sexta-feira, maio 19, 2006

Modo de usar

Caros colegas,

Aprecio bastante o empenho com que alguns de nós têm enriquecido este espaço com textos interessantes sobre as coisas que mexem connosco. Isso é muito bom. Alguns textos, contudo, são interpelações a outros textos - o que é bom - e, por isso, se calhar ficavam melhor comentados no espaço reservado para esse efeito. Às vezes o argumento assenta melhor quando é curto!

Gostava de voltar a explicar como usar este espaço. Aceito textos originais sobre todo o tipo de assunto que esteja relacionado com a nossa profissão. Esses textos têm que ser curtos, isto é no máximo duas páginas. Quem quiser escrever textos mais longos deve os publicar noutro lugar, por exemplo na Revista Internacional de Sociologia. Aceito também textos que comentem um texto publicado aqui anteriormente. Queria, contudo, pedir que esses textos fossem para além do texto comentado e trouxessem ideias novas. Se o texto é apenas para dizer que o outro não tem razão, metam isso no espaço reservado aos comentários.

Cada texto aqui publicado contém um espaço para comentários. Têm que entrar nesse espaço. Escrevam o nome do utente e senha - se ainda não estiverem registados como utentes de algum blog terão que o fazer antes de poderem comentar seja o que for. Para evitar mensagens sobre pénis longos ou viagra introduzi - que palavra depois das duas anteriores! - um filtro que consiste em reconhecer algumas letras. Acho que é simples, muito mais fácil do que escrever um trabalho de fim de curso!
Elísio Macamo

quarta-feira, abril 19, 2006

Carlos Serra "blogou-se"!!!

Isto está a animar! Carlos Serra acaba de se "blogar". Visitem-no no seguinte endereço: www.oficinadesociologia.blogspot.com. Aquilo é uma lufada de ar fresco, visitem-no com tempo, pois vão ficar presos à leitura. E o mais importante na filosofia do seu "blog" - por pouco escrevia "mission statement" ou visão (ah, a projectice...) - é que ele promete também criar problemas. Hurra!!!

terça-feira, março 21, 2006

Um apelo aos intelectuais

A Rehana Capurchande salvou a honra "ufcsiana"! Afinal estão atentos à página... Neste texto ela convida-nos a repensar o papel do intelectual no combate à pobreza.

Papel das elites intelectuais no combate à pobreza

Por Rehana Capurchande

A razão que me leva a debruçar-me sobre este assunto prende-se, por um lado, à existência de novos discursos políticos em Moçambique de combate à pobreza absoluta - ou melhor dizendo, os velhos discursos de combate à pobreza - e, por outro lado, ao papel que as elite intelectuais podem desempenhar nesse contexto.

Em Moçambique, em particular na cidade de Maputo, onde a pobreza urbana tem assumido características marcantes, assistimos frequentemente ao acto de mendigar sobretudo às sextas- feiras, na sua maioria, por parte de idosos e crianças em situação vulneràvel. Este fenómeno tem trazido debates e provocado tensões na nossa sociedade envolvendo as instituições oficiais, por um lado, e a sociedade civil, por outro lado.

Entretanto, esta mendicidade que se observa também noutras grandes cidades do país, pode ser sintomàtica da falta de seriedade no combate à pobreza de que tanto se falou e se tem vindo a falar nos novos e velhos discursos políticos.

No âmbito da estratégia de redução dos níveis de pobreza absoluta, o Governo estabeleceu uma Rede Formal de Protecção Social com vista a assegurar a sobrevivência de grupos sociais mais vulneràveis e aliviar a pobreza absoluta. Por ironia, não se sabe na pràtica quem é pobre ou não. Os verdadeiros pobres não estão a beneficiar da assistência, o que mostra que não se està a levar a sério o combate à pobreza nem reconhecido e resolvido o problema da pobreza. Ou talvez seja uma questão estratégica: tornà-los visíveis como forma de justificar a “necessidade de combater a pobreza”. Necessidade esta apenas em termos teóricos.

Pois, o problema do combate à pobreza não reside necessariamente, a título de exemplo, na capacidade de se ver aliviado de uma dívida, embora esta possa contribuir. Serà que as políticas públicas existentes vão de encontro às reais necessidades nacionais?. É aqui onde reside o maior problema: política governativa em prol do desenvolvimento nacional do país.

Se reflectirmos a maneira como esta tem vindo a ser implementada, desde a grande caravana da corrupção que atinge proporções cada vez mais alarmantes, do uso inadequado do capital pelo Estado transformado em património pelas elites em benefício delas próprias, enquanto o povo se submete à rede de clientilismo para ter acesso à distribuição de serviços e emprego. Este modelo de atitude e de comportamento leva à falta de credibilidade nas instituições representativas do Estado.

É necessàrio passar dos discursos que o novo Governo tem vindo a difundir às próprias pràticas reais. As nossas elites têm que ter vontade e iniciativa empreendedora para combater os problemas nacionais.

Ora, o que significa realmente combater a pobreza? Nossas constatações levam-nos a crer que o significado do combate à pobreza absoluta nos remete para o apelo à responsabilidade política e ao papel e vontade das elites intelectuais na formulação de problemas que visam à erradicação da pobreza absoluta. Como refere o sociólogo Simmel, a pobreza é sinónimo de falta de responsabilidade política. A pobreza absoluta e a mendicidade podem ser formas de chamada de atenção para o papel que os nossos governantes têm de desempenhar. Mas há quem poderia questionar: serà que para erradicarmos a pobreza só necessitamos de formular problemas? Pois, ao invés de nos preocuparmos primeiro em soluções poderíamos começar por colocar a seguinte questão: haverà uma estratégia sobre a qual os nossos governantes se apoiam para combater a pobreza? Em que ela consiste? Analisando esta questão, podemos chegar à conclusão de que no fundo, quando muito, o que existe é uma táctica. Uma táctica onde as opções estratégicas para a maximização dos rendimentos são deixadas ao critério do mercado. Mas não uma estratégia. Isto porque reduzir ou combater a pobreza não deve ser um objectivo em si, mas sim, um resultado. Uma elite intelectual mais atenta ao jogo e estratégias das forças externas é capaz de formular problemas que possam resultar em estratégias. Esperar que os problemas sejam formulados pelos consultores externos seria uma ilusão. Pois as questões formuladas por estes consultores têm um fim estratégico que é procurar convencer ao mundo das suas “boas intenções” em relação aos países pobres. E, lá vai o círculo se reproduzindo com todos os condicionalismos impostos como forma de produzir e reproduzir a pobreza.

Portanto, cabe às elites intelectuais questionar, a título de exemplo, que políticas internas existem em prol do desenvolvimento? Serà que os mecanismos de redistribuição da riqueza estão sendo equitativos? E muito mais questões que penso que através deste espaço, que é de todos nós, poderiam ser levantadas. Pois o desenvolvimento resulta da capacidade de formulação de questões centrais ligadas a esse processo. Entretanto, a história tem nos mostrado a inadequação dos problemas formulados pelos consultores internacionais e os efeitos perversos de modelos importados. O desafio é, portanto, ao nível interno. Caso contràrio, seremos para sempre os “condenados da terra” referidos por Fanon.

sábado, março 11, 2006

O "Pai nosso..." dos sociólogos moçambicanos!

O Carlos Serra faz-nos a honra de colocar este brilhante decálogo do cientista social no nosso "blog". Aconselho a todos a imprimir, colocar numa moldura e pendurar na sua sala de estar. Vale à pena! Quem ainda não leu o livro "combates pela mentalidade sociológica" deve o fazer quanto antes. É importante!

Roteiro de um decálogo do cientista social

Por Carlos Serra

Cada um de nós é o exercício diário do que vou chamar duplo constrangimento; por um lado somos o produto de hábitos, quer dizer, de normas de comportamento (aí incluídos os prejuízos[1]) interiorizadas e sedimentadas nos processos de socialização por que passamos ao longo da vida (família, escola, grupos de pertença, de referência, etc.[2]); por outro, somos a desconstrução (ou a sua pretensão) das diferentes sedimentações, somos ou tentamos ser a inovação, somos ou tentamos ser o desvio, a marginalidade. As sedimentações dos hábitos são a nossa carta de referência, o nosso refúgio, a nossa protecção psicológica; pelo contrário, a desconstrução é a novidade, é o jogo, é a apetência, o reajuste, o romper das fronteiras. Estudai-vos e estudai os outros com atenção: encontrareis essa permanente tensão. É nessa tensão e com a consciência dela que, se quisermos fazer da investigação social uma constante da nossa vida, devemos procurar romper com tudo aquilo que tolhe o que uns chamam verdade e eu, aproximação ao real.

O que se segue tem a estrutura de um semáforo: sugere-vos que pareis ou passeis em determinados momentos da vossa actividade como investigadores. Tem, também, o espírito da predicação. A vós a escolha.

Evitai:

1. Confundir evidência com ciência. Se vos dizem, por exemplo, que muitos camponeses vêm para a cidade porque são atraídos por ela ou se encontrais escrito que os Moçambicanos são «fundamentalmente tradicionais» (elegante forma de os retirar da história), duvidai e investigai.

2. Confundir imaginação com investigação. Se vos dizem que os homens batem nas mulheres porque são «maus» ou que as mulheres são levianas porque lhes está «no sangue» sê-lo, duvidai e investigai. Se vos dizem que um ponto de vista é uma investigação, que uma investigação dispensa teoria ou que uma teoria dispensa comprovação, duvidai e investigai.

3. Confundir juízo de valor com juízo de facto. «Ele bebe uma cerveja» é um juízo de facto; «esta cerveja é boa» é um juízo de valor. Se encontrarem uma «análise científica» que faça passar juízos de valor por juízos de facto, duvidai e investigai.

4. Confundir investigação com filosofia. Não compete ao cientista social investigar, por exemplo, qual «a finalidade da vida na cidade de Maputo». Também dará ele um mau exemplo se esquecer que os homens[3] não são os «Os homens» ou «Os Homens em Geral» ou «A natureza Humana», mas que são «reais», que vivem numa dada época histórica, em determinadas condições sociais, em percursos de assimetria social precisos, que trabalham, que lutam, que sofrem ou se alegram e morrem, que precisam de se alimentar, de se alojar, de cuidar da família, de ter tratamento médico, de se sentirem compreendidos e protegidos, etc. Se vos dizem que é de forma diferente que as coisas devem ser, duvidai e investigai.

5. Confundir ciência com prejuízo ou com julgamento estereotipado. Se vos dizem que «os Manhambane são desprezíveis porque é assim mesmo» ou que «esta gente do Norte é atrasada» ou se lêem que «os funcionários do sector X atendem mal o público porque são malcriados», duvidai e investigai.

6. Confundir ciência com axiologia. Compete ao cientista social investigar, por exemplo, qual a relação entre o abandono de fetos nas latas de lixo e as condições sociais em que vivem as mães. Mas não lhe compete transformar essa investigação num receituário de preceitos morais, não lhe compete trabalhar para os «fins», subordinar a investigação aos «fins últimos e nobres». Não se deve fazer uma investigação sobre etnicidade, por exemplo, para saber se ela é «boa», mas para saber o que ela é ou foi. Não é do foro do cientista investigar o que uma coisa deve ser, mas o que ela é ou foi. Aos moralistas o que é dos moralistas, aos cientistas sociais o que é dos cientistas sociais. Se vos tentarem convencer do contrário, duvidai e investigai.

7. Confundir ciência com «magia». Sempre que vemos nas coisas e nos fenómenos essências inamovíveis, processos «naturalizados» e absolutos auto determinados, estamos perante um sistema cognitivo «mágico». Perguntas do género «que é isto?», apelam para respostas «mágicas» do género «isto é...», para respostas que «fixam» as coisas, que lhes extraem o movimento, que as dotam de um auto poder inalterável. Também, o actor X não está doente porque um mau espírito actua nele; não há um «espírito do vinho» no vinho. Não vos admireis de que pessoas e coisas mudem, porque se vos admirardes estareis a admitir que as essências existem e não mudam[4]. Se quiserdes ser cientistas sociais, rompei com a veneração para com supostos portadores da essência do «sagrado»

(textos, ditos, dogmas, fenómenos, indivíduos). Deveis partir da hipótese de que tudo está em relação e em movimento, de que tudo é mutável na história que os homens constroem e nas circunstâncias e nos limites que são os deles. Se vos disserem que é não é assim que as coisas devem ser, duvidai e investigai.

8. Confundir compreensão com assimilação. Compreender outrem não é assimilá-lo ao que somos, aos valores de que somos portadores, à nossa identidade. É «metermo-nos» nele, é tentarmos «ser» ele como propuseram Simmel e Weber. E, como escreveu Jean Pouillon, esse outrem também é humano não na, mas apesar da diferença. A diferença não é a máscara de uma semelhança, a sua «ideologia», a sua imagem invertida de «câmara escura». A alteridade não é uma barreira, mas uma relação. Mas pode tornar-se numa barreira se formos «assimilacionistas». Se vos tentarem persuadir do contrário, duvidai e investigai.

9. Confundir ciência com neutralidade cognitiva ou axiológica. Na verdade, nenhum cientista está imune aos «erros», aos juízos de valor, aos prejuízos. Não é possível, perante os fenómenos sociais, ter o mesmo rigor, a mesma frieza, a mesma distanciação que temos ou podemos ter face aos fenómenos naturais. Se estivermos conscientes disso, será mais fácil reduzir o impacto dos nossos capitais prenocionais e dos nossos engajamentos extra cognitivos. Se vos disserem o contrário, duvidai e investigai.

Mas:

10. Não confundais jamais ciência com abdicação social. Se um dia vos for necessário tomar partido face a qualquer coisa que seja criminosa, que ponha em causa o respeito que tendes por vós próprios e o respeito que a humanidade e as diferenças humanas certamente vos merecem, então tomai posição firme. Então não duvidai nem investigai. Sejai !



[1]Julgamentos estereotipados interiorizados. Lembrai-vos, a propósito, dos idola de Bacon e dos comentários de Durkheim.

[2]Um grupo de pertença é o grupo social do actor; um grupo de referência é o grupo social pelo qual o actor pauta ou ajusta o seu comportamento e a sua opinião.

[3]Sei quão perturbadora pode ser esta expressão masculinizada. Mas eu refiro-me aos homens e às mulheres. Assiste a estas, porém, o direito de se perguntarem por que razão se não diz, por exemplo, «os homens e as mulheres» ou por que razão se não diz «as mulheres e os homens». Mas não só nem principalmente, claro, dizer: mas fazer.

[4]Reparai nestes dois exemplos: o actor X era conhecido por beber em excesso. Cada um de nós aprendeu a formar dele um «quadro psicológico» fixo, o de alcoólico. Mas suponhamos que um dia ele deixou de beber: teremos, então, dificuldade em formar um novo quadro dele porque já não é «ele», porque nos tínhamos «definitivamente» convencido de que «ele» era aquele tipo comportamental anterior, aquela «essência» imutável ligada ao álcool. Segundo exemplo: muitas pessoas têm dificuldade em aceitar quer que os quadros da RENAMO acreditam na democracia, quer que a FRELIMO já não seja marxista. Para muitos, a RENAMO é o conjunto «essencial» e imutável dos «bandidos armados» e a FRELIMO, o conjunto «essencial» e imutável dos «marxistas».