quinta-feira, abril 16, 2009

Afinal, infelizmente, a sociologia serve para alguma coisa!

O Chico

Na entrevista que o comandante geral da Polícia na cidade de Maputo, General José Wang Seng, concedeu ao semanário Savana, há uma passagem muito interessante. Ele responde a uma pergunta que parece ser sobre o perfil social dos criminosos e diz que ao contrário do que muitos pensam o crime não é só de pobres, mas também de gente afluente e formada. O exemplo que ele dá é de um criminoso chamado “Chico”; diz que o indivíduo é formado em sociologia e vive na Sommerschield. Fiquei gelado quando li essa passagem. Quem formou esse tipo? É uficsiano? É da escola mais para a esquerda que lhe obrigaria a fazer valer a sua formação roubando aos ricos para dar aos pobres, estilo Robin Hood ou Zeca Russo, ou é mais da sociologia da direita, do “está tudo bem” roubando para se integrar mais na burguesia? Fiquei curioso. Suponho que se é mesmo formado em sociologia há-de frequentar alguma blogosfera. Porque não nos fala – anonimamente, claro – das suas experiências por aqui?

Mas mais a sério agora: a afirmação do General levanta, de novo, questões muito interessantes sobre a concepção do crime na nossa sociedade bem como sobre o papel das ciências sociais. No Ministério do Interior já trabalham, tanto quanto sei, alguns sociólogos, e ainda bem que é assim. Ainda não consegui perceber em que função e que papel eles desempenham na elaboração de estratégias de combate ao crime. Não obstante, as circunstâncias particulares do nosso país – país em desenvolvimento, estado em formação, desigualidades sociais, clivagens regionais, étnicas e raciais, fragilidade de sistemas de autoridade, etc. – enfatizam a importância de conceber o crime na sua dimensão social. A concepção que tenho em mente não é a que é sugerida pelo próprio General, nem por algumas escolas de sociologia entre nós, nomeadamente de procurar entender o crime numa relação de causa-efeito – rouba-se, mata-se, assalta-se porque se está com fome – mas sim uma concepção que tem longa tradição na sociologia e que consiste em perceber como uma sociedade ela própria produz o crime.

Esta perspectiva de conceber o crime como algo que é produzido pela sociedade ajuda, num primeiro momento, a rebater o tipo de causalidades que gostamos de pressupor. Por exemplo, o facto de muitos criminosos serem de origem social, digamos, precária não documenta apenas a prioridade das desvantagens na motivação ao crime. Ele documenta também o procedimento selectivo da polícia ou a difícil relação que os órgãos de justiça têm com certos sectores da população. Assim, nas estatísticas do crime pesam mais, em termos quantitativos, os tipos de crimes cometidos por gente desse extracto; igualmente, membros desse extracto são mais propensos à investigação pela polícia do que quem está na Sommerschield e tem licenciatura em sociologia. Isto é, o crime que ganha visibilidade na nossa sociedade é o crime tornado visível pela acção da polícia dentro de um quadro normativo hostil a certos sectores da população. Ao mesmo tempo, porém, devido às tensões que são subjacentes à acção da polícia e de demais órgãos de ordem e segurança a detenção ou prisão pode constituir, num bom número de casos, o início de uma carreira de criminoso. Este último aspecto é importante para realçar a infelicidade do desabafo do General em relação ao que ele chamou de desonestidade de alguns juízes. A presunção de inocência pode servir também para impedir que algumas pessoas se iniciem no crime. Alguém cujo nome não vou escrever para não embaraça-la (é uma ela), iniciou um trabalho interessante de licenciatura em sociologia sobre jovens reclusos em prisões de Maputo. Infelizmente, ela não quer – ou não pode – terminar o trabalho. Seria muito interessante como um primeiro passo – ou segundo já que consta que existe um trabalho do politólogo Luís de Brito sobre a mesma temática – para sabermos mais sobre quem são os nossos criminosos e que tipo de carreira eles fazem.

Num segundo momento, a concepção do crime como algo que é produzido pela sociedade ajudaria a elaborar estratégias mais abrangentes que vão para além da repressão. O crime na cidade do Maputo é coisa séria e cada vez mais violento. E as formas de actuação da polícia não são alheias à escalada da violência. O grande problema é que até é muito difícil distinguir entre os bons e os maus. Eu tenho medo tanto da polícia quanto dos criminosos. Apesar do deslize em relação aos juízes, o comandante geral da polícia da cidade de Maputo transmite a impressão de um indivíduo sério, profissional e probo. A nossa polícia precisa de mais indivíduos como ele e, acima de tudo, indivíduos apostados em integrar a actividade policial dentro do esquema normal das coisas do quotidiano.

Abordar o crime na perspectiva sugerida pela ideia de que a sociedade é que o produz permitiria pensar o policiamento como algo que começa nas relações sociais mais elementares. E isto é um desafio sobretudo para a nossa sociedade que, provavelmente, tem ideias sobre o crime que se insinuam de forma bastante perigosa na actuação da polícia. Lembro-de falar há alguns anos na ACIPOL aos cadetes e de lhes propor que tentassem imaginar o crime como um problema de boas maneiras. Encontrei bastante eco nas suas reacções que me deram a entender que, por vezes, o obstáculo no combate mais social ao crime não é necessariamente a polícia, mas a sociedade que tem dificuldades em conceptualizar o crime.

O crime é, em última análise, um comentário violento sobre a nossa sociedade. Dito de outro modo, o Chico lá onde está de arma em punho, está a usar os recursos que a sociologia lhe dá para ler a nossa sociedade. O policiamento precisa de partir dessa leitura que ele faz da nossa sociedade.

7 comentários:

Baltazar disse...

Caro Professor, de facto a compreensão do fenómeno criminal exige que a sua leitura seja feita no quadro de uma problemática social, económica e política mas vasta, daí que conceber o crime como algo que é produzido pela sociedade seja de facto um dos caminhos para perceber a complexidade deste fenómeno.
Mas o que não deixa de ser preocupante, é o facto de que o crime que ganha visibilidade no contexto moçambicano seja o crime que é praticado por indivíduos de “origem social precária”, em detrimento do cometido pelos “White-Collar”, tal como descrito pelo criminalista e sociólogo americano Edwin Sutherland. Este tipo de crime geralmente não é de cunho violento e é praticado por indivíduos com um elevado status social, no âmbito do seu trabalho (isto é, onde o cabrito está amarado). Falo da actividade criminosa ligada ao desvio de “mola” por parte de profissionais burocráticos nas empresas públicas e não só. O grande desafio que se coloca é como combater esta “criminalidade latente” dentro das empresas públicas?
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Baltazar

Elísio Macamo disse...

caro baltazar, estou plenamente de acordo contigo. faz parte, infelizmente, da percepçao que temos do crime identificá-lo apenas com o tipo de coisas que sao feitas por certas camadas sociais. o alargamento da perspectiva deveria abarcar conceitos como honra, vergonha, propriedade e integridade. ou por outra, precisamos de perceber os contextos normativos dentro dos quais agimos e que servem de constrangimento ao que fazemos ou pensamos. portanto, eu nao reduziria o problema ao que acontece, por exemplo, nas empresas públicas, mas sim ao que acontece nos contextos mais restrictos e privados do quotidiano, pois é lá onde ganhamos uma ideia do que podemos ou nao fazer. abraços (esta noite passo por aí, mas continuo viagem amanha de manha)

Mendes Mutenda disse...

Oi Macamo, bom regresso depois de algum tempo sem nos brindar com analises dos problemas do país. Indo concretamente analise que faz da questão do crime, mas em particular a entrevista do comandante da policia da cidade de Maputo, onde diga-se que nesta urbe o crime é uma realidade. Nesta perspectiva gostaria de partilhar alguns dos seus pensamentos em torno disso e deste modo acrescentar algo, quando a situação do crime. No nosso país pelo incrível que parece acho que a intromissão de agentes da polícia no crime têm haver em larga medida da fome. Pode ser ridículo logo a primeira mas a questão é séria. Há agentes, e isso na precisa de muito por investigar, que andam a fazer patrulha na via pública exigindo Bilhetes de Identidade (BI), por via disso se encontram um cidadão que não possui este documento é de imediato complicado, mas com a finalidade ultima de o exigir refresco (dinheiro de refresco), e op que é isso dinheiro para refresco? É um valor entre 20 a 50 meticais, que nem chegam a dois dólares, feito isso o cidadão é deixado a liberdade, repetindo-se por várias vezes... eu acho que Elisio e outros sociólogos deviam trabalhar na disseminação de informação ou temas de moral para a nossa polícia, compreendo isso como questões sociais que motivam a “ “medigação” dos agentes da polícia. Levanto isso porque quem me garante que este tipo de policia ao encontrar um criminoso cheio de dinheiro podem o prende-lo para depois ir a barra do tribunal? Termino por aqui até bre!

Elísio Macamo disse...

caro mendes, infelizmente o regresso ainda nao é prolongado. voltarei a ficar ausente dentro de algumas horas e isso vai voltar a durar algum tempo. as condiçoes materiais sao importantes, mas creio ser igualmente importante perceber em que circunstâncias a "fome" pode levar alguém a exigir pagamentos ilícitos. este é um problema elementar da explicaçao em ciências sociais. nem todos os polícias com "fome" extorquem dinheiro, portanto quem sao os que fazem isso, quando o fazem, a quem e de que maneira?estas questoes precisam de ser reflectidas por todos nós. abraços

Bayano Valy disse...

caro elísio,
também ando ausente e sem ideias (dizia alguém que a pior dor é parir ideias) ou quando as tenho escrevo mas não acabo os textos. bem, é bom vê-lo cá. agora, esta é mais uma provocação – no bom sentido, claro. concordo com a tua abordagem sobre o assunto, sobretudo o apelo ou convite ao chico. num outro fórum quando da realização da conferência sobre a criminalidade teria sugerido que se devia convidar o danger man, dudú e quejandos (refiro-me apenas aos já cumpriram as suas penas) para fazerem uma abordagem sob o ponto de vista criminal. evidentemente que este não são representativos do espectro do fenómeno que assola moçambique, mas seria um começo. pois bem, a minha sugestão não encontrou eco. quem sabe os chicos de mundo passarão por aqui e deixarão ficar as suas opiniões?

amosse macamo disse...

“O crime é, em última análise, um comentário violento sobre a nossa sociedade. Dito de outro modo, o Chico lá onde está de arma em punho, está a usar os recursos que a sociologia lhe dá para ler a nossa sociedade. O policiamento precisa de partir dessa leitura que ele faz da nossa sociedade.”

Ai está professor, o bom criminoso estuda a sociedade em que se insere e maxime a acção da polícia e do investigador criminal.
Facto é que, a realidade criminosa é humana e por isso mesmo sensível até ao mais “ínfimo pormenor” e infelizmente o Chico com a sua sociologia, consegue ler a sociedade, as fraquezas da policia e inclusive conhece/lhe a neura.
Hoje, a Policia trabalha perturbada por pressões estatísticas e acredito até que as infelizes declarações do Weng, vem a propósito dessas pressões e ai está, quando a Polícia devia contrapor este sociólogo com um outro melhor que ele, vai ao cume da montanha, lavando as mãos como Pilatos e atirando culpas a quem sofre na verdade as consequências da sua inacção, porque falando, os juízes só soltam, porque a policia não fez o trabalho de investigação criminal que se pretendia. É que, a investigação criminal é contra pressões, porque exige e envolve toda uma acção de “pesquisa, de busca de elementos indiciadores, sua confrontação, análise, muitas vezes exterior e cansativo”, de recolha de sinais criminosos, e atento as várias pistas porque o Chico (estudado como é), pode largar uma só para desviar a investigação.
Ora, numa situação de pressão sobre a investigação criminal é impossível chegar a verdade, justamente porque a Policia corre, para satisfazer as mesmas estatísticas que o convencem de que o crime cresce a ritmo gritante e resultado: o juiz manda o suposto criminoso para casa.
E não deve valer, o argumento de que o suposto criminoso, é cadastrado, porque, quando presente ao juiz, olha/se para o caso em concreto, o que o leva a situação de suspeito, porque, o pior criminoso do mundo, não o é, enquanto não dirigir a sua acção ou omissão em sentido punido pela lei criminal.
O que a policia faz hoje, é perseguir os criminosos sem rosto, quando devia combater o crime e combater o crime significa muitas vezes, a presença física da policia, para desencorajar certas acções, porque uma acção de perseguição, faz com que a Policia não se concentre nos principais focos de criminalidade justamente porque incide a sua acção num determinado grupo, quando o crime é humano.
O que o Weng não sabe, é que é premiado todos dias pelos juízes que ele mesmo insulta, quando (feita uma real investigação criminal), levam os criminosos ao julgamento, uma situação de soltura devia preocupá/lo no sentido de questionar o que não fez para que um suposto criminoso não fosse levado ao julgamento.
E ainda bem que o Weng sabe que o criminoso é um sociólogo, meio caminho andado porque fácil de arranjar um antídoto: outro sociólogo, só que ao serviço do bem.
Hei, estou a falar muito…chega….

Elísio Macamo disse...

meus caros, desculpem-me o silêncio. andei toda a semana passada longe do blogue. bayano, como podes imaginar estou contigo quanto à necessidade de pôr esse pessoal a falar. penso que esse é um desafio metodológico aos cientistas sociais. mpoyombo, modéstia à parte, um nhlavi nunca fala muito... mas em suma é isso mesmo: o antídoto é um sociologo ao serviço do bem. agora, onde encontrar esse sociólogo é outra questao... abraços!