Estive ausente do blogue por razões profissionais. Vou prosseguir com textos de âmbito sociológico assim que puder. Por enquanto, deixo registada aqui a minha estupefação perante aspectos da nossa cultura de debate.
Um elogio ao status quo
Soube, através do blogue do Patrício Langa, de um texto (sigam o elo indicado pelo P. Langa) de Machado da Graça a reflectir sobre uma polémica na blogosfera moçambicana que foi objecto de reportagem no semanário Savana. O Patrício Langa chamou atenção para o facto de uma das posições nessa reportagem não corresponder ao que foi o conteúdo dos textos que foram objecto dessa mesma reportagem. Tal como Patrício Langa fiquei decepcionado com Machado da Graça, um dos nossos melhores jornalistas e observadores políticos, pelo facto de não ter tido o cuidado de verificar, na fonte, o que alguns de nós realmente escrevemos. Eu já dei essa discussão por encerrada, mas por respeito pelo Machado da Graça e por várias outras pessoas que participam nestas discussões com integridade e honestidade, abro um parêntesis para chamar a atenção para uma outra passagem problemática no seu texto e que justifica, no fundo, o que alguns de nós têm vindo a escrever.
A dado passo do seu texto, Machado da Graça escreve “[N]ão me parece que os nossos distintos académicos estejam a analisar a nossa sociedade para perceberem a razão de ela ter produzido um Azagaia. Isso não parece interessar-lhes”. Publiquei o texto sobre o “desabafo” no jornal Notícias há vários meses. Publiquei uma versão ligeiramente diferente aqui no blogue também. Nesse texto procuro fazer o que Machado da Graça acha que alguns participantes no debate não fazem, nomeadamente entender porque surgem fenómenos como o Azagaia. Repeti essa passagem por inteiro aqui. O texto do Savana contém um longo parágrafo com essa tentativa de compreensão. Eis uma parte do que escrevi:
Os músicos que desabafam não têm culpa. Eles estão a reagir a uma cultura política profundamente enraizada entre nós e que começou já logo depois da independência a hipotecar o futuro do País. Esta cultura política ficou mais virulenta nos últimos dois anos e tem a sua manifestação mais clara nos pronunciamentos públicos de alguns veteranos – Marcelino dos Santos e Mariano Matsinhe – contra o espírito democrático e, pior do que isso, na ausência de um distanciamento público por parte do Presidente da República e da liderança do partido em relação a esses pronunciamentos. Num momento em que a democracia precisa tanto de socorro, ninguém com o dever directo de a proteger aparece em sua defesa. Não é fácil criticar publicamente “companheiros de luta”, pior ainda quando essa crítica pode constituir trunfo para os adversários políticos (ênfase adicional).
E prossegui com uma tentativa de análise que, evidentemente, não deve ter feito nenhum sentido para o Machado da Graça. A culpa é toda minha, naturalmente, pois tenho que ser claro no que escrevo. Contudo, se não sou claro e, portanto, não sou entendido, não posso ser criticado. Só posso ser criticado pelo que eu disse e foi entendido por outros. Não entender e, mesmo assim, criticar é, no mínimo, estranho. Eu acho estranha esta cultura de debate. Se a defesa do “status quo” implica insistir na representação correcta dos pontos de vista diferentes, a crítica a esses pontos de vista (e não à sua caricatura) e o apelo para que a plausibilidade dos argumentos que apresentamos em público não seja avaliada em função do nosso posicionamento pessoal e ideológico, então, confesso que não vejo mal nenhum em defender o status quo. Eu declaro-me abertamente a favor deste status quo. Se o status quo implica a defesa acrítica dos detentores do poder no nosso país, aí só posso apelar para maior cuidado na leitura do que escrevo, começando pelo excerto acima reproduzido. E honestidade.
Anuncio, então, com toda a solenidade que vou iniciar uma nova rubrica no blogue. Vou pegar na sugestão feita por Machado da Graça em relação ao nome de “escudo” e dedicar um espaço próprio à interpelação crítica de atentados à integridade intelectual (como, por exemplo, criticar caricaturas de argumentos). Para ser original, dou o nome de Xithlangu (escudo em Tsonga) à rubrica.
2 comentários:
É uma pena que o espaço de debate que se está a (tentar) criar em Moçambique por este e outros meios resvale para um nível que já supunha não poder existir.
Não sei porquê, algumas reacções não mer surpreendem. De tempos em tempos a nossa esfera de debate nos brinda com situações deste género: leituras distorcidas das ideias dos outros e tentativa de ridicularizar o "oponente" do momento.
Há 6 ou 7 anos discutíamos estas mesmas coisas: honestidade na leitura dos escritos dos outros. Esperava que a esta altura estivessemos todos MADUROS. Este episódio faz me lembrar as reacções a um texto com o título "Os Amurralhados Raciais" ou as reacções à minha interpelação à visão de um certo escriba sobre os nossos heróis em setembro/outubro de 2003 se a memória não me falha.
Refiro-me a estes episódios com tristeza porque esperava, de verdade, que já fóssemos todos capazes de discutir ideias com o mínimo de honestidade.
Acredito que para muita gente honesta que anda nestes blogs, estes episódios servirão de um renovar de forças por um debate aberto e construtivo que beneficie a todos.
Bem haja uma blogosfera honesta sem insultos. Um abraço ao Elísio e ao Patrício (este brindado com os mais vis insultos que alguma vez vi num debate de ideias).
obrigado, júlio. é como dizes: o importante é que gente honesta que anda pelos blogues se comprometa ainda mais com o debate aberto e construtivo que beneficie a todos. é isso mesmo. não se trata de alinhar com este ou aquele. trata-se de alinhar com o debate responsável de ideias.
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