sexta-feira, agosto 10, 2007

O direito à razão IX

Mais uma vez o nosso direito à razão é violado. Isso obriga-me a interromper as férias. Caiu-me na caixa de correio a mensagem que transcrevo abaixo. Leiam-na e se não estiverem muito assustados encontramo-nos mais abaixo ainda:

CUIDADO!

ESTA É UMA HISTÓRIA REAL, ACONTECEU COM UMA PESSOA CONHECIDA

No domingo passado dia 5 de Agosto de 2007, uma viatuta mini bus de 15 lugares, (chapa) com destino a Manhiça ou Palmeiras, começou a carreira algures no Benfica, onde procurava passageiros com destino àquele Distrito ou outro. Durante o percurso, procurava passageiros para preencher os lugares vagos.

Na rotunda de S. Roque, o “motorista” imobilizou a viatura e o “cobrador” começou a chamar MANHIÇA, MANHIÇA, como de costume e os passageiros aflitos em chegar aos seus destinos entraram (cerca das 8h45m). O carro foi recolhendo os passageiros até que ficou quase cheio. Qual não foi o espanto! Quando um dos passageiros (o meu conhecido) chegou a Tavira, seu destino, clamou: Paragem! O “Motorista não ligou, clamou com viva voz, PARAGEM, uma vez mais, mas o motorista não acatou o pedido.

Começou a semear-se pânico no interior da viatura, porque muitos passageiros, apercebendo-se deste comportamento, exigiram ao motorista que parasse e ele uma vez mais não aceitou.

Volvidos alguns minutos, eis que um dos passageiros corajosos, apoiado pelo seu físico, saltou do seu assento e apertou o pescoço do motorista, o qual perdendo controle do carro, fez zig-zags. Na altura, circulava, no sentido contrário, um carro da polícia que, vendo o incidente tratou de inverter a marcha para ver o que estava acontecendo.

Afinal no banco da frente, os passageiros faziam parte da turma do motorista e um deles começou a disparar para o ar, mas desta vez a polícia mostrou a sua eficiência, tendo imobilizado a viatura e obrigado todos os acupantes a permanecer no carro, ao que se seguiu uma vasculha no interior da viatura. O motorista, os dois ocupantes do banco da frente e dois do banco de trás eram portadores de pistolas.

Afinal o que se passava? Era um grupo de bandidos que se dedicam à decepação de orgãos genitais para fins não esclarecidos e que se faziam passar por transportadores.

Faço este e-mail para compartilhar com todos, para que nos possamos precaver de falsos transportadores duvidosos. Procurem no mínimo ver que tipo de passageiros a viatura leva e tenham um cuidado especial com carros cujo banco frontal e traseiro é ocupado apenas por homens, pois podem ser bandidos.

Esta história é verídica, pode ser confirmada mesmo pela PRM. PREVINA-SE!

É o crime no país misturado com superstição. A plausibilidade desta história depende, como é frequente entre nós, da nossa credulidade. Não me parece improvável que haja gente à caça de orgãos genitais, gente que acredita na possibilidade de fazer remédios poderosos com esses orgãos. Infelizmente é assim entre nós. O que me perturba, contudo, é a forma como falamos uns com os outros. Ou melhor, preocupa-me a nossa ideia do que serve como critério de plausibilidade. Nesta história “verídica” o critério de plausibilidade não é proporcionado pela própria história, mas sim pela forma como ela é contada.

Assim, o primeiro aspecto a ter em conta aqui é que a nossa polícia tem que ser apresentada de outra maneira. Ao invés da ideia de ineficiência que preferimos a história exige que a imagem seja outra. Reparem que não estou a dizer que não seja possível que a nossa polícia seja de facto melhor do que a sua reputação. Estou apenas a dizer que nesta história a imagem da polícia é funcional à plausibilidade. Portanto, a polícia nota algo estranho, volta e, quase que magicamente, imobiliza uma viatura à deriva com quatro indivíduos armados, não dispara à toa, enfim, actua como deve ser. Parece incrível. Mais incrível ainda é a ideia de que a PRM pode confirmar a veracidade da história. A mesma PRM que, na nossa imaginação, não é fiável.

O segundo aspecto tem a ver com os detalhes da própria história. Estou sem palavras. Quatro indivíduos armados recolhem gente para a Manhiça. Ao longo do percurso nenhum destes malfeitores toma precauções no sentido de tornar claro aos “passageiros” que são reféns. Ficam à espera que o amigo de quem conta a história vá apertar o pescoço do motorista (salto por cima deste detalhe: porquê apertar o pescoço e não tentar travar a viatura?). Os outros passageiros entraram em pânico e exigiram que o motorista parasse. Só isso. Não foram apertar-lhe o pescoço. Entraram em pânico e exigiram que ele parasse. Não tentaram saltar do carro, partir vidros ou seja o que for. Entraram em pânico e exigiram que o motorista parasse. Voltemos aos quatro indivíduos armados que se esqueceram do que estavam a fazer na viatura. Um deles começou a disparar para o ar. Foi um dos que estavam atrás ou à frente? Porque nenhum deles foi apontar a arma ao passageiro corajoso amigo do contador da história? Os nossos bandidos são mesmo assim tão estúpidos? Quem me dera ser assaltado por eles! Quem me dera, meu Deus.

O terceiro e último aspecto é o aviso. Temos que nos prevenir. Não entrar em chapa com homens à frente e atrás! Sem comentários.

Atenção: não estou a dizer que isto não tenha acontecido. É bem provável que tenha. Se nas coisas importantes da vida não somos mais inteligentes porque iríamos ser no crime? De qualquer maneira, o que me preocupa nesta história é a forma como é contada. Devíamos exigir mais dos outros. Não devíamos deixar que o nosso quotidiano fosse preenchido por histórias de plausibilidade duvidosa. Isso é perigoso porque alguns de nós ficamos incrédulos por risco próprio. Isso não é bom.

Sem comentários: