Curiosidade
Estes últimos meses têm sido horríveis. Falta-me tempo para dedicar mais atenção ao blogue. E isso é uma pena, pois há tanto assunto por aí, tanta coisa por comentar, tanta coisa para perceber melhor. Quando arranjo um tempinho, dou uma vista de olhos ao que os outros escrevem, comento quando posso comentar, e vou procurando pelo país nos jornais e debates na internet. O convívio directo com a blogosfera, contudo, faz-me falta. É por isso que arranjei um espaçozinho para abordar uma questão de cariz metodológico para preencher os espaços de silêncio.
Muitas vezes algumas pessoas querem saber como é que uma pessoa se pode manter informada sobre o país. Alguns perguntam-me como é possível perceber o país tão bem sem lá se estar. Esses são os que exageram. São os que pensam que quando alguém diz o que eles também pensam essa pessoa está a dizer a verdade. A verdade, por assim dizer, seria função do nosso próprio posicionamento. Não é que me incomodem esses tipos de elogio. Antes pelo contrário. Mas são problemáticos por razões que têm a ver com o que eu entendo ser o papel da sociologia ou das ciências sociais no geral. Na verdade, na minha maneira de ver as coisas, o papel das ciências sociais não é de andar a dizer às pessoas como as coisas são na realidade. Partir desse princípio seria o mesmo que nunca iniciar a reflexão. Seria, por exemplo, necessário explicar o que é a realidade e o que significa dizer que as coisas são como deviam ser ou como realmente são. Seria, dito de outro modo, envolver-se em debates filosóficos que nunca mais acabam.
Para mim o papel das ciências sociais consiste em investigar e recuperar para a discussão pública os critérios que todos nós usamos para dar visibilidade à sociedade. A sociologia do conhecimento tem um pressuposto básico que vale para todo o empreendimento científico na nossa área. Essa sociologia define o conhecimento como sendo a certeza que temos de que a realidade existe. Pois bem, as ciências sociais debruçam-se sobre essa certeza, interrogam-se sobre a sua constituição, traçam a sua história e procuram entender que efeitos é que ela tem na estruturação das relações sociais. O empreendimento sociológico ou das ciências sociais traz os seus praticantes para muito perto do gato proverbial que foi morto pela sua curiosidade. Não sei que gato foi esse, nem conheço a história que precedeu a sua eliminação pela curiosidade. Mas algo me diz que esse gato é nosso camarada. Foi morto por fazer aquilo que todo o cientista social que se preze faz e tem de fazer: satisfazer a sua curiosidade.
Agora, reparem numa coisa muito interessante. O gato não foi morto pelo que sabia. Foi morto por querer satisfazer a sua curiosidade, isto é, foi vítima do que não sabia. As ciências sociais fazem isto mesmo. Nós devemos todo o nosso conhecimento à nossa ignorância. Os cientistas sociais não sabem, por isso os seus praticantes não podem ser mortos por causa do que sabem; as ciências sociais procuram saber.
Daí a questão que me vai ocupar ao longo das próximas postagens: como é que satisfazemos a nossa curiosidade? Melhor ainda: como é que procuramos satisfazer a nossa curiosidade? É evidente que isto nos remete a questões ligadas à metodologia das ciências sociais com toda a sua discussão não só sobre o estatuto epistemológico das ciências sociais como também sobre o tipo de instrumentos que devemos utilizar para produzirmos conhecimento. Está claro que isso não pode ser o objecto da minha reflexão aqui. Isso é coisa de um curso sério de ciências sociais. Os princípios por detrás dessas discussões, porém, são acessíveis a todos nós independentemente do nosso nível de formação em ciências sociais. São princípios profundamente enraizados na nossa experiência do quotidiano que fazem de cada um de nós gente altamente competente do ponto de vista social. Não há maneira de não sermos capazes de apreender esses princípios. Vou tentar partilha-los aqui convosco num esforço de dismistificar um pouco o trabalho de cientistas sociais, mas também de mostrar que a maior contribuição que nós fazemos não está na recuperação da verdade, mas sim na promoção da competência no debate.
É assim que vou começar, na próxima postagem, por reflectir um bocado sobre a importância da fala para o cientista social. Com essa reflexão vou querer dizer uma coisa muito importante, nomeadamente que a curiosidade nasce da recusa do cientista social em dar as coisas do mundo social por adquiridas. As ciências sociais obrigam um indivíduo a fazer-se de parvo, o que é interessante, pois o parvo é parvo – estou a parafrasear Michel Foucault – justamente porque não apreende a realidade como a esmagadora maioria pensa que o faz. O parvo subtrai-se à força normativa do olhar colectivo e isso faz dele um observador privilegiado do que os outros fazem. O sociólogo é parvo por defeito profissional, digamos. Depois desta reflexão sobre a fala vou propor uma maneira muito simplificada de estruturar a nossa curiosidade de forma sistemática. Isso vai me levar a falar de algumas coisas que se fazem no âmbito da sociologia que faz a análise discursiva. Vou ilustrar isso tudo com uma tentativa de análise de uma carta aberta muito interessante que veio cair na minha caixa de correio electrônico exigindo a exoneração do vice-ministro da mulher e acção social.
Não me interessa, naturalmente, discutir os méritos desse indivíduo, embora desde que li as coisas profundamente nojentas que ele escreveu sobre Machado da Graça tenha desenvolvido uma certa antipatia pelo seu pensamento e uma certa perplexidade em relação ao facto de o jornal Domingo lhe proporcionar esse espaço e de ele gozar da confiança do Presidente da República ao ponto de ser indicado como comissário na Alta Autoridade para a Função Pública e, agora, como Vice Ministro da Mulher e Acção Social. O que se escreve na “carta aberta” que vou tentar analisar confirma ainda mais os pontos de interrogação a volta desse indivíduo, mas levanta outro tipo de interrogações sobre o tipo de sociedade que o nosso país é ou tem. E isto não é do pelouro das certezas. É do pelouro da curiosidade.
2 comentários:
Viva e bem vindo. Estou a espera da análise sobre o nosso kandiane. Aliás, estou morto de curiosidade. Mas como dizia o outro: dizem que a curiosidade matou o gato, mas a não satisfação trouxe-o de volta aos mundo dos vivos. Já está ai uma questão: satisfação! alcança-se isso?
olá bayano, isto está a começar bem duro. digamos, como sabemos que estamos satisfeitos? é provável que essa seja a questão. abraços
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