Da plausibilidade
Pelo interesse suscitado, continuo com a reflexão sobre a distância crítica. Desta feita, debruço-me sobre uma noção central à nossa capacidade de entendermos o que os outros nos dizem. Refiro-me à noção de plausibilidade. É um pouco difícil defini-la, mas diria que é algo que está ligado ao tipo de presunções que nós fazemos em relação ao que ouvimos quando não estamos em condições de verificar tudo tim-tim por tim-tim. Uma presunção é simplesmente uma suposição qualificada sobre a veracidade de uma afirmação que, do ponto de vista prático, pode ser considerada verdadeira na ausência de provas em contrário. Por exemplo, peguemos em algo que li no blogue do Júlio Muthisse sobre a morte de Todinho. Segundo o Júlio Muthisse, o jornal Escorpião diz que Todinho foi morto por comparsas seus e que a polícia assumiu a autoria simplesmente para melhorar a sua imagem pública. Podemos considerar esta afirmação do jornal plausível na ausência de outros elementos que poderiam mostrar o contrário. Aceitamos, portanto, a afirmação como sendo provisoriamente carta.
O nosso dia a dia está cheio deste tipo de argumentos. Eles obrigam-nos a usarmos o nosso senso-comum para decidirmos se vamos acreditar numa afirmação ou não. A base dessa crença (e desse senso-comum) é o que não fere o nosso sentido do que é normal. Sei que a coisa fica aqui um pouco complicada, porque o que é normal entre nós não é assim tão fácil de determinar. Eu diria, por exemplo, que se alguém me viesse dizer que viu uma pessoa a voar esse relato estaria a violar o meu sentido do que é normal. Sei, contudo, que para outras pessoas isso não violaria o seu sentido do que é normal. Não obstante, este é um caso que não precisa de nos deter por muito tempo, pois está mais relacionado com a questão da coexistência de várias referências ontológicas no nosso quotidiano. O importante é reconhecer o papel que o nosso senso-comum desempenha na determinação da plausibilidade de uma afirmação e, como exercício crítico, confrontar esse senso-comum.
Na verdade, os nossos problemas com a plausibilidade na esfera pública começam quando confiamos demasiado neste senso-comum. Se alguém nos diz que o ex-Ministro Manhenje foi detido em ligação com desvio de fundos no Ministério do Interior e o nosso senso-comum nos diz que os membros do governo são, por norma, corruptos, então concluimos que de facto o ex-Ministro desviou fundos do Ministério. Se alguém nos diz que Anibalzinho se escapuliu da cadeia e que “altas patentes” o ajudaram nesse empreendimento, então concluimos, com base no senso-comum que nos diz que as nossas “altas patentes” são capazes de tudo (ou estão envolvidas no crime), que as “altas patentes” tiraram Anibalzinho da cadeia. E várias outras coisas. Reparem que, em princípio, não é inconcebível que assim seja, mas no fundo a nossa única base de inferência é apenas o senso-comum. Portanto, argumentos plausíveis são frequentes, mas terrivelmente inseguros. Deixá-los ficar pela plausibilidade é o pior que podemos fazer no espírito da elevação da qualidade da nossa esfera pública.
No fundo, o que a plausibilidade nos diz é que precisamos de mais informação, pois um argumento plausível é um argumento provisório. Com mais informação, sobretudo informação que contraria a nossa afirmação, podemos talvez rever a nossa aceitação da conclusão. Vou ilustrar este desafio com um olhar de relance para um texto que caiu recentemente na minha caixa de correio através do Moçambique Online e que foi publicado no blogue do mesmo nome (aqui). Trata-se de uma carta aberta da autoria de Jorge de Oliveira, Secretário-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos e mestrado em ciências jurídicas pela Universidade Eduardo Mondlane conforme está assinada a carta. Ela é dirigida ao Reitor da Universidade Eduardo Mondlane posicionando-se contra a decisão da UEM de encurtar os cursos de graduação de cinco para três anos. Parece-me um bom exemplo dos desafios da plausibilidade. Podem baixar aqui o texto em PDF com os meus comentários de leitura. Vão reparar nesses comentários que, de novo, há muita informação em falta no texto em questão e que seria absolutamente necessária para que o leitor se considerasse em posição de conferir mais do que plausibilidade ao argumento. E para não ser mal entendido como pareceu ser o caso nas três análises anteriores, apresso-me a dizer que o problema do texto não está, num primeiro momento, no autor, mas sim no leitor que é a pessoa que está a ser convidada a reflectir sobre um assunto. O autor fez a sua parte, agora nós os outros somos chamados a fazermos a nossa parte. A questão aqui é de saber se estamos dispostos a fazer a nossa parte.
Uma acção precipitada?
O argumento de Jorge de Oliveira é simples. Ele diz que a decisão da UEM de encurtar a formação foi precipitada e devia ter sido antecidida de medidas visando melhorar todo o nosso sistema de ensino. Aqui e ali ele faz uso do nosso senso-comum para nos recordar que estamos perante um decisor que não liga à opinião de mais ninguém, uma instituição pública que normalmente toma decisões sem estudos profundos sobre o problema e um país que tem a tendência de apenas imitar os outros, independentemente das condições objectivas que temos no nosso país. Estas ideias tão centrais ao nosso senso-comum é que dão plausibilidade imediata ao texto. Muitos de nós vão ler o texto e vão acenar com reverência sem a mínima preocupação de entrar em discussão crítica com o seu próprio senso-comum, fonte de uma boa parte da plausibilidade do argumento apresentado. Como é evidente, considero esta atitude bastante problemática e, por sua vez, fonte não só das dificuldades que temos na esfera pública de abordar assuntos com a seriedade que eles exigem, mas também, em parte, das reticências dos nossos governantes em nos ouvirem.
Um primeiro aspecto que mereceria a nossa atenção é o uso do título “Padre” ao longo de todo o texto. A carta é dirigida ao Reitor da UEM e levanta problemas sérios que precisam de ser considerados por ele. Não me larga a suspeita de que o título “Padre” neste caso (e para alguém que, tanto quanto sei, não trabalha como padre, nem parece ter essa licença) tem uma função argumentativa, nomeadamente de pôr em causa as credenciais da pessoa que é alvo de crítica. Não insisto muito sobre este ponto, pois reconheço que possa estar enganado. Acho, contudo, estranho que o autor tenha preferido repetir “Padre Couto” e não escrever “Reitor Couto”, algo que estaria mais em consonância com a matéria tratada. Não é segredo que alguns académicos contestam a nomeação deste indivíduo (pessoalmente, continuo a achar que o reitor de uma universidade pública não devia ser indicado pelo Presidente da República), mas essa questão é, para o assunto em discussão, algo marginal pelo que teria dado mais força à carta aberta se tivesse primado por um tratamento mais adequado à pessoa visada.
O segundo aspecto tem a ver com toda a problemática da informação. A carta aberta sugere que a decisão tenha sido precipitada e socorre-se de exemplos anedóticos (“más línguas”, “80 por cento dos académicos estão contra”, etc.) para justificar essa conclusão. Mas o que significa “precipitação” neste caso concreto? Em que circunstâncias é que a decisão não teria sido precipitada sobretudo tomando em conta o facto de que o autor da carta aberta propõe, aparentemente, uma reforma completa de todo o sistema de ensino como condição de se estar em posição de tomar tamanha decisão? O que sabemos sobre a própria decisão? Como poderemos nos informar melhor sobre as condições em que ela foi tomada, sobre o trabalho que a precedeu e sobre as ideias nela contidas para determinarmos se ela foi de facto precipitada ou não? Sem a resposta a estas questões é difícil acompanhar o autor no seu argumento.
O terceiro aspecto diz respeito à contra-proposta que o autor faz. Na verdade, o argumento está montado no sentido de dizer que este não é o momento oportuno para a mudança. Para o efeito, é feito recurso a vários problemas do nosso ensino que exigiriam do leitor mais informação. A carta aberta sugere um quadro de perplexidade completa em relação à educação como se não houvesse praticamente nenhum trabalho de raiz sobre os desafios que se colocam ao sector. A situação será mesmo assim? O que se está a fazer ao nível da concepção política para melhorar a situação? Nada? Duvido. Que papel é que essas outras coisas que estão a acontecer desempenharam na fundamentação da decisão tomada pela UEM? Como podemos saber? Será que em face dessas outras coisas que foram feitas teríamos a mesma coragem de aconselhar a calma ou iríamos dizer que se pode avançar, mas com mais cautela ou alterações aqui e ali? Ou por outra, o que sabemos do problema que nos foi agora apresentado antes mesmo de partirmos para soluções alternativas?
Finalmente, uma questão que me parece extremamente importante é a de saber o que os peritos da educação dizem a este respeito. No nosso país há gente abalizada sobre a educação e com muita experiência na área. São eles de opinião que a decisão foi precipitada? Estão divididos na sua apreciação? Que argumentos é que eles apresentam para um e outro caso? Em que fóruns é que eles exprimem a sua opinião? Onde podemos consultar a sua opinião? A propósito dos peritos não me parece irrelevante sugerir que a carta aberta de Jorge de Oliveira teria tido mais força ainda se, na sua qualidade de Secretário Geral da AEMO, ele se tivesse debruçado sobre os possíveis efeitos da medida na área que é da sua competência imediata. Isto não quer dizer que ele não tenha autoridade para se pronunciar sobre outras matérias. Acho, contudo, que tratando uma matéria que lhe é mais próxima ele teria tido maior facilidade em apresentar factos ao invés das especulações inteligentes agora apresentadas.
Então, aí vai mais uma dica sobre como manter a distância crítica. Não está em causa a qualidade do texto de Jorge de Oliveira, nem as capacidades intelectuais do seu autor, muito menos a defesa de uma medida problemática. O que está em causa é a nossa responsabilidade crítica como leitores e membros da esfera pública. Estamos dispostos a entrar em confrontação com o que nos é dito ou não? De que maneira o podemos fazer? Batendo simplesmente palmas? Defendendo? Ou interrogando o nosso senso-comum, fonte da plausibilidade do argumento que nos é servido? Penso que a interrogação do nosso senso-comum é o caminho. Interrogamo-lo simplesmente procurando uma base de informação mais sólida.
2 comentários:
caro elísio,
os dois exemplos que colocas trazem ao de cima uma questão que sempre me fascinou, nomeadamente se muito de nós sabemos ler. acho que fazemos de conta que sabemos, mas o exercício que fazemos não chega a passar de uma mera leitura acrítica, que não procura questionar o texto para descobrir o que nos diz sobre o tema; o que não nos diz; qual é o ponto central que procura colocar; o que precisamos de saber para comreendermos o texto; o que nos intriga e porquê estamos intrigados; o que o texto questiona e se é válido; quais são os pontos fortes e fracos do mesmo; se existe uma mensagem; o que nos diz e como é comunicada; entre outros. eu também não me subtraio desse grupo, mas vou-me esforçando para alterar essa minha maneira de estar na esfera pública.
caro bayano, esse é um esforço que devemos empreender. o que torna a leitura difícil é a tendência de projectarmos os nossos valores no que lemos dos outros. isso complica as coisas. também estou neste processo de aprendizagem, esforçando-me sempre por perceber bem o argumento de alguém antes de o criticar. e criticar principalmente os pontos fortes do argumento, nao os fracos. nao chega o momento em que podemos dizer que já sabemos fazer isso. é um processo contínuo.
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