Regressando aos poucos
O novo ano já está entre nós ou nós estamos nele. Pouco importa. A preguiça de escrever, exacerbada por outras tarefas, mantém-se impávida e serena. Só hoje é que comecei a voltar ao convívio dos blogues e noto, com alívio, que não sou o único refém dessa preguiça. Prometo, contudo, regressar em pleno assim que tiver arrumado uma boa parte das coisas que me deixam amarrado.
Para começar por onde o ano terminou, pelo menos do meu ponto de vista e no contexto da discussão pública no nosso país, gostaria de lançar uma pergunta:
Quem é o mau da fita no conflito que opõe Israel à Palestina? Na verdade, são duas perguntas. A outra é: como deve ser isolado esse mau da fita para que haja, finalmente, uma solução?
Não são perguntas sinceras. São apenas uma provocação aos que acham que a compreensão de problemas se compadece com abordagens normativas. Mas a sério: o governo israelita ou o governo palestino? Sionistas (se é que existem) ou terroristas do Hamas (se é que existem)? Porque é que eles agem como agem? Porque ignoram a opinião pública internacional? De que é feita essa opinião pública internacional? Onde é que os adversários políticos encontram sustento interno para o que fazem e para a sua intransigência? Que uso fazem da história que fez (faz) o conflito? Porque é que isrealitas e palestinos escolhem democraticamente (e aparentemente sem coação) gente tão violenta?
E só para confundir os que entre nós instintivamente apoiam os mais fracos, independentemente da sua responsabilidade na situação em que se encontram: o que há de errado em que um governo democraticamente eleito como é o caso do governo israelita se proteja de ataques perpretados por um governo que não aceita o seu direito de existência? Mas antes que me acusem de parcialidade também pergunto: porque é que um governo que representa um povo que se sente historicamente prejudicado deve respeitar as normas de convivência proclamadas e assinadas por uma comunidade internacional que se está nas tintas para o sofrimento do seu povo?
Para responder a estas perguntas todas seria necessário começar a pensar seriamente longe de fórmulas simples e do aconchego de uma maioria fictícia. Seria, para falar com o Marquês de Condorcet, necessário começar a preferir a razão à eloquência, livros a oradores. E o coitado do Marquês escreveu isto no longíquo século XVIII numa França conturbada pelo fervor da revolução que transformou as preferências dos revolucionários e sua visão do mundo em dogma a colocar no lugar do clericalismo que tanto estimulara a sua própria luta. O Marquês de Condorcet escrevia estas linhas de celebração do pensamento em fuga, temendo pela sua vida às mãos de gente que queria negar aos demais o direito de se libertarem através da conquista da razão. Alguns deputados da Assembleia Nacional até exigiam que se pusesse fogo à Biblioteca Nacional por ela fomentar a desigualidade no conhecimento, um argumento curiosamente familiar no seio da nossa massa “crítica”.
Como podem ver, só me falta tempo para escrever e postar; mas vontade de polemizar e desestabilizar falsos consensos não me falta. Mas a questão está lançada: o que há de comum (ou não) entre Israel, Palestina, Mugabe...? os maus, claro, os maus e os bons.
12 comentários:
Hola Elidio
Recebi um coreo explicativo
sobre o conflito Israel VS Palestina. Gostaria de renvia-lo, se me permite. Me poderia facilitar um endereco electronico aonde enviar?
Obrigada
caro elísio,
boas entradas e desejo-te um ano prenhe de sucessos tanto na esfera pública como privada, e mais livros.
levantas tantas questões e todas elas difíceis, e acho que não têem respostas fáceis. o engraçado é que como muçulmano me tenho perguntado ultimamente porquê alio-me sempre ao lado dos palestinianos? ainda não tenho resposta, mas se conseguir responder a essa questão talvez possa começar a procurar formas para se acabar com o conflito. hei-de debruçar sobre as tuas questões ao longo do fim de semana. mas para já tenho que repescar o teu argumento e ir substituindo os nomes e situações: "Os receios de Israel são bem fundados pela experiência de violação dos seus direitos como humanos e pelo ataques palestinianos naquele país. Contudo, eles só podem abordar com seriedade o problema palestiniano/israelita se o colocarem no seu devido contexto do médio oriente. E aqui não ajuda o coro habitual de vozes a apresentar israel como vítima do lobo mau (hamas) e os defensores dos fracos como pessoas que pactua com esse lobo mau." já viu que é complicado?
Boas entradas Elisio e todos que por aqui passarem.
Eu sou dos que fervorosamente defendo a liberdade de povos disporem de si, tal como preconizado na Carta das NU sobre os Direitos Humanos. E a liberdade é um direito inalienável.
Se partir daí, e se Israel, EUA, Grã-Bretanha e todos aqueles estados que apoiaram o surgimento do estado de Israel nos fins da década de 1940 aceitarem este preceito, então restarão apenas pequenos problemas por resolver. O que complica a situação porém, não é o Hamas, nem o Hezbolah ou o estado Sírio ou Iraniano. O que complica a situação é o conjunto de interesses que os aliados de Israel e ele próprio querem ver salvaguardados no Médio Oriente, por um lado, e a própria efemeridade do Estado de Israel e a necesidade de se preservar como nação, por outro.
Por isso, não admire que o Hamas esteja alistado no caderno de ORGANIZAÇÕES TERRORISTAS dos EUA e que Israel faz bom uso disso. Por isso mesmo não pode estar representado nas NU e daí as respectivas consequências.
Os roquetes do Hamas matam, ferem e destroem. Por isso mesmo o estado Israelita deve se defender. Concordo. Mas, se formos a ver, saberemos que foi Israel que há muito tem imposto um bloqueio aos Gazenses (não do sul de Moçambique, mas da Palestina)dificultando-os a vida.
Como bem disse Machado da Graça na sua crónica de hoje, sou tb de opinião de que a Cisjordânia e Gaza se juntem. E isso é contra os interesses de Israel e seus aliados, que já andam com propostas de uma solução de dois estados (Cisjordânia e Faixa de Gaza)...
E, curioso nisso tudo é que à semelhança do Prof.Macamo, os EUA e os aliados de Israel estão sempre a TENTAR COMPREENDER A SITUAÇÃO DO MÉDIO ORIENTE PARA A BUSCA de SOLUÇÃO.
Gaza está sob ocupação de Israel há muito tempo. O território Palestiniano está dividido por culpa de Israel. E custa compreender que haja em pleno seculo XXI países colonialistas como Israel e Marrocos!
Estamos juntos.
olá maria, obrigado pela visita. o meu endereço é: elisio.macamo@uni-bayreuth.de. terei muito interesse em ler esse material. o que acha pessoalmente deste conflito? como acha que pode ser abordado?
caro bayano, depois de reler o meu texto reparei que há uma passagem que pode ser pouco clara. refiro-me à que faz duas perguntas sobre o direito de israel de se defender e o direito do hamas de desconfiar da comunidade internacional face à aparente indiferença desta ao sofrimento palestino. na tua caricatura devias colocar "hamas" e nao "israel", pois a referência é ao hamas como podes ver pela frase anterior que diz "para nao ser acusado de parcialidade". portanto, no texto nao me coloquei nem do lado de israel, nem do hamas. tentei apenas apresentar o problema em toda a sua normatividade para mostrar, como bem dizes, que a coisa é mesmo complicada. fazes, contudo, um reparo muitíssimo interessante quando perguntas se o facto de seres muçulmano te obriga a aliares-te aos palestinos. com esse reparo colocas o dedo na ferida da integridade intelectual na abordagem de problemas. a pergunta que deves fazer, para abordar este problema, é de saber o que precisarias de apurar para poderes formar uma opiniao. depois disso, vais poder decidir sobre os méritos da questao e, se em face deles, vais te manter solidário aos teus irmaos na fé. se os méritos da questao te disserem uma coisa e tu, por solidariedade religiosa, ignorares isso, entao estarás a cometer este pecado de integridade intelectual. estou interessado na tua reflexao durante o fim de semana!
caro egídio, um reparo para salvar a honra dos eua e aliados de israel. que eu saiba, os eua nao estao a tentar compreender a situaçao do médio oriente para a busca da soluçao. para eles, pelo menos para a administraçao actual, a situaçao é bem clara: israel tem o direito de defender a sua soberania, nem que isso implique a agressao. portanto, o prof. macamo nao está, pelo menos desta vez, na companhia dos americanos a tentar compreender a situaçao. está, como quase sempre, sozinho. os eua estao com o egídio vaz na sua convicçao de que o problema está claro! mas supondo, para ir com o teu argumento por alguns momentos, que de facto a situaçao esteja tao clara quanto tu a vês, nomeadamente conferir o direito de liberdade ao povo palestino e acabar com o colonialismo israelita, nao interessaria saber porque uma situaçao tao clara como essa mesmo assim nao é resolvida? a tua resposta é de que há um conjunto de interesses que bloqueiam a soluçao; muito bem. nao interessaria, entao, saber porque esses interesses existem, como podem ser contornados através de estratégias diferentes por parte dos palestinos e de outros membros (sem interesses) da comunidade internacional? e se for esse o caso, nao seria importante perceber a lógica de actuaçao dos intervenientes no conflito e ver até que ponto ela própria contribui para a escalada? a tua resposta é, naturalmente, de que nao há nada por perceber aqui, o único que deve ser feito é que os eua e outros aliados de israel cumpram com as normas internacionais que só "restarao pequenos problemas por resolver". essa é a posiçao dos eua que acham que o único a fazer aqui é que hamas respeite a soberania de israel. melhor demonstraçao da diferença de abordagens nao poderia haver. a abordagem normativa fica bem aos políticos, mas tem pouca utilidade analítica. e aqui só posso repetir, com ligeiras alteraçoes, a excelente caricatura feita pelo bayano: "os receios de hamas sao bem fundados pela experiencia de violaçao dos seus direitos como humanos e pelos ataques palestinos aquele país. contudo, eles só podem abordar com seriedade o problema se o colocarem no seu devido contexto histórico e regional. e aqui nao ajuda o coro habitual de vozes a apresentar hamas como vítima do lobo mau (israel) e os defensores dos fortes como pessoas que pactuam com esse lobo mau". nao li, infelizmente, o texto de machado da graça, mas pelo resumo que fazes fico com a impressao de se tratar de mais um exemplo de uma soluçao simplista alegremente alheia à complexidade do problema. o problema nao é se a soluçao é dois estados, mas sim porque os intervenientes nao atinam com essa soluçao. aí só ajuda a modéstia de dizer: nao percebo o problema. abraços
Sou solidaria com o povo palestino. Creio que o ataque de Israel (Potencia ocupante) sobre o povo palestino nao tem justificacao. È contra os direitos humanos, o estado Israel 'e Criminoso e vem expulsando os palestinos de suas terras.
O mundo nao devia tolerar tanta morte e destruicao, se trata de um conflito entre uma potencia e um povo . È uma vergonha o que esta acontecendo.
Creio que a comunidade internacional devia exigir que Israel se retire da franja de Gaza e respeite os direitos do povo palestino.
olá maria, obrigado pelo envio do documento. tomei a liberdade de o publicar para consumo de outros leitores do blogue. veja a minha mais recente postagem e o comentário que a acompanha. também sou solidário com o povo palestino e espero que a comunidade internacional seja coerente consigo própria. bom fim de semana!
caro elísio,
os últimos desenvolvimentos no médio oriente lembram-nos mais uma vez de que o actual status quo na região vai sempre estar presente entre nós até que os vários actores no conflito deixem os seus preconceitos à porta das salas de negociações e encontrem formas para pôr cobro às sucessivas crises.
as questões que levantas, diga-se muito provocantes, obrigaram-me a reflectir sobre, em primeiro lugar, a minha própria posição sobre o conflito e, em segundo lugar, e a de todos quantos estão preocupados com o conflito. devo confessar que a minha posição radica do facto de ser muçulmano (não sei se posso descrever isso como o facto social descrito por emile durkheim), e como sabes os muçulmanos sentem que têem uma ligação muito especial com a palestina. esta ligação não só resulta da irmandade religiosa com os palestinianos, mas mais importante é o facto de que é na palestina, concretamente jerusalém (al quds), que se encontra o terceiro local santo islâmico – os muçulmanos acreditam que foi da mesquita al aqsa que o profeta muhammad ascendeu aos céus onde recebeu de deus as ordens de instituir as cinco orações diárias, após ter viajado de noite de meca nas costas de uma criatura chamada al buraq.
talvez mais importante ainda, é o facto de vários versículos alcoránicos advertirem os muçulmanos da perfídia dos judeus. mas é necessário que essa advertência seja vista no seu devido contexto: os muçulmanos viam como os judeus de madina (para onde o profeta muhammad emigrara) conspiravam contra a comunidade religiosa nascente, e esses versículos de advertência devem ser entendidos nesse contexto. eu até posso entender como os judeus viam os seus interesses ameaçados pela coesão social da nova comunidade, que abolira as classes e instituíra um novo conceito de honra; o mais honrado passava a ser o mais piedoso, e obviamente isso alterava o status quo.
mais outros versículos alcoránicos dizem que os muçulmanos não podiam encontrar melhores aliados do que os povo do livro (cristãos e judeus), e me parece que tenha sido esse conselho que levou com que houvesse uma co-existência salutar entre muçulmanos, cristão e judeus durante os períodos áureos do islão. os historiadores hão-de estar lembrados de que maimonides, um dos grandes filósofo e intelectual judeu, viveu e deu largas à sua imaginação e intelecto durante a era em que os árabes dominavam a península ibérica no sec xiv. isso deveu-se largamente à cultura de tolerância e de liberdade existente em sociedades islâmicas do antanho.
o que parece ter mudado para que os dois povos semitas estejam hoje a degladiarem-se? existem duas narrativas: israelita e palestiniana. raramente essas narrativas convergem. como prometi este final de semana pûs-me a reflectir e a desafiar as minhas ideias pre-concebidas sobre o conflito no médio oriente. assim sendo, noto que a realidade sobre o conflito é em larga medidad definida através da narrativa israelita, que neste caso é a parte dominante – o senso comum dita que a história é escrita pelos vencedores. com o aparecimento de al-jazeera e a proliferação de websites dedicado à causa palestiniana, é possível começar-se a ter um equilíbrio. mas não quer dizer que o equilíbrio signifique qualidade, isenção e rigor. muitos desses sites produzem informação que é uma autêntica afronta à inteligência humana.
e reparo que quanto mais o conflito se agudiza, mais emoção do que a razão é utilizada para ajudar-nos a compreender a questão. pois bem, acho eu que devemos olhar para a problemática do conflito israel-palestina através de quatro perspectivas: demográfica, água, terra e económica - penso que qualquer debate visando chegar-se a uma solução deve ter em conta essas perspectivas; seja ele sobre um estado único ou dois estados (israelita e palestiniano).
“quem é o mau da fita no conflito que opõe israel à palestina? na verdade, são duas perguntas. a outra é: como deve ser isolado esse mau da fita para que haja, finalmente, uma solução?” acho que a primeira pergunta só pode produzir respostas do género o que saíu primeiro: se a galinha ou o ovo. na verdade, em si só a pergunta não pode ajudar-nos a compreender o conflito. a segunda também é problemática porque ao meu ver encerra a premissa de que isolando o mau da fita os problemas acabam, e nada me pareça sustentá-la.
de facto, concordo contigo que não é fácil e desta vez colocas a fasquia muito bem alta. bem, isso ainda é o começo.
abraços
caro bayano, fico contente por te ver de novo aqui. quem coloca a fasquia alto nao sou eu, mas os assuntos em si. daí a necessidade de uma postura crítica constante e consequente. concordo contigo que as minhas perguntas estao viciadas. na verdade, era isso que queria demonstrar. só quem decidiu que a guerra é a soluçao pode se permitir o luxo da diabolizaçao. quem nao quer enveredar por essa via tem que aceitar que os viloes nao sao apenas parte do problema, mas também da soluçao. isto é válido em todo o lado.
no teu comentário levantas uma questao muito interessante que eu gostaria de reflectir com algum pormenor aqui, pois trata-se de um problema que tem afectado a qualidade da discussao no nosso país. tu levantas um problema que em lógica se chama de argumento com base no compromisso. o exemplo que dás é excelente: um muçulmano de verdade tem que apoiar a causa palestina. esse argumento tem três elementos. 1. um indivíduo está comprometido com a posiçao x; 2. o compromisso com a posiçao x implica a concordância com uma posiçao y; 3. logo, se esse indivíduo nao quer ser acusado de incoerência tem que aceitar a posiçao y. no teu caso, podíamos traduzir a forma da seguinte maneira: 1. bayano diz que é muçulmano e já foi visto várias vezes na mesquita ou a defender posiçoes próximas do islao em debates públicos; 2. um muçulmano é solidário com outros muçulmanos pelo que 3. se bayano é mesmo muçulmano ele tem que apoiar os palestinos (variaçoes desta forma argumentativa abundam nos nossos debates: um moçambicano de verdade nao pode criticar o governo; um crítico do governo nao pode achar a revoluçao verde proclamada pelo presidente boa; um intelectual digno desse nome nao pode estar contra a diabolizaçao de mugabe, etc.).
há várias maneiras de contornar este problema. a primeira é simples. será mesmo verdade que o tipo de compromisso que tens com a posiçao x é idêntico ao que está implícito na posiçao geral definida por x? por exemplo, o tipo de islao que praticas, as tuas convicçoes políticas, etc. comprometem-te mesmo com todo e qualquer tipo de islao? a segunda maneira de contornares o problema é crucial: nao haverá excepçoes nos méritos da questao que te obriguem a reveres esse compromisso? por exemplo, que tal se os irmaos muçulmanos que és chamado a defender violam eles próprios os princípios do islao? como vês, a reflexao crítica que fizeres pode te obrigar até a impores critérios mais restrictos para o que deve ser chamado de muçulmano de modo a que nao seja instrumentalizado por gente sem escrúpulos. por via da reflexao críticas vais poder salvar os princípios da tua crença da incoerência e da instrumentalizaçao. o que é grave é ignorares os resultados da tua reflexao por um sentido mal colocado de solidariedade religiosa. é isto que temos que aprender a fazer nas nossas discussoes por aqui, isto é concentrarmos a nossa atençao nos méritos da questao e nao nos deixarmos influenciar por aqueles que fazem apenas apelo às nossas emoçoes. é difícil, mas é por isso que allah (blasfémia?) nos deu a cabeça que temos. grande abraço!
caro elísio,
são importantes as clarificações que dás. pessoalmente, já decidi que não vou com os caprichos dos líderes. recordo-me quando das caricaturas sobre muhammad: porque tomei uma posição contrária à turba que vandalizou os escritórios do jornal savana, fui violentado. a minha compreensão do islão é de que acima de tudo a razão deve sobrepor-se à emoção. há tanta evidência anecdotal sobre a necessidade de do ser humano ser crítico e racional tanto no alcorão como nos textos dos hadiths. acho que não foi por acaso que os primeiros muçulmanos incidentalmente despoletaram a idade da razão na europa.
essa mesma razão levou-me a condenar a atitude da indonêsia face aos timorenses, e me faz também condenar os monarcas dos tais chamados países islâmicos do médio oriente que acorrentam os seus povos em grilhões obscurantistas e privam-nos de muitas liberdades e direitos. não é por marocos ser um país dirigido por muçulmanos que vamos tolerar que negue um direito internacional constantemente reafirmado pelas nações unidas, ao privar o povo saharaui do seu direito à autodeterminação e independência.
o exemplo que dei era justamente para mostrar o porquê muitos muçulmanos assumem a posição que assumem sobre a causa palestiniana. muitos nem chegam a dar-se ao luxo de procurar saber o que está a acontecer, quais são as causas do conflito, o que se pode fazer para se encontrar uma solução justa, entre outros. as reacções dos muçulmanos acabam sendo reflexivas e não interessa se o irmão está certo ou errado. o profeta dizia: “ajude ao seu irmão seja ele o agressor ou agredido.” confusos os seus companheiros disseram que compreendiam porque ajudar ao agredido, mas o opressor? a sua resposta foi de que tinham que colocar suas mãos sobre as dele (impedi-lo de levar a cabo a agressão). costumo dizer que não sigo à nenhuma escola de pensamento islâmico justamente para evitar cair nas armadilhas montadas por gente sem escrúpulos.
mas voltando à vaca fria, quero me ater nas questões que levantaste: “... sionistas (se é que existem) ou terroristas do hamas (se é que existem)? porque é que eles agem como agem? porque ignoram a opinião pública internacional? de que é feita essa opinião pública internacional? onde é que os adversários políticos encontram sustento interno para o que fazem e para a sua intransigência? que uso fazem da história que fez (faz) o conflito? porque é que isrealitas e palestinos escolhem democraticamente (e aparentemente sem coação) gente tão violenta?”
acho que primeiro teríamos que definir o que é um sionista e quais são as suas características, e dentro desse quadro vermos se existem ou não. idem com os terroristas do hamas. e já agora, porquê é que nalguns casos os terroristas de hoje podem ser os heróis de amanhã? quem define quem é o terrorista? será que essa definição se adequa à realidade e aos factos no terreno? que factos são esses? de facto o termo comunidade internacional é difuso, mas já que os teoristas políticos têem as suas definições, vamos continuar a aceitá-las como são ou procuraremos expandir o conhecimento sobre elas até encontrarmos novas definições? enfim, são apenas algumas questões..
abraços
ps: não é blasfémia. tanto serve dizer deus, god, dieu, dio, xicuembo nkulukumba, gott, entre outros
caro bayano, mais tarde vou tirar um texto aqui a aprofundar estas questoes de compromisso. penso que fazes bem em teres uma atitude crítica em relaçao aos "líderes". o importante é nao deixar que sejam outros a definir o conteúdo das nossas crenças. as questoes que levantas sobre o conflito no médio oriente sao absolutamente centrais. penso, inclusivamente, que a complexidade do assunto tem muito a ver com a forma descuidada como certos conceitos sao usados. a desinformaçao também desempenha o seu papel. os palestinos sao vítimas de um sistema internacional viciado, mas na nossa abordagem do assunto precisamos de ser mais cuidados na distribuiçao de responsabilidades. a segurança de israel é tao importante quanto o respeito pelo direito de soberania dos palestinos.
caro elísio,
fico à espera do texto. concordo que a segurança de israel é tão importante quanto o respeito pelo direito de soberania dos palestinianos. mas uma pequena provacação: se as fronteiras de israel ainda não estão completamente definidas (ie, pré-1967 ou terrenos anexados subsequentemente), pode-se afirmar categoricamente que o hamas ameaça a segurança israelita? levanto isso como uma questão hipotética onde, eg, o hamas podia simplesmente dizer que está a fazer testes dos seus mísseis caseiros dentro do seu terreno (já que não existe israel mas sim palesitina). de facto, a situação é muita complexa. existe um mapa interactivo (http://opentopersuasion.com)onde os vários argumentos vão sendo colocados e mapeados). é uma ferramenta interessante.
abraços
ah, nao sei, bayano, nao sei. parto do princípio de que independentemente do estatuto legal existe uma percepçao sobre os efeitos das acçoes dos outros e que essa percepçao é que está na base das reacçoes. reconheço que a hipótese é um grande desafio. vi o mapa interactivo e achei-o interessante. pelo menos ajuda a mostrar a complexidade do assunto.
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