Fidel Castro, Robert Mugabe, Machado da Graça e Incoerência
Já que algumas pessoas decidiram apedrejar os que opinam de forma diferente da sua, decidi mostrar quanto os seus telhados são feitos de vidro. Hoje gostaria de chamar a vossa atenção para a qualidade da argumentação de um artigo da autoria do jornalista Machado da Graça na sua coluna do semanário Savana “a talhe de foice” do dia 7 de Março. Nesse artigo, com o título “Cuba e Moçambique”, Machado da Graça comenta um artigo publicado no mesmo jornal (e que não li) da autoria de alguém que assina com o pseudónimo Jota Esse Erre sobre a situação em Cuba. Segundo Machado da Graça o referido artigo é “demolidor sobre a situação naquele país”, “... uma parte considerável do que diz esse artigo é verdade”, mas porque só conta uma parte da verdade (e isso intencionalmente), então, o artigo está a mentir. Parece-me uma perspectiva interessante sobre a mentira e a verdade, mas este não é ainda o momento de reflectir sobre este assunto específico.
Interessa-me mais o argumento de fundo do nosso articulista. Segundo Machado da Graça, Jota Esse Erre está enganado porque adoptou a perspectiva dos Estados Unidos, país onde o tal Jota Esse Erre vive segundo ainda o nosso articulista. “Nós, os moçambicanos”, escreve Machado da Graça, “teremos que olhar para Cuba com outros olhos bem diferentes”. Quais são esses olhos bem diferentes? São os olhos da gratidão pelas muitas coisas boas que Fidel Castro e Cuba fizeram pelos moçambicanos e pela causa internacionalista. Depois de descrever algumas delas, coisas, diga-se de passagem, que deviam encher de vergonha muitos dos que hoje se arrogam o direito de interferir na nossa política em razão da ajuda ao desenvolvimento que nos prestam, Machado da Graça remata da seguinte maneira: “... [P]elo que descrevo acima, tenho muita dificuldade em imaginar um moçambicano que não goste da Cuba de Fidel (...) Só que Jota Esse Erre não é moçambicano”.
Há muita coisa problemática no argumento de Machado da Graça. Vou me cingir apenas a duas. A primeira tem a ver com o lugar de enunciação. Em relação a Cuba só pode falar a verdade quem não adopta a perspectiva dos Estados Unidos. Não interessa o conteúdo do que a pessoa disser, o importante é que não seja a perspectiva dos Estados Unidos. Apesar de uma parte considerável do que o pobre do Jota Esse Erre escreve ser verdade, é mentira, no cômputo geral, porque adoptou a perspectiva dos Estados Unidos e decidiu intencionalmente ocultar parte da verdade. Como Machado da Graça sabe que Jota Esse Erre intencionalmente conta apenas uma parte da verdade é um mistério para mim. Aliás, não é, pois o facto de Jota Esse Erre falar a partir da perspectiva dos Estados Unidos já revela a intenção de só contar uma parte da verdade. E uma pessoa que argumenta assim acha que estou a gastar papel do Notícias quando tento reflectir sobre algumas questões da nossa esfera pública como Machado da Graça o fez numa “crítica” recente a um texto meu.
A segunda coisa que me parece problemática é a ideia de que o nosso articulista possa falar em nome de todos os moçambicanos. Ele diz ter dificuldade em imaginar um moçambicano que não goste da Cuba de Fidel Castro. “Nós, os moçambicanos, teremos que olhar para Cuba com outros olhos bem diferentes”, escreve ele. Nós, os moçambicanos, portanto todos nós. Eu não gosto da Cuba de Fidel Castro. Sou menos moçambicano do que Machado da Graça por causa disso? Ser pobre e mal agradecido é razão suficiente para deixar de ser um verdadeiro moçambicano? Faz sentido isto? É mesmo possível, nos dias de pluralismo político de hoje, alguém ainda se arrogar o direito de falar em nome do povo moçambicano? Reparem que ainda nem comecei a questionar a leitura que Machado da Graça faz do apoio cubano ao mundo. Será que o simples facto de Cuba ter apoiado Moçambique da forma como o fez torna inválida e ilegítima qualquer crítica que um receptor dessa ajuda possa ter? É esta a ideia que os “críticos” têm de debate de ideias?
E remata: “Só que Jota Esse Erre não é moçambicano”. Está tudo explicado? Jota Esse Erre viu mal as coisas porque não é moçambicano segundo os critérios de nacionalidade de Machado da Graça? Porque não tem sentimento de gratidão? Porque está a cuspir nas mãos que o alimentaram no momento de aflição?
Não me vou alongar muito na coisa porque qualquer moçambicano – já agora! – pode ver facilmente que o argumento do nosso articulista é extremamente problemático. Gostaria apenas de dizer que não teria sido difícil dizer mais ou menos as mesmas coisas de forma argumentativa melhorada. O problema, de facto, não é, ao contrário do que supõe o nosso articulista, a perspectiva a partir da qual Jota Esse Erre fala, nem é a necessidade de gratidão por parte do povo moçambicano. O problema é simplesmente de que qualquer análise precisa de ser equilibrada. Só isso. Podemos ser equilibrados sem ferirmos as nossas convicções mais profundas sobre o que é justo e o que não é. O poder de Fidel Castro foi despótico para além do que qualquer sentido de gratidão nos possa forçar a aceitar. O Estado social que ele erigiu em troca da confiscação da liberdade do seu povo não faz dele héroi de nenhuma causa. Os milhares de cubanos que arriscaram a vida na travessia do mar rumo à liberdade, as dezenas de desportistas que regularmente abandonam selecções cubanas no exterior são um mau atestado ao exercício do poder em Cuba. Podemos, naturalmente, dizer que essas pessoas estão sob os efeitos da propaganda capitalista. Isso é o que os moçambicanos de Machado da Graça diriam, com certeza. Mas não alteraria em nada o que se passa naquele país e as prioridades que as pessoas têm. Mas temos a obrigação de olhar para as condições estruturais que tornam possível o que está a acontecer em Cuba. E a política americana é uma dessas condições.
Digo isto tudo para chamar a vossa atenção para a importância da coerência na argumentação. Sermos equilibrados não significa aceitar tudo. Significa apenas tentar descortinar o que está verdadeiramente em questão e analisar as coisas sem emoções. Com efeito, a forma como Machado da Graça argumenta deita por terra muitos dos moralismos que alguns analistas da nossa praça, incluindo o nosso articulista, emprestam à análise de Robert Mugabe. Afinal, Mugabe também nos ajudou. Porque não aplicar os mesmos critérios a ele? Porque nós fomos os primeiros a ajudar Robert Mugabe? Porque Robert Mugabe é africano e Fidel Castro latino americano? Estão a ver o problema da incoerência? Sem concordar com o que Mugabe faz e sem mesmo tentar transformá-lo num herói, tenho insistido em vários artigos na necessidade de, apesar do seu despotismo, tentarmos analisar as coisas friamente. Tenho feito isto no meio de um côro de vozes indignadas que só estão interessadas em demonizar. E gente assim considera ser a única com autoridade suficiente para opinar no nosso país. Gente que argumenta de forma incoerente.
Engana-se a Mcel quando diz que estamos juntos. Não estamos, não. Estamos mal.
2 comentários:
Bom retorno!
E.M, “os críticos” só aceitam aquilo que está de acordo com as suas convicções. Não importa o quão problemáticas são tais convicções na sua sustentação. São inúmeras aquelas vezes em que usam dois pesos e duas medidas para analisar problemas similares.O que acabas de relatar é só mais um exemplo de um dos “críticos mor”! No entanto, isso é comum na família dos Con-sagrados!
é isso, patrício, estamos mal. que pena!
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