sexta-feira, novembro 07, 2008

Para atiçar o lume

Sobre a côr de Obama
Aviso, desde já, que coloco esta postagem sem garantir que possa participar com regularidade no debate que ele vier a suscitar. Pareceu-me, contudo, oportuno fazê-lo para aproveitar a boleia da postagem anterior sobre a explicação.
Eis um problema bicudo. De que côr é Obama? Ou melhor, qual é a sua raça? Até aqui muita gente pensou que ele fosse preto. E dentro desse equívoco, muitos pretos e muitos brancos amigos de pretos festejaram a sua vitória. Houve também os que festejaram a vitória do democrata Obama, por sinal muitos, ainda que não me largue a suspeita de que alguns desses muitos só digam isso para não terem de admitir que a sua alegria vem do factor raça. Caiu-me, ontem, na caixa de correio electrónico – por via do Moçambique Online – uma mensagem com o seguinte teor:
Professor, Admiro o Homem, Obama, independentemente das suas origens e desejo-lhe os maiores sucessos. Porém, permita-me o preciosismo seguinte: NUMA ÓPTICA RACIAL: sendo OBAMA filho de pai negro (originário de Àfrica) e de mãe branca (ascendentes originários da Europa), GENÉTICAMENTE, é um AFRO-EUROPEU, ou EURO-AFRICANO. Afro-Americano só na perspectiva da NATURALIDADE dos progenitores, que é irrelevante, em termos raciais. Sabendo o PROFESSOR que, em regra, o Mulato é visto em África (e Moçambique não é excepção) com pouca simpatia, em alguns casos mesmo com desconfiança, por grande parte da população negra (quase como apátrida), como interpreta este repentino "ORGULHO AFRICANO" - com a chegada dum Mulato ao poder? Germana.

Segui o elo indicado e fui dar no blogue “Diário de um Sociólogo” do Professor Carlos Serra e lá encontrei uma discussão bem acesa sobre se os pretos moçambicanos deviam festejar a vitória do “primeiro” Presidente “mulato” dos Estados Unidos quando eles desprezam e oprimem os mulatos no seu próprio país. Sendo Obama filho de mãe branca e pai preto, ele não podia ser, em Moçambique, preto, mas sim mulato. Numa outra discussão, no mesmo blogue, o antropólogo português, Paulo Granjo, perguntava se era concebível a eleição de um mulato para um cargo importante na Frelimo ou na Renamo e dava a entender que a resposta era negativa. Esta última questão levantada pelo antropólogo é mais simples de abordar, pois parece evidente que os termos de comparação em si são problemáticos. Comparações só são úteis quando os critérios são relevantes. Nos Estados Unidos estamos perante uma situação em que “opressores” se abrem para o “oprimido”; em Moçambique estaríamos perante uma situação em que “oprimidos” se iriam abrir a gente, com ou sem razão, que é vista como fazendo parte dos “opressores”. Para além de reconhecer aqui o grande passo dado pelos americanos rumo à reconciliação racial não há muito que se possa aproveitar analiticamente para Moçambique. Há também a própria estrutura dos partidos políticos na América que é diferente de tudo quanto existe no mundo, sendo talvez mais próxima do que Museveni está a tentar fazer no Uganda. E mais. Obama ganhou porque arriscou. A única maneira de sabermos se um mulato iria ser eleito para alguma coisa em Moçambique seria de ele concorrer para vermos. Enquanto isso não acontecer, toda a discussão a esse respeito parece-me fútil, embora as razões que nos levam a supor que isso nunca venha a ser o caso mereçam reflexão.
Voltemos, então, à questão colocada pela mensagem. A resposta que alguns dão é de que somos todos mulatos. Não há preto, branco, amarelo, etc. Somos todos mulatos. Esta constatação, infelizmente, padece dos mesmos males da já conhecida história da professora que no espírito de combater o racismo declara que todos os alunos passam a ser verdes. Para fazerem distinções – já os filósofos gregos diziam que perante contradições, e a vida está cheia delas, devemos fazer distinções – as crianças tiveram que introduzir tonalidades: mais verde, menos verde, verde assim, verde assado... A questão constitui um desafio metodológico muito grande para a sociologia, pois remete para o problema da definição e para o problema da articulação de fenómenos sociais com a sociedade. Dizer que todos somos mulatos é a resposta política, e provavelmente sensata, de acabar com a discussão. Não é a forma sociologicamente satisfatória. Aprendemos, quando crianças, a vermos as pessoas como brancas, pretas e mulatas, mas na verdade somos todos mulatos. Não dá. Não somos, ou melhor, para os efeitos da nossa vida quotidiana – e isso é que conta na sociologia – não somos todos mulatos. Somos pretos, brancos e mulatos. Também dizer que no fundo não existem raças, existem apenas os significados sociais que são atribuídos a estas categorias não ajuda muito. É difícil ficar-se esclarecido com esse tipo de abordagem.
O mulato é uma categoria social bastante problemática em Moçambique. Há muitos preconceitos em relação a ela, muitos deles negativos. O mulato é, na imaginação popular, ladrão por natureza; a mulata é leviana por natureza. Sei do que estou a falar, pois para além de ter sido socializado nesse meio, ganhei sensibilidade para esse tipo de apreciação quando me juntei ao grupo dos que fazem filhos mulatos. Alguns amigos, sem se aperceberem, dizem-me no meio de uma conversa “já sabes como esses mulatos são...”, e lembram-se com quem estão a falar e ficam sem jeito. Portanto, a categoria “mulato” tem um sentido e conteúdo claro no dia a dia das pessoas; essa clareza confere-lhe objectividade e, nesse sentido, se quisermos abordar a questão de forma séria não devemos tentar mostrar que essa categoria não tem nenhum sentido, nem conteúdo, mas sim como ela é empregue no quotidiano das pessoas e ganha substância. Isso passa por, num primeiro momento, definir o próprio termo. O que é um mulato? Num segundo momento devemos, então, articular o conceito que ganharmos dessa definição com a sociedade que contextualiza e estabiliza o seu significado.
A definição é um tema bastante bicudo nas ciências sociais. Nos estudos de natureza quantitativa temos a tendência de privilegiar definições operacionais que nos permitem identificar as dimensões e indicadores de um conceito por via de uma operação como a entrevista. Um “mulato”, por exemplo, pode ser definido de acordo com a sua própria auto-avaliação. Para esse efeito só preciso de perguntar: Qual é a categoria racial que acha que o descreve melhor? Branco; Preto; Mulato. Mulato é aquele que diz que é mulato. Posso, também, definir o “mulato” como aquele indivíduo que é filho de pais de raças diferentes. Posso ir mais longe e identificar critérios materiais, religiosos, etc. Qualquer que seja o meu procedimento, contudo, não há nenhuma garantia de que com a minha definição toque na “essência” do conceito. Nem existe nenhuma obrigação para que o faça. Mas essa ausência de garantia é crucial para perceber os problemas que a definição apresenta ao empreendimento científico.
De uma forma geral, as definições científicas reclamam a capacidade de recuperar a “essência” de alguma coisa. O problema, do lado das ciências sociais, é que essa essência pode incluir elementos negativos ou positivos, o que faria com que a definição resvalasse para o campo da persuasão. Este é o problema apresentado pela definição de “mulato” em Moçambique. Para podermos abordar os problemas que esse termo apresenta teríamos de recuperar a definição convencional empregue e entendida por quase todos no país. Contudo, essa definição incluiria necessariamente elementos bastante pejorativos. Um “mulato” seria, portanto, alguém que não é visto nem como branco, nem como preto, tem, em virtude da cor da sua pele, um lugar especial no acesso e distribuição dos recursos de existência no país, e não inspira confiança nem aos que se consideram pretos, nem aos que se consideram brancos. A definição seria, como podemos ver, bastante grosseira, mas é exactamente nessa qualidade que ela nos permite apreciar devidamente a complexidade da análise do fenómeno, uma complexidade que mostra quão problemático é dizer simplesmente que não há raças ou que somos todos mulatos.
Uma forma de abordar os problemas metodológicos apresentados por esta categoria social é seguir o raciocínio do sociólogo alemão, Georg Simmel, na sua reflexão sobre aquilo que ele chamou de “tipos sociais”, por exemplo, o estrangeiro, o pobre, o renegado, etc. O que molda estes tipos sociais são é o conjunto de reacções e expectativas dos outros. O tipo torna-se o que é, por assim dizer, através das suas relações com os outros que lhe atribuem um lugar especial e esperam dele que se comporte de maneiras específicas. A ideia de Simmel, ideia com a qual estou de acordo, era de que essas características que são atribuídas ao tipo social são vistas como atributos da estrutura social. Assim, o que se pensa em Moçambique sobre o “mulato” é o que as pessoas pensam sobre a estrutura social do nosso país. Pensar o mulato seria reflectir sobre a maneira como os moçambicanos pensam a sua sociedade: desconfiança, desigualidade, injustiça. As pessoas não precisam de ter razão sobre isto. Mas é assim que pensam. Aliás, um bom trabalho sociológico teria também de identificar os sectores da nossa sociedade que olham para o assunto desta maneira, quando, e em que condições a sua apreciação varia.
Ainda não teríamos uma explicação para o fenómeno do “orgulho africano” levantado pela mensagem, mas para as explicações há outros colegas mais abalizados e afoitos. A mim interessa mais formular o problema. E um reparo muito importante que devemos fazer é de que a incoerência é prerrogativa daqueles que agem no dia a dia. Neste sentido, não há nada peculiar no “orgulho africano” tanto mais que a observação em si é anedótica demais (sabendo que o mulato em regra é visto com pouca simpatia...) para servir de base para uma explicação. E este reparo não contradiz o que escrevia há pouco sobre a definição do “mulato” no quotidiano moçambicano; mostra apenas o trabalho empírico que precisa de ser feito para, por exemplo, identificar os pretos que se rigozijam da vitória de Obama por este ser, na sua percepção, preto, e suas ideias em relação aos “mulatos” em Moçambique. Algo que a mensagem só pressupõe.

35 comentários:

Bayano Valy disse...

caro elísio, é a minha vez de dizer que estás de parabens. esta postagem abriu-me os olhos. acho que a forma como expões os problema acrescenta muito valor ao debate que gira na bloguesfera. por acaso, até acho que devíamos também olhar para a forma como os outros povos (principalmente os ango-saxónicos) definem as raças. porquê, por exemplo, nos estados unidos não existem mulatos? porquê o debate sobre a existência dos mulatos é varrida por baixo do tapete? recordo-me que quando obama se candidatou houve um artigo interessante que li onde alguém questionava se não era altura de se abrir esse debate nos eua. uma questão que colocava sempre aos pretos e mulatos americanos durante a minha visita aos eua era o porquê querem ser chamados afro-americanos, quando nenhum outro grupo étnico se chama europeu-americano, ou índio-americano, entre outros? a explicação era invariavelmente a de que ainda não se sentiam totalmente americanos porque muitos dos seus direitos civis continuavam por ser alcançados. será que agora que obama ascendeu ao cargo mais alto dos eua deixarão de lado o prefixo afro? de facto, há questões estruturais que me escapam. tive há tempos uma namorada mulata que chegou a ser minha noiva, que apesar da família aceitá-la, alguém sempre me sussurava que os mulatos não prestavam. como chegara a essa conclusão? porquê um tio meu casara uma mulata e acabaram tendo problemas que deram num divórcio. este é um caso de argumentar do particular para o geral. quando eu e a tal noiva rompemos vi os olhares da pessoa numa de "não te disse?" o engraçado é que dentro da família, tanto do lado paterno como do materno, temos mulatos. começando da mãe do meu pai e mãe da minha mãe. tenho primos e primas mulatos. depois dela namorei duas negras e também nos separamos. a pergunta que fiz foi: "como explicas que me tenha separado?" ainda é que a porca torceu o rabo. agora estou de novo a tentar namorar uma mulata. acho eu que os preconceitos não nos fazem ver a floresta da árvore, que cada um comporta-se em função de várias coisas, entre elas, a sua educação, o ambiente, etc... no fundo, tanto o preto como o mulato ou branco podem cometer os mesmos erros, e não é por causa da tonalidade da sua pele que o erro torna-se mais ou menos grave. há dias remonstrei-me por causa de uma publicidade que passa por ai onde aparece um mulato vestido à mecánico e a comprar peças. esta pub, quanto à mim, vem reforçar o estereótipo de que os mulatos só sabem mecánica: que coisa mais grosseira. enquanto não abrirmos os nossos olhos ao mundo com olhos de ver não iremos desfrutar o que de melhor tem este mundo, penso eu.
mais, ireir continuar a reflectir sobre esta questão.

Bayano Valy disse...

caro elisio, conversei esta tarde com um amigo que mostrou-se aborrecido com o debate (ela terma de falso debate) que foi levantado na oficina de sociologia. para ele, não gostava da forma como o debate era conduzido e parecia que havia muitos comentários firmados. foi quando me falou de um libanês que vive na frança, amir maalouf que parece ter dito, quando questionado se era mais francês ou libanês, que era “ambos”. o seu argumento era de que há uma injustiça forçar-se alguém a ter que escolher entre alguns aspectos da sua identidade porque a identidade não pode ser compartamentalizada. achei interessante o argumento tanto não seja porque não raras vezes sou pessoalmente desafiado a escolher o que sou. veja, por exemplo, que o meu pai é proveniente de chinde (zambézia) e minha mãe é maronga de catuane. é um pouco chato ter que dizer qual é o meu grupo étnico, e durante muito tempo fui mudando em função da audiência. o meu pai acha, por exemplo, que não sou leal aos mahindos (a sua etnia). sempre me esquivo dizendo que ele se esquece de que a sua linhagem é matrilinear. enfim, tantas peripécias para pertencermos à algo. muito complicado, não é? por isso, o argumento de maalouf me atrai

Elísio Macamo disse...

oi bayano, sim, o melhor é continuar a reflectir. como tu estamos todos nós em moçambique no cruzamento de várias identidades. o amin maalouf de que te falou o teu amigo escreveu um excelente livro com o título "as identidades assassinas" onde reflecte sobre si próprio, isto é sobre ser libanês e francês. é um dos melhores livros que andam por aí sobre a questão da identidade e sobre os perigos que ela encerra. também achei estranha a forma como o debate estava a ser feito, mas as pessoas hão de ter as suas razões. o problema racial é sério em moçambique e quando os académicos pegam nele precisam de o fazer com muito cuidado. ou então deixar estar. a sugestão de que a frelimo e a renamo não iam eleger um mulato quer dizer o quê? vamos supor que um mulato péssimo se candidatasse para um posto e perdesse. seria por causa de racismo? vamos supor que um preto péssimo perdesse com um mulato bom. seria porque deixamos de ser racistas? o que há de estranho num preto dizer a outro preto que se comporta como um preto? bom fim de semana!

Anónimo disse...

Caros Elisio e Vali, o debate esta interressante. Isto faz-me recordar um debate polémico ocorido no Brasil sobre as politicas de accao afirmativa (o proprio Obama constame que esteve nas barricads deste movimento nos EUA)referentes as cotas para melhorar o acesso as universidades por parte dos estudantes afro-brasileiros. Apos aprovar-se as cotas, houve, e tem havido, sérios problemas na definicao de quem sao os afro-brasileiros, quem sao os negros, etc. Lembro-me tambem duma questao que um colega da faculdade colocou sobre os EUA: se Obama é descendente de um africano e de uma descendende de europeus, porque nao se dizer por exemplo euro-americano (mais ou menos como sugeri Vali) e os europeus tambem se orgulharem de ele ter raizes europeias!!!.
Macamo, disseste que comparacoes so sao uteis quando os critérios sao relevantes entretanto dizes em seguida que a unica maneira de sabermos se um mulato iria ser eleito para alguma coisa em Mocambique seria de ele concorrer para vermos. Isto parece-me problematico, visto que estariamos desta forma olhar o tal ganhar (ou perder) como sendo puramente determinado pelo factor "mulato". No comentario que fazes a seguir parece-me que procuras se desembaraçar deste determinismo. O resultado eleitoral pode ser influenciado por varios factores: religiao, regiao, lingua, etnia, clã, etc. Assim pode até aparecer um mulato que ganhe algo, nada apriori, nos garante que ganhou pela condicao mulato.
Penso que a este nivel pode-se questior o fatalismo segundo o qual Obama ganhou por ser negro(ops! afro-americano). Ve-se que quase todas as analises sobre a vitoria de Obama parece se aterem apenas para o facto de ser um afro-americano. Pouco, parece-me, se faz referencia para as propostas do seu manifesto e por ai em diante.
Grande abraco. Dlamini

Anónimo disse...

Ser mulato é ser de outra dimensão, mais ampla, mais universal: é ser reunião transracial. E assim são todas as mestiagens, que vão tornando sempre cada vez mais mais rica a Humanidade.

Bayano Valy disse...

caro elísio,
vamos mesmo continuar a reflectir. concordo que a questão do racismo no país é ainda uma questão bicuda. houve um estudo que foi publicado há uns 3 meses sobre o porquê as caras da publicidade parecem serem mais claras. não consegui até hoje tê-lo nas mãos. mas o que me consta é que não houve reacção nenhuma. este é que é um outro problema - há momentos, e acho-os muitos, em que ficamos sem saber o que significa o silêncio quando o tema que está a ser despoletado se afigura muito importa, sendo que, acabamos perdendo uma oportunidade para nos compreendermos melhor.
caro dlamini,
pensei que o elísio levantou suposições e não necessariamente afirmações. e acho que devemos olhar para as coisas a partir desse campo. quanto à questão dos afro-brasileiros, talvez fosse melho antes perguntar o que é que isso significa; onde são enquadrados os mulatos; como é que as quotas abordaram questões como as desigualidades sociais; etc... tanto eu saiba o obama está contra as quotas ou a tal chamada discriminação positiva. as suas razões são de que de alguma form concorre para elevar a mediocridade. ele deve ter as suas razões.
caro anónimo,
explique-me lá uma coisa: o que é ser transracial? porventura, terá isso algo a ver com transcendental?
abraços

Elísio Macamo disse...

caro bayano, de facto esse silêncio é estranho. este tema racial é deveras importante, precisamos de iniciar uma discussao mais abalizada e esse tipo de estudos ajuda a fazer isso.
caro dlamini, o meu comentário era justamente para problematizar a ideia de que no nosso país nao seria possível eleger um mulato. enquanto nenhum se candidatar nao saberemos; mas mesmo se se candidatar e perder, nao saberemos porque razao foi. vamos continuar a reflectir.

Anónimo disse...

Caro professor Elisio e companheiros deste debate, sinto-me no dever de intervir neste debate por motivo pessoal – ser uma pessoa considerada, por grande parte das pessoas que convivem comigo, de “mulato” - e acadêmico – pela tentativa de elucidar processos identitários. Para começar, acho que ser mulato é coisa mais complicada que existe em termos de identidades. Primeiro, porque não é uma identidade racial definitiva como ser negro ou branco. Dependendo da perspectiva de cada um, pode ser visto como mulato, negro, branco, claro, misto, mistiço, caneco, enfim uma série de categorias que é atribuida a uma pessoa que nasceu de pai ou mãe negra com mãe ou pai branco, e os seus "derivados". Normalmente quem atribui estas categorias, falando do contexto mocambicano, (mulato, negro, branco, claro, caneco, misto, mistico) são os da cor maioritária (os negros). Aliado a esta questão de tonalidade da pele estão os esteriotipos que existem em relação aqueles que são vistos como mulatos (ladrão, mecânico, leviana...). Existem na verdade alguns que enchem-se de orgulho dizendo que “eu sou mulato”. Se calhar desfrutam de algumas vantagens do facto de ser mulato. Estes na verdade se comportam exactamente de acordo com os esteriotipos acima referidos. Contudo, algumas dúvidas pairam sobre a minha cabeça: como surgem estes esteriotipos? Qual a sua gênese? Porque não existem no Brasil, EUA, Cabo Verde, só para citar alguns dos paises onde a misticagem racial é muito frequente? Porquê que nos EUA não existe “mulato” visto em termos dos seus esteriotipos moçambicanos? Porquê que os negros moçambicanos não encaram o dito “ mulato” como parte de si, ao invês de empurar para o lado branco?

Para mim OBAMA é negro sim, porque ser negro nos EUA não é mesma coisa que ser negro em Moçambique. Os negros dos EUA quiçá do Brasil aprenderam a ver os mulatos como parte de si, como irmão, como igual. Não faz sentido estarmos a comparar com os negros mocambicanos que procuraram isolar-se dos mulatos atribuindo esteriótipos e para piorar, retirando a estes toda a sua nacionalidade dizendo "mulatos não tem bandeira". Para já gostaria de saber o que significa não ter bandeira? Por isso mesmo Obama em Moçambique seria visto como “Mulato” sim (é claro que vendo ao vivo - porque muitos negros que dizem não gostarem de mulatos não conseguem distinguir um negro claro de um mulato quando vêm pela televisão, porque o mulato ao lado de um branco para estes sempre vai parecer negro). Pessoalmente, não me sinto bem que me chamem de “mulato”, porque no imaginário social mocambicanos o mulato não é uma coisa boa. Portanto, continua valendo a ideia que a victória de OBAMA é a vitória dos negros, mas não negros moçambicanos ou mulatos moçambicanos, mas americanos e quiçá quenianos.

Elísio Macamo disse...

caro anónimo, acho a sua intervenção interessante, mas muito complexa para ser respondida aqui. não sei se concordaria com a ideia de que a identidade de mulato seja a mais complicada. depende do contexto. no fundo, creio que a questão que devemos tentar responder, ao abordarmos este problema, é de saber quando a côr da pele se torna relevante na sociedade. os países que menciona têm uma definição diferente do negro, mas no seio da própria comunidade negra não é necessariamente assim. um dos grandes pontos de conflito no século xix entre os escravos libertos que regressaram à África (serra leoa e libéria) era justamente o lugar do mulato. alguns negros influentes como blyden e crummel chegaram a pedir para que não se incluissem os mulatos nos que regressavam or acharem, entre outros estereótipos, que eles fossem um motivo de vergonha à "raca" negra. nos estados unidos também não vai demorar muito até que os "african-american" se lembrem que obama não é de uma família com raízes escravas... e por aí fora. quando é que a côr da pele se torna relevante? e o que é que ela nos diz sobre a sociedade? essas parecem-me as questões que realmente interessam.
pessoalmente, não torci por obama por me ser indiferente. a questão não é saber se ele foi eleito por ser negro ou não, mas sim como determinar isso. obama não foi o primeiro negro a concorrer. antes disso concorreu também jesse jackson nos anos oitenta. porque não conseguiu? por ser negro? não sei. por a sociedade americana não estar ainda preparada? não sei.

Sueli Borges disse...

Olá ao Elísio, olá a todos,

Antes, perdoem-me, pois não falarei sobre o lume de Obama.
Gostaria de registrar o meu incômodo sobre algumas colocações anteriores. Incômodo, esclareço, não no sentido pessoal-ofensivo, mas no aspecto conceitual e etimológico. A partir deste incômodo reflito sobre as semelhanças e diferenças que podem existir entre as realidades do Brasil e de Moçambique.
Para falar deste incômodo terei que ser óbvia e utilizar de alguns dicionários da língua portuguesa (brasileira).
O desconforto etimológico primeiro é com a palavra em si mesma: MULATO. Derivativa de MULO/ UM = animal mamífero resultante do cruzamento do jumento com a égua. MULATO = aquele que é escuro ou trigueiro. Trigueiro = que tem a cor do trigo maduro.
Estes significados podem remeter, em contextos e situações racistas, a categorias sociais bastante discriminadas.
(adendo: lembrei de algo que diz: “o mal é o que sai da boca do homem”. E, toda vez, que lembro disso procuro ter cuidado com as palavras que saem da minha boca. Mulato é uma das palavras que já bani do meu vocabulário).
Merece um pequeno ajuste o comentário anterior: “porque não é uma identidade racial definitiva como ser negro ou branco Porque não existem no Brasil, EUA, Cabo Verde, só para citar alguns dos paises onde a mestiçagem racial é muito freqüente.” Ora, a construção da nacionalidade brasileira foi estruturada a partir da mestiçagem. O “povo brasileiro” formado a partir da mistura do índio, do branco e do negro. Isto foi feito à custa do mito da democracia racial, que tentava afirmar que todos eram mestiços. Mas, o mestiço era o pretexto do branqueamento da nação. A opção nacional não foi pela mestiçagem-afro. Ao branco cabia o topo, à mestiçagem, uma massa amorfa, e ao negro, o purgatório, grosso modo. Herdamos este ranço preconceituoso e racista. Posso dizer que a mestiçagem é uma identidade racial (?) que não somente existe, como é forte, problemática e de entrave àqueles mestiços que buscam, por diversos motivos, afirmar a sua identidade negra, como eu.
Outra questão que carece de um maior esclarecimento e que foi ventilada em comentário anterior é sobre as políticas de ação afirmativa no Brasil.
“debate polêmico ocorrido no Brasil sobre as políticas de ação afirmativa (o próprio Obama constame que esteve nas barricads deste movimento nos EUA)referentes as cotas para melhorar o acesso as universidades por parte dos estudantes afro-brasileiros. Apos aprovar-se as cotas, houve, e tem havido, sérios problemas na definição de quem são os afro-brasileiros, quem são os negros, etc.”
Acredito que em qualquer política antidiscriminatória os critérios de categorização podem ser problemáticos. No caso brasileiro, o sistema de cotas nas universidades, apenas uma das partes do sistema de ações afirmativas, o estudante se auto-declara branco, preto, pardo ou índio-descendente, além de ter que se enquadrar em outros critérios, como ter estudado em escola pública.
Para os órgãos censitários negro (ou afro-brasileiro) é quem se auto-declara preto ou pardo. População negra é, assim, o somatório de pretos e pardos.
Portanto, não creio que o problema seja de definição de quem são os afro-brasileiros.
Então, no contexto da mestiçagem, a questão de ser negro ou mestiço, talvez seja a de escolher uma identidade. Mas, no Brasil, ser negro também é expressar uma posição política e de enfrentamentos.
Infelizmente, nesta conjuntura, a cor da pele é relevante.
Abraços,

Anónimo disse...

Obrigado pelos esclerecimentos, mas ainda continuam as minhas dúvidas: porquê é que o mulato é assim visto pelos negros em Mocambique? Se é que existe uma explicação para tais preconceitos.

Anónimo disse...

Não resisto: ficaste mesmo indiferente em relação à eleição do Obama, Elísio? Não vês nela nada significante em termos de mudança social? E, enfim, podemos nós ficar indiferente em relação ao que acontece nos EUA?

Egidio Vaz disse...

Eu sou daltónico, quase cego. Por isso sou ignorante nesse debate.
Da última vez que interpelei os homossexuais disseram-me que era homófobo.
Por isso, temo que seja aqui catalogado de canibal.
Abraço a modestia.

Elísio Macamo disse...

olá sueli, obrigado pela tua visita. acho que a questão da nomeação é importante e ainda bem que a colocas. em moçambique utiliza-se mais o termo "mulato" e não creio que as pessoas façam as associações etimológicas que o termo implica. o uso do termo "mestiço" é menos frequente segundo o que posso observar. no fundo, em quase qualquer palavra que utilizamos estão armadilhas à espreita. pessoalmente, nunca sei se o menos ofensivo é dizer "preto" ou "negro", mas sei que cada um desses termos fere susceptibilidades. que fazer? difícil.
caro anónimo, sugeri que nos debruçássemos sobre a questão de saber quando é que a côr da pele se torna relevante e, talvez também, para quem e em que circunstâncias. o próprio anónimo pode fazer essa investigação para ter as respostas. eu não tenho nenhuma, mas se fosse investigar procederia como indiquei.
caro jpnas, acho que estás a fazer duas afirmações distintas. uma é ficar indiferente a obama, outra em relação aos estados unidos. tenho uma profunda admiração pela democracia americana, sobretudo pela forma como os fundadores da nação, mas também muitos intelectuais liberais pensam os desafios da política. por isso, até acho curiosa a reacção daqueles que sempre criticam os eua de forma generalizada. não vejo nada de significante em termos de mudança social nos estados unidos tanto mais que houve factores contingentes que me parecem ter sido determinantes. o que acho verdadeiramente significativo é que powell e rice tenham ocupado os postos que ocuparam. tudo começa a esse nível. mas podes crer que não acompanhei a campanha eleitoral e, ao contrário de alguns colegas meus aqui, fui cedo à cama e soube da vitória de obama de manhã quando liguei a rádio.
caro egídio, não tenho a certeza se percebi o teu comentário. se te referes à nossa discussão no teu blogue, acho que estás equivocado. eu pelo menos não te chamei de homófobo, nem sugeri que fosses ignorante em seja o que fosse. o que eu discuti contigo no teu blogue foi a questão de que o facto de não concordarmos com um certo modo de vida não nos obriga a privar os que vivem dessa maneira da liberdade de expressão. enfraqueces o teu argumento contra o tal fulano da lambda se misturas a hostilidade ao seu procedimento com a aversão à sua maneira de viver. também salientei que pessoalmente estou contra o casamento homossexual, mas isso não é razão para eu querer impedir os homossexuais de tentarem defender a sua dignidade e os seus interesses. acho que precisamos de ter cuidado nestas coisas, pois vejo um grande perigo de ficarmos incoerentes em relação às posições que publicamente assumimos. mas, repito, não sei se percebi bem o teu comentário.

Anónimo disse...

Elísio, Valy e Sueli obrigado pelos comentários sobre o meu comentário.
Gostaria, dentro deste debate, de lembrar um detalhe no que o nosso PR, Guebuza, disse numa entrevistas (penso que na altura estava nas Ilhas Maurícias) sobre a vitoria de Obama sobre H. Clinton na nomeação dos democratas. Guebuza disse com entusiasmo "O NOSSO OBAMA". Confesso que fiquei boquiaberto e pergunte-me " nós quem? (negros, africanos, etc.) Uma coisa é certa, esse nós indica alguma categoria que o nosso PR esta incluso, senão não usaria o prenome nós.
No livro Cultura Negra em Tempos Pós-modernos Marco Aurélio Luz faz um interessante comentário sobre dois filmes de Spike Lee. No filme Todos a Bordo (Get on the Bus) Lee fala sobre um machimbombo que leva um grupo de negros para uma marcha de um milhão de homens em Washington DC. Durante a viagem mostram-se acontecimentos que põem em causa os paradigmas de analise do social com base na classe e raça. Por sua vez no filme Faça a Escolha Certa (Do the Right Thing) de Spike Lee, M. Aurélio Luz lembra a história de um comerciante asiático em Harlem que no meio de uma revolta que lhe ameaça a loja, sai gritando para os revoltosos dizendo que ele não é branco, é negro também.
A raça, como se sugeriu aqui, é uma construção social feita a partir de uma característica biológica, como. Enquanto construção social é um dos elementos a ser olhado nos processos identitários. A identidade social, por ser algo antibiótico, como sugeriu C. Serra, é um conceito sociologicamente impossível, como sugere Macamo. Há, na nossa esfera publica e não só, uma grande manipulação da ascendência africana de Obama. Em relação a Powell e Rice, não me recordo de ter ouvido um discurso de orgulho africano (não digo que não tenha existido). Nas eleições dos EUA de 2004 houve este tipo de discurso, orgulho africano, particularmente moçambicano, pelo facto de a esposa do candidato democrata John Kerry, Teresa Heinz Kerry, ter nascido em Moçambique.
Confesso pessoalmente que fiquei emocionado com a vitoria de Obama, sendo negro ou “mulato”, a emoção vem do facto de ser uma ruptura e um reavivamento do optimismo no Self Made Man intinceco ao proprio American Dream.

Anónimo disse...

Li isto a propósito de Miriam Makeba:
"Nasceu em Johanesburgo em 1932, filha de mãe suazi e pai xhosa. Trocou o seu nome zulu, Uzenzile, por Miriam aos 20 anos quando começou a levar a sério a sua carreira. ... Foi casada com o trompetista Hugh Masekela e posteriormente com Stokely Carmichael, líder do movimento Black Power. Esteve presente e cantou em todas as independências africanas. Por isso ficou a ser conhecida como "Mama Afrika"."
Independentemente da enorme paixão que tenho por Miriam Makeba, devo dizer que me causou grande surpresa essa troca do nome zulu Uzenzile por Miriam, e sobretudo por este ter sido mantido até ao fim. Esta postura da saudosa Mamã Áfrika não é contraditória com o "black power" e o "orgulho africano"?

Unknown disse...

Caro Elísio, estou a acompanhar o debate quase desde o início, mas não queria comentar simplismente por que de facto os motivos que fazem muitos festejarem a vitória de Obama não os vejo como tal. Agora, se é por ele ter lutado e ter consiguido! talvez iria dizer que admiro, mas não por ser "Mulato" ou Negro Afro ou Euro-americano porque acho isso inrelevane para a minha festa.

Egídio, ahh!... como assim?

Abraços

Anónimo disse...

Errata:
no ultimo comentario disse , citando C.Serra, que a identidade social era algo ANTIBIOTICO, queria dizer ANFIBIOTICO. Peco desculpas por essa troca grave.
Grande abraco a todos.

Elísio Macamo disse...

caro mukwazi dlamini, de facto festejou-se menos as nomeações de powell e rice, mas estas pareceram-me as mais significativas do ponto de vista da integração dos negros nos eua. é preciso também não esquecer os inúmeros edis negros que populam aquele país. é possível que powell e rice não tenham sido assim tão festejados por terem estado do lado político errado para a maioria das nossas sensibilidades. lembro-me de falar de rice a um colega americano negro que se queixava de bush e ele retorquir dizendo "bom, peço desculpas". agora, não vou até ao ponto de condenar aqueles que festejam esta vitória. cada um tem as suas razões e por mim está tudo bem. o chacate joaquim, por exemplo, admira o facto de ele ter lutado e conseguido. acho a razão boa ao lado de várias outras. quanto à pergunta do anónimo sobre miriam makeba, eu diria que não vejo contradição. há razões práticas perfeitamente legítimas que nos podem obrigar a fazer coisas que, num primeiro momento, ferem as nossas outras sensibilidades. mudar o nome uma vez é complicado; duas vezes é pior, sobretudo quando um dos nomes se torna marca.

Bayano Valy disse...

caros,
acho que o debate está ficando interessante para deixar de colocar uma questãozinha. cresci a saber que existem "mulatos" e "mistos". alguém saber dizer qual é a diferença? se há uma diferença, como é que se manifesta? será que a distinção é aplicada da mesma forma que dizemos "preto" ou "negro"? se o termo mulato encerra consigo algo de ofensivo ou pejorativo, como é que vamos chamar pessoas com a sua característica cromática? sei que os estereótipos contribuem de algum modo para a perpetuação de algumas injustiças e discriminações. mas como é que podemos proceder para sermos daltónicos como o vaz? e porquê é que temos que ser daltónicos? a vida não é bela à cores, como dizem?

Bayano Valy disse...

caro anónimo,
para parafrasear o brado e dramaturgo británico, william shakespeare, o que há num nome se aquilo que chamamos de rosa com um outro nome teria o mesmo aroma? o próprio oabama não foi barry nalgum momento? no mundo cultural muitas pessoas preferem ser conhecidas por um nome que seja fácil e possa com facilidade tornar-se numa marca. repare que uzenzile makeba não soa tão bem assim. poderia ter sido zenzi makeba, mas na altura ela escolheu o nome que escolheu. podíamos tentar saber qual era o contexto em que vivia e se o mesmo contexto não terá influenciado que escolhesse um nome anglo-saxónico. estou a tentar recordar-me de músicos da sua era, e se a memória não me falha a maioria adoptou nomes "europeus": steve kekana, ladysmith and black mambazo, soul brothers, rita mbulu, entre outros. talvez na altura era o que as discográficas queriam, quem sabe? essa questão dos nomes faz recordar-me o malcom little, aliás malcom x, ou mais tarde malik al shabbaz. vimos a negação do nome little em troca de x, que mostrava ignorância de proveniência - não nos esqueçamos que os ecravos adoptavam o apelido do patrão (viste kunta kinte de alex haley?). quando reverteu ao islão malcom x ficou malik al shabbaz. hoje, talvez o nome mais sonante é malcom x porque, penso eu, foi o nome que o catapultou. portanto, o nome pode apenas ser uma extensão da forma como queremos ser visto pela sociedade. bang, mc roger, lizha james, dama do bling, ungulani ba ka khosa, entre outros. que há num nome...?

Unknown disse...

Este debate está interessante. aí vamos, O ser mulato suscita até cert ponto, a questão levantada pelo Valy, sobre a naturalidade. Por exemplo eu sou filho de um xangan e de uma manyambana, contudo nasci e cresci em Maputo. E pergunto, sou xangan? manyambana? ou Maronga? Este é um dilema que me tem assolado. De alguma forma, estas inquietações assemelham-se a angústia vivida pelo mulato, de incerteza relativamente ao lugar ou grupo de pertença. Acho que uma categoria que se torna também relevante na abordagem da raça, é o cabelo. Porquê as mulheres negras em vez de usar o cabelo a natural, desfrisam-no? e as ditas tissagens? As extensões? O que tudo isto traduz? Qual é o valor acrescentado que isto confere? Que contrapartidas são obtidas? O que dizer da guerra dos silicones onde tendencialmente a mulher branca é a maior cliente?. Porquê a mulher branca usa silicone para engrossar os lábios, aproximando-os à forma da mulher negra? E o silicone aplicado ao traseiro, para lhe acentuar as curvas, aproximando-se igualmente ao da mulher negra? E o que dizer do esforço do Michael Jackson para se tornar branco? A propósito, o Michael é negro ou branco ? Que ilações se podem retirar dessas práticas?

P.S. Olha, as questões acima representam apenas constatações do dia-adia, e não juízos de valor por minha parte.

Josué J. Muchanga

Anónimo disse...

Oi Elísio.
Bayano li algures que "Mestico" é produto de duas racas puras é "mulato" produto de racas não puras ou no minimo o cruzamento entre uma pura e uma não pura. Nando Menete

Unknown disse...

Rectificação

Uma pesquisa mais acurada sobre a cor da pele do Michael Jackson, descobri que é resultado de uma doença designada vitiligo (distúrbio específico dos melanócitos, que são células produtoras de melanina (substância que dá a pigmentação da pele, olhos, cabelo...), causando uma auto-destruição destes dentro da epiderme. Portanto, fica aqui a correcção relativamente ao comentário anterior sobre o esforço do Michael em ser branco. Contudo, relativamente aos outros elementos nomeadamente nariz entre outros, esses sim, foram resultado de uma intervenção cirúrgica.

Josué J. Muchanga

Elísio Macamo disse...

caro josué, toda a minha objectividade académica termina onde alguém começa a falar mal de michael jackson. aquele indivíduo é perfeito, um génio, por favor, deixe-o à vontade. é uma das melhores coisas que aconteceram à música pop em toda a sua existência. cresci contorcendo-me com aquela música e mesmo agora continuo a ouvir a sua música com muito gosto e saudades. não devemos tornar a identidade num fardo. se alguém é preto, mas gostaria de ter a pele mais clara, porque não, por amor de deus? se quer os cabelos mais lisos, porque não? não podemos fazer da identidade uma prisão. e, por favor, deixem michael jackson fora deste assunto!
nando, conforme a sueli borges explicou no seu comentário aqui a etimologia de "mulato" é pejorativa. a referência é à mula que é o cruzamento de cavalo e burro. não creio, contudo, que as pessoas que usam a palavra "mulato" em moçambique estejam cientes desta etimologia. o bayano recordou-me também a palavra "misto" que até é mais usada entre nós do que mulato. obrigado, bayano. continuo a pensar que uma maneira de pensar com utilidade sobre este assunto é procurar saber quando a côr da pele se torna relevante e para quem. um abraço a todos!

Anónimo disse...

Muito obrigado professor Elísio por "salvar a alma" de um dos maiores génios da musica que muita gente ignoram-no pelo simples facto de ter feito operação plástica, acho ao meu ver uma atrocidade a musica no geral. Estava a espera de um, também, génio (mas da ciência) a dizer coisas coisas tão encorajadoras sobre MJ (tão torturado pelo Mundo do politicamente correcto).

Elísio Macamo disse...

caro anónimo, ainda bem que não estou sozinho neste assunto. michael jackson é um génio e génio tem direito a se portar como bem lhe der na gana.

Anónimo disse...

Só uma pequena provocação para encerrar este debate ou dar continuidade: como haveria de ser designado um filho saido do “cruzamento” entre um dito "mulato" e uma negra? Qual seria a sua herança social?. Sei que para o senso comum a resposta está na ponta da lingua.

N.B.: Estou prestes a fazer um deles.

Unknown disse...

Caro Anónimo,
Boa questão,mas esta exige uma resposta científica e não senso comum. Tens mesmo a certeza que a sua mulher é negra? Negra pura? O ponto é que, o que determina o negro, o mulato ou o branco, não é o traço fenotípo (características externas visíveis) mas sim o genótipo (códigos genéticos), que não é passível de ser enxergado a olho nu. Segundo, dependeria também de qual dos dois tem alelos recessivos e/ou dominantes, para a característica em causa. Para a ciência, as coisas são bem mais complexas que para o senso comum. Mas para melhor elucidação sobre o assunto leia abaixo, o excelente artigo, sobre a herança genética dos filhos de Michael Jackson. E Elísio queira me desculpar por postar este artigo longo directamente, mas foi impossível fazer o link para página. Suponho que o artigo já tenha sido retirado.

Josué J. Muchanga


A Cor da Pele dos Filhos de Michael Jackson
________________________________________
Cor dos Filhos de Jackson

por Daniele Soares



Uma grande controvérsia na vida de Michael Jackson diz respeito à cor de pele de seus filhos mais velhos, Prince I e Paris. Debbie Rowe, a mãe, é branca, e o pai é Michael Jackson, negro. Eles juram que a concepção se deu por vias naturais - o que não será a questão levantada aqui - e que Michael é de fato o pai das crianças. Muitos contestam também esta última afirmação de ambos, porque insistem que é impossível filhos de pai negro e mãe branca nascerem brancos. Será mesmo? A EDCYHIS mostra a resposta.

Antes de tudo, é importante ressaltar que o vitiligo não altera o genótipo (grupo de genes que condicionam determinadas características a um ser vivo) para cor de pele, porque se trata de um distúrbio específico dos melanócitos, que são células produtoras de melanina (substância que dá a pigmentação da pele, olhos, cabelo...), causando uma auto-destruição destes dentro da epiderme, e não a destruição dos genes. Portanto, o fato de Michael ter vitiligo não influi na cor natural da pele de seus filhos.

Apesar de até hoje não se saber com certeza quantos genes estão envolvidos na determinação da cor de pele na espécie humana, esta característica parece ser controlada por dois pares de genes. Os cientistas costumam distinguir cinco categorias de coloração de pele: negro, mulato-escuro, mulato-médio, mulato-claro e branco; cujos genótipos são os seguintes:

Negro: AABB
Mulato-escuro: AaBB ou AABb
Mulato-médio: AaBb, AAbb ou aaBB
Mulato-claro: Aabb ou aaBb
Branco: aabb

Os genes representados por letras maiúsculas (A e B) determinam a produção de grande quantidade de melanina nas células da pele, enquanto os genes representados por letra minúscula (a e b) levam à produção de menor quantidade desse pigmento. Assim, como o caráter cor da pele na espécie humana segue a herança quantitativa, onde as características resultam do efeito cumulativo dos genes, com cada um contribuindo com uma parcela no fenótipo (característica, visível ou não, apresentada pelo indivíduo, como grupo sangüíneo, cor da pele, altura...), podemos dizer que quanto maior a quantidade de genes A e B no genótipo para cor de pele, maior a produção de melanina; quanto maior a quantidade de genes a e b, menor a produção do pigmento.

O genótipo aabb é, portanto, específico para brancos puros, assim como AABB é específico para negros puros. Então, sendo Debbie Rowe branca e Michael Jackson negro, seriam esses seus respectivos genótipos para cor de pele? Não necessariamente. Quando se fala cientificamente em branco e negro, leva-se em conta o genótipo do indivíduo; por outro lado, quando se fala popularmente, branco é todo indivíduo que tem a pele clara, e negro todo aquele que tem a pele escura, não significando necessariamente que eles tenham os genótipos específicos de branco ou negro.


Por exemplo, Prince I e Paris são tão brancos quanto Liza Minelli, porque o fato de um indivíduo ter a pele mais clara faz com que categorizem-no popularmente como branco, mas não quer dizer que o genótipo esteja sendo levado em conta. Do ponto de vista social, quando se fala em cor de pele, não se fala em genes; afinal, como saber o genótipo dos indivíduos olhando-os externamente?


Quincy Jones é negro, bem como Diana Ross, mas o fato de ambos serem categorizados como negros não significa que eles tenham necessariamente os genótipos específicos de pele negra. É também possível que ambos tenham genótipo para mulato-escuro; ou não. No entanto, ninguém sairá fazendo o mapeamento genético deles para então classificá-los popularmente como negros ou mulatos-escuros. Simplesmente diz-se que são negros porque têm a pele escura. O mesmo vale para os brancos. Se dizemos que Prince I e Paris são brancos, é simplesmente porque têm a pele clara. Além disso, a forte influência que fatores ambientais, como a luz solar, exercem sobre a pele, torna ainda mais impreciso o agrupamento das pessoas de acordo com sua coloração de pele a simples olho nu.

Apesar de Michael ser categorizado pela sociedade como um negro, é muito possível que cientificamente seu genótipo não faça jus a tal categoria, ou seja, é provável que Michael não seja negro puro, mas mestiço. Só para citar, Kendall Brown, trisavô materno de Michael, era branco, e July Gale, trisavô paterno, era índio. Portanto, é evidente a grande possibilidade de Michael não ter os genótipos AABB, correspondentes a negro puro. Levando-se isto em consideração, pela sua cor de pele natural bastante escura, é bem provável que cientificamente ele tenha genótipo para mulato-escuro, AaBB ou AABb. Note que a diferença genética entre negro e mulato-escuro está em apenas um gene, mas é essa relativamente sutil diferença genética que muda a possibilidade de geração de descendentes com determinado fenótipo de cor de pele.


Vejamos agora Debbie Rowe, uma mulher de pele muito clara. A raça de seus ancestrais é publicamente desconhecida, mas é evidente que, se não for branca pura, ela é geneticamente, pelo menos, mulata-clara. O fato é que ambos os fenótipos permitem a geração de filhos de pele tão clara como as de Prince I e Paris, contanto que o pai não tenha genótipo AABB, ou seja, para negro puro. Como já foi descrito, pela miscigenação dos ancestrais de Michael, é muito grande a possibilidade dele não ter tal genótipo, mas sim o de mulato-escuro.

Sendo assim, considerando que Debbie tem genótipo Aabb ou aaBb, para mulata-clara, e Michael genótipo AaBB ou AABb, para mulato-escuro, num cruzamento entre seus gametas, é de 25% a chance de seus filhos nascerem com genótipo de mulatos-claros, Aabb ou aaBb, como a mãe.

Já levando-se em conta que Debbie tenha genótipo aabb (branca pura), aumenta para 50% a chance de seus filhos nascerem com genótipo novamente Aabb ou aaBb, que caracteriza a coloração de pele tão clara quanto as de Prince I e Paris.

Vejamos isso.
Relembrando os genótipos:

Mulato-escuro: AaBB ou AABb
Mulato-claro: Aabb ou aaBb
Branco: aabb

Considerando a análise feita sobre as colorações de pele de Michael e Debbie, teríamos, então, as seguintes probabilidades da geração entre ambos de filhos de pele clara (mulatos-claros):


Michael (mulato-escuro) x Debbie (branca):
AaBB x aabb => 50% de chance de geração de um filho aaBb
ou
AABb x aabb => 50% de chance de geração de um filho Aabb


Michael (mulato-escuro) x Debbie (mulata-clara):
AaBB x aaBb => 25% de chance de geração de um filho aaBb
ou
AaBB x Aabb => 25% de chance de geração de um filho aaBb
ou
AABb x aaBb => 25% de chance de geração de um filho Aabb
ou
AABb x Aabb => 25% de chance de geração de um filho Aabb


Nestas considerações, pode-se dizer que Prince I e Paris obviamente não são brancos puros, de genótipo aabb. A cor clara da pele de ambos é resultado do genótipo para mulato-claros, Aabb ou aaBb, como foi mostrado. Entretanto, como popularmente todos aqueles que apresentam pele clara são definidos como "brancos", assim também os filhos de Michael são classificados. Ninguém dirá que eles são mulatos-claros, porque simplesmente não se usa esse termo popularmente. A grande percentagem dos brasileiros considerados "brancos", por exemplo, devido à miscigenação, não apresenta genótipo específico para branco, e sim para mulato-claro, mas este termo não é usual entre nós.

Sendo assim, Prince I e Paris são categorizados como brancos porque têm a pele bastante clara, mas ao categorizá-los assim, o público não está se referindo ao seu tipo específico de genótipo, apenas àquilo que aparentam ser externamente. Por isso que se diz popularmente que num cruzamento entre "brancos" e "negros" é possível que nasça um "branco". Isto não seria possível do ponto de vista genético (AABB x aabb nunca poderia gerar aabb), mas quando se leva em conta a linguagem e classificação usuais, a situação se inverte. É apenas uma questão de levar em conta ou a linguagem genética ou a popular.

Então podemos concluir que, por questões de cor de pele, é absolutamente possível que Prince I e Paris sejam filhos legítimos de Michael Jackson e Debbie Rowe. Se muitos não acreditam que Michael é de fato o pai biológico como afirma, é uma questão particular, porque está comprovado que, esteja ele falando ou não a verdade, geneticamente é totalmente capaz de ser o pai legítimo de seus dois filhos mais velhos.


Obs: Como a mãe do terceiro filho de Michael, Prince II, ou "Blanket", ainda é um mistério para o público, a possibilidade genética de Michael ser pai biológico da criança ficará, por enquanto, sem nossa análise.

Referência Bibliográfica:
AMABIS & MARTHO. Biologia das Populações: genética, evolução e ecologia. v. 3, ed. 1. Moderna : São Paulo, 1998.

Elísio Macamo disse...

obrigado pela informação josué. não entendo nada desta matéria. achei curioso o reparo do anónimo de que está prestes a fazer um deles. se for mulher, tudo bem, mas um homem? brincadeira...

Anónimo disse...

Sou Homem, Elísio, e acredito que o homem também desempenha um papel na concepção (fecundando o óvulo), talvez não tenha colocado bem em termos de quem gera o bebe dentro do seu corpo, que e natural que seja a mulher. Obrigado!

Anónimo disse...

Ola Elisio! mais uma vez,parece que este debate de Obama Mulato ou Obama negro ainda não acabou, vi recentemente algumas discussões nos jornais moçambicanos, por isso gostaria de reabrir este debate, se me permitir.......

Há uma questão muito importante que devemos analisar em relação aos defensores de que o Obama e mulato ou Obama e negro. Os primeiros, estou, a falar de moçambicanos, são racistas mulatos que querem-se orgulhar de finalmente ter alguém da sua cor no top do mundo, como se Obama algum dia tivesse dito que "sou mulato". Os segundos, também racistas, mas, negros cujas vitimas principais são os mulatos, querem anular as diferenças que existem entre aquilo que é designado negro nos EUA e negro em Moçambique, pensando que é a mesma coisa. Não é. Ser negro nos EUA não implica ter cor escura, pode-se ter pele clara cabelo liso e ser-se negro (com todas aquelas carcterísticas que atribuem ao mulato). (exemplos: Mariah Carey, Alicia Keys, Jordy Sparks, Chris Brown, Beyonce, Colin Powell, etc...) Mas a mesma pessoa entrando no nosso contexto (em Moçambique) já não é visto como negro, é visto como mulato ou branco. Aos racistas negros, gostaria de perguntar: assim que dizem que Obama é negro, porque não chamam todos o mulatos de moçambique de negros e acabamos com este ódio entre irmãos, da mesma mãe (negra) ou do mesmo pai (negro)?????. Pessoalmente sou visto como mulato, gostaria muito que, "americanamente" me vissem como negro, em Moçambique, porque nos "states" já sou como lil wayne, 2 Pac, 50 Cent, Will Smith, Opra Winfrey, Rice, etc....

Elísio Macamo disse...

primeiro anónimo: o meu reparo era apenas uma brincadeira de mau gosto. o que eu queria dizer é que uma mulher sabe muito bem que está prestes a fazer um filho "mulato". o homem confia...
segundo anónimo: as observações que faz são pertinentes. só posso repetir o que tenho vindo a dizer: precisamos de saber em que circunstâncias é que essas categorias se tornam relevantes. devemos também ter o cuidado de não levarmos esta discussão racial para muito longe do que deve ser a essência da discussão sobre obama: ele é acima de tudo americano com todos os defeitos e virtudes que aquele sistema político apresenta. essa discussão vai ser interessante. a discussão da côr da pele revela, infelizmente, que nós ainda temos muitos problemas a esse nível. abraços

Anónimo disse...

Desculpe meu mestre, o anonimo em causa e a mesma pessoa. Desculpa ainda por ter entrado neste debate pelo anonimato e que estive afastado dos debates intelectuais e acabei perdendo a senha do meu blogue. Mas de qualquer maneira concordo consigo, o debate sobre a cor da pele leva-nos sempre aos extremos, infelismente acabei entrando nesta onda. Abracos: Francisco C. Carvalho

Elísio Macamo disse...

olá francisco, nao creio que tenha entrado na onda dos extremos. a minha última frase queria simplesmente dizer que o facto de insistirmos nesse assunto e de o debatermos como o debatemso em moçambique significa que é real e importante para muitos de nós. o que podemos fazer, pelo menos do ponto de vista académico, é tentar encontrar um vocabulário que nos permita tirar a discussao desses extremos para um campo mais objectivo e neutro. é difícil, mas vale à pena tentar. e parabéns pelo que vem aí!