Verdade, razão e dúvida
Escrevi este texto há duas semanas para o publicar no blogue, mas outros textos foram se sobrepondo. Como não me ocorre outra ideia para vos desejar BOAS FESTAS publico-o com essa função.
Soube da morte de Samora Machel no intervalo de uma conferência numa cidadezinha inglesa onde me encontrava a trabalhar como intérprete juntamente com um colega guineense. A seguir ao intervalo eu é que devia entrar para a cabine de tradução simultânea. É claro que não pude. Fiquei verdadeiramente transtornado e senti-me, como aliás muitos moçambicanos se sentiram nesse dia, extremamente vulnerável e entregue à minha própria sorte. Os dias subsequentes foram horríveis com dúvidas sobre o que seria o futuro do país sem aquele homem. A atitude geralmente positiva da imprensa britânica em relação ao Moçambique de Samora Machel contribuiu ainda mais para aumentar o meu sentido de desespero.
A morte de Samora Machel foi um momento marcante da minha formação intelectual. Depois dos dias subsequentes de forte agonia fiz um exame pessoal de introspecção e perguntei a mim próprio porque me sentia assim. Passei em revista tudo quanto sabia sobre o país, sobre a nossa história e sobre os desafios que se nos colocavam e fiquei espantado com a minha reacção àquela morte. O país tinha perdido um grande homem, disso não havia dúvidas, mas de onde vinha este desespero? Em 1969 havia-se perdido outro grande homem e mesmo assim o país se reencontrara e prosseguira.
Tive, semanas depois, a oportunidade de entrar em diálogo com a nossa história e ajustar as minhas contas com a nossa história pós-colonial quando fui convidado a dar uma palestra sobre Samora Machel no meu departamento na universidade de Salford, norte da Inglaterra, que eu frequentava nessa altura. Estamos ainda nos anos oitenta. Espontaneamente sugeri o título “um mal que veio por bem”. Custou-me imenso pensar assim em relação ao homem que tanto havia dado pelo país, mas pareceu-me necessário para a minha própria emancipação. Quando muitos esperavam me ouvir a lamentar a morte dessa grande figura, defendi a ideia de que talvez a sua morte tivesse efeitos benéficos para o país dado que ele se havia tornado refém de si próprio e não parecia a pessoa capaz de identificar os verdadeiros desafios do país.
Falar assim e sobre isso foi profundamente exilarante. Sentir as reticências da audiência e ver as frontes zangadas e os sobrolhos franzidos dos que me escutavam teve efeito de adrenalina. Ganhei gosto imediato por evitar me aliar à opinião da maioria. Meses mais tarde, durante a redação da tese com o título “a construcção de uma nação com base num sistema unipartidário” vi-me confirmado na minha dúvida. Li quase tudo que havia disponível nas bibliotecas inglesas sobre Moçambique, sobretudo coisas relacionadas com a luta de libertação nacional, e dei-me conta de quão esquemático e ideológico era o meu conhecimento da história que nos havia feito. Comecei a colocar os vivas que eu havia dado com aquela euforia e aquele entusiasmo embriagante do pós-independência no seu devido contexto e cheguei à conclusão de que tinha acreditado em muita coisa sem a ter realmente percebido. Jurei nunca mais voltar a fazer isso. Estudar sociologia foi um dos resultados desse juramento. Concluí que precisava de adquirir instrumentos científicos que me protegessem da crença pelo prazer da crença. Até aqui estou satisfeito com os resultados, muito embora a sociologia, se fosse pessoa, fosse capaz de torcer o nariz por alguns becos por onde me tenho metido. Mas ela compreende, pois ela não tem hábitos moçambicanos de discussão.
Da tirania da opinião da maioria
Conto isto tudo para reflectir sobre algumas discussões em que tenho estado envolvido nos últimos tempos neste blogue assim como noutros que leio com certa regularidade. Noto uma certa impaciência por parte de gente bem intencionada, culta e íntegra com a forma como pareço estar a ofender preceitos básicos da minha formação académica defendendo o que é aparentemente indefensável, dando o benefício da dúvida ao que é certamente errado e assumindo posições susceptíveis de dar alento aos mais vis nas suas vis intenções. Na cumplicidade da minha relação silenciosa com o computador e com a internet tenho me rido (e divertido) bastante enquanto leio comentários por vezes incendiários dirigidos à imoralidade e inverdade do meu posicionamento. Não sou, para bem dizer, do clube dos cépticos gregos clássicos, mas também as posições que eles defenderam em relação à vida e ao conhecimento não me são completamente antipáticas.
O nosso país atravessa momentos muito importantes de incertezas e o mais cómodo, para muitos de nós, sobretudo para aqueles que confundem a verdade com a razão, é procurar refúgio na opinião da maioria. Existe, infelizmente, a forte tendência, amplificada pela disponibilidade de meios de comunicação como a internet, de pensar que é obrigatório ter opinião, que essa opinião tem que reflectir a verdade e que essa verdade está irremediavelmente feita com as crenças da maioria. Opinar é falar verdade e falar verdade é dizer aquilo que vai ser imediatamente aplaudido. Num mundo como o nosso onde a ideia de que alguém vai cuidar do nosso bem estar (o partido de vanguarda) e de que quem está contra o partido de vanguarda está contra o nosso bem estar já não cola assim tão bem, são poucos os que se sentem desafiados a duvidar desse tipo de certezas. Muitos simplesmente invertem os termos: os bons do passado são os maus do presente; os maus do passado são os bons do presente. Ou quase isso. E procuram refúgio nessas categorias simplistas.
Não fazem o mais difícil que é questionar as categorias, diferenciar, contextualizar, enfim, colocar a razão (como ferramenta) não ao serviço da produção de verdades, mas sim como meio de identificar os critérios através dos quais ela possa ser acessível e, dessa maneira, dialogarem (se for possível) com as suas incertezas. Basta-lhes dizer “fulano de tal não tem razão” para fulano de tal não ter mesmo razão. Basta que falte uma vírgula, um acento ou haja um erro ortográfico para pensarem que constatar isso seja equivalente à conquista da razão. Falta-lhes a modéstia que vem com o estudo, um estudo, porém, que não se mede pelos títulos académicos ou número de publicações, mas sim pelo interesse pelo que faz do conhecimento realmente conhecimento. Confundem arrojo irreflectido com razão e imodéstia com o inquérito.
Mas não devo exagerar. Muitos não fazem isto. Só alguns. Acho os cépticos gregos simpáticos, mas não vou ao ponto de elevar a dúvida ao estatuto de recusa de acção ou de formação de juízo. Mas devo confessar que me incomoda bastante a apetência pela acção irreflectida e pelo julgamento normativo na abordagem dos nossos problemas. A minha reacção perante esta apetência é utilizar a dúvida como arma contra a autoridade assumida do direito à emissão de opinião e, acima de tudo, contra a tirania da opinião da maioria. Por vezes isso é arriscado, pois não é o facto de uma opinião ser partilhada pela maioria que faz com que ela seja problemática. Por vezes, digo bem. Mas no nosso contexto e sobretudo em questões ligadas à política é quase sempre assim. Por isso, instintivamente, entro numa discussão já desconfiando da opinião da maioria. E o caso não é para menos: sem dúvida dificilmente haverá crítica. E crítica é o que nos falta. Não a crítica de dizer que está tudo mal; muita coisa está, de facto, mal. Nem mesmo a crítica de dizer “fulano de tal está enganado”; isso é o menos difícil. Mas crítica no sentido de identificar os elementos que nos permitam falar a mesma linguagem na abordagem de problemas comuns, uma crítica enformada por um princípio geral de dúvida que é motivado pelo conhecimento profundo das coisas.
Vem aí 2009
2008 está a chegar ao fim. Muita água correu. Muitas pontes se foram. Depois das eleições autárquicas e antes das legislativas vai começar a eleição do melhor blogue, do melhor crítico, do melhor comentário, do melhor político, da melhor medida política, do principal acontecimento do ano, etc. E o que vai motivar e enformar essas eleições, infelizmente, não vai ser a razão, mas sim esta preocupação de fazer parte de uma comunidade normativa que nos reconforta na nossa sensação de que a nossa opinião tem um vínculo especial com a verdade. O que vai enformar essas eleições não vai ser o pensamento crítico, mas a tirania da maioria, ou melhor, a tirania daqueles cujas vozes são mais altas, e nessa tirania vai desaparecer uma das maiores conquistas feitas pelo Homem na sua progressão pela história, nomeadamente o direito à razão, isto é a obrigação que cada um de nós tem de servir argumentos aos outros como condição de eles nos poderem interpelar no sentido do reforço do nosso sentido de comunidade.
A dúvida não confere razão. Sem disciplina analítica e teimosia até é possível que nos percamos. Mas a piada está justamente aí. Quem duvida e faz disso um princípio de intervenção tem uma atitude mais relaxada em relação aos assuntos. Só quem se julga detentor da verdade é que se torna intolerante e fanático nas suas posições. Quem duvida não fica envergonhado por ter abordado um assunto de uma determinada maneira e ter sido provado enganado. Ele rigozija-se. Pessoalmente, tenho me congratulado bastante pelo facto de ser lido por muitas pessoas em Moçambique, muitas das quais fazem questão de me dizerem que lêm com gosto o que escrevo, mas não concordam comigo. Esse tem sido o maior cumprimento. Se fosse o contrário ficava decepcionado. Não fiz esta dolorosa trajectória de Mbuzini até aqui para continuar preso à tirania da maioria ou para fazer depender a minha sede de conhecimento pelas pessoas que acho simpáticas ou não. Fi-la para me libertar. E a liberdade é gostosa. Aliás, tem sido gostosa.
Aos estudantes de ciências sociais que passam por aqui só posso aconselhar o mesmo: deixem a verdade em paz que essa tem os seus donos. Preocupem-se mais com os critérios através dos quais conseguem acesso a ela. Dêem prioridade à razão que significa pensar por vocês próprios. Desconfiem da opinião da maioria e não tenham medo de dizer isso. Hão-de ver que isso vos liberta. Se todos disserem que Mugabe é diabo, desconfiem. Se todos disserem que o governo não presta, desconfiem. Se todos disserem que Simango é o político do ano, desconfiem. Se todos disserem que os bio-combustíveis são o futuro, desconfiem. Se todos disserem que o HIV é o maior perigo, desconfiem. Se todos disserem que o FMI não presta, desconfiem. Se todos disserem que Bush é maluco, desconfiem. Se todos disserem que o “ideias críticas” é o melhor blogue do século, ... bom, deixo isso ao vosso critério.
Mas desconfiem que faz bem. Desconfiem se não querem ficar intolerantes. E pensem por vós próprios. Tenham a audácia do conhecimento como exortava Kant e não a audácia do arrojo ridículo. Não permitam que o país regresse aos tempos sombrios de uma única verdade detida por poucos. Desconfiem de todo o argumento que assenta na identificação dos bons e dos maus. Façam uso do vosso sentido crítico!
A minha desconfiança tem me servido bem. Fico estarrecido quando vejo, por vezes, gente que noutras circunstâncias é pela defesa da liberdade se tornar extremamente intolerante quando o assunto já não encaixa muito bem no seu esquema normativo. Fico estupefacto perante argumentos normativos em discussões sérias, sobretudo quando toda a plausibilidade desses argumentos é articulada com a normatividade. Acho engraçado que a profusão de espaços de emissão de opinião não tenha o efeito salutar de temperar a força de argumentos normativos na discussão crítica das coisas da nossa vida. Perante tudo isso, só posso desconfiar. Por vezes, como é normal, engano-me, mas a vantagem é que posso saber exactamente onde me enganei ao contrário daqueles que emitem a opinião da maioria tanto mais que essa maioria muitas vezes está apenas nas suas cabeças.
Desejo a todos os que me acompanharam neste blogue durante o ano de 2008 festas felizes. Em 2009 vou continuar a fazer investidas pela melhoria da qualidade da nossa esfera pública. Espero que continuem comigo.
Escrevi este texto há duas semanas para o publicar no blogue, mas outros textos foram se sobrepondo. Como não me ocorre outra ideia para vos desejar BOAS FESTAS publico-o com essa função.
Soube da morte de Samora Machel no intervalo de uma conferência numa cidadezinha inglesa onde me encontrava a trabalhar como intérprete juntamente com um colega guineense. A seguir ao intervalo eu é que devia entrar para a cabine de tradução simultânea. É claro que não pude. Fiquei verdadeiramente transtornado e senti-me, como aliás muitos moçambicanos se sentiram nesse dia, extremamente vulnerável e entregue à minha própria sorte. Os dias subsequentes foram horríveis com dúvidas sobre o que seria o futuro do país sem aquele homem. A atitude geralmente positiva da imprensa britânica em relação ao Moçambique de Samora Machel contribuiu ainda mais para aumentar o meu sentido de desespero.
A morte de Samora Machel foi um momento marcante da minha formação intelectual. Depois dos dias subsequentes de forte agonia fiz um exame pessoal de introspecção e perguntei a mim próprio porque me sentia assim. Passei em revista tudo quanto sabia sobre o país, sobre a nossa história e sobre os desafios que se nos colocavam e fiquei espantado com a minha reacção àquela morte. O país tinha perdido um grande homem, disso não havia dúvidas, mas de onde vinha este desespero? Em 1969 havia-se perdido outro grande homem e mesmo assim o país se reencontrara e prosseguira.
Tive, semanas depois, a oportunidade de entrar em diálogo com a nossa história e ajustar as minhas contas com a nossa história pós-colonial quando fui convidado a dar uma palestra sobre Samora Machel no meu departamento na universidade de Salford, norte da Inglaterra, que eu frequentava nessa altura. Estamos ainda nos anos oitenta. Espontaneamente sugeri o título “um mal que veio por bem”. Custou-me imenso pensar assim em relação ao homem que tanto havia dado pelo país, mas pareceu-me necessário para a minha própria emancipação. Quando muitos esperavam me ouvir a lamentar a morte dessa grande figura, defendi a ideia de que talvez a sua morte tivesse efeitos benéficos para o país dado que ele se havia tornado refém de si próprio e não parecia a pessoa capaz de identificar os verdadeiros desafios do país.
Falar assim e sobre isso foi profundamente exilarante. Sentir as reticências da audiência e ver as frontes zangadas e os sobrolhos franzidos dos que me escutavam teve efeito de adrenalina. Ganhei gosto imediato por evitar me aliar à opinião da maioria. Meses mais tarde, durante a redação da tese com o título “a construcção de uma nação com base num sistema unipartidário” vi-me confirmado na minha dúvida. Li quase tudo que havia disponível nas bibliotecas inglesas sobre Moçambique, sobretudo coisas relacionadas com a luta de libertação nacional, e dei-me conta de quão esquemático e ideológico era o meu conhecimento da história que nos havia feito. Comecei a colocar os vivas que eu havia dado com aquela euforia e aquele entusiasmo embriagante do pós-independência no seu devido contexto e cheguei à conclusão de que tinha acreditado em muita coisa sem a ter realmente percebido. Jurei nunca mais voltar a fazer isso. Estudar sociologia foi um dos resultados desse juramento. Concluí que precisava de adquirir instrumentos científicos que me protegessem da crença pelo prazer da crença. Até aqui estou satisfeito com os resultados, muito embora a sociologia, se fosse pessoa, fosse capaz de torcer o nariz por alguns becos por onde me tenho metido. Mas ela compreende, pois ela não tem hábitos moçambicanos de discussão.
Da tirania da opinião da maioria
Conto isto tudo para reflectir sobre algumas discussões em que tenho estado envolvido nos últimos tempos neste blogue assim como noutros que leio com certa regularidade. Noto uma certa impaciência por parte de gente bem intencionada, culta e íntegra com a forma como pareço estar a ofender preceitos básicos da minha formação académica defendendo o que é aparentemente indefensável, dando o benefício da dúvida ao que é certamente errado e assumindo posições susceptíveis de dar alento aos mais vis nas suas vis intenções. Na cumplicidade da minha relação silenciosa com o computador e com a internet tenho me rido (e divertido) bastante enquanto leio comentários por vezes incendiários dirigidos à imoralidade e inverdade do meu posicionamento. Não sou, para bem dizer, do clube dos cépticos gregos clássicos, mas também as posições que eles defenderam em relação à vida e ao conhecimento não me são completamente antipáticas.
O nosso país atravessa momentos muito importantes de incertezas e o mais cómodo, para muitos de nós, sobretudo para aqueles que confundem a verdade com a razão, é procurar refúgio na opinião da maioria. Existe, infelizmente, a forte tendência, amplificada pela disponibilidade de meios de comunicação como a internet, de pensar que é obrigatório ter opinião, que essa opinião tem que reflectir a verdade e que essa verdade está irremediavelmente feita com as crenças da maioria. Opinar é falar verdade e falar verdade é dizer aquilo que vai ser imediatamente aplaudido. Num mundo como o nosso onde a ideia de que alguém vai cuidar do nosso bem estar (o partido de vanguarda) e de que quem está contra o partido de vanguarda está contra o nosso bem estar já não cola assim tão bem, são poucos os que se sentem desafiados a duvidar desse tipo de certezas. Muitos simplesmente invertem os termos: os bons do passado são os maus do presente; os maus do passado são os bons do presente. Ou quase isso. E procuram refúgio nessas categorias simplistas.
Não fazem o mais difícil que é questionar as categorias, diferenciar, contextualizar, enfim, colocar a razão (como ferramenta) não ao serviço da produção de verdades, mas sim como meio de identificar os critérios através dos quais ela possa ser acessível e, dessa maneira, dialogarem (se for possível) com as suas incertezas. Basta-lhes dizer “fulano de tal não tem razão” para fulano de tal não ter mesmo razão. Basta que falte uma vírgula, um acento ou haja um erro ortográfico para pensarem que constatar isso seja equivalente à conquista da razão. Falta-lhes a modéstia que vem com o estudo, um estudo, porém, que não se mede pelos títulos académicos ou número de publicações, mas sim pelo interesse pelo que faz do conhecimento realmente conhecimento. Confundem arrojo irreflectido com razão e imodéstia com o inquérito.
Mas não devo exagerar. Muitos não fazem isto. Só alguns. Acho os cépticos gregos simpáticos, mas não vou ao ponto de elevar a dúvida ao estatuto de recusa de acção ou de formação de juízo. Mas devo confessar que me incomoda bastante a apetência pela acção irreflectida e pelo julgamento normativo na abordagem dos nossos problemas. A minha reacção perante esta apetência é utilizar a dúvida como arma contra a autoridade assumida do direito à emissão de opinião e, acima de tudo, contra a tirania da opinião da maioria. Por vezes isso é arriscado, pois não é o facto de uma opinião ser partilhada pela maioria que faz com que ela seja problemática. Por vezes, digo bem. Mas no nosso contexto e sobretudo em questões ligadas à política é quase sempre assim. Por isso, instintivamente, entro numa discussão já desconfiando da opinião da maioria. E o caso não é para menos: sem dúvida dificilmente haverá crítica. E crítica é o que nos falta. Não a crítica de dizer que está tudo mal; muita coisa está, de facto, mal. Nem mesmo a crítica de dizer “fulano de tal está enganado”; isso é o menos difícil. Mas crítica no sentido de identificar os elementos que nos permitam falar a mesma linguagem na abordagem de problemas comuns, uma crítica enformada por um princípio geral de dúvida que é motivado pelo conhecimento profundo das coisas.
Vem aí 2009
2008 está a chegar ao fim. Muita água correu. Muitas pontes se foram. Depois das eleições autárquicas e antes das legislativas vai começar a eleição do melhor blogue, do melhor crítico, do melhor comentário, do melhor político, da melhor medida política, do principal acontecimento do ano, etc. E o que vai motivar e enformar essas eleições, infelizmente, não vai ser a razão, mas sim esta preocupação de fazer parte de uma comunidade normativa que nos reconforta na nossa sensação de que a nossa opinião tem um vínculo especial com a verdade. O que vai enformar essas eleições não vai ser o pensamento crítico, mas a tirania da maioria, ou melhor, a tirania daqueles cujas vozes são mais altas, e nessa tirania vai desaparecer uma das maiores conquistas feitas pelo Homem na sua progressão pela história, nomeadamente o direito à razão, isto é a obrigação que cada um de nós tem de servir argumentos aos outros como condição de eles nos poderem interpelar no sentido do reforço do nosso sentido de comunidade.
A dúvida não confere razão. Sem disciplina analítica e teimosia até é possível que nos percamos. Mas a piada está justamente aí. Quem duvida e faz disso um princípio de intervenção tem uma atitude mais relaxada em relação aos assuntos. Só quem se julga detentor da verdade é que se torna intolerante e fanático nas suas posições. Quem duvida não fica envergonhado por ter abordado um assunto de uma determinada maneira e ter sido provado enganado. Ele rigozija-se. Pessoalmente, tenho me congratulado bastante pelo facto de ser lido por muitas pessoas em Moçambique, muitas das quais fazem questão de me dizerem que lêm com gosto o que escrevo, mas não concordam comigo. Esse tem sido o maior cumprimento. Se fosse o contrário ficava decepcionado. Não fiz esta dolorosa trajectória de Mbuzini até aqui para continuar preso à tirania da maioria ou para fazer depender a minha sede de conhecimento pelas pessoas que acho simpáticas ou não. Fi-la para me libertar. E a liberdade é gostosa. Aliás, tem sido gostosa.
Aos estudantes de ciências sociais que passam por aqui só posso aconselhar o mesmo: deixem a verdade em paz que essa tem os seus donos. Preocupem-se mais com os critérios através dos quais conseguem acesso a ela. Dêem prioridade à razão que significa pensar por vocês próprios. Desconfiem da opinião da maioria e não tenham medo de dizer isso. Hão-de ver que isso vos liberta. Se todos disserem que Mugabe é diabo, desconfiem. Se todos disserem que o governo não presta, desconfiem. Se todos disserem que Simango é o político do ano, desconfiem. Se todos disserem que os bio-combustíveis são o futuro, desconfiem. Se todos disserem que o HIV é o maior perigo, desconfiem. Se todos disserem que o FMI não presta, desconfiem. Se todos disserem que Bush é maluco, desconfiem. Se todos disserem que o “ideias críticas” é o melhor blogue do século, ... bom, deixo isso ao vosso critério.
Mas desconfiem que faz bem. Desconfiem se não querem ficar intolerantes. E pensem por vós próprios. Tenham a audácia do conhecimento como exortava Kant e não a audácia do arrojo ridículo. Não permitam que o país regresse aos tempos sombrios de uma única verdade detida por poucos. Desconfiem de todo o argumento que assenta na identificação dos bons e dos maus. Façam uso do vosso sentido crítico!
A minha desconfiança tem me servido bem. Fico estarrecido quando vejo, por vezes, gente que noutras circunstâncias é pela defesa da liberdade se tornar extremamente intolerante quando o assunto já não encaixa muito bem no seu esquema normativo. Fico estupefacto perante argumentos normativos em discussões sérias, sobretudo quando toda a plausibilidade desses argumentos é articulada com a normatividade. Acho engraçado que a profusão de espaços de emissão de opinião não tenha o efeito salutar de temperar a força de argumentos normativos na discussão crítica das coisas da nossa vida. Perante tudo isso, só posso desconfiar. Por vezes, como é normal, engano-me, mas a vantagem é que posso saber exactamente onde me enganei ao contrário daqueles que emitem a opinião da maioria tanto mais que essa maioria muitas vezes está apenas nas suas cabeças.
Desejo a todos os que me acompanharam neste blogue durante o ano de 2008 festas felizes. Em 2009 vou continuar a fazer investidas pela melhoria da qualidade da nossa esfera pública. Espero que continuem comigo.