabalhos sobre o assunto para deles retirar ideias que poderiam servir de apoio para a formulação de argumentos mais ou menos plausíveis. Não fiz nem uma, nem outra coisa. O que me interessa fazer é outra coisa, nomeadamente reflectir sobre qual pode ser a nossa reacção às explicações que outros nos dão sobre o fenómeno. Espero mostrar, a este respeito, que aqui também há um grande potencial de credulidade, uma credulidade enformada por factores normativos, mas também por uma certa preguiça da nossa parte em irmos ao fundo das questões.

Vou concentrar a minha atenção num tipo de argumento que é frequente na nossa esfera pública e que consiste em chegar a conclusões a partir da constatação de correlações e partir dessas correlações para uma causa. No fundo, não há nada de errado neste procedimento e, aliás, a responsabilidade pelas conclusões que são tiradas não pertence aos autores, mas sim a nós os leitores que preferimos as dar por adquirido. Portanto, à semelhança dos outros textos já aqui publicados, o meu ponto de vista não é de que os autores das ideias que vou apresentar e discutir aqui estão enganados ou não sabem o que fazem, mas sim de que os seus argumentos nos colocam desafios que devemos enfrentar de forma crítica como contribuição para uma esfera pública responsável e crítica. Existe, felizmente, um trabalho científico da autoria do Professor Carlos Serra do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane com o título Cólera e Catarse, realizado em 2002 (e publicado em 2003) na província de Nampula, que se debruça sobre esta problemática e procura proporcionar explicações. O estudo pode ser baixado aqui. A estrutura do argumento desse estudo apresenta as características de um argumento que parte de correlações para a causa. Mais adiante explico isto melhor.

Por enquanto, vou apresentar, de forma resumida, o argumento central desse estudo. Segundo os autores do estudo a crença popular (de que a cólera é introduzida pelo governo através do cloro) não é algo irracional como muitos de nós nos sentiríamos inclinados a crer. Ela documenta uma crítica popular ao Estado que não é dialogante, é ineficaz na solução dos problemas do povo, é representado por funcionários alheios aos anseios do povo e tudo isto num ambiente de privações. Na verdade, segundo o estudo a crença pode ser irracional do ponto de vista da explicação científica das causas da cólera, mas perfeitamente coerente com aquilo que os autores do estudo chamam de “consciência de privação”. De certa forma, portanto, o estudo diz-nos que esta crença é o resultado de um Estado, digamos, problemático contra o qual os populares reagem. Do ponto de vista formal, a estrutura do argumento é simples e consiste de uma premissa apenas. A premissa diz que existe uma correlação entre A (natureza do Estado) e B (crença popular). A conclusão é de que A é a causa de B. A hipótese formulada para o estudo gira em torno deste argumento: “A crença de que a cólera é introduzida pelo governo em Nampula através do cloro (fenómeno) é um indicador de insegurança popular (nível 1) ampliada pela tensão política (nível 2).”. Já na preparação da problemática os investigadores haviam anunciado a intenção de “desnudar o mito da cólera” através da obtenção de “... conhecimento das opiniões dos cidadãos sobre o Estado no concernente à prestação de serviços essenciais como água, saúde e educação”. O estudo confirma o nível 1 (a crença como indicador de insegurança popular), mas não encontra sustento para o nível 2 (a crença é ampliada pela tensão política), uma decisão que a leitura atenta dos depoimentos reproduzidos sugere ser algo arbitrária.

Para este efeito, os investigadores entrevistaram várias pessoas em alguns distritos da província de Nampula. Essas entrevistas produziram depoimentos muito interessantes que, na interpretação dos investigadores, revelam um mal-estar popular em relação ao papel do Estado. Os dados obtidos desta maneira em todos os distritos inquiridos convergem na apreciação negativa do papel do Estado e de algumas ONGs, por um lado, e na reacção que consiste em atacar os agentes do Estado e das ONGs como vectores do mal. O estudo critica duramente aqueles entrevistados, na sua maioria representantes do Estado, que atribuem a acção popular ao analfabetismo e à ignorância. Ele tenta mostrar que a crença não tem nada de irracional, mas é uma reacção (normal?) à indiferença e oportunismo dos agentes do Estado.

Interpelar criticamente

Como ler criticamente um estudo tão bem feito como este? Ainda há espaço para distância crítica? A correlação entre apatia do Estado e crença no mito da cólera é, nos dados apresentados pelo estudo, tão elevada que não pode haver outra maneira de interpretar os resultados. Existem basicamente três estratégias para interpelar criticamente este tipo de argumento. Todas elas consistem em perguntas. A primeira pergunta é a seguinte: será que existe mesmo uma correlação entre A e B? A segunda não menos importante é a seguinte: haverá alguma razão para supor que a correlação não seja simplesmente pura coincidência? Finalmente, a terceira pergunta é: é concebível que haja um terceiro factor (digamos C) que constitui a causa de A e B? Esta última pergunta não é inocente. Na verdade, há muitas correlações que fazemos no quotidiano e que se explicam, muitas vezes facilmente, com recurso a uma terceira variável. Por exemplo, podíamos associar a quantidade de estragos num incêndio ao número de bombeiros que o debelaram e concluirmos que os bombeiros são a causa do estrago. Contudo, pode ser que o tamanho do incêndio tivesse exigido mais bombeiros pelo que o próprio tamanho é que seria responsável pelos estragos simplesmente por ser um grande incêndio. Da mesma forma, podíamos concluir, a partir de dados que nos mostrassem que os idosos lêem menos do que os mais jovens, que a explicação para isso seria a própria idade, isto é o facto de com a idade as pessoas ficarem intelectualmente menos atentas, etc. Na verdade, porém, a explicação simples poderia ser de que os mais velhos lêem menos porque na sua maioria são analfabetos. Por conseguinte, a nossa distância crítica tem que nos conduzir a eliminar outros factores que possam estar por detrás da correlação imputada. Pensar criticamente significaria, neste caso, justamente eliminar esses factores.

Colocadas as coisas desta maneira, podemos começar a ver alguns problemas com o estudo. Em relação à primeira pergunta (será que existe mesmo uma correlação entre A e B?) podemos, socorrendo-nos dos dados facultados pelo estudo, dizer que de facto existe uma correlação entre a apatia do Estado e a crença popular. Os vários depoimentos são prova disso. Abro aqui, porém, um parêntesis para dizer que seria interessante perguntar também se em todo o lado onde se manifesta este tipo de crença o Estado é visto como sendo apático ou, dito de outra maneira, porque sendo o nosso Estado geralmente apático (suponhamos) não se verificam estas crenças noutros pontos do país com a intensidade que elas têm em Nampula? Estas perguntas são particularmente pertinentes na consideração da terceira pergunta mais adiante.

A resposta à nossa segunda pergunta (haverá alguma razão para supor que a correlação não seja simplesmente pura coincidência?) é menos linear. Há um investimento normativo muito forte por parte dos investigadores para estabelecer a responsabilidade do Estado. A (ir)responsabilidade do Estado é a resposta padrão dos estudos feita pela Oficina de Sociologia. Porque há linchamentos? Porque há privatização da justiça face à inoperância do Estado. Porque as pessoas frequentam as igrejas pentecostais? Porque estão a reagir à ausência do Estado cuja responsabilidade é escondida pelo discurso da culpa pessoal das preces feitas nessas igrejas. O que quero dizer com isto é que o estudo foi feito com a intenção de “desnudar o mito da cólera” através da obtenção de “... conhecimento das opiniões dos cidadãos sobre o Estado no concernente à prestação de serviços essenciais como água, saúde e educação”. Conhecidas que são as “insuficiências” do nosso Estado, era concebível que o discurso popular fosse diferente do apurado? Não me parece. Em certa medida, portanto, o estudo confirmou a sua própria profecia.

Contudo, há aqui e ali elementos interessantes que vão sobressaíndo dos depoimentos populares. Por exemplo, fala-se de conflitos entre duas interpretações do Islão; fala-se de conflitos entre os jovens e os mais velhos; fala-se de conflitos entre mulheres e homens, embora (tendo em conta o facto de se tratar de sociedades matrilineares) me pareça haver exagero na apresentação da novidade do protagonismo feminino. Estes conflitos são secundarizados no estudo e não merecem a atenção prolongada dos investigadores. O que me parece uma pena. Na verdade, teria sido muito interessante cruzar estes conflitos com o perfil social daqueles que se envolveram no ataque aos agentes da autoridade e procurar saber se aí também há correlações a fazer. É verdade que do ponto de vista da pesquisa seria difícil encontrar pessoas que tivessem a coragem de dizer que cometaram delitos, mas mesmo assim a partir dos depoimentos teria sido possível estabelecer correlações entre estes outros conflitos e as crenças. Os autores não fizeram nada disso e esta omissão parece-me constituir o calcanhar de aquiles de um estudo que, de outro modo, é um excelente exemplo da pesquisa social empírica. A responsabilidade, porém, não está nos autores, mas naqueles que vão ler o estudo sem procurar interpelar as suas conclusões para além do que foi dito.

À terceira pergunta (é concebível que haja um terceiro factor (digamos C) que constitui a causa de A e B?), para voltarmos à vaca fria, podemos responder afirmativamente. Podíamos dizer que a crença em si é manifestação de ignorância ou de estruturas tradicionais de pensamento, mas que isso em si não é fundamental. O que é fundamental é explicar a reacção violenta na sequência da crença. Aí podíamos dizer quer a reacção violenta, quer a apatia do Estado são fenómenos que são explicados pelo desmoronamento das estruturas de autoridade naquela região de modo que a nossa atenção não se deve cingir apenas às críticas ao Estado, mas às transformações que ocorrem naqueles meios. E, de facto, os vários outros conflitos mencionados, mas não aprofundados, revelam que a questão da autoridade é fulcral. É interessante notar que as pessoas, no fundo, sabem que o cloro não causa a cólera. Desconfiam das intenções dos representantes do Estado, mas esta desconfiança não explica a sua reacção violenta. Noto, ao reflectir sobre este estudo, que a crítica é a mesma que já havia formulado ao estudo sobre os linchamentos que, à semelhança deste, também não explicava porque a reacção ao Estado ausente consistia na acção violenta contra os outros.

Que fique bem claro: não escrevi isto para retirar o mérito ao estudo – que, insisto, é um bom e belo exemplo de um estudo empírico social – nem para dizer que o estudo foi mal feito ou que não devemos concordar com as suas conclusões. Escrevi isto para chamar a vossa atenção para o que está envolvido quando interpelamos criticamente os argumentos baseados na constatação de correlações que conduzem a causas. Escrevi também para mostrar que a interpelação crítica não pára às portas dos académicos. A opinião dos académicos, sobretudo quando ela se baseia em estudos sólidos como este, não é imune à crítica. A crítica pode ser feita sem retirar o mérito aos autores, mas no sentido de mais saúde na esfera pública. Alguns, como sempre, vão se zangar e dizer que eu próprio devia fazer os meus estudos e não me pôr a comentar os estudos dos outros. A esses só direi o seguinte: um dia! Por enquanto, dá-me gosto reflectir o que os outros reflectiram.

Um aspecto que gostaria de enfatizar é o seguinte: não há magia na ciência. Há apenas método. Conclusões impressionantes não são o resultado de qualidades excepcionais das pessoas que as tiram. São o resultado do método que eles aplicam na reflexão. E o método está ao alcance de todos nós. Uma boa maneira de se aproximar do método é aprender a ser crítico em relação ao que lemos ou ouvimos. Ser crítico de forma sistemática. Para evitarmos ser como aqueles que atacam agentes da saúde na falsa crença de que eles é que são a causa da cólera. E para sabermos distinguir uma explicação de uma justificação. O estudo aqui analisado mostra que existe um pano de fundo social e político que torna fecunda a imaginação das pessoas. Como o próprio estudo mostra, do ponto de vista científico trata-se de uma atitude irracional; contudo, o estudo prefere dar o benefício da dúvida às pessoas procurando nas privações que elas passam a coerência dessa crença. Penso que ao fazer isso subestima os efeitos que a desintegração da autoridade em contextos de profundas transformações sociais podem ter sobre as pessoas.

Como vários exemplos mostram na história, sobretudo na história europeia (que até são citados no estudo), a interpretação científica do mundo não é coisa que fica ao critério das pessoas. As instituições do Estado e a forma como elas funcionam têm sido veículos importantes de co-optação da imaginação das pessoas, muitas vezes, infelizmente, com o recurso à força. Mais do que estabelecermos a racionalidade da crença devíamos também procurar saber que factores contribuem, nos nossos esquemas de pensamento, para que em certos sectores da nossa sociedade persistam formas problemáticas de apreender o mundo. A forma supersticiosa como discutimos os assuntos da nossa terra não é, no fundo, diferente deste tipo de crenças. Podíamos dizer que é tudo culpa das insuficiências, mas isso não alteraria a irracionalidade de algumas das nossas abordagens.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

O direito à razão XIX

Da plausibilidade

Pelo interesse suscitado, continuo com a reflexão sobre a distância crítica. Desta feita, debruço-me sobre uma noção central à nossa capacidade de entendermos o que os outros nos dizem. Refiro-me à noção de plausibilidade. É um pouco difícil defini-la, mas diria que é algo que está ligado ao tipo de presunções que nós fazemos em relação ao que ouvimos quando não estamos em condições de verificar tudo tim-tim por tim-tim. Uma presunção é simplesmente uma suposição qualificada sobre a veracidade de uma afirmação que, do ponto de vista prático, pode ser considerada verdadeira na ausência de provas em contrário. Por exemplo, peguemos em algo que li no blogue do Júlio Muthisse sobre a morte de Todinho. Segundo o Júlio Muthisse, o jornal Escorpião diz que Todinho foi morto por comparsas seus e que a polícia assumiu a autoria simplesmente para melhorar a sua imagem pública. Podemos considerar esta afirmação do jornal plausível na ausência de outros elementos que poderiam mostrar o contrário. Aceitamos, portanto, a afirmação como sendo provisoriamente carta.

O nosso dia a dia está cheio deste tipo de argumentos. Eles obrigam-nos a usarmos o nosso senso-comum para decidirmos se vamos acreditar numa afirmação ou não. A base dessa crença (e desse senso-comum) é o que não fere o nosso sentido do que é normal. Sei que a coisa fica aqui um pouco complicada, porque o que é normal entre nós não é assim tão fácil de determinar. Eu diria, por exemplo, que se alguém me viesse dizer que viu uma pessoa a voar esse relato estaria a violar o meu sentido do que é normal. Sei, contudo, que para outras pessoas isso não violaria o seu sentido do que é normal. Não obstante, este é um caso que não precisa de nos deter por muito tempo, pois está mais relacionado com a questão da coexistência de várias referências ontológicas no nosso quotidiano. O importante é reconhecer o papel que o nosso senso-comum desempenha na determinação da plausibilidade de uma afirmação e, como exercício crítico, confrontar esse senso-comum.

Na verdade, os nossos problemas com a plausibilidade na esfera pública começam quando confiamos demasiado neste senso-comum. Se alguém nos diz que o ex-Ministro Manhenje foi detido em ligação com desvio de fundos no Ministério do Interior e o nosso senso-comum nos diz que os membros do governo são, por norma, corruptos, então concluimos que de facto o ex-Ministro desviou fundos do Ministério. Se alguém nos diz que Anibalzinho se escapuliu da cadeia e que “altas patentes” o ajudaram nesse empreendimento, então concluimos, com base no senso-comum que nos diz que as nossas “altas patentes” são capazes de tudo (ou estão envolvidas no crime), que as “altas patentes” tiraram Anibalzinho da cadeia. E várias outras coisas. Reparem que, em princípio, não é inconcebível que assim seja, mas no fundo a nossa única base de inferência é apenas o senso-comum. Portanto, argumentos plausíveis são frequentes, mas terrivelmente inseguros. Deixá-los ficar pela plausibilidade é o pior que podemos fazer no espírito da elevação da qualidade da nossa esfera pública.

No fundo, o que a plausibilidade nos diz é que precisamos de mais informação, pois um argumento plausível é um argumento provisório. Com mais informação, sobretudo informação que contraria a nossa afirmação, podemos talvez rever a nossa aceitação da conclusão. Vou ilustrar este desafio com um olhar de relance para um texto que caiu recentemente na minha caixa de correio através do Moçambique Online e que foi publicado no blogue do mesmo nome (aqui). Trata-se de uma carta aberta da autoria de Jorge de Oliveira, Secretário-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos e mestrado em ciências jurídicas pela Universidade Eduardo Mondlane conforme está assinada a carta. Ela é dirigida ao Reitor da Universidade Eduardo Mondlane posicionando-se contra a decisão da UEM de encurtar os cursos de graduação de cinco para três anos. Parece-me um bom exemplo dos desafios da plausibilidade. Podem baixar aqui o texto em PDF com os meus comentários de leitura. Vão reparar nesses comentários que, de novo, há muita informação em falta no texto em questão e que seria absolutamente necessária para que o leitor se considerasse em posição de conferir mais do que plausibilidade ao argumento. E para não ser mal entendido como pareceu ser o caso nas três análises anteriores, apresso-me a dizer que o problema do texto não está, num primeiro momento, no autor, mas sim no leitor que é a pessoa que está a ser convidada a reflectir sobre um assunto. O autor fez a sua parte, agora nós os outros somos chamados a fazermos a nossa parte. A questão aqui é de saber se estamos dispostos a fazer a nossa parte.

Uma acção precipitada?

O argumento de Jorge de Oliveira é simples. Ele diz que a decisão da UEM de encurtar a formação foi precipitada e devia ter sido antecidida de medidas visando melhorar todo o nosso sistema de ensino. Aqui e ali ele faz uso do nosso senso-comum para nos recordar que estamos perante um decisor que não liga à opinião de mais ninguém, uma instituição pública que normalmente toma decisões sem estudos profundos sobre o problema e um país que tem a tendência de apenas imitar os outros, independentemente das condições objectivas que temos no nosso país. Estas ideias tão centrais ao nosso senso-comum é que dão plausibilidade imediata ao texto. Muitos de nós vão ler o texto e vão acenar com reverência sem a mínima preocupação de entrar em discussão crítica com o seu próprio senso-comum, fonte de uma boa parte da plausibilidade do argumento apresentado. Como é evidente, considero esta atitude bastante problemática e, por sua vez, fonte não só das dificuldades que temos na esfera pública de abordar assuntos com a seriedade que eles exigem, mas também, em parte, das reticências dos nossos governantes em nos ouvirem.

Um primeiro aspecto que mereceria a nossa atenção é o uso do título “Padre” ao longo de todo o texto. A carta é dirigida ao Reitor da UEM e levanta problemas sérios que precisam de ser considerados por ele. Não me larga a suspeita de que o título “Padre” neste caso (e para alguém que, tanto quanto sei, não trabalha como padre, nem parece ter essa licença) tem uma função argumentativa, nomeadamente de pôr em causa as credenciais da pessoa que é alvo de crítica. Não insisto muito sobre este ponto, pois reconheço que possa estar enganado. Acho, contudo, estranho que o autor tenha preferido repetir “Padre Couto” e não escrever “Reitor Couto”, algo que estaria mais em consonância com a matéria tratada. Não é segredo que alguns académicos contestam a nomeação deste indivíduo (pessoalmente, continuo a achar que o reitor de uma universidade pública não devia ser indicado pelo Presidente da República), mas essa questão é, para o assunto em discussão, algo marginal pelo que teria dado mais força à carta aberta se tivesse primado por um tratamento mais adequado à pessoa visada.

O segundo aspecto tem a ver com toda a problemática da informação. A carta aberta sugere que a decisão tenha sido precipitada e socorre-se de exemplos anedóticos (“más línguas”, “80 por cento dos académicos estão contra”, etc.) para justificar essa conclusão. Mas o que significa “precipitação” neste caso concreto? Em que circunstâncias é que a decisão não teria sido precipitada sobretudo tomando em conta o facto de que o autor da carta aberta propõe, aparentemente, uma reforma completa de todo o sistema de ensino como condição de se estar em posição de tomar tamanha decisão? O que sabemos sobre a própria decisão? Como poderemos nos informar melhor sobre as condições em que ela foi tomada, sobre o trabalho que a precedeu e sobre as ideias nela contidas para determinarmos se ela foi de facto precipitada ou não? Sem a resposta a estas questões é difícil acompanhar o autor no seu argumento.

O terceiro aspecto diz respeito à contra-proposta que o autor faz. Na verdade, o argumento está montado no sentido de dizer que este não é o momento oportuno para a mudança. Para o efeito, é feito recurso a vários problemas do nosso ensino que exigiriam do leitor mais informação. A carta aberta sugere um quadro de perplexidade completa em relação à educação como se não houvesse praticamente nenhum trabalho de raiz sobre os desafios que se colocam ao sector. A situação será mesmo assim? O que se está a fazer ao nível da concepção política para melhorar a situação? Nada? Duvido. Que papel é que essas outras coisas que estão a acontecer desempenharam na fundamentação da decisão tomada pela UEM? Como podemos saber? Será que em face dessas outras coisas que foram feitas teríamos a mesma coragem de aconselhar a calma ou iríamos dizer que se pode avançar, mas com mais cautela ou alterações aqui e ali? Ou por outra, o que sabemos do problema que nos foi agora apresentado antes mesmo de partirmos para soluções alternativas?

Finalmente, uma questão que me parece extremamente importante é a de saber o que os peritos da educação dizem a este respeito. No nosso país há gente abalizada sobre a educação e com muita experiência na área. São eles de opinião que a decisão foi precipitada? Estão divididos na sua apreciação? Que argumentos é que eles apresentam para um e outro caso? Em que fóruns é que eles exprimem a sua opinião? Onde podemos consultar a sua opinião? A propósito dos peritos não me parece irrelevante sugerir que a carta aberta de Jorge de Oliveira teria tido mais força ainda se, na sua qualidade de Secretário Geral da AEMO, ele se tivesse debruçado sobre os possíveis efeitos da medida na área que é da sua competência imediata. Isto não quer dizer que ele não tenha autoridade para se pronunciar sobre outras matérias. Acho, contudo, que tratando uma matéria que lhe é mais próxima ele teria tido maior facilidade em apresentar factos ao invés das especulações inteligentes agora apresentadas.

Então, aí vai mais uma dica sobre como manter a distância crítica. Não está em causa a qualidade do texto de Jorge de Oliveira, nem as capacidades intelectuais do seu autor, muito menos a defesa de uma medida problemática. O que está em causa é a nossa responsabilidade crítica como leitores e membros da esfera pública. Estamos dispostos a entrar em confrontação com o que nos é dito ou não? De que maneira o podemos fazer? Batendo simplesmente palmas? Defendendo? Ou interrogando o nosso senso-comum, fonte da plausibilidade do argumento que nos é servido? Penso que a interrogação do nosso senso-comum é o caminho. Interrogamo-lo simplesmente procurando uma base de informação mais sólida.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

O direito à razão XVIII

O Professor Mutambara

Já que estou na linha de reflexão sobre o sentido crítico na discussão pública deixem-me aproveitar uma deixa que me foi proporcionada por uma carta que um amigo me enviou da autoria de um zimbabweano sobre o problema zimbabweano. É uma carta “bomba” muito próxima da apreciação que eu próprio faço do problema daquele país. Quem quiser ler a carta inteira, em língua inglesa, pode o fazer aqui. O objectivo da reflexão sobre essa carta não é de reavivar essa discussão, embora isso seja sempre bem vindo, pelo menos do meu lado, mas sim de reflectir sobre um aspecto relevante do sentido crítico. Essa reflexão pretende mostrar algumas maneiras que temos ao nosso dispôr de lidar criticamente com proposições feitas por gente que se legitima – ou é legitimada por outros – com recurso à autoridade.

Infelizmente, não podemos saber tudo. Em muitas coisas da vida estamos dependentes da opinião de outros, sobretudo da opinião daqueles que se consideram, ou nós próprios consideramos, autoridade em certos domínios. Quando temos uma dor persistente de cabeça chega um momento em que devemos mesmo consultar o médico. Por vezes torna-se até necessário consultar mais do que um médico como qualquer moçambicano sensato que frequenta curandeiros sabe que deve fazer. Portanto, embora o nosso conhecimento não chegue para determinar se uma coisa é correcta ou não, temos ao nosso dispôr a opinião de terceiros que nos pode ajudar. Não é, evidentemente, seguro, mas é o que temos. Interessa-me, pois, reflectir sobre este recurso e mostrar os passos que estão envolvidos para ajudar algumas pessoas a evitarem situações embaraçosas de se ridicularizarem rejeitando de forma irreflectida a opinião de gente que está em muito melhor posição de saber do que elas próprias.

O Professor Mutambara é membro do MDC zimbabweano e, pelo que pude depreender dos noticiários zimbabweanos, foi proposto como um dos vice-presidentes nas negociações que decorreram sob a égide de Thabo Mbeki. Numa extensa carta de mais de vinte páginas ele tece duras críticas ao Ocidente acusando-o de através da sua política de diabolização de Mugabe estar a contribuir grandemente para prolongar o sofrimento do povo zimbabweano. Ele escreve (minha tradução de algumas passagens):

Ao entrarmos num novo ano reflictamos sobre alguns debates importantes que dão contornos à

nossa política... Merecem atenção especial nesta reflexão alguns desafios e realidades
desconfortáveis que muitas vezes temos medo de abordar. Em particular, estamos preocupados
em abater esse elefante na nossa sala de estar nacional: como o envolvimento externo ignorante
e não estratégico no discurso Zimbabweano tem feito mais mal do que bem. Procuramos aqui
demonstrar que no ano de 2008 brincadeiras ocidentais descaradas e sem vergonha, na verdade,
minaram a oposição e reforçaram Robert Mugabe. Mais importante ainda, é nossa convicção
que as posições mal informadas e endiabradas dos governos ocidentais, particularmente dos
EUA e do Reino Unido, tiveram um impacto negativo no nosso interesse nacional. Os
zimbabweanos precisam de perceber isto muito bem de modo a que o nosso destino colectivo
seja diferente no ano de 2009 (...) Quando nos preparávamos para deixar o ano de 2008 para
trás, durante o mês de Dezembro, havia um crescendo de vozes a exigirem a saída de Mugabe
do palco político. Não há nada de novo nem de criativo nesta fórmula mágica de que Mugabe
deve partir. O problema é que muitas pessoas e instituições influenciadas por esta ideia
padecem da doença de o seu coração se encontrar no lugar certo, enquanto que a sua mente
não está a ser aplicada. É preciso tanto um bom coração quanto uma boa mente...
 

A carta continua tentando mostrar porque na perspectiva da oposição que ele representa no Zimbabwe seria mais importante lidar com Mugabe como parte da solução, dar a devida consideração aos esforços dos países da região na procura de uma solução negociada e estável para aquele problema e deixar que o próprio processo se encarregue de dar a Mugabe o destino que ele merece. A carta não está bem argumentada em alguns dos seus aspectos centrais, mas ela vale muito pelo facto de ser o depoimento de alguém que é da oposição, quer acabar com o poder de Mugabe e é zimbabweano. Uma pessoa que, pelo menos à partida, é insuspeita. Não é um “intelectual” que se diz íntegro como eu. Vale à pena citar uma passagem da sua carta só para desestabilizar (se é que isso é possível...) um bocadinho os auto-proclamados defensores do povo zimbabweano no nosso país. Ele fala da atitude ocidental em relação ao Acordo Político Geral (GPA) de Setembro de 2008:

Jendayi [Jendayi Frazer é a sub-secretária americana para os assuntos africanos], suponho que ela apoie o Sr. Tsvangirai e que queira que ele se saia bem. Será que ela o respeita? Ele assinou o GPA no qual Mugabe é designado como Presidente. Será que ela pensa que o Sr. Tsvangirai não sabe o que é bom para si e, por isso, ela tem que lhe mostrar o caminho? A propósito, não é verdade que o governo americano apoiou o acordo quando este foi assinado. Para que fique registado, quer os EUA, quer o Reino Unido opuseram-se ao acordo logo desde o início. Eles não gostaram do facto de que Mugabe era Chefe de Estado e Chefe do Executivo, e não gostaram das posições do GPA em relação à reforma da terra e às sanções. Toda a gente sabe disto. Não somos crianças. Os EUA e o Reino Unido estão agora a aproveitar o atraso na implementação do acordo para atacar e destruir o GPA. Será que Frazer e seu governo têm um mecanismo exequível que constitua alternativa ao actual GPA juntamente com meios de o fazer valer? E o que foi que ela disse sobre a fraqueza e incompetência do seu agente predilecto no GPA? Não foi ela que disse: “Tsvangirai é demasiado fraco e incompetente para que o deixemos participar de um governo inclusivo ao lado de Mugabe. Ele vai ser completamente ludibriado. Tsvangirai não é assim tão forte como Odinga. Se ele o fosse nós teríamos permitido que ele participasse de um Governo de Unidade Nacional com Mugabe.” Como é possível ela proferir tamanhos insultos contra o seu líder de oposição preferido? Com amigos assim quem precisa ainda de inimigos? Já agora, será que ela partilhou as suas ideias sobre Tsvangirai com ele próprio? E porque não? (…) Jendayi, não vê que está a destruir a oposição que tenta ajudar e a reforçar o Mugabe que você mesmo tenta destruir? Está de forma estúpida a confirmar tudo quanto Mugabe diz sobre a oposição: que somos fantoches. Para além disso, os pontos fortes de Mugabe em África são o pan-africanismo e o anti-imperialismo. Qualquer política externa que mina os líderes africanos e instituições africanas joga a favor do plano de acção de Mugabe. Porque é que diplomatas ocidentais não conseguem ter o domínio de coisas tão básicas?

O apelo à autoridade

Não fui eu quem escreveu estas linhas. Foi um zimbabweano membro da oposição. Um membro sénior da oposição! Reparem que com estas palavras estou a tecer um argumento que se desdobra em formas de grande interesse para a nossa cultura de debate. Na verdade, trata-se de dois argumentos. Estou, por um lado, a dizer que o Professor Mutambara está em posição de saber certas coisas e, em virtude disso, o que ele diz é muito provavelmente correcto. Por outro lado, estou também a dizer que o Professor Mutambara é uma autoridade no assunto sobre o qual ele se pronuncia e, em virtude disso, o que ele diz é muito provavelmente correcto. Deixem-me formalizar um pouco os dois argumentos para vermos o que está envolvido e os desafios que isso nos coloca do ponto de vista da reflexão crítica.

A primeira forma argumentativa consiste de uma premissa que simplesmente diz que alguém está numa posição de saber se uma coisa é assim ou não. A segunda premissa é afirmativa no sentido em que diz que alguém diz que uma coisa é assim. Segue-se, então, a conclusão que basicamente diz que uma determinada coisa é provavelmente mesmo assim. Trocado em quinhentas: O Professor Mutambara está em posição de saber se o papel do ocidente na crise zimbabweana é bom ou mau; o Professor Mutambara diz que o papel do ocidente é mau; logo, o papel do ocidente é mau.

A segunda forma argumentativa consiste de uma premissa que diz que fulano de tal é especialista de uma área dentro da qual é feita uma determinada proposição. A segunda premissa é de que esse especialista diz que essa proposição (dessa tal área) é verdadeira (ou falsa). A conclusão aqui é de que essa proposição pode ser tida como sendo correcta (ou falsa). Vamos traduzir: O Professor Mutambara é especialista da crise zimbabweana que envolve o papel do ocidente; o Professor Mutambara diz que o papel do ocidente é mau. Logo, o papel do ocidente é mau.

Entre nós, a avaliação destes argumentos seria tudo menos analítica. Havíamos de dizer que é hábito do Professor Mutambara não respeitar as ideias dos outros; não sabe nada; não entende nada desses assuntos; dá alento a ditadores; é arrogante, pensa que nós somos burros, etc. Portanto, tudo menos o que realmente conta para um debate saudável. E não é que nenhum destes pontos não seja pertinente. É claro que todos eles, no devido contexto, podem ser relevantes. O importante nestas coisas é tentar na medida do possível pensar a coisa de forma sistemática. Há seis perguntas que podemos colocar e que nos podem ajudar a fazer esta reflexão sistemática. A primeira pergunta seria de saber até que ponto é que uma determinada pessoa é credível como especialista (ou alguém que está em posição de saber). No caso específico do Professor Mutambara há muitas indicações de que ele seja uma fonte segura. Há muito que está na oposição, aliás, pertence à cúpula da oposição, tem participado directamente no processo de negociação e já documentou através das suas acções o seu repúdio por Mugabe.

A segunda pergunta seria de saber se ele é realmente especialista da matéria em questão. Esta pergunta aplica-se mais a casos, digamos, de natureza factual. Por exemplo, se alguém nos dissesse que as balas que crivaram o corpo de Todinho são balas de armas usadas pela polícia moçambicana e essa pessoa fosse especialista em balística, teríamos fortes razões para considerar o seu depoimento válido. Neste caso do Zimbabwe só podemos dar a mesma resposta que demos na pergunta anterior, nomeadamente de que em virtude de andar nestas coisas há muito tempo o Professor Mutambara é suficientemente abalizado. A terceira pergunta é menos chata, pois ela quereria saber se alguém realmente disse o que se lhe imputa. O Professor Mutambara, conforme se pode ver nos extractos reproduzidos mais acima, disse que o ocidente tem tido uma má actuação. A pergunta não é inocente. Muitas vezes fazemos o recurso a especialistas que nunca disseram o que lhes imputamos. É preciso ter cuidado nestas coisas. Na discussão desta questão do Zimbabwe já me foi imputada a ideia de que o que Mugabe faz é correcto e justificado pela história. Já se disseram várias outras coisas que não só revelam dificuldades de leitura e compreensão, mas sobretudo dificuldades de discutir com mente aberta.

A quarta pergunta seria de saber se podemos confiar no nosso especialista como fonte. Aqui a porca torce o rabo. Após receber a carta do Professor Mutambara meti o seu nome no “google” e fui dar em vários textos que põem vários aspectos da sua personalidade em causa, incluindo mesmo se o título de “professor” que ele ostenta é válido. E não só. Levantam-se sérias dúvidas em relação ao seu papel no seio da oposição e diz-se que ele se posiciona da maneira como o faz por mero oportunismo. Encontrei textos que o apoiam. Que fazer? Aqui só posso suspender a minha opinião até me informar melhor não só sobre o que se diz sobre ele como também sobre a idoneidade dessas outras fontes. Estão a ver como é complicado pensar? Podia ignorar isto como alguns fazem ou agarrar-me aos que o apoiam para insistir que ele é fonte de confiança. A quinta pergunta é também interessante porque quereria saber se o que o Professor Mutambara diz é também opinião de outras pessoas que estão, como ele, em posição de saber ou são também especialistas. Ainda não investiguei isto, mas é evidente que não se trata da opinião de um excêntrico. Trata-se, inclusivamente, de uma opinião que é partilhada por académicos e observadores mais ou menos independentes. Finalmente, a sexta pergunta seria de saber se o nosso especialista tem provas para o que diz. O texto do Professor Mutambara não apresenta provas do que diz; interpreta a situação e procura fundamentar essa interpretação com base na leitura de certos sinais como, por exemplo, afirmações feitas por protagonistas importantes. Numa outra ocasião vou falar sobre os argumentos baseados na interpretação de sinais que são também frequentes na nossa esfera pública.

Vamos respirar fundo

O texto já vai muito longo, infelizmente, mas era necessário. Como podem ver, na discussão crítica da opinião de alguém que está em posição de saber ou é especialista em alguma matéria há muita coisa envolvida que ultrapassa os limites do ataque à pessoa que é característico da nossa esfera pública. Tornar a colocação destas questões num hábito individual é uma condição essencial de participação útil no debate de ideias e na reflexão sobre os graves problemas que enfrentamos na vida dos nossos países. Corremos o risco inevitável de, para utilizar a bela expressão empregue por Amosse Macamo num comentário a uma postagem, sermos “conotados”, mas que remédio? O único que me parece insuficiente, e mau, é confiarmos apenas nas palmadinhas dos amigos que nos ajudam a insultar a pessoa que diz coisas que não cabem muito bem nos nossos esquemas normativos. Tentar ser sistemático na reflexão é uma forma de evitarmos cair no erro da credulidade e da repetição de lugares-comuns como é o caso, sobretudo nesta questão do Zimbabwe.