Esta é a última postagem sobre este assunto. Lamentavelmente, talvez por causa da forma errática como fui fazendo as postagens, houve pouco - ou nenhum - diálogo. Nem mesmo de quem me interpelou a este respeito... devem estar a tomar notas! Bom proveito.
Consultorias (f) – relatório final.
Muitos de nós, infelizmente, escrevemos mal. Muito mal. Não tenho nenhuma vergonha em dizer isto porque é um problema real. Tenho usado todas as oportunidades que tenho para chamar a atenção de todos os estudantes de sociologia que cruzam comigo para este problema. Há trabalhos escritos por estudantes de sociologia cuja qualidade linguística é arrepiante. Agora, é verdade que em Moçambique há muitos problemas; o ensino primário e secundário é deficiente. Os professores não são sempre os melhores; não há materiais; não há livros para as pessoas se acostumarem à palavra escrita; enfim, vivemos num contexto multi-lingue que nem sempre constitui uma vantagem. Toda a gente sabe isso e compreende também as dificuldades. Só que trabalho de qualidade é trabalho de qualidade. Quem quer realmente fazer trabalho de qualidade tem que se preocupar em superar as suas próprias lacunas. Desculpas não nos levam longe.
Por muito bem feita que for uma consultoria, se a pessoa que a fez não for capaz de produzir um relatório final legível, estamos mal. Corre o risco de deitar por água abaixo todos os ganhos feitos. O relatório final é a cereja no bolo e ao mesmo tempo uma espécie de recomendação. É a cereja porque é o lugar onde o consultor mostra tudo quanto fez. É a coroação, por assim dizer. É também uma recomendação porque é com base na plausibilidade e legibilidade do relatório que os que encomendam consultorias se sentem encorajados a voltar a depositar confiança no consultor. O relatório final é, talvez, o elemento mais crucial de toda uma consultoria.
Escusado é dizer que a pontualidade na redação e entrega deste documento constitui trunfo. Os maus hábitos da faculdade não servem: os computadores estavam ocupados; tive malária; faleceu o tio mais novo da irmã mais velha do padrinho de casamento do meu colega de serviço, etc. Isso não vai impressionar ninguém. Antes pelo contrário, só vai predispor negativamente em relação à toda a profissão de sociólogos. Isto não quer dizer que imprevistos não surjam. Infelizmente, a vida contém dessas coisas. Mas quando é assim, a obrigação do consultor é de entrar em contacto com os seus patrões e explicar a nova situação e propor novas datas realísticas. Ficar silencioso como muitos fazem com os seus trabalhos de fim de curso não ajuda, com a agravante de que se corre o risco de se não ser pago por violação do disposto no contracto.
Passemos para o menos importante. O que deve conter um relatório final? O relatório final deve conter uma exposição clara e concisa do trabalho que foi feito bem como a resposta à pergunta colocada nos termos de referência. O consultor deve indicar que informação achou necessário recolher, porquê e como o fez. Inevitávelmente, terá havido dificuldades e imprevistos na realização desse trabalho. Isso tem que ser integrado no relatório. Aqui também é preciso ter a coragem de abandonar os maus hábitos da faculdade. Não é aconselhável dizer apenas que não foi possível falar com toda a gente com a qual teria sido necessário falar; não é bom dizer apenas que algumas bibliotecas estavam fechadas; não é útil dizer que não foi possível ir ao distrito de Mopeia porque as chuvas bloquearam os acessos. Isso na faculdade ainda funciona, mas num relatório final é a receita certa para nunca mais ser convidado a fazer seja o que for. É preciso apresentar dificuldades de forma inteligente. Como é que foi contornado o problema? Como se fez para se compensar a falta da informação que devia ter sido obtida pela via falhada? Qual é o grau de fiabilidade da informação obtida por outros meios? Se o consultor tem a consciência de que as alternativas não foram tão boas, tem que o dizer. O importante quando produzimos conhecimento não é sempre reproduzir a “verdade”, mas sim a transparência do processo de obtenção da informação. É sempre mais aconselhável dizer às pessoas honestamente o que vale a informação que lhes está a ser facultada, do que ficar silencioso à espera de que ninguém note. Isso é desonesto. E faz mal à sociologia.
O consultor deve reflectir sobre o processo de recolha de material e apresentar isso aos que encomendaram o trabalho como uma lição aprendida. As instituições querem sempre aprender. Quando encomendam consultorias estão, no fundo, a participar, ainda que indirectamente, no processo de criação de um espaço público de discussão e debate de ideias. Reflectir sobre a produção do conhecimento é uma contribuição muito importante nesse sentido. Sociologia não é superstição nem magia. Em relação a isso já Carlos Serra lançou um alerta no seu decálogo. Quem ainda não leu esse documento, por favor, que o faça. É importante!
O relatório final deve conter também as conclusões a que o estudo chegou. É aqui onde o consultor responde à pergunta colocada nos termos de referência. O estudo foi encomendado pela Renamo e queria conhecer o impacto da iniciativa presidencial sobre o HIV no seio da camada juvenil? Muito bem, qual foi o impacto? Positivo, negativo ou nem uma nem outra coisa? A consultoria difere, neste aspecto, fundamentalmente de um mero trabalho académico. Enquanto que o trabalho académico continua perfeitamente legítimo, mesmo se conclui que a sua suposição inicial não se confirma, a consultoria produz resultados positivos. Positivos, isto é, no sentido de responder afirmativamente à questão central do estudo. A consultoria não é um tactear no escuro. É trabalho de alguém abalizado que sabe que pergunta colocar para poder ter a resposta certa.
Depois vêm as famosas recomendações. É aqui onde elas têm lugar, nunca num trabalho de tese como muitos ainda insistem em fazê-lo. Com base no constatado que cursos de acção é que o consultor aconselha? O que o patrão deve fazer? Aqui como em tudo o resto que o sociólogo faz, é preciso ter abertura de espírito suficiente para reconhecer várias saídas para um problema. O desafio consiste, depois, em indicar os argumentos a favor e contra cada um dos cursos de acção. Para que é que a Renamo queria saber isso? Para reagir? Muito bem, o que o nosso consultor sugere? O impacto foi positivo? Pois bem, o que a Renamo deve fazer? Pagar jornalistas para comentarem negativamente a iniciativa? Realizar uma iniciativa idêntica por parte do líder da Renamo? Apresentar uma política própria de combate ao HIV? Que fazer?
Não resisto à tentação de deixar uma “dica” extremamente importante: o consultor deve procurar, na medida do possível, “empacotar” as recomendações de maneira a deixar em aberto a continuação do seu trabalho. Cada qual tem que ganhar o seu pão...
4 comentários:
Ficamos mais entretidos em tomar notas do que comentar. Achei a série bastante interessante. Agora que terminou, estou a voltar a ler de (a) a (f). Força, mestre. Un ga karali.
desculpas... espírito do deixa-andar... falta de auto-estima... espero que pelo menos estejas a criar o auto-emprego!
...estou envolvivo em aventuras de empreendidorismo, esperemos pelos frutos...
Professor, muito obrigada pelas postagens. Até copiei e imprimi para tê-las mais acessíveis, e recorrer a elas quando necessário.
Amélia Matsinhe Halvorsen
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