quinta-feira, abril 30, 2009

Xithlangu VIII

O regresso do inimigo comum

O Patrício Langa publicou um texto (aqui) que me conduziu a uma interessante entrevista que o músico Azagaia concedeu ao semanário o País (conferir aqui). Interessante pelo conteúdo, pelo cultivo da irreverência, pelas boas perguntas feitas pelo entrevistador e, acima de tudo, pela impressão confirmada de que o que motiva o jovem músico a fazer o tipo de crítica que ele faz é o amor a Moçambique. O ritmo das poucas composições que conheço do músico é contagiante, as suas letras estão muito bem elaboradas ainda que o seu conteúdo ofenda o meu sentido de patriotismo e, sobretudo, o meu sentido do que a crítica social deveria ser no nosso país. E é sobre isto que me quero debruçar neste texto como uma espécie de aviso à navegação para aqueles que estiverem interessados.

Tenho vindo a defender o ponto de vista segundo o qual o conteúdo da música de Azagaia não mereceria o rótulo de “crítica social”, apesar dos protestos de alguns colegas de profissão que insistem em considerar composições por vezes incendiárias (estou a pensar, por exemplo, na composição sobre a explosão do paiol) como sendo exemplos de crítica social. A defesa deste meu ponto de vista tem tido o cuidado de não mexer com a prerrogativa artística do músico de se expressar da forma como ele melhor entender. Torci o nariz (e disse-o em algumas discussões aqui na blogosfera) perante a atitude da Procuradoria da República de intimar o músico e fiquei aliviado quando soube que o caso tinha sido arquivado. Sem aparentemente ter lido com cuidado as reticências que eu havia formulado em relação à aplicação indevida do rótulo de “crítica social” às composições de Azagaia, Machado da Graça convidou-me uma vez a prestar mais atenção à má actuação dos nossos políticos ao invés de perder o meu tempo com jovens que constatam o que está mal (ler a minha reacção aqui). Eu acho que vale à pena prestar atenção ao que jovens como o Azagaia estão a dizer, sobretudo quando o que eles dizem é usado por gente com um entendimento problemático da sua condição de académicos para reanimar fantasmas que só podem comprometer justamente aquilo que os próprios jovens almejam, nomeadamente uma vida melhor para todo o povo moçambicano.

Homo hostilis

O fantasma que está a ser ressuscitado é o do inimigo comum. No período colonial trazia o nome de “turra”. Era a tentativa do regime colonial de reforçar o sentimento de comunidade através da criação da imagem de um inimigo que punha a “comunidade lusitana” em perigo. O regime colonial foi-se. Veio a Frelimo revoluccionária que se fartou de criar inimigos comuns: Xiconhocas, inimigos internos, sabotadores, capitalistas, burgueses, bandidos armados (num sentido metafórico), reaccionários, etc. Aqui também o objectivo era o mesmo, nomeadamente o de reforçar o sentimento de comunidade através da criação da imagem de um inimigo que punha a criação do “homem novo” e de uma “sociedade socialista justa e livre” em perigo. A Frelimo revoluccionária foi-se e encontrou refúgio nos bastidores do poder, jornais independentes, assessoria da sociedade civil e, naturalmente, algumas universidades. Veio o “crítico” e instalou-se no nosso seio. E o “crítico”, como é natural, critica com toda a propriedade que o que anda mal entre nós legitima. Mas, e à semelhança do regime colonial e da Frelimo revoluccionária, ele critica muitas vezes sem substância e prefere, antes pelo contrário, despender toda a sua energia na criação do “inimigo comum”. Estranhamente, mas isto fica para um outro texto, o novo partido, o MDM, também envereda por este caminho, curiosamente conjurando a imagem de “comunistas” (como costuma dizer o edil da Beira) e esquecendo-se que do lado da Frelimo (do inimigo, portanto) os verdadeiros comunistas saltaram a rede e, de caneta em punho em redações de alguns jornais independentes ou na compilação dos seus blogues, fazem parte do côro de vezes que o apresentam como o novo Messias. São as incongruências da nossa terra, enfim.

A criação de um inimigo comum requer um “homo hostilis”, isto é o hostilizador, aquele que está preparado para servir de arma de arremesso. E é aqui onde entra a discussão sobre o que é crítica social e o que é um desabafo. O Azagaia tem todo o direito de desabafar, de dizer que está tudo mal e de dizer quem são os culpados por isso. Só esse direito, porém, não confere ao que ele diz a qualidade de “crítica social” no sentido que me parece mais prudente para uma sociologia moçambicana responsável. A forma como ele desabafa e diz que está tudo mal merece, pois, a nossa atenção, sobretudo quando o risco é grande de que, sem se aperceber, esteja a ser instrumentalizado para criar um “inimigo comum” que não serve aquilo que ele, em entrevista ao jornal O País, considera ser o seu objectivo, nomeadamente um Moçambique melhor. O desabafo tido por “crítica social” é recusa de debate. É simplesmente uma forma de evitar que se aborde o país e seus problemas da forma mais útil possível. Vou explicar porquê.

Abaixo o inimigo!

O inimigo comum é simplesmente uma figura retórica. Não existe na realidade. É um truque argumentativo que usamos para dar a impressão de que algo existe que compromete a nossa existência e que precisa de ser destruído. Tipo “Frelimo” (ou melhor ainda, a “Frel”) ou “governo” (melhor ainda os “corruptos”). O truque funciona com recurso a quatro instrumentos retóricos que maldosamente mobilizados podem causar danos avultados à esfera pública. Vou enumerá-los aqui com recurso a trechos da entrevista de Azagaia.

O primeiro instrumento retórico é o uso de slógans. Com slógans é muito mais fácil atacar posições dos nossos inimigos. Slógans simplificam e condensam conteúdos. Para tal é só usar fórmulas simples, destacar características singulares de um todo mais complexo e difuso, ignorar contextos históricos, fazer do que é relativo algo absoluto, enfim, reduzir ao mínimo o que necessitaria de uma longa cadeia argumentativa. Azagaia diz, por exemplo, perguntado se ele tem consciência do facto de ser “politicamente incorrecto”, que sim, mas a política actualmente serve a uma minoria que à maioria. Simples, condensante, relativo. Que política? Que minoria? Não há diferenças entre, por exemplo, Ivo Garrido e, digamos, Vitória Diogo? Quais são so contrangimentos dentro dos quais a política funciona no nosso país? Que margens de manobra existem? Como podem ser exploradas? Podem? O que seria necessário? Simplesmente que a política service à maioria? E o jornalista pergunta-lhe porque escreve letras com aquela contundência. E ele diz que há maior irreverência nos órgãos de informação, que muitos agora estão a ser processados pelo governo, isso é bom sinal porque é sinal de que há agitação. Mais uma vez: simples, condensante, relativo. Irreverência? Mais a serem processados? Agitação? Acima de tudo o remate é interessante: não podemos continuar calados! Isto é coisa para colar em dísticos e marchar pelas ruas de Xai-Xai. Galvaniza. E reparem numa coisa: não estou a dizer que o Azagaia deva ser mais preciso nas suas observações. Estou simplesmente a dizer que o que ele diz é insuficiente como diagnóstico e, como tal, a não ser que alguém queira confundir sociologia com política, presta mau serviço à sociologia e à política considerando isto de “crítica social”. Mas Azagaia desafia-nos a tornar preciso o que ele diz e isso é tarefa do sociólogo. Mas quando nos recusamos a fazer isso e apenas aplaudimos, então somos culpados de participar na instrumentalização do músico para criar em nosso nome um inimigo comum.

O segundo instrumento retórico é a metáfora, mas também o uso insistente de conceitos polissémicos que justamente por serem polissémicos dizem muito pouco quando usados sem contextualização. Refiro-me aqui a conceitos como democracia, por exemplo. No mesmo trecho onde fala dos jornais que estão a ser processados por fazerem “agitação” ele dá o exemplo do professor que interaje com a turma ao invés de apenas ditar apontamentos. E remata: “isso [quando o professor interaje] é que é ter uma sociedade democrática, que respeita as várias opiniões, acima de tudo”. Há naturalmente uma definição implícita da democracia nesta passagem e que até é bastante plausível. Democracia é, em certo sentido, a interacção, o respeito pelas opiniões de outros. Sim, mas que tipo de interacção e em que circunstâncias? Quando é que um governo deve parar de ouvir e agir? A quem deve prestar atenção? De que maneira e em que circunstâncias? Que critérios temos nós para avaliarmos se uma opinião é disparate ou não? E como deve agir um governo perante isso? Deve respeitar a opinião simplesmente por ser opinião? Deve aceitar as ideias da oposição por serem ideias opostas e como forma de mostrar que é democrático? Estão a ver como é complicado usar conceitos polissémicos? Mas aqui também o desafio vai para os sociólogos que tomam a sua actividade a sério; o desafio é de reflectir sobre isto e, a partir daí, tornar claro porque o nosso país não pode ser considerado democrático (se for esse o caso). Aí sim, teremos crítica social. Passo por cima das metáforas propriamente ditas para não alongar o texto demais. Chamo apenas atenção à metáfora da “luta” que é bastante presente tanto na entrevista quanto nas composições, por vezes até de forma bastante curiosa. Numa das passagens ele pergunta “se nós estamos na luta para acabar com a violência doméstica, o que é que estamos a fazer concretamente?” (sublinhados meus para frisar as incompatibilidades)

O terceiro instrumento retórico são as abstracções, sobretudo quando se trata de distinguir entre o inimigo comum e nós. Assim, o inimigo comum é a “minoria”, a “minoria que manda”, é a terceira pessoa do plural, é o “governo moçambicano”, é o “partido no poder”. Notem que não há indivíduos nesta caracterização, não há maneira de mostrar que estamos perante erros ou incompetência de uns. É tudo mesma coisa. E pelo contrário, nós somos “nós”, portanto, a primeira pessoa do plural (embora saiba que se me quiserem despachar, não vai ser problema), o “povo”, o “lado de cá”, os “sem-poder”, a “maioria”, o cidadão. Aqui também tomem nota do que tenho escrito com regularidade: o facto de criticarmos os maus faz de nós boas pessoas. Aqui também somos livrados das nossas próprias tendências políticas problemáticas, passamos a não ter nenhuma responsabilidade no que nós próprios fazemos (quantos de nós “críticos” fazemos o nosso trabalho realmente bem, com aprumo e em nome do povo? Quantos?) e isso porque fazemos parte duma “maioria” (moral) vítima da “minoria que manda”. E aqui também o sociólogo que se preza podia interpelar isto criticamente debruçando-se sobre a natureza da autoridade no nosso contexto, sobre o sentido de responsabilidade, enfim, sobre a cultura de cidadania. E constatando falta na acção política, acusar com conhecimento de causa. Mas nada. grita-se apenas “boa crítica social!”.

Finalmente, o quarto instrumento retórico na criação do inimigo comum é a generalização. Na entrevista há vários exemplos disto. Um bastante saliente mistura a generalização com o uso de expressões polissémicas. Refiro-me à palavra “verdade” que aparece na reflexão sobre a composição “mentiras da verdade”. O músico toma as diferenças nas linhas editoriais dos jornais como sendo indício de que uns mentem e outros dizem a verdade. Assim, sobre o massacrado jornal Notícias pesa a suspeita de que não esteja a dizer a verdade. As zonas de penumbra da nossa história (morte de Samora, Mondlane, Carlos Cardoso, Siba-Siba, etc.) são usadas pelo músico para rematar: “o que percebo é que estão a esconder os factos, a negarem a história ao seu povo para continuarem no poder”. Reparem na terceira pessoa do plural e reparem também no quadro explicativo que sujeita toda a acção política explicada ou não-explicada ao maquiavelismo da “minoria que manda”. E quando ele fala das independências africanas para explicar a sua composição sobre os “combatentes da fortuna” afirma que “[H]oje em dia temos estes mesmos combatentes ou antigos combatentes... a não combaterem pelo povo, mas a combaterem pela fortuna. A combaterem por mais bens, mais regalias”. Jorge Rebelo é antigo combatente; Almerino Manhenje não foi. Faz sentido usar este termo desta forma? É evidente que não, mas lá está, esse problema não é do Azagaia, mas sim daquele que pensa que ele produz crítica social. Esse devia estimular a reflexão sobre a ética, sobre o sentido de responsabilidade, sobre as razões que enfraquecem o nosso respeito pelo bem público, enfim, sobre o significado que a nossa liberdade e independência, 30 anos depois, têm para cada um de nós.

Porque nos devemos preocupar

Eu preocupo-me porque vejo as ciências sociais comprometidas na sua função de incutir o espírito crítico na sociedade. O espírito crítico que tenho em mente é aquele que nos compromete cada vez mais com o nosso país. Isso só me parece possível dentro de uma esfera pública responsável que discute assuntos e ideias ao mesmo tempo que se apresenta como a melhor publicidade de uma sociedade aberta e tolerante. Ora, uma das ameaças mais sérias que pairam sobre a nossa esfera pública, e consequentemente, sobre o futuro do nosso país, é a necessidade que alguns dos seus sectores têm de inimigos comuns. Parece-me haver aqui um déficit substancial de cultura democrática e que se manifesta nesta inclinação para o pugilismo de sombra.

Acho que nos devíamos preocupar bastante com isto, pois está também em jogo a nossa cultura como moçambicanos. A dependência de inimigos comuns para se fazer política estimula tendências agressivas, encoraja a maldade e mesmo a indiferença em relação ao sofrimento dos outros. É só recordarem-se das mensagens de telefone celular que circularam pela nossa praça aquando da morte de Nyimpine Chissano. Se na nossa cultura humor é aquilo, então algo andou mal entre nós. E reparem que isto não impede que cada um tenha a sua opinião sobre a propriedade da actuação desse malogrado e do papel de suas influências políticas. É só pensarem, já agora e um pouco distantes de nós, na circulação de fotos do cadáver do ex-presidente da Guiné-Bissau pela internet (com pessoal enfermeiro a posar ao lado da mesa de autópsia) e perguntarem-se se não fosse esta preocupação de demarcação entre nós e eles haveríamos mesmo de ficar indiferentes ao sofrimento, por exemplo, da sua família. O inimigo comum cria espaço para a mentira (porque os factos não interessam, interessa apenas que o inimigo seja adequadamente apresentado), violência (porque o inimigo é tão mau que todos os meios são legítimos) e instrumentalização (como vemos no caso do nosso jovem músico).

Eu lanço um apelo ao músico Azagaia e aos jovens que se sentem estimulados pelo seu talento para ponderarem. Os que os encorajam a pensar que são “críticos sociais” são capazes de não terem pensado bem, ou, o que seria ainda pior, podem estar a usá-los. Há muita coisa que não está bem entre nós. E deve ser apontada e criticada. Mas a crítica tem os seus limites. Estes despontam no instante em que os outros, os adversários políticos são visíveis apenas como diabos a abater. Já correu sangue suficiente neste país. Drácula não é uma figura clássica da sociologia.

14 comentários:

Anónimo disse...

As actividades artísticas de Azagaia enriquecem a nossa vida cultural. Artistas jovens, como ele, tem seus próprios gostos e precisam de espaços criativas. Porque não simplesmente aceitar os direitos fundamentais da liberdade de expressão da actividade artística? Eu não entendo os motivos de tanta demagogia populista em torno de suas letras. Quem se sente ofendido do fabuloso rap de intervenção social, cultural e política., pode tapar seus ouvidos. O rap é uma forma de expressão do quotidiano moçambicano, uma contestação social, cultural e política. Há que mudar as condições de vida dos jovens, para que se altere este fenómeno. A meu ver, é preferível mais tolerância em vez promover novos preconceitos, professor.

Elísio Macamo disse...

caro anónimo, quem se sente ofendido por tanta demagogia populista e promoçao de preconceitos pode fechar os olhos e nao ler estes textos. siga, por favor, os seus próprios conselhos.

Júlio Mutisse disse...

Elísio, subscrevo na integra o comentário do Martin de Sousa no blog do Patrício e concordo com o que dizes no seu post.

Quem, tendo sido chamado pela PGR que não encontrou elementos para mover algum processo vem a público dizer que "o Governo" (sempre este) o processou só pode mesmo estar a navegar noutra galáxia tanto que ignora quem é quem que processa no nosso contexto e, para mim, para um tipo que diz ser interventor social e querer mudanças, pregar isso é a mais pura prova de que não sabe o que diz e que diz o que lhe mandam dizer (muitas vezes sem analisar).

Se calhar o anónimo de cima seja dono de um blog, ou de um dicionário, ou ainda revisor linguístico, dos que Azagaia consulta para escrever as suas letras...

O Gonçalves Matsinhe, lá no seu Politicando, escreveu um Post a tentar chamar atenção a esta primazia que se dá ao Azagaia como se ele fosse o único que diz certas coisas... vale a pena ir ver o debate que se seguiu, inclusive, sobre o SUPORTE que se dá a este e as razões disso.

Amanhã é dia do trabalhador, aproveite e reflicta sobre o significado do seu trabalho (incluindo aqui neste blog) e os frutos que dá na sociedade e multiplique quantas vezes achares necessário os esforços no que achares de muito bom para que seja melhor.

Farei o mesmo.

Júlio

PS: leve os miudos a passear (se estiver junto deles é claro), eu farei o mesmo.

Anónimo disse...

Quem são os contra Azagaia? Quais são as pertensas políticas desses anti-Azagaias? Como não seria? Esses críticos criticam o patrão é patrão? Porquê não o fazem? E já viram o muitíssimo comum dos críticos do Azagaia?

Há muita coisa que devias ter escrito, Elísio.

Elísio, quando estiveres a escrever sobre MDM e Daviz que não esquecas da estratégia de combate de Macuácua e Frelimo ao Daviz e MDM. Estamos anciosos!

Ancioso

Elísio Macamo disse...

caro júlio, levei as miudas a passear. foi bom. vi também a discussao a que te referes e achei-a interessante. gostei também de ver que lá se fala de "música de intervençao" que me parece bem mais adequado do que "crítica social", embora mesmo aí continue a haver um desafio de reflexao.
caro anónimo, vou ter em conta essas dicas sobre o combate de macuácua e frelimo ao daviz e mdm. obrigado.

Shirangano disse...

Azagaia tornou-se a voz dos jovens letárgico que o vêem como “anti-heroi” por mostrar sem pudor a falta de sensibilidade, a corrupção e a preguiça de fazer uma análise crítica que se instalou em cada um de nós, jovens moçambicanos. Parece que dizer que os governantes são corruptos está a tornar-se num desporto nacional cujo adeptos são de diversas idades e tribos ou etnias. É infelizmente, na minha opinião, uma grave crise estrutural e moral, ouvir todos os dias esse tipo de reacções avulsas por parte dos jovens. Talvez o problema seja a dificuldade de perceber o que na essência significa “crítica social”!

Anónimo disse...

gostei do artigo, mas, sinto que houve por parte do articulista uma certa exumação do esforço do jovem músico azagaia.
o músico Azagaia tem vindo a fazer aquilo que os muitos não conseguem fazer, se o fazem, é nas escondidas. já basta o anonimato, vamos erguer estas vozes.acolho com muito apreço os traços sociologicos que o nosso bloguista traz, mas, não podemos de forma alguma trazer conceitos de natureza sociologica,tal como "critica social" para tirar gomos de músicas como do rapper Azagaia. muito obrigado.

Elísio Macamo disse...

caro shirango, obrigado pela passagem por aqui e por trazer a discussao ao que está realmente em questao. como vai ter notado, o meu texto é só indirectamente sobre o músico. estou mais interessado em identificar o desafio que o conteúdo das suas músicas representa para quem faz ciências sociais com seriedade. é por isso que insisto na chamada de atençao contra o uso descuidado da noçao de "crítica social" que eu gostaria de reservar a uma abordagem mais substancial da nossa sociedade. o músico pode continuar a cantar como bem entender que isso é assunto dele e faz parte da sua prerrogativa como artista. dirijo a minha crítica a colegas que me parecem estar a instrumentalizar o jovem.
caro anónimo, nao tenho a certeza se percebi o que quer dizer com a expressao "conceitos de natureza sociológica ... para tirar gomos de músicas como do rapper azagaia". se quer com isto dizer que critico o músico por nao ser suficientemente sociológico na sua abordagem, entao nao expus bem as minhas ideias, embora me tenha esforçado por tornar claro que ele nos (a nós cientistas sociais) coloca desafios de reflexao que devemos tomar a sério como ponto de partida de uma abordagem mais substancial da nossa sociedade. uma leitura cuidada do texto pode revelar essa intençao. abraços

RILDO RAFAEL disse...

Caro prof. Macamo parabens pelo artigo que escreve em resposta a um outro artigo do P. Langa. Gostaria de apresentar a algumas ideias em relacao ao texto socorrendo-me nos comentarios dos leitores do blog. Vou comecar pela afirmacao do autor do blog. o Prof na explicacao do seu texto diz que:

Estou mais interessado em identificar o desafio que o conteúdo das suas músicas representa para quem faz ciências sociais com seriedade. é por isso que insisto na chamada de atençao contra o uso descuidado da noçao de "crítica social" que eu gostaria de reservar a uma abordagem mais substancial da nossa sociedade. (Elisio Macamo).

Percebo claramente a intencao do Prof. Macamo na sua chamada de atencao para alguns fazedores das Ciencias Sociais, algo que esta mais na superficie, no texto de Patricio Langa sobre "Azagaismo" (luta titanica).

Se calhar criticamos o Azagaia por ter musicas que insultam o "governo" e esquecemos que tambem as nossas criticas nao podem seguir o mesmo rumo...

O que mais o inquieta e esta palavra milagrosa "critica social" nas musicas de Azagaia ou no conteudo das musicas (Se calhar o Azagaia e o Gabriel Pensador Mocambicano...risos).

Critica Social discute as estruturas sociais e visa soluccoes praticas atraves de medidas reforma radical ou mudanca revolucionaria

Segundo o Filosofo Olavo de Cravalho "toda uma critica que pretenda ter algum fundamenmto so pode ser baseada na premisssa de que haja na consciencia do homem uma dimensao que transcende de algum modo a sociedade presente e na qual ela possa instalar-se em pensamento para julgar essa mesma sociedade desde ou de cima"

Portanto podemos ter a critica a diferentes formas (socialismo, anarquismo, de uma minoria de homossexuais, de um movimento social, de mulheres da Nova Esquerda que se mostrem insatisfeitas pelo comportamentos masculinos.

Nao podemos almejar por uma critica social unificadora mas esta questao nao remete a impossibilidade de dialogo.

Como estao a ver nao pretendo discartar tao ja o filosofo Olavo de Carvalho, acho que algumas das suas ideias podem conduzir-nos a um debate interessante, na sua visao as criticas sociais podem obedecer uma certa hierarquia.

Mediante a escala de validade objectiva podemos uma critica com base na legitimidade intrisica da autoridade convocada a legitima-las, neste primeiro ponto a autoridade do critico pode estar baseada em premissas que nao correspondem a verdade (concepcao do mundo no eu da autoridade)

(b) maior ou menor consistencia logica entre a autoridade legitimadora e o conteudo da critica, no segundo caso, a deducao elaborada, mesmo de uma fonte fidedigna pode nao obedecer uma coerencia logica e nao ser valida.

Tomemos como exemplo o debate entre o racionalismo critico de karl Popper e a Escola de Frankfurt no tocante a neutralidade e objectividade das ciencias sociais.

Obras de critica social nao sao da paternidade de nenhum ramo do saber. Elas podem pertencer a Sociologia, Filosofia Social, Psicologia Social, Economia Politica, Psicanalise e Estudos culturais e outras disciplinas que nao mencionei.

A critica social pode ser expressa de diversas formas, por ficcao, romances livros infantis, documentarios, pecas de teatro, expressoes musicais (a chamada musica de protesto) com significativo impacto social. quanto a citacao a baixo, nao consigo dicernir

O rap é uma forma de expressão do quotidiano moçambicano, uma contestação social, cultural e política. Há que mudar as condições de vida dos jovens, para que se altere este fenómeno (Anonimo).

A passagem a baixo de J. Mutisse remete para as teorias de Conspiracao:

Se calhar o anónimo de cima seja dono de um blog, ou de um dicionário, ou ainda revisor linguístico, dos que Azagaia consulta para escrever as suas letras. (Julio Mutisse).

Porque se pensar que Azagaia nao escreve sozinho as suas letras!!! Sera que existe um miudo que escreve as letras do MC Roger! O que leva a insinuar tal situacao...

Vejamos o seguinte depoimento de um anonimo:

Como não seria? Esses críticos criticam o patrão é patrão? Porquê não o fazem? E já viram o muitíssimo comum dos críticos do Azagaia? (Anonimo).

Tambem disconfio das intencoes doanonimo! Isto acaba sendo o tal jogo das supeiccoes!!! Ate no blog se pretende viver de alas!!!

Ha tantos Azagaias por ai soltos e tantos que outros acabam camuflados em outras mascaras que deles apenas recebemos ecos melodicos batante mediatizados que parecem mais bajuladores pela dita cuja... na acepcao do Patricio Langa. (Nao vou aqui mencionar os nomes se nao irao me situar numa dessas alas). Patricio Langa faz referencia a musicos nacionais que quanto a ele, os conteudos das musicas nao insultam e sao um bom exemplo de critica social (talvez poderiamos saber de que temas eles tratam? Assim justificariamos melhor o impacto que tem as letras de Azagaia e desses aritistas, ainda bem que ele nao colocou o Zaca Za na lista....e o Joaquim Macuacua com a famosa Dadinha ou Dadinha...

gostaria que reflectisse uma das passagens do seu texto que quanto a mim muitop bem articulado.


“[H]oje em dia temos estes mesmos combatentes ou antigos combatentes... a não combaterem pelo povo, mas a combaterem pela fortuna. A combaterem por mais bens, mais regalias”. Jorge Rebelo é antigo combatente; Almerino Manhenje não foi (Elisio Macamo).

Prof. o que pretende justificar com o exemplo acima, o facto de Jorge Rebelo aparecer na imprensa a dizer certas coisas nao justifica e nem desmente as a passagem acima do Azagaia e muito menos o exemplo de A. Manhenje, nao quer dizer que apenas estes e que delapidam a fortuna. Para finalizar vou concordar com o Shirango

Talvez o problema seja a dificuldade de perceber o que na essência significa “crítica social”! (Shirango).

Mas o real problema da nossa esfera publica nao sera de como fazer a critica social mas o temor pela discussao, se participa, ha uma intencao clara de apresentar o principio da autoridade que venho sempre me referindo e se nao participa colhe frutos de nao se sujeitar aos outros. para mim a competencia no debate deve ser antecedida de uma competencia na linguagem que usamos no debate.

A luta continua.
Delicie-nos com mais textos e continue aberto a critica como sempre nos presenteia ao comentar os comentarios de outros bloguistas.

Rildo Rafael

Elísio Macamo disse...

caro rildo, obrigado por este longo e interessante comentário. penso que o convinte para explicar melhor o que quero dizer com a comparaçao entre jorge rebelo e almerino manhenje me ajuda a precisar o meu entendimento de "crítica social". na referida música e no depoimento na entrevista o músico afirma categoricamente que os antigos combatentes sao hoje combatentes pela fortuna. ele pode cantar isto. contudo, quando concede uma entrevista e repete uma afirmaçao tao obviamente geral e infundada nenhum cientista social que se preze pode chamar a nossa atençao para a sua entrevista sem nos alertar para alguns problemas no seu raciocínio. dei o exemplo de rebelo e de manhenje porque segundo consta, jorge rebelo é um antigo combatente que tem primado pela integridade enquanto manhenje, que nao é antigo combatente, está a braços com a justiça (se é culpado ou inocente só os tribunais decidirao). portanto, a expressao toda é grosseira, para já nao falar do facto de que a áfrica hoje nao é, na sua maioria, governada por antigos combatentes. crítica social, em minha opiniao, nao é a gente entrar em acordo sobre se moçambique está bem ou nao, se o governo trabalha bem ou nao, se a oposiçao é boa ou má, se o presidente está a fazer bom trabalho ou nao. nunca exigi isso de ninguém. crítica social para mim é descrever e analisar o país segundo termos susceptíveis de serem aceites por qualquer pessoa sensata independentemente do seu posicionamento político. a partir do momento em que as nossas descriçoes ou análises só fazem sentido (e reclamam plausibilidade) com base nas nossas inclinaçoes políticas deixamos de participar com utilidade na esfera pública e passamos a fazer política. também nao digo que ninguém deva fazer política, mas que isso fique claro se essa é a intençao. já há anos falava disto na discussao de uma palestra do líder da renamo no ispu, em maputo. voltei a abordar a questao na série de textos sobre o "poder da frelimo". servimos melhor os nossos amores políticos respeitando os critérios de objectividade que o nosso vínculo com a ciência nos impoe. nao faz muito tempo que tentei analisar a posiçao de ivone soares em relaçao ao líder do seu partido. foram poucas as pessoas que comentaram as questoes que levantei, mas muitos que comentaram puseram-se simplesmente a insultar a pobre senhora. pessoas que nao analisam os méritos de uma questao nao sao nem mesmo úteis para os seus próprios partidos. lamento ter de dizer isto, mas apesar da admiraçao que tenho por gente como os académicos que se juntaram à renamo com plena consciência de que prescindiam de algumas prerrogativas de estarem ligados ao partido no poder (que nao é coisa só de moçambique) tenho dificuldades em aceitar a sua seriedade enquanto nao analisarem o que os levou a pensar que pudessem fazer a diferença dentro da renamo. o mais fácil é chamar nomes a dhlakhama hoje, mas o verdadeiro desafio está neles próprios, no que pensaram na altura e no que pensam hoje. isto tudo requer objectividade. alguns têm-na, mas muitos nao, sobretudo os anónimos. abraços

Unknown disse...

Caro Prof. E. Macamo, numa das passagens do seu último comentário diz "crítica social para mim é descrever e analisar o país segundo termos susceptíveis de serem aceites por qualquer pessoa sensata independentemente do seu posicionamento político"

Se acrítica não deve fazer juizo de volor é permitico fazer juizo da realidade, "descrevendo e analisando o país..." fico fez por termos encontrado este ponto de intersecção!

Ora, o que também não deveria ser esquecido, é a indiferença com que devemos dizer uma coisa e o seu contrário em qualquer crítica!

Maís, em mim, a denúncia, a contestação e desmistificação do real ao nível de direitos, abusos de poder etc. são sim "a crítica". Agora, alegitimidade da mesma é que constitui discunsão exatamente pelo seu carácter subjectivo.

O Professor já pensou que os que aceitam e os negão o "azagaimo" todos se chamam sensatos! abraço

Elísio Macamo disse...

caro chacate joaquim, eu parto efectivamente do princípio de que todos nós somos sensatos, independentemente do nosso posicionamento político. essa sensatez é que nos vai permitir reconhecer a neutralidade dos termos que sao usados para descrever e analisar o país. nesse sentido, nao é a questao de legitimidade da crítica que se coloca, pois eu pelo menos nao quero ditar quem deve criticar e quem nao deve. há espaço para todos, desde o momento que tenhamos a sensatez de preferir a objectividade à ideologia. abraços

Nunoamorim disse...

Dr. Elisio Macamo,
Para mim as letras do Azagaia parecem obra do departamento de mobilização de um partido politico contra o governo do dia ou o partido no poder. A música dedica ao lider do MDM é sinal claro dessa tendência.

Sugiro que os apóstolos do Azagaia oiçam as músicas do Angolano Afro Man e dai descubram as diferenças entre uma critica social e panfletos de partidos políticos.

Mais do que criticar governo, partido politico ou pessoas, o Afro Man critica comportamentos de todas esferas sociais.

Orgulhosamente Moçambicano
Nuno Amorim

Elísio Macamo disse...

caro nuno amorim, obrigado pela passagem por aqui. nao vejo mal que as composiçoes dum músico sejam obra do departamento de mobilizaçao de um partido político. vejo mal que ao reflectirmos sobre o seu conteúdo nao tenhamos o cuidado de distinguir esse género duma abordagem crítica nas ciências sociais. um abraço