quinta-feira, novembro 06, 2008

A caixa de ferramentas do sociólogo

No dia 19 de Março de 2008 falei aos estudantes de ciências sociais no ISCTEM de Maputo. Infelizmente, falta-me tempo para blogar com regularidade. Vou participanto em algumas discussões, mas eu próprio não estou a tirar nada. Tenho visto em alguns blogues, sobretudo na esteira da vitória de Obama nas eleições presidenciais americanas, escritos de gente a reclamar ter vaticinado esta vitória. O assunto Obama nunca me interessou assim tanto e devo até reconhecer que se alguém me tivesse perguntado se ele iria ganhar ou não, é provável que eu tivesse dito não, ou que não sei. Contudo, acho estranha esta atitude de alguns de confundirem o que desejavam com um prognóstico do que iria acontecer. Este é um problema que abordei na palestra que proferi no ISCTEM. A razão imediata dessa palestra eram os acontecimentos de 5 de Fevereiro de 2008 na capital do país e que levaram alguns académicos e jornalistas a reclamarem para si o prognóstico correcto do que viria a acontecer.

Enquanto não regresso ao convívio regular na blogosfera, deixo o longo texto da minha palestra aqui como um convite à reflexão sobre o que significa pensar em ciências sociais e um desafio àqueles que pensam que o que acontece por aí e coincide com o que havíamos pensado é resultado do que pensamos.

O que as ciências sociais não sabem

O título é um bocado pomposo, apesar de simples. Na verdade, refiro-me ao que eu não sei, não ao que as ciências sociais não sabem. Não foi fácil chegar a um entendimento sobre que título dar a esta comunicação. A primeira sugestão foi de falar sobre os limites das ciências sociais, mas mesmo aí podem imaginar os problemas. Meus ou mesmo das ciências sociais?

Vou falar, na verdade, sobre a explicação e seu papel e função nas ciências sociais. Como sabem, a explicação mais simples que podemos ter para alguma coisa é dizer que ela não faz sentido. Melhor ainda, temos que saber o que queremos dizer com essa explicação: o que significa dizer que uma coisa não faz sentido? Aí está a diferença entre as ciências sociais e o “resto”. Nós vivemos numa sociedade que tem uma necessidade grande de explicar as coisas. Pensamos que o que existe tem que ter explicação. Pior ainda, imaginamos que um cientista social tem que ser capaz de explicar tudo e que fica mal ser convidado à televisão para ir dizer que não temos explicação para um determinado fenómeno.

Isto parece-me problemático e é por isso que gostaria de me debruçar sobre o assunto. Há tanta coisa que gostaríamos de saber. Eu, por exemplo, gostaria de saber o que aconteceria se toda a gente com autoclismo no mundo o puxasse no mesmíssimo momento. Acabava a água? Ouvia-se em todo o mundo? E que factor estaria por detrás desta ideia ou necessidade simultânea de fazer isso? Gostaria de explicar esse fenómeno, mas não sei como, por isso até nem me preocupo. A minha vida não perde qualidade por causa dessa impossibilidade. Pensem na nossa própria sociedade e na sua tendência de explicar tudo e imaginem o mal que fazemos a nós próprios. Na tradição cultural que melhor conheço, nomeadamente a do Sul do país, há um tipo de estórias infantis que procura satisfazer essa curiosidade. E fá-lo da forma mais pedagógica possível, ainda que problemática.

Estórias-porquê

Por exemplo, existem várias estórias que eu chamo de “estórias-porquê”. Porque é que há noite e dia? Porque é que as mulheres – bom, a maior parte! – não têm barba? Porque é que o gato e o rato não se dão? Deixem-me contar-vos esta última, pois é relevante para os meus propósitos de hoje. Dizem que em tempos que já lá vão o gato e o rato eram amigos inseparáveis. Faziam praticamente tudo juntos. Um dia, o rato convidou o gato a atravessarem o rio para a outra margem porque ele queria visitar uma amiga. O gato disse que não podia porque tinha medo da água. O rato insistiu e até chegou a questionar a amizade do gato. Aí o gato decidiu arriscar. Então, o rato fez uma canoa a partir de mandioca (fez um buraco para se sentarem) e os dois lançaram-se à água. Antes mesmo de chegarem ao meio do percurso, o rato disse ao gato que estava com fome e que por isso ia comer um bocado da própria embarcação. O gato, com medo das consequências, disse que não era boa ideia, mas o rato insistiu e disse que não haveria problemas. E assim fez. Já no meio o rato voltou a dizer que continuava com fome e que ficava mal ir ter com a namorada com o estômago a fazer barulho. O gato continuou a dizer que não era boa ideia. O rato não ligou; comeu até furar a embarcação. Começou a entrar água. Começaram a afundar-se. O rato, que sabe nadar, saltou e nadou para os braços (!) da sua querida. O gato bebeu uns bons goles, mas por sorte, pescadores que andavam ali perto salvaram-no. Desde esse dia o gato e o rato são inimigos. Ou melhor, nesse dia acabou a sua amizade. Quando o gato apanha o rato, como vocês já devem ter reparado, ataca-o, e põe-se a brincar com ele durante muito tempo. Na verdade, aquilo não é brincar, nós é que estamos a ver mal. O gato está a interrogar o rato, a perguntar-lhe porque fez aquilo...

E desta maneira ficamos com uma explicação coerente da hostilidade entre gato e rato. Mas é uma boa explicação? É uma explicação? Não é. É simplesmente a satisfação desta nossa tendência supersticiosa de explicar tudo porque tudo deve ter explicação confortante. Não sabemos viver com a incerteza ao contrário da ciência que pode fazer isso. A ciência sabe viver com a incerteza porque sabe distinguir uma má explicação de uma boa explicação. Lembram-se da célebre frase de Sócrates, o filósofo grego? Eu só sei que nada sei! Muita gente pensa que esta frase é uma manifestação de modéstia. Nao é. O que Sócrates está a dizer é que “saber que não sei” significa saber o que tem de saber para poder saber.

Isto é importante. Alguém dizia que uma boa parte de teorias é rejeitada não porque elas não se tenham confirmado em testes experimentais, mas porque contêm más explicações. Há diferença entre prever alguma coisa e explicar essa coisa. Portanto, para voltar ao gato e ao rato, a ideia de que a amizade traída explica a hostilidade permite-nos dar sentido ao comportamento empírico que observamos, mas não explica nada. Insisto nisto porque é muito característico da nossa esfera pública. Temos muitos analistas que estão constantemente a dizer “eu disse, não disse?” quando as coisas, por um acaso qualquer, são como eles, numa das suas inúmeras previsões, disseram que seriam. Aqui só vos digo: felizes são os que só precisam de acertar uma vez em 50 previsões; infelizes somos nós que nos enganamos uma vez em 100 e ficamos mal aos olhos do público!

Agradeço ao Dr. António Matabele pelo convite que me formulou para vir falar convosco. Agradeço ao Hélder Jauana, ao Filimone Meigos e, naturalmente, à direcção da universidade por este convite que me honra. Não há melhor lugar para falar sobre a nossa ignorância do que num centro de ensino onde o empreendedorismo é praticado. Suponho que seja forte a tentação de se verem como pessoas especiais só pelo simples facto de estarem neste lugar exclusivo. De onde vem essa especialidade? Será mesmo do facto de serem pessoas especiais? Duvido. Acho ser um dever de humildade reflectir sobre estas coisas como forma de contribuirmos para a melhoria da qualidade do debate na esfera pública. Venho falar convosco sobre esta temática para vos dizer uma coisa simples: o direito de sermos ouvido não é o mesmo que o direito que os outros nos tomem a sério. Pensem nisto, por favor. Não é pelo simples facto de sermos cientistas que havemos de falar a verdade. Não fica mal reconhecermos que não sabemos.

Vou tentar ser concreto nesta intervenção. Vou abordar convosco alguns tipos de explicação que aprendi da metodologia das ciências sociais. Vou articular esses tipos com a pergunta “porquê” para vos sugerir o que devemos saber antes de podermos dizer que temos uma “explicação”. O sentido de “porquê” varia e coloca-nos, nessa variação, desafios diferentes. Noto, no caso específico do dia 5 de Fevereiro, que existe pouca sensibilidade para essa variação, o que tem contribuído grandemente para uma certa perplexidade na abordagem desse fenómeno.

Os tipos de explicação que vou abordar são os seguintes: dedutiva, teológica ou funcionalista, genética e indutiva. Vou pegar como exemplo as manifestações do 5 de Fevereiro, mas, relaxem, que não vou tentar explicá-las!

Porquê, porquê, porquê, porquê?

Antes de entrar no assunto propriamente dito deixem-me fazer alguns reparos metodológicos. As explicações que temos ouvido e lido sobre o 5 de Fevereiro levantam problemas relacionados com duas coisas muito importantes, nomeadamente com os conceitos e com a metodologia. O conceito refere-se à descrição da realidade, isto é, à pergunta de saber o que aconteceu. Com ele damos visibilidade à realidade. O conceito, na verdade, é o nosso principal instrumento de trabalho. Quanto mais claro for, melhor apreenderemos a realidade. Ligada ao conceito está a questão da metodologia, naturalmente. Aqui a questão é de saber como sabemos que o que aconteceu realmente aconteceu. Reparem numa coisa muito curiosa: a designação que fazemos de um fenómeno já pode ser, em si, uma explicação. Que palavras foram usadas para descrever o 5 de Fevereiro? Manifestações, revolta, sismo, protesto, desordem, rebentamento da caldeira, ausência de outras formas de participação, etc. Porque é que digo que a designação em si já pode ser uma explicação? É porque se eu digo que o que aconteceu no dia 5 de Fevereiro foi um protesto estou, com efeito, a dizer que pessoas estavam a mostrar a sua oposição a alguma coisa de interesse público. Portanto, os conceitos que usamos não são inocentes e prestar atenção a isso é fundamental para a higiene do debate. Reparem que digo sempre “5 de Fevereiro” e não “manifestações” ou coisa parecida. É pelo medo de ser comprometido pelas palavras que uso!

Com estes reparos em mente podemos, então, passar para os tipos que referi brevemente há pouco. Chamo a vossa atenção para um pormenor que devem ter em mente enquanto falo. Quando explicamos – ou tentamos explicar – estamos basicamente a fazer um relato (descrição) do mundo. Tenho em mim que o relato não só descreve como também estrutura o mundo. O nosso relato procura dar coerência ao mundo e fá-lo estruturando-o segundo as nossas próprias categorias. O que vemos é muitas vezes o que podemos ver, não necessariamente o que é.

dedutivo

O primeiro tipo de explicação é o dedutivo. Isto vem da lógica, cujo exemplo mais simples é o “modus ponens” que todos nós conhecemos. Temos uma conclusão que se apoia necessariamente nas premissas. As premissas não podem estar certas e a conclusão errada. Assim, só para refrescar a memória, podíamos dizer que todos os estudantes e docentes do ISCTEM são inteligentes. Isso é uma premissa. A segunda precisa podia ser que o José é estudante do ISCTEM. A conclusão deve ser, por isso, que o José é inteligente. Nesta ordem de ideias, há um modo de explicação que assenta neste procedimento e que consiste em clarificar conceitos e juntar factos que estão em linha com esses conceitos.

Se eu definisse o conceito “manifestação” da seguinte maneira: é um protesto popular contra alguma coisa, de preferência, contra o governo, o significado que a pergunta “porque houve manifestações no dia 5 de Fevereiro?” não seria de querer saber o que levou as pessoas a se manifestarem. A pergunta quer saber o que nos leva a dizermos que o que aconteceu nesse dia foram manifestações. Portanto, ao responder a esta pergunta estou a proporcionar razões que justificam o emprego do conceito “manifestação”. Quais são as suas propriedades? Que verdades necessárias estão aí encerradas e sem as quais não faria sentido utilisar o conceito “manifestação”? E isso obriga-me a fazer mais coisas. Obriga-me, por exemplo, a ir para além da constatação segundo a qual pessoas teriam descido à rua e dizer porque essas pessoas, que pessoas, porque essas pessoas são representativas da vontade popular, etc.

Uma pergunta dedutiva só nos proporciona uma explicação quando somos capazes de dizer porque é legítimo utilisar determinado conceito, porque o conjunto de fenómenos que associamos a esse conceito revelam a existência empírica desse fenómeno e, acima de tudo, que condições objectivas devem existir na nossa sociedade para que esses fenómenos sejam possíveis. Posto isto, só posso perguntar se vocês se dariam por satisfeitos com algumas das “explicações” que andam por aí.

funcionalista

O tipo de explicação funcionalista já é algo diferente. Aqui não é o conceito em si que interessa, mas sim como nós enquadramos certos fenómenos numa determinada visão das coisas que temos. Cada um de nós opera com visões do mundo. É assim que vemos o mundo. Vamos lá, para algumas pessoas Moçambique é um país de injustiça social. Quando alguém pergunta “porque houve manifestações no dia 5 de Fevereiro?” a pergunta é entendida como um desafio para enquadrar esse acontecimento nessa visão do mundo. Responder à pergunta significa, portanto, fazer esse enquadramento. Muitos fizeram isso, na verdade. Disseram que como nós vivemos num país com um governo indiferente e injusto as manifestações foram um acontecimento que revelava o fim da paciência do povo, ou coisa parecida.

Essas pessoas não estavam a explicar o 5 de Fevereiro. Estavam a descrever a sua visão do mundo. Independentemente de toda a coerência que o acontecimento possa ter com a sua visão do mundo, as pessoas podem ter feito o que fizeram naquele dia movidos por outras razões. Por exemplo, aproveitar-se da situação; criar confusão; etc. A este propósito, acho interessante o que Mia Couto é citado como tendo dito. Ele disse que as manifestações só terão falhado se não houver mudanças. Vemos aqui um exemplo claro de uma abordagem do assunto que tenta conciliar o acontecido com uma certa visão do mundo. E, por favor, não quero com isto dizer que as pessoas estariam enganadas ou que não seria legítimo fazer isto. Estou apenas a dizer que temos que estar cientes do que está a acontecer nesse momento de “explicação”.

Devemos, por exemplo, perguntar a quem nos proporciona este tipo de explicação que ideia de sociedade ele tem e como é que ele enquadra o que aconteceu nessa ideia de sociedade. Devemos perguntar o que ele diz sobre as motivações e razões das pessoas que se manifestaram e, naturalmente, é imperioso sabermos que ideia é que a pessoa que nos explica tem do objectivo das manifestações. Como podem ver, neste caso também não é fácil dizermos que temos uma explicação.

genético

Faltam ainda dois tipos. Há o tipo genético que me parece um dos mais simples. A ideia aqui é de mostrar que um determinado acontecimento faz parte de uma longa cadeia de coisas geneticamente ligadas. Alguns dos nossos analistas avançaram, por exemplo, com a ideia de que estava a rebentar a caldeira, isto é houve um progressivo deterioramento das condições de vida que teria conduzido ao 5 de Fevereiro. Mais uma vez enfatizo para o vosso benefício que o desafio não é de dizer que quem diz isso não está bem de cabeça. É bem possível que esteja. O desafio, em minha opinião, consiste em interpelar criticamente essa pessoa chamando a sua atenção, por exemplo, ao facto de que no dia 5 de Fevereiro houve duas coisas, no mínimo. Houve manifestação e houve manifestação violenta. O deterioramento das condições de vida pode explicar a manifestação. Mas o que explica a violência dessa manifestação? Tenho reparado que ninguém, tanto quanto sei, tem levantado esse problema.

Portanto, perante uma explicação de tipo genético devemos perguntar como é que se pensa que se chegou a este ponto, porque a coisa assumiu o carácter que assumiu, porque a coisa aconteceu onde aconteceu, quando aconteceu, como aconteceu e nos moldes em que aconteceu. É muita coisa que é preciso tomar em consideração e vocês vão compreender, tal como eu compreendo, que alguns dos nossos analistas – na pressa de emitir opinião na televisão e em blogues na internet – não têm tempo de reflectir.

indutivo

Finalmente, vou falar-vos do tipo indutivo. Aqui, como o próprio nome diz, estamos no reino da especulação. Trata-se de especulação informada, todavia. Não sabemos ao certo, mas achamos que uma coisa se explica assim. Quando perguntamos “porque houve manifestações no dia 5 de Fevereiro?” estamos, na realidade, a perguntar que factores se combinam para produzir esta situação bastante específica. Isto é, estamos interessados em regularidades estatísticas que nos mostram que quando certas circunstâncias se conjugam algo de uma determinada natureza acontece. Ora, da história sabemos que distúrbios populares são coisa normalíssima. Há um grande historiador britânico, E.P. Thompson, que ficou famoso pelos seus trabalhos sobre as revoltas do pão na Inglaterra do século XVII. Ele mostrou que essas revoltas estavam ligadas à negociação dos termos em que o sistema capitalista devia funcionar. E notou uma coisa muito interessante para a discussão que fazemos do 5 de Fevereiro no nosso país e que pode deitar por terra algumas das explicações que andam por aí. Ele mostrou, de facto, que os que protestam não são os que não têm nada. Os que protestam são sempre os que têm alguma coisa a perder!

Portanto, quando alguém aparece a dizer que os pobres de Maputo finalmente se ergueram, pode não estar a perceber as coisas lá muito bem. Como é que associamos a subida do preço do pão, combustível, chapas, governo indiferente e precariedade – estas são as circunstâncias que podemos ler por aí – ao que aconteceu nesse dia? Porque consideramos estas circunstâncias relevantes para a explicação do 5 de Fevereiro? Só depois de esclarecermos isto é que podemos ter a certeza de que temos uma explicação indutiva do fenómeno. É nesta base que devemos interpelar quem tenta nos proporcionar uma explicação.

Aqui estão, então, os quatro tipos. Permitam-me, posto isto, passar para as minhas conclusões.

Conclusão

Tentei mostrar-vos aqui que não é fácil explicar seja o que for. Por causa disso mesmo, não fica mal não ter uma explicação. É muito trabalho e quem tem sensibilidade para isso vai ser mais comedido. O que nos distingue a nós como académicos e intelectuais é justamente a modéstia nos nossos pronunciamentos públicos. O que motiva o génio, alguém disse isto uma vez, e o inspira no seu trabalho, não são as novas ideias. É, sim, a sua obsessão com a ideia de que o que já foi dito ainda não é suficiente. Gostaria de incutir esta postura aos que se iniciam na ciência, sobretudo nas ciências sociais. É possível viver com a incerteza; basta ganharmos a convicção de que um dia teremos explicações muito simples para as coisas que nos preocupam.

Sei que não estamos numa faculdade de teologia, mas acho útil recorrer a Tomás de Aquino. Ele disse, e tomem nota por favor, que para aquele que tem fé não é necessária nenhuma explicação, enquanto que para o que não tem fé não é possível nenhuma explicação. Parece-me uma visão radical das coisas. Precisamos de encontrar um meio-termo. O meio-termo é a curiosidade, por um lado, mas também, a aversão e hostilidade, por outro lado, às fórmulas simples, por muito plausíveis que nos pareçam.

Se calhar, os nossos avós chegaram à conclusão de que o acidente no rio estava na origem da inimizade entre o gato e o rato por terem visto o gato a “brincar” com o rato depois de o ter morto. Se calhar, quem pode saber isso? Se calhar não era preciso forçar assim tanto a imaginação. Se calhar o gato gosta da carne do rato porque o rato é o único animal de porte considerável ao seu alcance. Se calhar o gato “brinca” com o rato não tanto porque quer saber porque é que o rato roeu a canoa, mas sim porque a temperatura do rato morto precisa de baixar para não criar problemas digestivos ao gato...

Muito obrigado pela vossa atenção!

4 comentários:

Patricio Langa disse...

Caro Elísio.
Este comentário é sobre a razão que te levou a postar o texto da tua comunicação no ISCTEM. Penso que está nesta passagem que retirei do blog Diário de um sociólogo.
“Lembram-se da regularidade com que aqui, neste diário, desde o princípio e por vezes de forma isolada no país, me referi ao novo presidente americano, o acompanhei de perto em inúmeras postagens. E lembram-se de que vaticinei a sua vitória. E lembram-se da ironia que alguns foram levantando, aqui e acolá, a propósito do que eu escrevia e comentava” C.S.
Achei imprudente e critiquei C.S, principalmente enquanto académico, por apoiar a candidatura de Obama por aquele ser Afro-americano (Negro). Não acho a cor da pele, seja ela qual for ou a pertença étnico-racial, um critério útil para julgar um governante. Obama significa justamente o contrário dessa postura. Nessa altura defendia eu que faria mais sentido C.S justificar a sua posição a partir da avaliação que fazia do programa do candidato. Postei na altura, pela primeira vez, o livro de Obama “ Audácia da Esperança”, lugar onde podia se ter acesso a algumas de suas ideias de governação. É claro que fui, deliberadamente, ignorado, mas ouvido. É desse questionamento que surgiu a seguinte frase “E lembram-se da ironia que alguns foram levantando, aqui e acolá, a propósito do que eu escrevia e comentava”.
A verdade é que daí em diante passou-se a justificar o apoio a Obama pelo seu programa, mesmo que este não fosse referido. A partir daí passamos a ver mensagens que sugeriam a ideia de que se tinha contacto directo com Obama e de que este dava atenção especial. Na verdade Obama soube fazer bem uso das ITs. Eu próprio registei-me no seu website e desde as primárias recebia mensagens pessoas. Quando vejo este tipo de coisas tomo consciência de ate aonde a vaidade nos pode levar.

Parabéns por este texto, didáctico, que aborda o outro lado da questão. O lado do vaticínio, feito teoria.
Abraço

Anónimo disse...

Prezado Elísio,
alguns comentários. Estamos de acordo na necessidade de evitarmos a tentação à onisciência. Todo cientista deve excomungar o padre que vive dentro de si, e quanto antes tal cerimónia tiver lugar, melhor. Também concordo contigo acerca da importância de conceitos e definições claras. No entanto, considero conceitos instrumentos, não fins-em-si-mesmo. Por isso, perderia pouco tempo a decidir se uso manifestação, protesto, rebelião para discutir o ocorrido no 5 de Fevereiro. Do contrário, entraria numa espiral sem fim: por quê uso 5 de Fevereiro, e não uma escala temporal maior? Afinal, os eventos daquele dia certamente não começaram alí, mas tem suas origens em eventos num período temporal mais longo. E definições são, infelizmente, intermináveis. Discordo da tua definição de protesto (excluíria o interesse público...). Ao fim e ao cabo, mostramos nossos preconceitos ao escolheremos conceitos, mas ninguém, nem o cientista, esta livre deles. Claro: o cientista deve estar ciente disso, ao menos.
Filosoficamente, não há como provarmos que as coisas que vemos correspondem à realidade. Ontologicamente, nunca saberemos isto. O máximo que podemos fazer é mostrar que nossa visão explica melhor o mundo. Aqui, contudo, começa o problema. Melhor para que? A religião explica o mundo à sua maneira, e faz feliz (será a felicidade o fim último da existência? Ou a liberdade?) a muitas pessoas. Há, na questão da explicação, tanto um elemento ontológico, como um elemento epistemológico. Tu não fizeste esta diferenciação no teu texto, mas acho importante fazê-la. A dimensão ontológica da explicação é um caminho sem fim. A epistemológica, contudo, tem regras mais claras. Explicar, ao epistemólogo, ao cientista, significa inserir a possibilidade do erro no cerne do processo.
A religião e muitas outras formas de explicar o mundo (o marximos entre elas) não nos permitem verificar se o que dizem explicar algo, de facto, pode não estar correto. A teoria, por si, preclude o erro, o explica em seus próprios termos. Manifestações de 5 de Fevereiro, quais seus porquês? Vontade divina, pecado. Decadência do capitalismo.
Um bom cientista, no entanto, usando qualquer metodologia a ele disponível (ao fim, a metodologia é pouco importante: o que conta é o método e sua capacidade de formular hipóteses testáveis), deveria formular hipóteses para discutir o fenómeno. Hipótese: alta no preço dos chapas. Como testá-la? Verificar se semelhantes aumentos aconteceram no passado e se houve reações semelhantes. Entrevistas com alguns manifestantes. Hipótese: facilidades no contacto entre os manifestantes via celular (sms). Houve tal facto? É uma novidade? Agora, o pesquisador deve, ainda, esclarecer por quê causas semelhantes (subida de preços de produtos, celular) não resultam em resultados semelhantes mais vezes. Isto é, o contra-factual. Hipótese 3: chapas estão muito presentes nas vidas das pessoas, e, pela natureza de seu funcionamento, favorecem o acontecimento de eventos em cadeia. Foram, assim, despoletadores de fenómenos que, em outras circunstâncias, não teriam acontecido. No jargão da ciência social, fizeram também o papel de redes sociais, ligando pessoas com o mesmo problema.
Claro, o cientista não pode finalizar tal pesquisa algumas horas após o ocorrido, o que o impede de ser, também, uma celebridade. Se quiser sê-la, o fará na qualidade de mero cidadão. Com pose e barba de cientista, mas só.

Elísio Macamo disse...

caro jonas, estou perfeitamente de acordo com as observações que fazes. há distinções que precisaria de fazer, há nuances a introduzir, há cautelas a tomar. a minha intenção não era de escrever um manual de explicação, mas sim de chamar a atenção das pessoas (sobretudo dos estudantes de ciências sociais a quem este blogue é dirigido) para as armadilhas contidas neste empreendimento. o teu comentário mostra o que devemos apreciar, nomeadamente que estas coisas são difíceis e complicadas e, sobretudo, que devem fazer parte da nossa reflexão.
caro patrício, acertaste quanto à inspiração imediata para a publicação, mas não foi o único texto que me sobressaltou. houve mais (alguns dos quais estou a receber por via de moçambique online) e fazem parte de vários problemas que temos vindo a discutir na nossa esfera pública sobre como abordar o país, etc. no dia 19 de novembro haverá eleições no país e aposto que no dia 20 hão de aparecer pessoas de um e de outro lado a dizerem que tinham vaticinado os resultados. a nossa esfera pública, contudo, não vai ficar mais esclarecida porque até agora ainda não vi uma discussão substancial das razões apontadas por um e outro para os seus vaticínios. entretanto, vão sendo publicitados resultados de "sondagens" de duvidosa qualidade sem o mínimo dos interesses de convidar as pessoas a discutir os critérios metodológicos e analíticos que estão em causa. o blogue "diário de um sociólogo" chegou a publicar os resultados da sondagem feita pelo jornal "zambeze" (creio) indicando, incrivelmente, os "resultados" da sondagem a 2000 pessoas sem o voto dos que disseram que não sabiam ou não tinham decidido ainda como votar. isto é propaganda, em minha opinião, e grave, do ponto de vista académico, sabido como é que as abstenções são um elemento importante das nossas eleições. fazer ciência é uma responsabilidade e nós os académicos temos que estar cientes disso. infelizmente, por mais que a gente tente, há ainda muita gente que pensa que insistir nestas coisas é tomar partido político. percorro os blogues e vejo posições problemáticas sobre vários assuntos, o que não surpreende, mas tento perceber porque é assim e a resposta que encontro é de que alguns de nós estamos a promover maneiras problemáticas de lidar intelectualmente com o país.

Unknown disse...

Caro Jonas,

Gostei do seu comentário, contudo não trataria de conceitos com a leviandade que o fazes. Concordo em parte consigo quando atribuis uma função instrumental aos conceitos, sua referência “No entanto, considero conceitos instrumentos, não fins-em-si-mesmo”, todavia já o faço quando concluis “Por isso, perderia pouco tempo a decidir se uso manifestação, protesto, rebelião para discutir o ocorrido no 5 de Fevereiro”. Tenho para mim, que os conceitos são importantes e até determinantes para a prossecução das fases subsequentes da investigação científica, porque é a partir dos conceitos que capturámos e interpretámos a realidade. Não acredito que partindo de premissas erradas possamos chegar à conclusões correctas. Talvez por mero acaso. Mas aí, a coerência, plausíbilidade e consistência teriam sido sacrificadas. Pese embora o acima exposto, os conceitos funcionam também como algemas, só que, de ouro; obrigam-nos a pensar dentro da caixa. Interpelamos a realidade tendo como pressupostos, o significado que temos do conceito. Logo, os conceitos não nos permitem enxergar para além dos seus limites . E por força disso, o que julgamos saber, impossibilita-nos de saber, o que de facto deveriamos saber. Contudo questiono, existirá uma segunda via que seja coerente, plausível e consistente? Duvido, salvo melhor opinião.

Josué J. Muchanga