segunda-feira, novembro 26, 2007

Sociologia e estética

Infelizmente não tenho tido tempo para fazer postagens no blogue. É uma pena, pois tem havido debates interessantes que eu gostaria imenso de comentar. Um dos debates de interesse nos últimos tempos tem sido a música do jovem cantor Azagaia. O debate tem se centrado à volta de saber o que significa considerar o conteúdo da sua criação artística como “crítica social”. Alguns de nós, incluíndo o Patrício Langa, dizemos que o que Azagaia faz não é crítica social, mas sim desabafo social sem, contudo, com isso querermos tirar mérito à sua criatividade. Ele faz um comentário social extremamente pertinente, mas considerar esse comentário de “crítica social” é problemático, tanto mais que o tipo de questões que ele levanta e a forma como o faz me parecem contraproducentes. A crítica social não reproduz simplesmente o que “toda a gente pensa”. Ela interpela. Criticamente.

Voltei a um texto de Georg Simmel, um dos sociólogos que mais aprecio, com o título “Estética sociológica”. É uma grande pena que muitos dos seus escritos não estejam traduzidos. Poucos foram traduzidos para o inglês. Muito menos ainda para o português. Grande pena, mesmo, pois o seu pensamento é muito original, criativo e sempre um grande desafio para quem aspira a ser sociólogo ou se interessa pela crítica social. Simmel tinha grandes reticências em relação à sociologia como ciência e preferia limitar a sua relevância e utilidade à análise e descrição das formas de interacção. Os conteúdos ficavam, em sua opinião, ao cargo de outras disciplinas. Talvez volte a este assunto com mais vagar, mais tarde para discutir convosco algumas das suas implicações para a prática da sociologia no nosso país.

O que gostaria de fazer hoje é citar uma passagem desse texto:

A essência da descrição e análise estética reside, quanto a nós, no facto de que a essência e o significado das coisas sobem à superfície na presença do tipo no que é singular, da lei no que é ocasional e do essencial e significativo nas no que é aparente e fortuito.

Este pensamento simples, mas profundo, ajuda-nos a situarmos a nossa vocação como críticos sociais. Antes mesmo de sabermos se o nosso trabalho vai contribuir para diminuir a pobreza, desigualidades ou desafiar o sistema devíamos procurar saber se temos este sentido profundamente estéctico das coisas. Reconhecemos o tipo no que é singular? Reconhecemos a lei no que é ocasional? Reconhecemos o essencial e significativo no que é apenas aparente e fortuito? Simmel escreve:

Mesmo o mais baixo, o que é em si feio, está integrado num jogo de cores e formas, de emoções e vivências que lhe conferem sentido.

Que melhor recomendação pode haver para a sociologia? No fundo, ao discutirmos Azagaia não estamos mesmo a discutir Azagaia. Estamos a discutir a nossa capacidade estéctica e, desse modo, estamos a contribuir para a elaboração dos critérios que devemos usar para apreciar seja o que for. Fazer sociologia é isso mesmo. A essência da sociologia, em minha opinião, não consiste na prerrogativa que alguns de nós têm para dizer aos outros como ver a sociedade. Acho que a essência da sociologia está na responsabilidade que sobre nós pesa de colocarmos os critérios à mesa através dos quais uma comunidade como Moçambique pode começar (ou continuar) a discutir gostos. Gostos discutem-se. Não saberia dizer como situar este entendimento da sociologia numa classificação “esquerda-direita”, nem sei se esse exercício se impõe ou se é mesmo útil. Só sei dizer que Pierre Bourdieu não devia estar bem de cabeça quando uma vez disse que a sociologia e a arte não eram boas companheiras de cama... Sociologia sem sentido estético é provavelmente impossível!

2 comentários:

Bayano Valy disse...

Caro Elísio,
Finalmente encontro alguém que também diz que os gostos discutem-se. Pensei que já estivesse a ficar maluco - são tantos os que combatem essa minha maneira de ver o mundo dos gostos. não há uma certa racionalidade em quase tudo que fazemos?

e boas vindas.

Elísio Macamo disse...

nada impede que estejamos os dois a ficar malucos. na verdade, o que quero dizer é que se é possível ter razões para justificar/explicar os nossos gostos, então tem que ser possível discutir essas razões. se alguém diz que gosta da música de azagaia porque ela é crítica, então podemos discutir isso, isto é, se eu poder demonstrar que ela não é crítica (por hipótese) e a pessoa concordar comigo, então essa pessoa pode mudar de opinião. não sei se é preciso ter razões para tudo quando fazemos, pensamos ou sentimos. mas a partir do momento que alguém aponta razões, submete-se à discussão. só isso.