segunda-feira, novembro 17, 2008

E se Mugabe fosse americano?

Mugabe americano branco
Já agora, porque não entrar na onda das especulações encorajado pelo sempre interessante texto do Mia Couto (que circula pela internet), mas também pela interpelação incisiva feita pelo Patrício Langa? Porque não? Mas como entender a pergunta: e se Mugabe fosse americano? Difícil. Ou melhor, depende. Branco ou preto? Descendência directa africana ou descendência indirecta por via dos americanos-africanos? Qualquer que seja a resposta que dermos a estas perguntas, as coisas mudam de perfil. A análise não pode ser a mesma. Se Mugabe fosse americano branco, como professor primário que ele é, nunca teria chegado a lado nenhum. Precisava de ter estudado direito ou gestão e decidido, muito cedo, meter-se na política em defesa de certos interesses que não têm necessariamente muito a ver com a sorte da maioria. No Zimbabwe ele formou-se politicamente na defesa dos interesses de uma maioria espezinhada, oprimida e constantemente ferida na sua dignidade humana. Os que o criticam hoje esquecem isso com muita facilidade.
Ele passou anos na cadeia, passou privações no exílio e na guerra de libertação guiado não só pelo ideal de um dia vir a fazer vida negra a Morgan Tsvangirai e cuspir na cara do mundo, mas guiado, também, pela esperança da recuperação da dignidade humana de todo um povo. E recuperou essa dignidade, mas o simples facto de ter tido que consentir esses sacrifícios todos pela recuperação de algo apregoado (mas não cumprido) por gente aparentemente decente e sensata há-de o ter marcado como político. Nada justifica atrocidades cometidas em nome de seja qual for o ideal, mas ignorar o papel formativo que certas experiências têm na vida de um político é também a forma mais segura de nunca poder perceber porque os políticos agem como agem e o que deve ser feito para os envolver no diálogo que é sempre necessário. Um Mugabe americano branco teria consentido sacrifícios pelos negros americanos e ganhar projeção nacional? Esses negros americanos teriam dinheiro suficiente para financiarem a sua campanha? Ou teria ele usado a causa “negra” simplesmente para se projectar como, aliás, alguns políticos liberais norte americanos o fazem? Uma vénia aqui e acolá pelas causas desta mais aquela minoria a caminho do capitólio em Washington... Ou fazer de Michael Moore com as suas críticas enfadonhas e mal articuladas à consciência liberal americana?
Nos Estados Unidos da América, como aliás no Brasil também, há reservas de índios, verdadeiros antros de alcoolismo e decadência. Ter-se-ia inspirado nessa realidade um Mugabe branco americano para se livrar do problema dos fazendeiros brancos no Zimbabwe? Estilo meter todos esses fazendeiros que teimam em controlar a riqueza do país conquistado com luta e sacrifício em reservas? Estilo organizar aí excursões turísticas para ir ver “brancos africanos”? Ou teria ele legislado de forma restrictiva como alguns estados o fazem lá nos EUA contra “ilegais”, submetendo-os ao tratamento mais ignomioso que uma nação que se considera civilizada pode submeter a outros seres humanos? Ou então, porque não, encorajar os fazendeiros brancos a regressarem às raízes como, aliás, as missões cristãs fizeram lá nos EUA em relação aos negros que foram enviados para a Libéria? Comprava-se um pedacinho de terra em Cornwall na Grã-Bretanha para os fazendeiros zimbabweanos e, prontos, estava resolvido o problema. Estava?
Ou seria ele, caso conseguisse chegar à Casa Branca com essa agenda, aliado de Tony Blair na inviabilização de uma solução para o problema do Zimbabwe? Meios para tal não lhe faltariam. Era só fazer como os Bush fizeram. Era só fazer como administrações anteriores fizeram em relação a muitos outros países e a muitos outros conflitos: Nicarágua, Panamá, Granada, Cuba, Vietname, etc. Aliás, era só ser igual a si próprio e tolerar durante anos a fio regimes de minoria branca na África do Sul e na Rodésia do Sul. Anos a fio. Porque é que nós – agora estou a falar de nós os africanos em África – começamos as nossas homilias sempre do zero? Assim que o Ocidente muda de ideias – estilo, a partir de agora é errado ter governo de minoria branca – já não nos interessamos em recordar a esses fulanos que no passado defenderam – ou, pelo menos, não levantaram nenhum dedo contra – esse tipo de regimes. Será uma maneira de os ilibarmos da sua responsabilidade na formação de uma cultura política niilista entre nós? Será uma maneira de evitarmos ver que, quer a gente queira, quer não, somos produtos desta relação com o Ocidente? Será isso?

Mugabe americano negro

Está bem. Suponhamos que Mugabe americano fosse negro. E aí? Como professor que ele foi teria chegado a algum sítio? Teria sido professor? Se ele se tivesse envolvido na campanha dos direitos cívicos, estaria hoje vivo? E se estivesse vivo, seria como político moderado, político radical ou o quê? Quantos milhões de negros não votam nas eleições americanas por estarem na cadeia? E porque estão na cadeia? Porque são criminosos? Só por isso? Num país civilizado e democrático como os EUA só se pode estar na cadeia por se ser criminoso? Só? Que oportunidades é que aquela nação dá aos seus? Como são distribuídas essas oportunidades? Como se pode articular o desconforto em relação a isso? Pela sua idade, Mugabe teria começado a fazer política nos EUA no período de McArthur. Portanto, é bem provável que tivesse sido logo rotulado de comunista com todas as consequências que daí adviriam.
Obama conseguiu, portanto, vamos supor que um Mugabe negro também conseguisse. E depois? Vamos supor que uma vez chegado à Casa Branca ele decidisse distribuir melhor a riqueza do país. Vamos supor que ele quisesse que os negros americanos fossem compensados por tudo quanto tiveram de sofrer naquele país. O tratamento indigno como escravos; as humilhações que atingiram o seu auge na declaração de independência que proclamava a liberdade natural do homem no mesmo momento em que milhões eram mantidos em situação de escravatura; as violações, os maus tratos, a longa e dura caminhada pelo reconhecimento da sua humanidade, as vicissitudes sofridas às mãos do Ku Klux Klan, etc. Então, chegado à Casa Branca e com o intuito de corrigir esses erros do passado: haviam de o deixar fazer? Os amantes da democracia e do Estado do direito haviam de deixar? Não iriam usar o pretexto de alguns dos seus conselheiros se enriquecerem ilicitamente para chumbarem todo o projecto? Transformarem-no num diabo para que seja cada vez mais difícil falar com ele? E ele, como reagiria? Diria “muito bem, já que não querem, vou deixar”? Diria isso? Ou iria ser perseverante? Pior: não é provável que ele também se radicalizasse e passasse a ver todos quantos estivessem contra os seus métodos como inimigos da causa legítima? Eu acho que é e creio ser, em parte, o problema que temos no Zimbabwe. Aqui, como em várias outras coisas, o nosso sentido crítico espontâneo não tem ajudado muito.
E há um precedente histórico que gostaria de citar longamente para temperar o entusiasmo por Obama, mas sobretudo para mostrar a longa caminhada feita para que Obama fosse possível, isto é, para mostrar o que foi necessário fazer para que Obama pudesse fazer a campanha nos moldes como a fez. No dia 16 de Abril de 1963 Martin Luther King Jr., o grande activista dos direitos cívicos (reparem: direitos cívicos, não direitos de negros!), escreveu uma carta da prisão de Birmingham (no sul dos EUA) onde se encontrava detido por ter participado em manifestações pacíficas contra as leis de segregação nessa cidade. A carta era dirigida a clérigos judeus e cristãos que, por sua vez, haviam escrito uma carta aberta a condenar a “impaciência e inoportunidade” do movimento cívico e seus “métodos” de luta que atentavam contra a ordem pública. É uma excelente carta, um dos exemplos mais finos de retórica que existem por aí. Quem quiser a versão completa é só googlar: “Letter from a Birmingham prison”. A carta responde a esses clérigos e eu, em tradução livre, vou salientar apenas algumas passagens:

vocês lamentam as manifestações que estão agora a ter lugar em Birmingham. Contudo, na vossa declaração esqueceram-se de exprimir a mesma preocupação em relação às condições que conduziram a essas manifestações. Tenho a certeza de que nenhum de vocês ficaria contente com o tipo de análise social superficial que lida apenas com os efeitos e não se preocupa com as causas de fundo. É lamentável que haja manifestações em Birmingham, mas é ainda mais lamentável que a estrutura do poder branco da cidade tenha deixado a comunidade negra sem nenhuma outra alternativa...
Sabemos a partir da nossa experiência dolorosa que a liberdade nunca é dada voluntariamente pelo opressor; ela deve ser exigida pelo oprimido. Francamente, nunca estive envolvido em nenhuma campanha de acção directa que tivesse sido “oportuna” na perspectiva dos que sofreram injustamente a doença da segregação. Durante anos a fio tenho ouvido “espera!”. Soa com familiaridade cortante no ouvido de todo e qualquer negro. Este “espera” tem significado quase sempre “nunca”. Devemos concordar, com um dos nossos mais conceituados juristas, que ‘justiça que demora muito a chegar é justiçada recusada’.
Esperamos mais de 340 anos pelos nossos direitos divinos e constitucionais. As nações da Ásia e de África estão a caminhar com a velocidade de jacto rumo à conquista da independência política, mas nós rastejamos à velocidade de cavalo e carroça rumo ao direito de tomarmos uma chávena de café na cantina. Se calhar é fácil para quem nunca sentiu as setas pontiagudas da segregação dizer “espera”. Mas quem viu multidões viciosas a lincharem as suas mães e pais de qualquer maneira e a afogar as suas irmãs e seus irmãos por capricho; quem viu o polícia cheio de ódio a insultar, chutar e mesmo matar os seus irmãos negros e irmãs negras; quem vê a grande maioria dos seus vinte milhões de irmãos negros sucumbindo numa gaiola de pobreza hermeticamente fechada no meio de uma sociedade afluente; quem de repente se vê com a língua amarrada e com a fala entrecortada ao tentar explicar à sua filha de seis anos porque ela não pode ir ao parque público de entretenimentos que acaba de ser publicitado na televisão, e vê as lágrimas a subirem-lhe aos olhos quando alguém lhe diz que o parque de diversões está interdito a crianças de côr, e vê nuvens ameaçadoras de inferioridade a formarem-se no seu pequeno céu mental, e vê-a começar a distorcer a sua personalidade através do desenvolvimento de uma amargura inconsciente em relaçãos aos brancos; quem tem de inventar uma resposta para o seu filho de cinco anos que lhe pergunta: “pai, porque é que os brancos tratam assim tão mal as pessoas de côr?”; quem guia de carro pelo meio rural e se vê obrigado a dormir noite após noite em cantos desconfortáveis do carro só porque o motel não o aceita; quem é humilhado dia após dia por sinais persistentes que dizem “branco” e “de côr”; quem vê o seu primeiro nome ser transformando em “negro”, o nome do meio em “rapaz” (independentemente da idade) e o último se transforma em “John”, e a sua mulher e mãe nunca são tratadas com a forma de respeito “senhora”; quem é acossado de dia e atormentado à noite pelo facto de ser negro, vivendo constantemente na ponta dos dedos, nunca sabendo o que esperar no momento seguinte, e é assolado por receios internos e ressentimentos externos; quem está sempre a lutar contra um sentido degenerativo de “ser ninguém” – esse compreende porque nos é difícil esperar. Chega um momento em que o copo do sofrimento em silêncio transborda, e os homens não estão mais dispostos a se deixarem empurrar para o abismo do desespero. Espero, meus senhores, que compreendam a nossa impaciência legítima e inevitável. Vocês revelam uma boa dose de preocupação em relação à nossa vontade de violar leis. Esta preocupação é naturalmente legítima. Uma vez que nós também nos empenhamos em exigir que as pessoas obedeçam a decisão de 1954 do Tribunal Supremo que torna ilegal a segregação em escolas públicas, pode parecer, à primeira, algo paradoxal que nós conscientemente violemos leis. Pode-se com legitimidade perguntar: “como é que vocês podem advogar a violação de algumas leis e a obediência a outras?”. A resposta reside no facto de que há dois tipos de leis: justas e injustas. Eu seria o primeiro a advogar a obediência a leis justas. A responsabilidade de obedecer a leis justas não é só jurídica, mas também moral. Pelo contrário, existe uma responsabilidade moral de desobedecer leis injustas. Eu concordaria com o Santo Agostinho que “uma lei injusta não é praticamente nenhuma lei”.


Se Mugabe fosse americano negro teria crescido neste meio de desespero, ressentimentos no meio de tanta hipocrisia, um meio que Obama não deve ter conhecido porque, felizmente, ele pertence a um outro meio social, o meio social de sua mãe não só branca como de certeza de um certo nível de educação e com outra estrutura de oportunidades. O que torna Obama diferente de Jesse Jackson, Malcolm X e vários outros, estilo Al Sharpton da Fogueira de Vaidades de Tom Wolfe, é, também, capaz de ser isso. Um Mugabe americano seria muito provavelmente um Mugabe quase igual ao Mugabe real. O contexto muitas vezes faz a pessoa.
Isto não invalida as críticas legítimas que devemos fazer ao que anda mal entre nós; não torna ilegítimas as nossas preocupações pela democracia e respeito dos direitos humanos em África. Mas uma crítica feita constantemente sem referência à história real, ao contexto que fez as pessoas e aos grandes desequilíbrios que até hoje persistem é uma crítica pouco susceptível de nos levar adiante na nossa luta pela emancipação. 1963 foi há bem pouco tempo, historicamente falando. Quem pode ousar esquecer isto? Quem pode ter a coragem de dizer que isso é passado, não conta mais, agora não há mais desculpas? Nunca aplaudi Mugabe pelo que ele faz no seu país; já escrevi textos a condenar a sua política, as suas tentativas de tornar o marxismo ainda válido para a solução dos problemas do seu país e a sua mão dura contra a oposição. Nunca, contudo, vou diabolizar o tipo, pois na sua política errática e na sua maldade está o que a história fez de nós todos. Compreender não é concordar. Mas sempre esquecemos isso.
Se Obama fosse africano teríamos dado um passo muito grande nos nossos esforços de emancipação. Que ainda não existam condições para o surgimento de um Obama entre nós não significa que estejamos entregues aos maus. Os maus não existem. Existe apenas esta horrível história que teimamos em ignorar.

25 comentários:

Júlio Mutisse disse...

Ilustre, a nossa visão sobre determinados fenómenos é, não poucas vezes, limitada pela nossa incapacidade de contextualizarmos os fenómenos.

É fácil aplaudir a vitória de Obama nos EUA, como é fácil fazer o coro do linchamento de Mugabe. Difícil é pensar no que propiciou a chegada de Obama ao poder ou, no nosso contexto, o que propicia determinadas condutas de alguns dirigentes africanos.

Tenho dado comigo a pensar se a democracia, tal e qual é pensada na Europa e nos EUA é possível entre nós. Chego, muitas vezes, a conclusão de que não. As razões são os vários déficits que revelamos, um dos quais este da análise dos fenómenos políticos.

Um abraço. E parabéns pelo texto pelo qual, se prepare, é provável que lhe dêm um outro título para além daquele da oficiosidade. Graças a Deus continuas cá (embora irregular).

JSM

Elísio Macamo disse...

caro júlio, obrigado pelas tuas palavras. gostaria de enfatizar o teu segundo parágrafo: prestar atenção ao que propicia uma e outra coisa. é isso mesmo. é possível que ao fazermos isso, cheguemos às mesmas conclusões a que já havíamos chegado antes mesmo de prestar atenção a essas coisas. mas temos que fazer isso. sempre. este é um grande problema entre nós.
quanto aos títulos, não te preocupes. gosto de os coleccionar. quando se chega a esse ponto é porque as pessoas já não têm argumentos. aí o problema é mesmo dessas pessoas, não é meu. abraços

Anónimo disse...

Prezado Elísio, tens um fraco por questões relativas ao Zimbábue, e até te entendo: tem havido demasiada ênfase em condenações morais ao Mugabe e seus asseclas, e pouca análise dos factos que conduziram ao actual estado das coisas. Claro, são duas formas diferentes de abordar o problema, a moral e a histórica, mas a segunda pode ajudar-nos a melhor entender, para roubar a frase da Arendt, a banalização do mal no Zimbábue de hoje.
Agora, foste demasiado apressado neste texto. Primeiramente, o texto do Mia era mais uma provocação (no espírito condenação moral). Não era para ser levado ao pé-da-letra. Um Mugabe americano ou um Obama africano são conjecturas impossíveis de se estabelecer empiricamente. No entanto, levaste a provocação do Mia longe demais, e, ao final, acabaste replicando seu conteúdo moralizador, somente com sinal trocado. Ao invés de " Mad Mugabe" escreveste "América, the nightmare of our fathers". Para tanto, ao longo do texto abusaste dos exemplos fora de contexto e generalizações: por exemplo, as reservas indígenas no Brasil e nos EUA não são antros de alcoolismo, apesar de o problema existir, e da questão da criação destas reservas ser bastante debatida. Também, incorreste na tua quota de non sequitur: que milhões de negros não votem por estarem presos não significa que não votem por serem negros, nem que lá estejam por o sê-lo (ambos temas para pesquisa). Isto não implica em se negar a existência de racismo nos EUA, mas somente em exigir um pouco do rigor analítico que faz falta nas discussões sobre o Zimbábue na análise de qualquer tópico. Ainda, vilipendiaste a história americana, que, como toda trajectória humana, é cheia de injustiças, mas, também, de oportunidades e conquistas. Claro que os americanos não são santos, e que muitos sofreram e ainda sofrem no país. E não se precisa de Michael Moore nem de Loic Wacquant para se saber disto.
Ainda, ao final do texto, tens uma frase contraditória: " (...)Nunca, contudo, vou diabolizar o tipo, pois na sua política errática e na sua maldade está o que a história fez de nós todos. Compreender não é concordar. Mas sempre esquecemos isso." Afinal, por quê não diabolizá-lo? A questão, aqui, não é de discordância, mas de condenação. O gajo é um tirano, com "degrees in violence", e tu queres que não se diabolize a figura? Em termos éticos, pouco importa se ele chegou lá por culpa dos bloody westerners. Compreender não é justificar. Agora, dizer que o gajo é fruto da "nossa história" é bastante desrespeitoso com a grande maioria dos zimbabueanos que, tendo vivido uma história semelhante ou até pior a do Mugabe, continuam a trabalhar honestamente. Que somos todos parte da história é uma generalização que beira a redundância. Contudo, no final, fazemos nossa história, à medida que ela nos permite fazê-lo. E creio que Mugabe poderia ter feito diferente. Se não o fez, não foi culpa da "história" (estará "a história" para alguns sociólogos assim como "o mercado" está para alguns economistas?).

Anónimo disse...

UFFFF!!!!



Doutor ELISIO MACAMO NO SEU MELHOR!!

"para atiçar o lume"

QUE POST LONGO,li uma parte masacho que VOU IMPRIMIR E DEPOIS DO VOTO, VOLTO PARA OPNINAR...

LOL




carlos Magno
______________________________
tugga_carlosmagno@live.com
AIIII!!?? DE QUEM REVELAR SEGREDO DO ESTADDO!??
Era Logo evacuado e aseguir Decapitado...

A VERDADE É CRUEL MAS TEM QUE SER REVELADA.

Anónimo disse...

A quem interessar uma análise equilibrada e bastante sucinta sobre os factores envolvidos na crise zimbabueana (e como ela poderia ter sido evitada), recomendo:
http://www.opendemocracy.net/article/democracy_power/africa/zimbabwe_kenya

Anónimo disse...

Caro Elisio

Parabens pelo post e sempre um prazer ler os teus textos.

Um abraco. Jaime Langa

Anónimo disse...

Ainda, agora para quem tiver mais tempo, recomendo também a leitura da seguinte peça:
http://www.newyorker.com/reporting/2008/10/27/081027fa_fact_anderson?currentPage=all

Elísio Macamo disse...

jaimito, desaparecido! é bom ver-te por cá. caro carlos magno, fico a aguardar o voto! caro jonas, já reparaste que sou sempre bastante apressado nos textos que não são do teu agrado? concordo com as observações que fazes em relação a não sermos apenas reféns da nossa história. esses reparos são bem vindos para temperar a tendência para o outro extremo da discussão que seria responsabilizar os outros pela nossa condição. não creio, contudo, que eu faça isso ou que tenha feito isto neste texto que se quer também polémico. não concordo com a ideia de que se não possa reagir a um texto escrito noutros contextos. recebi o texto de mia couto de várias pessoas, portanto, está a circular, a ser discutido e, em alguns cantos, a ser pouco reflectido. com o meu texto tento temperar o entusiasmo. não tentei aqui representar só o lado mau da américa pelo simples prazer de o fazer. tentei simplesmente mostrar que as condições estruturais devem ser tomadas em consideração e que se usarmos os mesmo critérios em contextos diferentes podemos ter supresas. o movimento cívico na américa (destaquei isto) foi uma reclamação de direitos cívicos, não de negros. e isso foi feito na base da aceitação da ordem normativa americana (que não é de todo má). as reservas de índios não são um simples detalhe e a não ser que os livros que tenho lido sobre isso mintam, mantenho o que escrevi. sobre os negros nas prisões não quiz dizer que estão lá por serem negros; quiz destacar que há problemas estruturais nos eua que forçam partes significativas da população a perderem quase sempre. o que exarceba a situação dos negros na américa é a história (mais uma vez) que os colocou na parte da estrutura onde se encontram os perdedores. não é, portanto, por serem negros que estão presos, mas ser negro aumenta a probabilidade de entrar em conflito com a lei. finalmente, não entro em contradição comigo próprio ao recusar diabolizar mugabe. já reparaste que para identificar a minha contradição precisas de te colocar no lugar privilegiado de quem diz as coisas como são? pois bem, em minha opinião, "o gajo não é nenhum tirano". o gajo age num contexto problemático. e o nosso olhar deve ir para aí, para esse contexto. ah, não precisavas de dizer "análise mais equilibrada", pois aqui não me propuz fazer nenhuma análise do zimbabwe. polemizei, simplesmente. abraços

Anónimo disse...

Prezado Elísio,
De facto, dizer que foste apressado é uma maneira gentil de dizer que considero o que disseste equivocado.
Sobre as reservas indígenas serem “antros de alcoolismo”, no caso do Brasil achei este texto sobre o assunto: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-71822007000100007&lng=en&nrm=iso. Como havia dito, o alcoolismo é um problema, mas isto não transforma as reservas em antros de alcólatras. Sobre as prisões, à título de polémica, foste bem. E, concordo: ser negro na América (e no Brasil também), em geral, significa ser pobre, e, muitas vezes, viver em guetos, com contacto frequente com formas não-lícitas de trabalho (o mundo das drogas, principalmente). Ao final, as chances de um negro ser preso acabam por ser maiores.
Sobre o Mugabe, penso que continuas equivocado. Obviamente, para enunciar teu equívoco devo colocar-me como alguém que sabe o que é correcto. Contudo, não o faço a título pessoal, mas com base em argumentos. Não sou eu quem prova teu equívoco, mas meus argumentos. No caso, dizer que o Mugabe não é tirano é, no mínimo, fazer troça do alguns séculos de filosofia política (http://en.wikipedia.org/wiki/Tyranny). Se o Mugabe não é um tirano, não há diferenciações a serem feitas no mundo das formas de governo. De Idi-Amin a Pol-Pot, de Hitler a Stalin, todos apenas “agiram em contextos problemáticos”. Afinal, existiriam tiranos, democratas, demagogos?
Bom, talvez para o retórico os demais ramos filosóficos sejam irrelevantes.
Abraços,

Elísio Macamo disse...

caro jonas, está visto que não estamos de acordo sobre coisas mais fundamentais ainda, mas de certeza que tu consideras a discordância um equívoco (do meu lado). uma coisa é emitir uma opinião e, no meio disso, dizer que a opinião do outro está equivocada (porque a nossa está correcta) e outra é produzir argumentos que nos permitam entrar em acordo sobre os termos dessa discussão. até aqui o que tens feito, infelizmente, é apenas emitir a tua opinião e dizer que porque é diferente da minha, e tu não concordas com a minha, então a tua tem que estar correcta. o facto de tu achares que eu estou enganado em relação a mugabe por si só não torna correcta a tua opinião, torna simplesmente necessária a discussão sobre os nossos critérios. é por isso que eu, pelo menos, prefiro dizer que não concordo (ao invés de falar de equívoco dos outros) enquanto tento esclarecer o que nos distancia. pelo menos nesse aspecto tento ser modesto e manter uma certa atitude de respeito para com as pessoas com quem discuto. acho que seria bom que também tentasses observar isso para o benefício de todos nós. acho profundamente ofensivas afirmações como a que fizeste "... talvez para o retórico os demais ramos filosóficos sejam irrelevantes" que me não parecem apropriadas para estabelecer um diálogo construtivo sobre questões que a todos nós interessam. nunca usei e jamais usarei as minhas opções bibliográficas como critério de avaliação das opiniões das pessoas com quem discuto. numa discussão, pelo menos aqui neste blogue, interessam-me as opiniões e a forma como elas são fundamentadas. a formação da pessoa que as apresenta interessa-me pouco. peço-te, portanto, para adoptares um outro tom se achas útil que a gente continue a discutir.
na verdade, a nossa discussão neste momento parece-me mais verbal do que substantiva. estás a conduzir a discussão para a definição da tirania, o que acho útil, mas pegando nos nomes que tu indicas (hitler, stalin, idi amin e pol pot) diria que não só esvazias essa palavra de todo o sentido se incluis mugabe nessa categoria como também contribuis justamente para o tipo de atitude que tenho criticado na discussão do assunto do zimbabwe (e repito: a minha postagem não foi sobre mugabe, mas sobre a necessidade de reflectir a história). isto não significa que não seja necessário distinguir entre tiranos, democratas e demagogos, muito menos que as pessoas não devam ser responsabilizadas pelo que fazem. noto também que a despeito de criticares a retórica, não te coíbes de usar elementos dela para apresentares as minhas opiniões de forma problemática. não creio que não tenhas entendido o que eu queria dizer com o "agir em contextos problemáticos" de modo que acho muito estranha a articulação dessa ideia com os nomes que citaste. parece-me um caso claro de ad hominem, pois praticamente estás a dizer que uma vez que o meu argumento pode ser utilizado para também defender hitler e pol pot, então, ele está necessariamente errado. já no teu primeiro comentário tinhas feito recurso a uma outra falácia que consistia em apresentar a minha tentativa de entender mugabe como um insulto aos que sofrem com a actual situação naquele país.
mas mesmo supondo que aplicássemos essa ideia (contexto conta) a esses indivíduos não vejo porque não sairíamos a ganhar em termos de compreensão da sua prática. uma parte da história como ciência não tem feito outra coisa senão isso mesmo e se disséssimos aos historiadores para só juntarem provas que demonstram que hitler foi tirano, não sei que sentido faria a histografia.
os problemas que temos no zimbabwe hoje demonstram, em minha opinião, que chamar mugabe tirano apenas tem contribuído para piorar a situação. abraços

Anónimo disse...

Prezado Elísio,
se consideraste meu comentário ofensivo, peço-te desculpas. A intenção era, e sempre será, debater ideias. Sejam elas quais forem.

Sobre a definição dos termos do debate, creio que não percebo muito bem teu ponto. Se alguém discorda de mim, parece-me lógico que devo considerar que a) o argumento daquela pessoa está equivocado; b) o meu argumento está equivocado. Claro, posso dizer, eufemisticamente, que somente discordo, sem dizer que o outro argumento está incorreto. Mas, em essência, estarei dizendo a mesma coisa, pois não podem haver duas verdades sobre um mesmo assunto. Por exemplo, à questão “reservas indígenas, antros de alcoolismo?, devo posicionar-me. Se sim, provo. Se não, provo. Claro, supondo que todos entendam o que antro e alcoolismo significam. Na tua opinião, quais seriam as diferenças entre estar errado e discordar? Filosoficamente, consigo perceber que, se discordo de alguém mas não afirmo que o outro está errado, posso avançar a ideia de que não sou o detentor da verdade (já que ninguém o seria). Acho esta posição, ao menos em ciência, filosoficamente equivocada(!), pois não permite que se avance em termos de conhecimento. Devemos tentar ser precisos o suficiente para que possamos estar errados, evitando ambiguidades e argumentações vagas.
A discordância em si, contudo, devo frisar, não é um equívoco. Pelo contrário, é uma virtude, parte essencial de qualquer debate.

Sobre o Mugabe, pensei que não seria necessário entrar nos pormenores da nossa discordância. Parece-me claro que eu considero, do ponto de vista da filosofia política, o Mugabe um tirano. Para um democrata, que é o meu caso, ele está eticamente errado, e deve ser condenado pelo que tem feito.
Sobre a frase "... talvez para o retórico os demais ramos filosóficos sejam irrelevantes", que consideraste ofensiva, era para polemizar um pouco, na linha do que fizeste no teu post. Não pensei que fosse considerá-la assim ofensiva, pelo que te peço, novamente, minhas desculpas.

Não percebi muito bem o que disseste sobre opções bibliográficas; posso te assegurar que, em qualquer discussão, baseio-me sempre em ideias e argumentos.

Sobre o essencial, não acho que nossa discussão seja apenas verbal. No caso da tirania, por exemplo. Esta-se a falar de uma forma de governo em que o governante aje quase que somente em benefício próprio e à revelia dos anseios de seu povo. O caso actual do Zimbábue parece encaixar-se neste conceito. No tocante aos “contextos problemáticos”, a questão não é se entendi ou não, mas o que, afinal, tu querias dizer com isto.
Sobre a suposta argumentação ad-hominem (suposta, pois, para mim, ad-hominem é quanto se discute a pessoa, não os argumentos, o que não é o caso), a verdade é que, quando usamos expressões como “contextos problemáticos”, e não nos posicionamos claramente contra governantes que fazem o que o Mugabe tem feito ultimamente, há espaço, sim, para que nossa hesitação e argumentação seja usada em situações que não aprovariamos.

E não vejo falácia em dizer que, ao se justificar-aceitar (questão ética) as ações do Mugabe com base no contexto, está-se a insultar os demais zimbabueanos que, em condições similares, tem comportado-se adequadamente. Aqui, não vejo outra saída a não ser a condenação moral.

Ademais, com o recurso ao contexto, está-se cometendo um erro científico: ora, se em condições similares várias pessoas agiram diferentemente, deve haver algo mais para além do contexto a explicar tais ações. Esta é a questão científica: o que, para além do contexto, levou o Mugabe a fazer o que fez?

Abraços,

Elísio Macamo disse...

caro jonas, obrigado pelo teu comentário. acho que agora voltamos de novo à discussão. e os pontos de discordância (não de equívoco!) são muitos. primeiro, numa discussão a discordância e o equívoco não são as únicas opções. podemos discordar porque os termos da nossa discussão não estão claros; podemos discordar porque nenhum de nós toma em consideração um terceiro aspecto; podemos discordar também porque cada um de nós está equivocado (!). e neste caso específico parece-me que há grande necessidade de clarificarmos a noção de tirania antes de podermos decidir quem está equivocado. por exemplo, não concordo com o emprego desse termo para descrever mugabe, sobretudo quando usas o critério da acção à revelia dos anseios do seu povo. há uma parte significativa do povo zimbabweano que está bem a favor do que ele faz. gostaria de chamar a tua atenção para dois livros que condenam mugabe, mas debruçam-se de forma bastante exemplar e instrutiva sobre o contexto como forma de perceber o problema. um é de stephen chan "robert mugabe. a life of power and violence", i.b. taurus de 2003 e outro é de alfred nhema "democracy in zimbabwe. from liberation to liberalization", university of zimbabwe publications de 2002. a tua definição de tirania dificilmente se aplicaria, por exemplo, a stalin ou hitler. creio que o que queres dizer é "autoritarismo" e aí estaria de acordo contigo na descrição de mugabe. mas, insisto e este é o segundo ponto, isso não me parece suficiente como abordagem do problema daquele país. e é isto que tenho dito sempre. tenho consciência, naturalmente, de que a insistência nesse aspecto coloca-me perante o perigo de ser visto como estando a justificar o que lá está a acontecer, mas esse problema não é meu. aqueles que estão interessados em reflectir o assunto vão ter também o cuidado de tomar nota.
terceiro, neste sentido, acho que os teus argumentos são mesmo falaciosos. no primeiro caso estás efectivamente a introduzir um elemento irrelevante para o que estou a dizer simplesmente para colocares a mim (a prova disso é que insistes no meu posicionamento!) na posição de quem acha que hitler, stalin, pol pot e idi amin foram simplesmente vítimas do contexto. acho também falaciosa a ideia de que pelo simples facto de eu procurar uma explicação para o caso zimbabweano que não o reduz à "tirania" de mugabe estou a insultar aqueles que sofrem. isto é complicado porque não concordo com a tua implicação de que o sofrimento dos zimbabweanos hoje é resultado da "tirania" de mugabe. mugabe não é o único responsável pelo que anda mal; teve grande apoio da grã-bretanha de toni blair, da seca que assolou o país, das dificuldades ligadas ao programa de ajustamento estrutural e de toda a problemática de um país com desequilíbrios estruturais herdados de um sistema político colonial bastante defeituoso. portanto, o posicionamento ético que exiges só seria à custa da aceitação das tuas premissas, algo que deve ser objecto da discussão! não, creio, portanto que seja um erro científico insistir no contexto tanto mais que, pegando nos nomes que tu referiste, veríamos que se trata de casos tão diferentes que nos obrigam a prestar mesmo atenção ao contexto específico.
a questão da bibliografia é simples. incomodou-me a tua afirmação segundo a qual eu estaria a fazer troça de toda uma tradição de filosofia política ou que estivesse a ignorar certas referências filosóficas pelo simples facto de tu teres um outro entendimento dessas fontes. estava simplesmente a chamar atenção ao facto de que o que conta é o que dizemos aqui na discussão. penso que esclareceste isso neste teu último comentário.
finalmente, sobre a questão das reservas dos índios devo dar o braço a torcer no que diz respeito ao exagero contido na minha afirmação. não são todas assim e as que são assim não são só assim. contudo, incomoda-me seriamente a própria noção de reserva em estados que defendem o tipo de princípios que dizem defender. abraços

Anónimo disse...

Prezado Elísio,
concordo em parte com teus comentários sobre a discordância e o equívoco. Há, com certeza, muitas formas de debatermos que não acabam com um dos argumentos sendo falsificado. Se a discussão for sobre preliminares conceituais de um debate, ao final teremos, em termos ideais, um consenso sobre os termos a serem usados. Sobre a possibilidade de ambos estarmos equivocados, reconheço-a, mas penso que não cabe a nós supormos isto. Formulamos nossas hipóteses com o rigor que achamos necessários; se alguém outro quer contestá-las, que o venha fazê-lo pessoalmente. Até lá, é normal, e até saudável em termos de avanço do conhecimento, que pensemos estar com a razão, testando nossas hipóteses nas mais diversas circunstâncias.

Às preliminares conceituais, portanto. Minha definição de tirania saiu-me com um critério desnecessário: o à revelia. De facto, o que o tirano faz é agir contra os interesses do povo, mas não à sua revelia. Claro, aqui o terreno é ainda mais pantanoso: quais são os interesses do povo? Que povo? Mas, em linhas gerais, parece-me claro que alguém que investe o que o Mugabe investiu na construção de seus palácios enquanto a população morre à míngua, que permite que a inflação do país continue da maneira que está (sim, há maneiras de reduzi-la), que joga gato-e-rato com os poderes europeus ao passo que serve as riquezas do país de bandeja a alguns países orientais (em troca de benefícios pessoais), está agindo contra os interesses da maioria da sua população. Gostaria de saber, mesmo, se há uma parte significativa do Zimbábue que está a favor do que Mugabe faz: certamente, menos de 50%. Ademais, há sempre as sour grapes: se sei que não vou conseguir nada melhor, mais fácil aceitar as coisas como estão.

Se Hitler e Stalin foram tiranos, tenho poucas dúvidas que foram (na versão atualizada do termo acima). Podem não ter chegado ao poder como tiranos (ao menos o primeiro), mas, uma vez lá, tiranos se tornaram. Mas podemos usar autoritarismo também, tanto em relação ao Mugabe como em relação aos demais. Acho que ambos passam a mesma mensagem: abuso de poder em benefício próprio, uso do Estado sem limitações de outros poderes.

Sobre as consequências da tua insistência em enfocar o lado histórico, não ético, da crise no Zimbábue, novamente concordo em parte: não vejo razão para não fazeres ambos, uma condenação ética seguida ou precedida de uma análise histórica. É o que muitos têm feito, e não vejo mal nenhum nisto.
No que concerne aos zimbabueanos, insisto que muito (claro, não tudo) do que ocorre a muitos que vivem no Zimbábue é consequência directa de ações do Mugabe. Desde a inflação galopante até as execucções sumárias do seu regime, são todos vítimas da megalomania do sujeito. Ou seja, as premissas do meu julgamento ético estão aí. O Tony Blair pode ter culpa na tragédia que foi a reforma agrária no país, mas não poderia prever que a coisa desandaria a tal ponto. Em termos éticos, fica difícil julgá-lo por resultados não-intencionais. O colonialismo, este sim, deve ser, e tem frequentemente sido, duramente criticado pelas suas consequências. Mas não poder ser bode expiatório para tudo.

Sobre a falácia de meus argumentos, levei tua insistência na ideia da dominância do contexto ao extremo. Não vejo falácia nisto, mas simples exercício lógico.

Sobre o contexto e o erro científico, minha questão foi diferente: acho que, em vista de o Mugabe ter vivido em situação similar a dezenas de outras pessoas cuja trajectória de vida é totalmente diferente, as suas atitudes clamam por uma explicação que vai além do contexto histórico.

Em relação às reservas indígenas, acho que é uma questão sobre a qual provavelmente concordamos. Também a mim incomoda muito a sua existência. Lembra-me do excelente “Admirável Mundo Novo, Brave New World”.

Grande abraço.
PS. Vou ver se encontro os livros que recomendaste. Grato.

Elísio Macamo disse...

caro jonas, então, acabamos concordando em muitos aspectos que revelam duas coisas: primeiro, a nossa discussão é mesmo verbal; segundo, clarificados os entendimentos que temos dos termos que usamos já podemos decidir se discordamos ou se um de nós está equivocado ou se ambos estamos. eu, pelo menos, nunca deixei de condenar as práticas de mugabe; o que tenho feito com muita insistência, e em virtude de notar uma grande tendência para enfatizar apenas a sua personalidade, é chamar atenção para o outro lado da questão que, por sinal, parece-me muito mais importante, mesmo em termos de intervenção para encontrar uma solução para o país.
não acho que mugabe abuse do poder em benefício próprio, nem que use o estado sem limitações de outros poderes. não considero a sua suposta riqueza pessoal, ou seu estilo de vida, como algo relevante para determinar se ele abusa do poder em benefício próprio. se ele passasse privações e mesmo assim fizesse o que está a fazer, que diriam? argumentos moralizantes são muito problemáticos. caro jonas, se não podemos julgar tony blair pelos resultados não-intencionais da sua intervenção, então não vejo também como julgar mugabe pelos resultados não-intencionais daquilo que ele acredita ser a luta pelos direitos da maioria dos zimbabweanos. igualmente, da mesma forma que muitos se podem calar por receio de represálias, muitos podem criticar mugabe porque todo o mundo critica. eu acho que a insistência em argumentos morais enfraquece a tua posição. concordo contigo que o contexto não pode conduzir à limitação da responsabilidade que os indivíduos têm pelo que fazem, mas isso é algo que nunca neguei, embora isso não me obrigue a aceitar as premissas normativas que pareces querer que eu adopte. elas também são passíveis de discussão!
ainda não estou a entender a questão do contexto e do erro científico. não entendo porque a trajectória de vida de mugabe exige uma explicação individualista. agradecia que me explicasses isto melhor para podermos prosseguir com a discussão. o livro de stephen chan que te recomendei faz uma espécie de biografia política do indivíduo. mas ele faz essa biografia com muita atenção ao contexto de tal modo que apesar de muito crítico em relação ao indivíduo (por exemplo, na página 161 ele escreve: "... if before it had been possible to speak both well and ill of mugabe, after the 2000 election it was possible to only speak overwhelmingly ill of him. complexly bad - not mad - but very complexly bad") ele fornece-nos dados preciosos para fazermos uma apreciação bastante equilibrada, e útil, do problema daquele país. abraços e bom fim de semana!

Unknown disse...

Meus Caros,
Belo debate. Estou muito satisfeito e foi assim possível confirmar o seguinte:
Estavam em desacordo por não estarem dentro do mesmo quadro semântico relativamente aos conceitos, logo jamais entrariam em acordo.. Caso entrassem em acordo, então haveria alguma hipocresia de uma das partes, ou um erro no processo para chegar às conclusões. Agora, se partem do mesmo quadro semântico é provável que cheguem à acordo, mas não necessariamente. Noto que os conceitos, são determinantes nas conclusões a que chegámos (recordo de ter interpelado ao Jonas a respeito deste assunto aqui). Começo errado, conduz a conclusão errada. Só por um Eureka, por um acidente, é que acertámos. Mas Acertar só não é suficiente. É preciso que esse acertar decorra das premissas adoptadas e de métodos consistentes e plausíveis de inferência, se não estariamos a ser curandeiros e não académicos. É por isso mesmo que não basta apenas acertar.

Aguardo com expectativa pela continuação.
Josué Muchanga

Sueli Borges disse...

Caro Macamo,
Sei que não é inteligente pinçar do texto apenas um ponto de vista ou alugmas frases. Ainda assim, faço-o, correndo este risco.
É que, acostumada aos seus sóbrios textos, confesso que arregalei os olhos ao ler sobre a sua consideração inicial em relação às reservas indígenas do Brasil. Ainda bem que em outro momento, tais considerações foram bem esclarecidas.
Mesmo assim, faço um breve comentário sobre o assunto, que não tem muito a ver com o cerne do texto postado, mas com o encaminhamento que a discussão tomou.
Talvez fosse relevante considerar que desde o ano de 1500, quando os portugueses aportaram por aqui, na minha terrinha da Bahia, temos assistido a um sistemático assassinato do índio. Etnias inteiras desapareceram. Populações indígenas foram dizimadas. Uma situação gritante e dramática (poderia escrever em letras times roman, tamanho 48).
Cabe neste contexto a frase: “Nada justifica atrocidades cometidas em nome de seja qual for o ideal”.
Concordo que as reservas constituem-se em espaços de contradição, inclusive identitárias, se é que podemos falar em contradições identitárias. Talvez o correto fosse dizer identidades complemetares. Pois bem, as reservas são comunidades com raras belezas naturais e extrema pobreza, onde há graves problemas sociais e econômicos. Mas, devemos perceber que isso é consequencia, sobretudo, de uma política governamental que não dá conta da diversidade do povo brasileiro.
O problemático, a meu ver, é centrar a questão das reservas, apenas na demarcação de terras, ainda que isso seja inicialmente necessário.
Penso que deva existir, em paralelo, um projeto de auto-sustentabilidade e desenvolvimento para estas áreas, e não somente a demarcação de terras.
Por enquanto, e por aqui, a questão das reservas indígenas é uma questão, não somente de preservação de uma parte da história e da cultura brasileiras,mas de sobrevivência de algumas populações.
No mais, acentuo a elegância e a sensatez do debate neste blogue.
Um abraço.

Anónimo disse...

Prezado Josué,
Desculpe-me se não respondi às tuas considerações num post anterior. Em verdade, tenho um pouco de receio em alongar-me em debates semânticos. Mesmo que eu entenda serem as ciências sociais um ramo peculiar do que chamamos “ciência”, penso que, muitas vezes, se gasta muita tinta em debates conceituais (já vi definições de democracia que fariam corar até um ditador), e pouco em debates substanciais. E lá vai meu manifesto anti-o- -segundo-Wittgenstein: não resolveremos nossas discordâncias ao acordarmos com as palavras a serem usadas e seus significados. Mas, bom, no meu caso, é simples: basta aceitar-me a definição que meu debatedor der, e avançar nos debates substanciais. Por exemplo, vejo pouca diferença entre tirania, ditadura e autoritarismo, a não ser, claro, se formos a dicionários de filosofia política. Mas há grandes diferenças entre democracia e os três conceitos acima. Ou seja, basta uma definição geral do que queremos debater (no caso do Zimbábue, está até implícito nos debates que correm na mídia). No fundo, pesquisa científica é, acima de tudo, uma questão de hipótes e variáveis claras e métodos consistentes.
Prezado Elísio,
Discordo, novamente, que nossa discordância fosse essencialmente verbal. Mas, para não contradizer-me, não vou alongar-me nisto.
Como não acompanho todos teus escritos (nem sempre leio o Notícias, por exemplo), posso ter perdido textos teus condenando o Mugabe. Mas ainda mantenho: acharia razoável que todo o texto sobre o Mugabe e o Zimbábue contivessem, sempre, crítica e contexto. Em isolamento, ambos perdem força.
Agora, tenho que discordar abertamente disto: “não acho que mugabe abuse do poder em benefício próprio, nem que use o estado sem limitações de outros poderes. não considero a sua suposta riqueza pessoal, ou seu estilo de vida, como algo relevante para determinar se ele abusa do poder em benefício próprio”. Ora, não faltam exemplos de uso de recursos públicos para fins pessoais, com a construção de sua mansão e da mansão de sua esposa (http://www.newzimbabwe.com/pages/palace.html), além dos gastos extravagantes de Grace em todas as (poucas) viagens que Mugabe faz à Europa (http://www.independent.co.uk/news/world/politics/grace-mugabe-the-first-shopper-839078.html; http://www.newzimbabwe.com/pages/shopper2.11947.html). Para além destes aspectos financeiros, não podemos esquecer o uso que Mugabe tem feito da polícia para destruir seus opositores (http://www.hrw.org/en/reports/2008/06/09/bullets-each-you). Se tudo isto não conta como abuso de poder público em benefício próprio, acho que teremos que discutir muito questões conceituais. Sobre a existência ou não de separação dos poderes no Zimbábue, acho que não cabe a mim provar que ela não existe, mas a alguém provar que ela existe.
E se o Mugabe passasse privações e fizesse o que tem feito? Primeiro, ele não teria como pobre se fizesse aquilo que tem feito. Se seus abusos não o enriquecessem, ele mereceria condenações pelo que ele fez. E ponto. A questão não é de riqueza, mas das formas de sua aquisição.
E, devagar no andor: todos os abusos que citei acima foram INTENCIONAIS. A inflação zimbabueana é também intencional, e serve aos interesses das elites próximas ao Mugabe. Agora, Blair deixou de financiar a reforma agrária no país sem saber que levaria a tudo isto. Não pode ser responsabilizado pela tragédia actual. E, se Mugabe pensa que tem agido em defesa do direito da maioria dos zimbabueanos, ou a)ele não sabe contar, pensando que o seu país possui somente meia dúzia de pessoas, ou não conhece seu país; b)ou ele age de má-fé. Penso que todos os indícios apontam para a hipótese b). E se muitos criticam Mugabe, a maioria daqueles que o fazem arriscam-se, ou o fazem já no exílio.
Sobre a questão do contexto e do erro científico, vou explicar-me. É o seguinte: existem muitas explicações para as ações individuais, e só a sociologia possui dezenas de escolas. Para algumas escolas, o contexto é essencial para entendê-las. Encontro-me com um pé neste neste grupo. Agora, o empreendimento é muito difícil, e envolve boa dose de psicologia também, uma vez que, para tanto, temos de isolar muitas e muitas variáveis para saber que parte do contexto conduz a determinada personalidade. Religião? Família? Amigos? Escola? Universidade? Dominação colonial? Eis a dificuldade de usarmos o contexto para personalidades idiossincráticas, como o Mugabe. E, se não conseguirmos responder a seguinte pergunta: como tu teoria explica o comportamento daqueles que, tendo nascido e crescido no mesmo contexto, agem diferente?, teremos uma teoria parcial e pouco útil. E a África está cheia de exemplos de líderes que, em contexto semelhante, chegaram a resultados muito diferentes.
Abraços,

Elísio Macamo disse...

meus caros, espero que tenham passado um bom fim de semana. fico muito contente por ver mais pessoas a juntarem-se a esta troca de impressões. cara suéli, é sempre muito bom ver-te por aqui. a questão que levantas, se bem te entendi, é a mesma que eu queria levantar com a minha referência às reservas. reconheço ter exagerado, mas isso foi resultado da natureza polémica do texto bem como de quão me fere essa situação. há sérios problemas de alcoolismo nas reservas índias nos eua e no brasil. não sou o primeiro a dizer isso. as estatísticas oficiais dos eua falam sempre disso, sobretudo no que diz respeito aos acidentes de viação. no brasil existe a lei nr. 6.001/73 que proíbe a venda de álcool às reservas. ao chamar atenção para o problema do álcool nessas reservas queria apenas dizer que não é parte da cultura índia beber sem medida, mas sim resultado de um contexto político bastante injusto para com essas comunidades. não são todos os índios que bebem sem medida, mas os que o fazem, fazem-no, em minha opinião, por razão desse contexto bastante difícil. neste sentido, concordo contigo quanto à ausência de um projecto de auto-sustentabilidade e desenvolvimento para essas áreas. é isto que quero destacar. no teu blogue reproduzes a notícia de três jovens negros em salvador que foram vítimas de um vexame perpretado por um taxista que até podia ter culminado com a sua morte às mãos da polícia. este ambiente não é conducivo a uma cultura política saudável, por mais que seja necessário condenar todos os actos de violência.
caro josué, concordo com a sua insistência na clarificação de conceitos. o jonas tem vindo a modificar os seus conceitos desde que a discussão começou e agora, no seu último comentário, acha que o essencial é distinguir entre democracia, de um lado, e tirania, autoritarismo e ditadura de outro. mas aí ele já está a sugerir uma discussão moral que eu, pelo menos, não estou interessado em fazer. isto é, não me considero a pessoa mais indicada para discutir questões morais e acho, até, que é com mugabe que ele devia discutir, pois este também é capaz de ter uma posição moral também forte, nomeadamente que a maior injustiça nisto tudo, e algo que deve ser constantemente condenado, foi a expropriação colonial. as conclusões a que conduzem argumentos morais decorrem também de premissas e métodos consistentes e plausíveis, mas em meu entender são inúteis para o tratamento de problemas sérios como o problema zimbabweano. e prova disso é a incapacidade geral de lidar com aquele problema que vai de dificuldade em dificuldade. se a nossa preocupação deve ser de dizer que mugabe é tirano uma consequência possível disso é concluir que com tirano não se negocia ou que tirano é para se abater; se a nossa preocupação é de provar que houve injustiça histórica, então uma conclusão pode ser de propôr a construção de reservas para brancos no zimbabwe. diálogo é que não haverá e eu, como moçambicano, sei o que a ausência de diálogo custou ao nosso país.
por isso, caro jonas, vamos ter mesmo que entrar em desacordo quanto a esta questão. não considero a tua posição equivocada, simplesmente irrelevante para aquele problema. vês-te constantemente obrigado a transformar as tuas premissas em premissas que as pessoas que discutem contigo devem aceitar como base da discussão e quando eu pelo menos não concordo com essas premissas, então a responsabilidade é minha de provar que as tuas conclusões estão erradas. não, eu só posso dizer que não aceito as tuas premissas. é como pedir a um ateu para provar que deus não existe!
não aceito a premissa segundo a qual tony blair teria agido de forma não-intencional. porque não? não é concebível que ele tivesse sabido muito bem que sem dinheiro para resolver o problema latifundiário as posições iriam radicalizar-se? não é concebível que ele tivesse aceite isso como preço menor para poupar o tesouro britânico e expor mugabe como tirano? igualmente, não sei porque não podemos partir da ideia de que mugabe não soube prever as consequências de sua intransigência. de resto, ele já demonstrou no passado a sua capacidade de aceitar compromissos em nome daquilo que ele definiu como sendo os interesses do seu povo. os termos em que ele aceitou a independência foram um compromisso, ele podia ter feito como a frelimo fez em moçambique e ameaçar continuar com a guerra até uma independência livre de condições. não o fez. igualmente, propôs uma emenda constitucional que os zimbabweanos não aceitaram e ele respeitou isso. o que quero dizer, e acho que estou a repetir, é que enfraqueces o teu argumento fazendo depender a sua plausibilidade da nossa atitude moral em relação aos factos em apreço. a atenção pelo contexto não significa que a única conclusão possível seja de dizer que mugabe está justificado no que faz. a atenção pelo contexto ajuda-nos a perceber a racionalidade da acção dos intervenientes. e é isso que eu, pelo menos, quero perceber.
neste sentido, não concordo com o teu entendimento do papel do contexto na abordagem de fenómenos sociais. mais uma vez, queres substrair a tua premissa da discussão, neste caso, a tua premissa de que mugabe é uma personalidade idiossincrática. é possível que seja, mas o contexto pode nos ajudar a perceber de que maneira. é justamente porque existem essas diferenças que nos devemos interessar pelo contexto. esta é uma discussão que a história tem vindo a travar desde a sua criação como empreendimento científico. penso aqui em colingwood ou, mais para a alemanha, em koseleck que deram justa ênfase ao contexto que torna ideias e acções individuais intelegíveis. ao contrário do que escreves, não creio que a áfrica esteja cheia de exemplos de líderes que em contexto semelhante tenham chegado a resultados muito diferentes. não há muitos contextos semelhantes ao do zimbabwe e a cultura política de mugabe não me parece assim tão diferente da cultura política de muitos líderes africanos. e mesmo se fosse assim o desafio não seria de saber em que consiste a idiossincrasia de mugabe, mas sim o que o torna diferente dos outros. e aí teríamos de novo o contexto!
por mim podemos concordar em discordar. penso que estás à procura de um princípio geral a partir do qual queres entender o que se passa no zimbabwe. no caso, esse princípio parece-me moral. boa sorte nesse empreendimento. eu, pelo contrário, parto do princípio de que sem o conhecimento do contexto que dá inteligibilidade ao que as pessoas fazem nos seus mundos de vida os princípios gerais são irrelevantes e inúteis. abraços

Anónimo disse...

Prezado Elísio,
Como sei que não conversamos sozinhos, vou continuar o debate. Também, pois não acho que “we’re talking from different premises”, as the joke goes. De facto, um dos meus problemas em discussões uber-centradas em premissas e conceitos é que, geralmente, um dos debatedores acaba escapando ao debate na linha do que tu acabaste de fazer: após muita água rolar, acabar por não aceitar as premissas, e despede-se. E deixa sem respostas uma série de questões, inclusive algumas sobre as quais já havia se pronunciado (no caso específico, disseste “não acho que mugabe abuse do poder em benefício próprio, nem que use o estado sem limitações de outros poderes. não considero a sua suposta riqueza pessoal, ou seu estilo de vida, como algo relevante para determinar se ele abusa do poder em benefício próprio”, que são afirmações DE FACTO, não julgamentos morais; respondi, também com FACTOS, e tu nada disseste por discordar das minhas... PREMISSAS!).
Aos factos.
Não tenho mudado meus conceitos substancialmente. Somente os adequei ao debate, como em qualquer discussão. E, quando tudo parecia bem, tu novamente saíste dele, com base em divergências... conceituais! E, ora, a discussão não tem sido somente moral. Diferenciar entre formas de governo, como disse ao início desta discussão, não é uma questão moral, mas um ramo da filosofia política. Dentro da filosofia política, podemos falar em justiça, claro, mas não só: questões de legitimidade também são importantes. E fosse a discussão sobre as formas de governo uma discussão tão inútil e desimportante, duvidaria eu que tantos livros teriam sido escritos sobre ela, tantos movimentos sociais teriam lutado em torno dela. E, verdade seja dita: adoraria discutir com o Mugabe qual forma de governo ele considera mais legítima, e justa, para o Zimbábue. Mas ele não parece sequer disposto a debater com a Graça Machel, o Jimmy Carter e o Kofi Annan, que dirá fazê-lo comigo.
E não sei se o impasse no Zimbábue vincula-se ao enfoque “moralista” das acções que têm sido tomadas: muito antes pelo contrário, parece-me, pois sequer se falou em punição aos perpetradores de crimes cometidos nos últimos anos. O impasse tem a ver com poder, e as dificuldades que certas pessoas têm em perdê-lo. A SADC parece adoptar uma postura bastante sensível ao contexto zimbabueano, tendo, até o momento, obtido os maravilhosos resultados que todos conhecemos.
Dizer que o Mugabe é um tirano não implica que não se possa negociar com ele: em facto, o próprio Obama cogitou entrar em negociações com os líderes iranianos (no que foi muito criticado), os quais, convenhamos, não são grandes democratas. Não considero que uma postura ética forte implique em uma postura política revanchista. Há muitas alternativas políticas aqui, a começar pela costumeira “truth and reconciliation”, que é, em resumo, a vertente ética (truth) mais a vertente política (reconciliation).
Sobre as premissas: Tony Blair não “agiu de forma não-intencional”, o que seria uma impossibilidade lógica. O que disse é que não teria como ele prever tudo o que aconteceu. Ele até poderia ter previsto uma radicalização em torno da questão agrária, mas não que isto levaria o Mugabe à vandalização do campo, à destruição da economia do país, e em centenas de assassinatos políticos. E qual teria sido o interesse do Blair em expôr o Mugabe como tirano? Acho que a Inglaterra tem assuntos mais importantes do que destruir o Mugabe e o Zimbábue, e esta teoria parece-me conspiratória demais. E dizer que tudo aquilo que eu citei no meu comentário anterior em relação ao Mugabe são consequências não-intencionais é, com o perdão da palavra, uma piada. Indepedentemente do conceito de “piada” que adoptemos.
Sobre o contexto e indivíduos: somos todos idionssincráticos, uns mais do que outros. E creio que tu não respondeste à minha questão sobre o contexto, que está muito clara no texto anterior: como respondes ao counter-factual de que, em contexto semelhante, muitos zimbabueanos não fazem o que fazem o Mugabe e seus asseclas? Acho que o contexto explica muito, mas, nos extremos em que chegou o Zimbábue, eu diria que o elemento individual, psico-social, não meramente contextual, é o que conta. Apesar de tentativas neste sentido (Norbert Elias sobre Mozart, por exemplo), explicações individuais com base no contexto têm limites, principalmente em vista da diversidade de indivíduos produzidos em contextos semelhantes, e da diversidade de contextos em que cada um cresce e se forma (para além dos elementos genéticos, que são excluídos à partida). Análises contextuais podem ajudar-nos a entender questões institucionais, como as razões por detrás da fraqueza dos parlamentos africanos, por exemplo (e do excesso de poderes concedidos aos executivos). Contudo, a experiência colonial não explica satisfactoriamente as diferenças entre Thabo Mbeki, Nelson Mandela e Jacob Zuma, assim como não explica as diferenças entre Chissano e Guebuza, os quais possuem estilos de governação diferentes. Teríamos de adicionar questões muito diversas, desde escola até amizades, e, no fim, o retrato seria tão complexo que sequer saberiamos o que fazer com ele. Um DNA contextual, um fenótipo completo do indivíduo, parece difícil de lidar. Ao nível individual, portanto, a história mais ampla, não a biografia, não nos conduz longe o suficiente em termos explicativose, assim, é inútil como guia para acções (ao nível institucional, o contexto pode nos ajudar, pois instituições são mais estáveis e menos complexas que indivíduos).
Era isto.
Abraços

Unknown disse...

Ah!.. Macamo não desista é extremamente productivo sobre tudo para quem está de fora, eu acredito que já estão quase ao ponto de intersessão mesmo porque já concordarão que as premissas, conceitos e contextualizações dos fenómenos é que conduziria o vosso debate, digo isso porque de facto Mugabe não aje fora das instituições que são mais fortes e menos complexas que o individuo. aguardo

Abraços

Elísio Macamo disse...

olá chacate joaquim, não se preocupe não desisti. tenho também que atender a outras coisas.
caro jonas, receio não estar a perceber muito bem o que tu queres dizer. pensei que tivesse percebido que tu estás interessado em condenar mugabe. toda a tua argumentação parece ir nesse sentido. eu não estou interessado em condenar mugabe, mas sim em perceber o problema do zimbabwe. a minha posição é de que a diabolização de mugabe não ajuda. as revisões que tens feito aos teus conceitos vão no sentido de me obrigar a assumir uma posição normativa que eu acho inútil e irrelevante. e a este propósito não é verdade que o enfoque moralista não exista por não se estar a falar em punição. há punição neste momento. há sanções contra o zimbabwe do mugabe e essas sanções são, em minha opinião, uma das razões para os sérios problemas económicos que o país tem e que são injustamente imputados a mugabe.
portanto, não saio do debate porque temos divergências conceituais. nem, aliás, saio do debate. proponho que a gente discorde em razão de caminhos diferentes. tu insistes no bom e no mau, e eu não, por achar isso irrelevante pelas razões que tenho vindo a apontar. a questão de saber se o zimbabwe de mugabe é uma democracia ou não, é falsa, pois ninguém aplicaria de ânimo leve o atributo democrático. mas isso não revela, como pareces supor, a extensão do problema de mugabe; revela a complexidade do problema zimbabweano. o facto de haver tantos livros sobre algo que não é relevante (em minha opinião) não significa que eu esteja enganado. há muitos livros sobre coisas irrelevantes e quanto maior for a desorientação, maior é a tendência de escrever.
há três pontos que revelam a crescente futilidade da nossa discussão. o primeiro diz respeito às tuas premissas, por exemplo, a questão do abuso do poder. fui ver os "sites" que tu indicaste e com a excepção do relatório sobre os direitos humanos (que eu precisaria de ler com maior atenção para emitir opinião mais abalizada) são fontes bastante suspeitas e que a mim, pelo menos, não inspiram nenhuma confiança. não são imparciais e só a forma como as notícias são contextualizadas revela esta parcialidade. mas isso não é o mais importante. o mais importante é que tu sugeres que a riqueza pessoal e as violações dos direitos humanos sejam manifestação do abuso de poder por parte de mugabe quando eu diria que a questão é capaz de ser mais complexa. num sistema político tão instável e conturbado como aquele que se tem naquele país (e em parte por causa da intervenção nefasta exterior) muita coisa é possível sem que seja directamente imputável ao líder. não sei. para ti o único que sabe o que faz, tem intenções bem claras é mugabe. conferes ao indivíduo demasiada perspicácia, argúcia e maldade (a não ser quando é para dizer que ele não conhece os verdadeiros interesses do seu povo) que simplesmente não ajudam a reflectir o problema. tu queres simplificar o assunto, de preferência identificando o diabo, enquanto eu acho que essa simplificação está na base das dificuldades que temos com o problema. não são, portanto, os conceitos que vais reformulando que constituem o problema, mas o facto de que os ajustas para se adequarem ao teu argumento moral. chegados a esse ponto podemos entrar em acordo sobre a necessidade de discordarmos.
segundo, a tua posição normativa obriga-te a sempre julgar com maldade o que mugabe faz. é teu direito. contudo, o que tenho feito é simplesmente aventar a hipótese de que os outros que consideras benevolentes possam também ser motivados por razões maléficas. acredito como tu que a inglaterra tem assuntos mais importantes do que destruir mugabe, mas se os seus políticos sabem isso e agem de acordo com isso é outro assunto. no meu trabalho e na minha reflexão faço como sherlock holmes: o que é possível conta, por mais improvável que seja. assim, não ponho de parte a possibilidade de mugabe agir também de boa fé. porque não?
terceiro, esta questão de contexto continua a escapar-me. eu não nego que existam diferenças entre pessoas, nem nego que umas sejam mais maldosas que outras. o contexto, que é muito mais do que a história no sentido que me parece estares a perceber a noção, não encaminha a acção das pessoas no mesmo sentido. há correntes historiográficas que diriam isso, mas essa não é a minha posição. a minha posição é de que o contexto ajuda a identificar a racionalidade do que as pessoas fazem. neste caso, uma possível racionalidade do que mugabe faz é a sua convicção de que ele está a defender os interesses do povo zimbabweano, que todo aquele que se opõe a ele opõe-se a esses interesses e que na defesa desses interesses ele está disposto a matar ou a morrer. a questão de saber porque somente ele se sentiu interpelado pelo contexto a pensar dessa maneira é mesmo do pelouro da psicologia que não me interessa e não me parece relevante. e digo-te mais jonas: ainda bem que no zimbabwe há um indivíduo como mugabe disposto a colocar esta questão da injustiça latifundiária na agenda política. pena que seja aparentemente louco. é deveras uma pena que em alguns contextos só os loucos é que defendem boas causas.
posto isto, podemos continuar a falar se quiseres, mas vamos apenas repetir o que dissemos. propor que a gente discorde não é refugiar-se por detrás dos conceitos; é estar satisfeito por ter clarificado as posições e ter criado uma base mais ou menos clara para que outros julguem ou para que cada um de nós reveja a sua posição. essa é a intenção deste blogue. não é o lugar para vir buscar a verdade, mas para vir reflectir. quanto maiores forem as divergências, melhor. o importante é que ninguém fique com a impressão de que as coiss da vida são simples.
portanto, o que falta agora, pelo menos do meu lado, é ir investigar o assunto e ver até onde a minha abordagem me leva. em tempos escrevi um texto aqui no blogue que apresentava essa abordagem. não vejo nenhuma razão para mudar seja o que for nessa abordagem.

Anónimo disse...

Elísio, os maus hábitos custam a sustentar. Tu nos habituaste mal. Sabemos que não és bloguista a tempo inteiro. Exigimos, porém, mais trabalho! Mais artigos!

Obed L. Khan

Elísio Macamo disse...

caro obed, a exigência é justa. mas a academia tem também as suas exigências. admiro os colegas académicos que têm energia suficiente para alimentarem regularmente o seu blogue enquanto vão fazendo as outras coisas: escrever artigos científicos para livros e revistas; corrigir trabalhos dos estudantes; ler e orientar teses; fazer pesquisa; dar aulas; participar em conferências; dar palestras; ler; pensar; rever ideias e opiniões. e ainda cuidarem das coisas normais da vida. falta-me essa energia, mas vou tentando. os "suínos" dos mpoyombo sabem que estou a tentar.

Anónimo disse...

Que os Tinguluve (suínos) dos Mpoyombos (Macamos) te protejam e te Dêm energia. Um abraço

Obed L. Khan

Elísio Macamo disse...

mpoyombo! makamu!