Utilidade
Um dos nossos problemas na abordagem crítica das coisas da nossa terra está ligado ao facto de haver razões muito fortes para que ao fazermos ciência sejamos o mais prático e úteis possíveis. Estas razões introduzem, consequentemente, critérios extra-científicos na avaliação da “plausibilidade” do que cada um de nós dizemos. Podemos, por exemplo, achar que seja necessário distribuir alimentos aos pobres para aliviar a pobreza, mas a abordagem crítica obrigar-nos a considerar o lado económico disso, incluíndo a questão de saber que incentivos negativos isso pode representar. Aí muitos de nós podem preferir ignorar os argumentos económicos e clamar pela acção “útil”. Tenho notado esta tendência na discussão de vários assuntos, desde o Zimbabwe de Robert Mugabe passando pela homossexualidade, direito à informação, combate ao crime até, já agora e actual, a questão dos desequilíbrios regionais.
Então lembrei-me duma passagem do texto de Max Weber “ciência como vocação” que traduzo aqui livremente para vocês:
… Qual é, dadas as condições subjectivas aqui mencionadas, o significado da ciência como vocação com o desaparecimento de velhas ilusões do tipo “a rota para o verdadeiro sentido”, “a rota para a verdadeira arte”, “a rota para a verdadeira natureza”, “a rota para o verdadeiro Deus”, “a rota para a verdadeira felecidade”? Tolstoi deu a resposta mais fácil da seguinte maneira: “ela não tem significado porque ela não tem resposta para a única pergunta que realmente interessa, nomeadamente ‘que devemos fazer? Como devemos viver?”. Que ela não nos proporciona esta resposta é incontestável. A questão, porém, é saber em que sentido é que ela não nos proporciona “nenhuma” resposta e se, ao contrário, ela não daria mesmo assim alguma coisa aquele que coloca bem a pergunta. As pessoas gostam hoje em dia de falar de uma ciência sem condicionalismos. Existe esse tipo de ciência? Depende do que se entende disso. Todo o trabalho científico parte do princípio de que as regras da lógica e do método são válidas: isto é, a validade da base geral sobre a qual assenta a nossa orientação no mundo. Ora, estas condições não são problemáticas pelo menos para a nossa questão especial. Parte-se também do seguinte princípio: o que resulta do trabalho científico é importante no sentido em que “vale à pena sabê-lo”. E é aqui, provavelmente, onde se amontoam os nossos problemas. Na verdade, este princípio não pode ser comprovado com recurso a instrumentos da ciência. Só é possível reduzir isto ao seu significado final, o qual podemos depois rejeitar ou aceitar de acordo com a posição de cada um de nós em relação à vida.
Uma outra questão completamente diferente refere-se ao tipo de relação entre o trabalho científico e estes princípios de acordo com a estrutura destes últimos. As ciências naturais como, por exemplo, a física, química, astronomia dão por adquirido que – de acordo com os limites da ciência – valha à pena conhecer as leis finais do que acontece ao nível cósmico. E isto não só porque com estes conhecimentos podemos alcançar sucessos tecnológicos, mas também e pelo simples facto de os querermos adquirir enquanto vocação. Mesmo este princípio em si não é passível de comprovação. Muito menos a questão de saber se o mundo que descrevem deve existir, se, pior ainda, faz algum sentido que ele exista. Essas ciências não colocam esse tipo de perguntas. Peguem, alternativamente, numa arte prática tão altamente desenvolvida como a medicina moderna. O princípio geral do negócio da medicina é, colocado de forma trivial, o seguinte: responder afirmativamente à tarefa de manter a vida como tal e à possibilidade de redução do sofrimento como tal. E isso é problemático. Com os seus medicamentos o médico mantém em vida o doente terminal, mesmo quando ele suplica para ser aliviado da sua vida, mesmo quando os seus parentes, para quem esta vida em particular não tem nenhum valor, para quem os custos de manutenção desta vida sem valor são insurpotáveis – se calhar trata-se do coitado dum maluco – desejam, ou devem desejar confessadamente e sem limites a sua morte. Só apenas os princípios da medicina e o código penal é que impedem o médico de mudar de posição. Todas as ciências naturais dão-nos uma resposta à seguinte pergunta: o que devemos fazer se quisermos dominar o mundo tecnicamente? Se devemos ou não dominar o mundo tecnicamente, e se isso tem algum significado profundo, aí eles simplesmente se calam ou, quando muito, partem do princípio de que alguém já respondeu à pergunta.
São apenas notas de leitura para situar algumas coisas, conter expectativas e contextualizar a nossa actuação. Reparem que isto não nos liberta das nossas responsabilidades morais como cidadãos e membros da comunidade política. O interesse pelo rigor na nossa abordagem das coisas da nossa terra justifica-se, creio, pela necessidade de vincarmos esta responsabilidade que trazemos connosco. Uma reflexão problemática sobre as coisas pode ser tão má quanto uma má intervenção política. Especular, sem aparentemente conhecimento de causa, que um governador provincial oriundo do norte teve que ir procurar tratamento no seu distrito natal porque o governo em Maputo, que é dominado por gente do sul, não quiz que ele recebesse melhor tratamento na África do Sul por ser do norte, parece-me extremamente irresponsável, independentemente da real situação no que diz respeito aos equilíbrios regionais. A este propósito procurei informar-me nos últimos dias através de pessoas conhecidas lá no Xai-Xai e as versões que oiço de lá dão conta de questões que ultrapassam de longe a mera problemática do desequilíbrio regional. Fala-se lá, conforme eu havia suspeitado, de funcionários do governo que estavam contra o governador não por ser do norte, mas por ter querido “limpar” a casa. Fala-se também dum ambiente supersticioso bastante tenso, o que pode explicar porque o governador foi ao distrito e não a Nelspruuit ou mesmo Maputo, Nampula ou Quelimane para “tratamento”. Enfim,...
1 comentário:
Caro Elísio, meu nome é Pedro Mourão e conheci seu blog através de Ercilio Langa, que é meu colega de mestrado na Universidade Federal do Ceará (Brasil). Gostei muito do seu material e gostaria de estabelecer uma parceria com você.
Este é meu blog
http://cienciasocialceara.blogspot.com/
já estou seguindo o seu blog e coloquei ele entre na sessão de "parceiros"
Desde já te parabenizo pelo trabalho.
Abraço
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