terça-feira, abril 14, 2009

O fenómeno da bicha XXII

Do uso inflacionário de rótulos

Paul Fauvet, da AIM, publicou recentemente um artigo no qual expõe o que ele chama de campanha de difamação do Tribunal Supremo pelo jornal Zambeze. Segundo ele, o jornal Zambeze tem vindo a publicar artigos nos quais acusa o Tribunal Supremo de estar sob controlo político e tráfico de influências citando, para o efeito, dois casos – nomeadamente de um estrangeiro e de um suposto traficante da droga – sobre os quais o Tribunal, em defesa da legalidade, decidiu contra a acusação instruída pelos órgãos competentes. O texto de Paul Fauvet parece-me muito plausível. A força do seu argumento reside na importância que ele atribui à presunção de inocência e que, ao que tudo indica, esteve na base dos pronunciamentos do Tribunal Supremo.

Porque saio da minha inércia blogosférica para vir comentar este texto? É porque faz algum tempo que tenho vindo a lamentar a qualidade da nossa crítica concentrando mais a minha atenção nas deficiências dos críticos. É minha convicção que pior do que um governo mau é uma esfera pública tomada de assalto por indivíduos com um falso sentido crítico. Como tentei reflectir numa série de artigos publicados no jornal Notícias falso sentido crítico é a suposição que muitos de nós têm de que dizer o que está mal faz de nós bons, chamar alguém de tirano faz de nós democratas e amantes dos direitos humanos, enfim, falar mal de alguém é crítica. O mais fácil é dizer que o governo é incompetente; o mais fácil é dizer que a democracia em Moçambique está em perigo; o mais fácil é dizer que há muita corrupção; enfim, o mais fácil é dizer que os tribunais protegem os criminosos. Mais difícil, porque exige reflexão e compromisso mais sério com os critérios na base do que gostaríamos que o país fosse, é dizer em que circunstâncias a competência poderia florescer no país, que condições devem estar reunidas para que a democracia se consolide, o que torna a corrupção possível e em que circunstâncias ela é mesmo nociva e, já agora, quanto custa do ponto de vista político, mas também material, para que a observação das regras do estado de direito não comprometa o combate ao crime.

Isto tudo é difícil porque a nossa esfera pública ainda não está a separar suficientemente entre activistas – que têm a sua razão de existência e são importantes para o fomento do país – e académicos – que embora também possam envolver-se na contenda política deviam ter uma preocupação ainda maior com as questões que estão por detrás dos assuntos. O que está em questão quando o país é dominado politicamente por um único partido? O que está em questão quando o Tribunal Supremo chumba casos por insuficiência de provas? O que está em questão quando os níveis de corrupção são considerados elevados? O que está em questão quando um governante é incompetente? Trata-se de perguntas simples e, talvez por isso mesmo, não ocorre a ninguém colocá-las. A nossa preferência é pelo mais complicado, nomeadamente teorias de conspiração, ou, para ser politicamente correcto, acusações de feitiçaria: A Frelimo é contra a democracia; o Tribunal Supremo está sob controlo político da Frelimo; o governo é feito de ladrões; os governantes não sabem nada.

Recentemente, o comandante geral da polícia na cidade de Maputo, General José Weng San, concedeu uma entrevista ao jornal Savana na qual ele dizia coisas arrepiantes em relação aos juízes. O título do Savana dava destaque a isso, nomeadamente que alguns juízes não são sérios por soltarem cadastrados detidos pela polícia, mas sem provas suficientes. Peço que me corrijam: não tenho conhecimento de nenhuma discussão em Moçambique sobre estas afirmações tão perigosas para o estado de direito. Houve algum editorial a comentar isto e a recordar ao general que a sua acção – por mais difícil que seja – tem que ser feita dentro da estricta observância da legalidade? Houve algum editorial, carta aberta, artigo de opinião ou, já agora, workshop em hotel de luxo a reflectir sobre o significado de tais afirmações no contexto de construcção do estado de direito? Espero que tenha havido, mas a minha intuição diz-me que não. O mais provável é que muitos tenham tirado satisfação em constatar que os nossos juízes, na opinião de uma alta patente da polícia, não são sérios tal como vi, numa discussão no blogue “Diário de um sociólogo” difamações anónimas feitas a Gabriel Muthisse, Vice-Ministro das Obras Públicas, acusado de ter perdido o sentido crítico assim que ficou governante e passou a beneficiar das benesses do poder. Não vi levantada a questão mais séria de saber o que está mal ou bem no nosso sistema político ou administrativo e que permitiria certas coisas que nós os bons por natureza consideramos errado. Nada disso. Voltando ao General Weng San, só interessou constatar que ele tem má opinião dos juízes. Só isso. E provavelmente concluir também que isso é que torna o combate ao crime difícil. Que essa má opinião entra em colisão com o estado de direito não interessa. Reparem que com isto não quero dizer que o General José Weng San seja contra a legalidade ou que não seja a pessoa mais indicada para cuidar da nossa segurança. Quero simplesmente dizer que pessoas com o zelo que ele revela precisam de um espaço crítico dentro do qual a sua frustração perfeitamente compreensível possa ser reflectida no sentido da preservação dos valores que o nosso compromisso com o estado de direito exige.

Esse espaço, infelizmente, não existe porque temos mais críticos do totalitarismo do que democratas; temos mais críticos da corrupção do que gente íntegra; temos mais defensores dos direitos humanos do que humanistas e liberais; temos mais críticos do capitalismo do que socialistas ou sociais democratas; temos mais activistas da sociedade civil do que cidadãos; enfim, temos mais críticos do que gente que pensa criticamente. Estamos envoltos num manto de rótulos que nos dão apenas forma e não substância. Muita gente entre nós tem muita facilidade em dizer que é democrata, mas se alguém lhes perguntasse “democrata em que sentido?” não saberiam dizer. São simplesmente democratas, defensores dos mais fracos, amigos do ambiente, defensores da mulher, advogados dos pobres, etc. É o uso inflacionário de rótulos que torna possível que muitos falem, mas poucos digam algo verdadeiramente útil.

Sei que este texto é bastante duro, mas por vezes tem que ser. Faço este blogue – e conforme vem anunciado mais acima – para criar um espaço de reflexão crítica com aqueles que se interessam pela abordagem das ciências sociais. Dirijo-me sobretudo aos cientistas sociais que se iniciam ou àqueles que se interessam pelo nosso tipo de abordagem. A minha mensagem é de que a reflexão crítica não se esgota – nem começa aí – no falar mal de. A reflexão crítica consiste em analisar os méritos de uma questão interrogando os nossos próprios critérios. E isso passa por problematizar. Muitas vezes não encontramos a resposta porque não sabemos qual é o problema. O remédio não é escondermo-nos por detrás de rótulos. O remédio é pensar. E pensar dói.

11 comentários:

amosse macamo disse...

“…A minha mensagem é de que a reflexão crítica não se esgota – nem começa aí – no falar mal de. A reflexão crítica consiste em analisar os méritos de uma questão interrogando os nossos próprios critérios. E isso passa por problematizar…..”
Difícil interrogar nossos próprios critérios quando nos achamos omniscientes e omnipresentes. E difícil ainda problematizar quando a reflexão crítica nasce das conclusões ou prejuízos criados para a sustentar.
O artigo do Fauvet, foi só para concluir que o Zambeze anda em contramão da verdade, com o intuito único de inocentar os irmãos Satar dos crimes de que foram condenados e o resto eram argumentos para apelar as nossas emoções.
O Weng, não foi capaz de olhar para a instituição que dirige de fora para dentro e se auto questionar, porque o Juiz solta quando a policia prende.
Ou melhor, o que faltou para que o Juiz não visse a acção do suposto criminoso como reprovável e que por isso justificasse a prisão?

De facto o remédio é pensar….e dói pensar, e leva tempo pensar e isso talvez seja o problema quando alguns jornalistas, funcionam em contraposição dos outros.

Elísio Macamo disse...

mpoyombo, o problema está aí mesmo. temos muitas dificuldades em dizer "nao sei", aliás, tudo tem que ter explicaçao e quem deve dar essa explicaçao somos nós. daí os excessos. agora, a atitude do general é lamentável, mas pior é isso nao ser razao de discussao por parte daqueles que se consideram amigos do estado de direito. abraços

Unknown disse...

Prof.,
1- O texto do Fauvet está dentro de o que tem sido, grosso modo, o jornalismo deste país. finalmente, a blogosfera também: espaco de troca de insultos, de acusacoes infundadas, de manifestacao de ódios e rancores que muitas vezes se afiguram ser de longa data. lembro-me de termos discutido neste blogue a banalizacao, a depreciacao nao de posicoes contrárias, mas de pessoas que assumem posicoes contrárias. falta discutir ideias. defender princípios devidamente contextualizados e fundamentados. e como isso só pode resultar de um exercício de pensamento, e como bem disse, pensar dói, entao quase todos fogem desse caminho.
2- penso que o élio jonasse (tvm) foi o único jornalista, pelo menos que eu tenha acompanhado, que procurou/criou espaco para que se discutissem as contundentes afirmacoes do comandante weng san. isso foi no programa 'a semana', que ele modera aos domingos, depois do telejornal.
3-pessoalmente nao considero este texto duro. acho que textos duros sao aqueles como do fauvet, como do zambeze quando responde a fauvet em jeito de caricatura e refere-se a ele como "um escoces que se esqueceu do sabor do uisque da sua terra natal e que agora bebe 'mal coado'", entre muitos outros textos que pululam por esta imprensa e blogosfera mocambicana. esses sim, sao textos duros, paradigmáticos, merecedores de destaque. se quiser apostar, vamos. podemos esperar para ver quantos cientistas sociais virao aqui discutir este texto. aposto que só virá gente como eu, que de cientista nada tenho!
Abracos

Elísio Macamo disse...

caro thomas, obrigado pelo comentário e, sobretudo, pela informaçao sobre o debate televisivo. isso é muito importante e o élio jonasse está de parabéns por ter feito isso. todos nós somos aprendizes de cientistas, thomas. a modéstia obriga-me a nao julgar isso a partir de quem discute aqui. há várias outras razoes para nao se comentar. abraços

Nelson disse...

Faz tempo que oiço(leio) sobre o estado viciado da nossa espfera pública. Eu sinto que está na hora de irmos além dessas “lamentações”, procurando explorar os circunstancionalismos que propiciam a existência de críticos que temos.
Em relação às declarações de Weng San, para mim, depois da publicação do artigo, o “silêncio” dos visados a saber, os juízes, me grita “falta de seriedade”. Eu poderia ser amante do estado de direito e estar zelosamente preocupado mas em momento nenhum poderia superar os que tem nisso, a sua razão de existência. A “perigosidade” do que Weng San devia ter mexido com a sensibilidade dos juízes primeiro pelo facto de serem os “acusados” segundo e mais importante porque existem para guarantirem o estado de direito.
Weng falou de cadastrados que num meu leigo entender são fulanos que já trazem “nas costas” crimes por acertar com a justiça. Devia ter se perguntado, o vulto de provas que o tribunal “precisa” devia aliás saber que tipo de provas são suficientes para que alguém seja “detível” e não “soltável” pelos juízes, por mais “não sérios” que fossem. Mas anda esse hábito de ir “chorar” na imprensa. Fazer oque?

Júlio Mutisse disse...

Nelson,

A nossa polícia tem o "hábito" de deter para "investigar" aos invés de fazer o contrário... muitas vezes quando os detidos são presentes ao juíz para que este se pronuncie sobre a medida de coacção concreta a aplicar-lhes (prisão preventiva, termo de identidade e residência etc) este não encontra elementos e manda devolverem o indivíduo à liberdade (que é REGRA no estado de direito que é Moçambique).

Uma investigação mal conduzida e uma prova pouco consistente são elementos que levam os juízes a soltarem indivíduos detidos pela polícia.

De que cadastro fala muitas vezes a polícia? Muitas vezes fico com a sensação de que não é do cadastro contante do registo criminal... é aquele de se saber que aquele é isto ou aquilo sem que a própria polícia, muitas vezes, produza elementos suficientes para provar...

Isto não quer dizer que não hajam juízes "não sérios" o que estes sejam todos bonzinhos... nada disso. Quer apenas dizer que há que sermos ponderados e conhecermos os limites e os termos de actuação tanto da polícia como dos juízes que dependem do trabalho previamente feito por outros...

Nkhululeko disse...

Touché!

Nelson disse...

Bem dito Mutisse!
Agora que alguém do “tamanho” de Weng San não esteja “informado” sobre isso é oque?
Falta de seriedade por parte de quem?
Lhe falta oque?
“Basics” em direito?
Onde é que devia Weng San ter aprendido que “uma investigação mal conduzida e uma prova pouco consistente são elementos que levam os juízes a soltarem indivíduos detidos” e não falta de seriedade por parte dos juízes?

Elísio Macamo disse...

caros amigos, desculpem-me o silêncio. andré, estou a dever-te uma resposta. tê-la-ás, recebi o teu email. nelson, as minhas rubricas "xithlangu", "direito à razao", "fenómeno da bicha" e, até certo ponto, "a caixa de ferramentas do sociólogo" fazem parte da minha contribuiçao para a identificaçao dos problemas de que enferma a nossa esfera pública. nao tenho apenas lamentado. tenho apontado os problemas e proposto saídas, uma das quais consiste em valorizar a crítica isenta, a discussao de razoes (e nao de conclusoes) e a preocupaçao com os méritos de uma questao. júlio e nelson, o problema que vocês levantam é sério. em (pequena) defesa do general eu diria que ele nao falou assim apenas por desconhecimento do contexto jurídico; a sua frustraçao é a frustraçao típica de um homem de acçao que é obrigado a respeitar as regras do estado de direito. nao é o único. mesmo aqui na alemanha ou nos eua a polícia haveria, se tivesse espaço para tal, preferir esses métodos de trabalho. os filmes policiais americanos sao um bom exemplo dessa tendência latente. os herois costumam ser polícias que violam as regras para "trazer os criminosos à justiça". nao há democratas por natureza, as circunstâncias é que nos obrigam a observarmos certos princípios. portanto, a nossa reflexao deve sempre incidir sobre essas circunstâncias. o nosso silêncio quando uma alta patente diz tamanhas coisas fica cúmplice, pois cria as condiçoes propícias à violaçao da nossa ordem.

Nelson disse...

“Em (pequena) defesa do general eu diria que ele nao falou assim apenas por desconhecimento do contexto jurídico; a sua frustraçao é a frustraçao típica de um homem de acçao que é obrigado a respeitar as regras do estado de direito”
Ainda bem que foi “em pequena defesa” professsor! O exemplo que usa dos filmes policiais é muito ilustrativo. É que mesmo conhecendo as regras e nesse caso conhecendo bem, pois só quebra uma regra quem a conhece, o general se sente obrigado pelas “circunstâncias” a quebra-las para trazer os criminosos à justiça. Dramatizando eu diria que Weng San é vítima então das circunstancias

Elísio Macamo disse...

caro nelson, eu nao diria que o general é vítima de circunstâncias e espero nao ter transmitido essa impressao. o que eu quiz dizer é que os princípios de estado de direito sao um grande incómodo para muita gente, incluindo gente boa e sensata. a atitude do general nao é singular e, na verdade, é uma atitude que muita gente de acçao se sente inclinada a adoptar como expediente para fazer o que acha que deve ser feito. alguns problemas que temos com o auxílio ao desenvolvimento sao, por exemplo, idênticos, pois a custo de querer desenvolver moçambique essa indústria pode recorrer a expedientes que comprometem seriamente a política, por exemplo. ou por outra, o nosso debate sobre estas coisas tem que insistir na importância dos meios, e nao nos fins. os fins levam ao totalitarismo e isso já tivemos no país. aviso que esta é a minha última intervençao por enquanto, pois vou abandonar o computador e nao sei se volto a ter acesso nos próximos dias. abraços