O protesto
Há uma questão que os acontecimentos na África do Sul levantam e que tem sido um autêntico quebra-cabeças para as ciências sociais. Infelizmente, essa questão não parece constituir problema para muitos de nós. Isso está claro na forma quase que evidente como muitos de nós nos contentamos com a explicação mais óbvia e imediata do fenónemo. Dizemos, com muita plausibilidade, que estamos perante o protesto daqueles que saíram a perder do fim do Apartheid. Para ser ainda mais exacto, dizemos que os frutos da vitória sobre o Apartheid demoram a chegar a todos e, nessas circunstâncias, os que saiem a perder – ou têm que esperar por muito tempo pela sua vez – procuram por bôdes expiatórios.
Mas como fazemos este salto explicativo? Está claro que o fim do Apartheid não significou o fim das desigualidades naquele país. Está também claro que aqueles que saíram a perder têm que partilhar espaços sociais precários com gente de fora. Está também claro que os que saíram a perder, e são sul africanos, têm expectativas em relação à responsabilidade que o seu Estado tem perante eles. Mas como se parte destas constatações para a conclusão de que a violência contra estrangeiros é uma manifestação de protesto contra a indiferença do seu próprio Estado? E porque é que essa manifestação é dirigida logo contra estrangeiros? A resposta que muitos de nós temos para estas duas perguntas tem ares de plausibilidade, mas esconde algumas dificuldades metodológicas típicas das ciências sociais.
Em relação à primeira pergunta, por exemplo, podíamos dizer que na perspectiva dos próprios intervenientes não se trata de protesto. Nós os observadores académicos é que classificamos como protesto o conjunto das suas acções e usamos, para esse efeito, todo o direito de inferência que a agregação de factos com sentido para nós nos confere. Assim, quando uma camada populacional prefere a violência à exigência pacífica ou outras formas de afirmação dos seus interesses, só pode estar a protestar contra o sistema político. O nosso objecto neste caso, isto é, a população em protesto, não saberia muito bem o que está a fazer, age de forma instintiva por assim dizer. A lógica da sua acção estaria na nossa capacidade de dar coerência ao conjunto de factos que nos permitem dar intelegibilidade ao que estamos a presenciar. É uma atitude muito arrojada esta, mas por vezes é necessária para satisfazermos o nosso desejo imediato de explicar coisas.
Já a segunda pergunta tem uma outra qualidade. A manifestação é dirigida contra estrangeiros, dizemos, porque por norma as pessoas procuram sempre por bôdes expiatórios. Foi assim na Alemanha nazi em relação aos judeus; tem sido assim na Europa de hoje em relação aos imigrantes de países do terceiro mundo. Esta resposta tem outra qualidade porque não é, estrictamente falando, uma resposta. É uma pergunta intercalada que suscita logo a pergunta: mas porque é que é normalmente assim? Porque é que se procura sempre por bôdes expiatórios? Podemos ver logo quão problemática é a resposta na provável reacção de muitos de nós a esta interpelação. Com efeito, muitos de nós diríamos simplesmente: bom, é próprio da espécie humana procurar o culpado noutros. Não dizia Jean-Paul Sartre que o diabo são sempre os outros? É esse mecanismo racionalizante em acção. É uma resposta circular.
Penso que não nos devemos dar por satisfeitos com este tipo de respostas. Pessoalmente, não tenho melhor resposta do que estas, mas para o bem da compreensão do que nos está a acontecer gostaria de aconselhar uma atitude mais crítica. Essa atitude deve incidir sobre os instrumentos que as ciências sociais colocam ao nosso dispôr para interpelarmos a realidade social. Sendo assim, gostaria de sugerir que um bom ponto de partida para começarmos a problematizar os nossos instrumentos analíticos devia ser a própria ideia de protesto. Deixemos de lado os elementos genéticos, digamos assim, da própria explicação, isto é todos os factores que conduziram à violência e concentremo-nos no momento crucial do próprio acontecimento. Refiro-me ao momento em que alguém decide apedrejar ou deitar fogo a uma outra pessoa. O que torna este acto possível? Coloquemo-nos no lugar de um habitante de um dos bairros periféricos lá da África do Sul e imaginemo-nos rodeados de estrangeiros que nos tiram as nossas mulheres (ou maridos, já agora), empregos, vendem drogas, conseguem habitação mais rápido do que nós e, de uma forma geral, andam por aí como se fossem os donos da terra. Imaginemos também que a nossa socialização religiosa ou cultural, o nosso conhecimento das leis da terra ou, pelo menos, a nossa consciência de que existe polícia que não deixa nenhum crime impune nos dizem que qualquer acto de violência contra o “estrangeiro” pode implicar sanções muito pesadas, ainda que nos sintamos do lado da razão. Imaginemo-nos cientes do facto de que não somos os únicos com este sentimento de injustiça e com vontade de fazer qualquer coisa. Estamos convencidos de que as razões que temos para reagir (reparem: reagir, não agir!) são justas e que, portanto, o resultado da nossa reacção seria no interesse geral (que é naturalmente excludente...). E mesmo assim não temos a certeza se os outros se vão juntar a nós nesse empreendimento. Podemos ter um grupo de amigos igualmente decididos como nós, mas temos também a certeza de que esse grupo é infinitamente menor do que a polícia que nos vai interpelar.
Como acontece o primeiro passo? Que condições devem estar reunidas para que esse primeiro passo seja dado? E depois do primeiro passo o que acontece? Será que a dificuldade de dar o primeiro passo é que explica a selvajaria subsequente? Que cálculos são feitos em termos de ganhos imediatos ou a médio prazo? São feitos? Como é que são feitos? E quando é que esses cálculos nos conduzem à conclusão de que temos que dar o primeiro passo? Penso que também seria importante saber se o segundo passo é determinado pelos mesmos motivos que o primeiro passo. É? Que papel desempenha a reacção de outros (imprensa, polícia, vizinhos, vítimas). Será este o momento onde a ideia de que “não tenho nada a perder” se afirma? Antes do primeiro passo tenho muito a perder. Depois dele, quando já não é possível fazer marcha-atrás, não tenho muito a perder. Só posso continuar em frente. Então?
Como disse, não sei como responder a isto tudo. Mas penso que é aqui onde devemos procurar por explicações que nos vão ajudar a perceber o que está a acontecer. São as respostas a estas perguntas que dão coerência às explicações mais rápidas que temos. A ponte está aqui, acho. E ainda não começamos a construi-la. Reparem que, no fundo, estou a adoptar uma posição de argumentação inspirada no empiricismo de David Hume que na sua discussão sobre a noção de causalidade dizia algo mais ao menos assim. Ele dizia, com efeito, que o único que nos permite dizer que uma coisa é a causa de outra não é nenhuma relação intrínseca entre dois fenómenos, mas a nossa experiência. É a nossa expectativa de que o que aconteceu ontem, antes de ontem e na semana passada após ter acontecido uma coisa, vai acontecer hoje também. A causalidade que privilegiamos na explicação da violência sul africana tem esta qualidade argumentativa.
Vamos sair disso. Mas como?
11 comentários:
Oi. Elísio.
Tens toda razão em sugerir maior prudência na análise do que está a acontecer aqui na RSA. Penso que podemos distinguir dois tipos de atitude na leitura do que se passa. 1) uma que procura qualificar o que aconteceu (xenofobia, afro-fobia, negro fobia etc). 2) outra que procura estabelecer uma relação de causalidade entre (causa- e efeito). Causa ( Pobreza, descontentamento, etc) e efeito (ataques). É claro que neste exercício escapam muitos outros factores. Numa das minhas postagens chamei a tenção para o problema do reducionismo da uni-causalidade num caso que se parece revelar pluricausal. Estas duas posturas têm grande tendência a explicar pelo que deve ser explicado. Quer dizer, racionalizar a coisa. Enfim, existe uma terceira que tenta analisar como foi possível acontecer o que aconteceu sem se importar muito em classificar/qualificar ou encontrar o factor-causal. Chame-se xenofobia, negrofobia etc não importa. Chamaria isso de análise de conjuntura. O facto é que houve erupção de violência. Como foi possível isso? Bom, também não sei. No entanto, há elementos que relevam, por exemplo, o grau de vulnerabilidade dos cidadãos, perante um suspoto protector da sua integridade física (segurança). Há elementos que revelam atitude de certos agentes (do estado) perante estrangeiros (relação entre o estado/sociedade). Há sinais que mostram que os serviços de inteligência do estado, que publicamente admitiu ter tido “conhecimento” da possibilidade de ocorrência mas que não sabia o que fazer (fragilidade do estado?). A violência (brutal) não só pode ser captada através das imagens mas dos discursos proferidos pelos atacantes: “killer-makwerekwere”. Podemos a inferir sobre o que pode estar por detrás dessa violência. Penso que as questões que colocas são primordiais. No entanto, podemos conjenturar sobre alguns factores estruturais e institucionais que podem ter propiciado/ não precipitado (ou causado) o que aconteceu.
sim, patrício, creio que tens razão sobre a necessidade de conjenturar. na ausência de um estudo empírico sólido isso é o mínimo que podemos fazer. o problema que eu estou a apontar, contudo, é um problema da própria vulnerabilidade dos nossos métodos que nos permitem saltar da conjentura para a conclusão sem nos acautelarem contra a fragilidade da inferência que fazemos. considero totalmente plausível a ideia de que a pobreza está na origem da violência. a minha pergunta, porém, é: que razões temos para inferir isso? se tomarmos em conta todas as outras coisas que estão por aí no meio (socialização religiosa, estruturas comunitárias, receio da polícia, etc.) como justificamos este salto causal? tenho em mim que este caso, tal como o 5 de fevereiro em maputo, lançam um desafio sério à nossa reflexão metodológica.
Professor, sobre socializacao religiosa, alguem dizia-me do outro lado da fronteira que, nesse longiquo ano, os opressores do povo sulafricano chegaram com uma biblia numa mao e uma espada na outra... Sobre a policia, nao sei se chega a existir um medo pela policia, e a existir parece-me serem activados mecanismos de gestao desse medo enquanto risco, o que permite que mais do que evitar esses actos o importante seja nao ser apanhado ou arranjar um bom advogado. Mais, sera a policia um oposto binario da comunidade, seja em termos de representacoes e de relacoes sociais? Penso que considerando essas e outras coisas, poderemos falar de salto na esfera formal da expectativa, mas de inumeras continuidades crescentes que podem ter levar a esse eclodir de violencia em massa que temos vindo a assistir. Emidio Gune
Cai o caju maduro? (Zille criticou violentamente o plano do Governo de permitir aos cidadãos dos países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) entrar na África do Sul, dizendo que isto leva directamente à catástrofe.
`Há poucos, senão nenhum país no mundo com os quais temos este tipo de política de porta aberta, pela simples razão que esta política traria um fardo insustentável aos recursos mesmo dos países mais ricos´, acrescentou.
`A África do Sul, que é relativamente próspera comparada com os seus vizinhos, é um país em desenvolvimento com uma falta real de capitais e de competências exigidas para o desenvolvimento sustentável´, disse Zille.
`A recente vaga de ataques xenófobos é consequência directa do fracasso do Governo no controlo da imigração na África do Sul. O ministro do Interior deve assumir as suas responsabilidades e instaurar um plano para aumentar a capacidade do país gerir a imigração´, acrescentou a líder da Aliança Democrática.)http://www.imensis.co.mz/news/anmviewer.asp?a=
caro emídio gune, acho a sua ideia de gestão do medo enquanto risco bastante útil para começarmos a perceber o assunto. é sobre esses aspectos que estou a insistir para diminuir a nossa apetência pela explicação rápida (e plausível), mas que nos diz pouco. precisamos de uma melhor etnografia desses lugares. há tanta coisa que não sabemos!
O ser humano 'e por natureza, "orgulhoso". Se sente na obrigação de dar "respostas" as questões que o mundo a sua volta levanta. Sentimos-nos menos humanos, menos académicos, menos sociólogos quando a vida nos apresenta questões que ultrapassam nosso "arsenal" de respostas. Deve ser por ai que ouvimos "barbaridades" como respostas, soluções para problemas sociais.
O ser humano 'e por natureza preguiçoso, vai seguir quase sempre o caminho que lhe proporciona esforço mínimo. Porque esforçar a pensar dolorosamente se existe uma hipótese plausível?
Para mim se torna ate absurdo que se pense que problemas complexo como esse possa ter uma única causa.
caro nelson, completamente de acordo. percebo, porém, que os decisores políticos ou aqueles que têm de intervir na sociedade precisem dessas explicações monocausais. os académicos e outros intelectuais precisam, todavia, de ser mais cautelosos. o importante é que não nos deixemos paralisar pelas dificuldades, mas aceitemo-las como desafios.
Me pergunto porque será que analise e explicação "profundamente sincera" não pode/deve ser usado pelos decisores políticos ou aqueles que têm de intervir na sociedade? Alias eles tem o seu lado academico/intelectual activo embora algumas vezes "atrofiado pelos "venenos" das ideologias politico partidarias.
Isso nos evitaria decisões/intervenções deficientes como as que muitas vezes temos vistos.
caro nelson, não duvido que se os decisores fizessem mais uso das análises e explicações que andam por aí, algumas das suas decisões fossem estar melhor. vejo, contudo, uma maior responsabilidade ainda a pesar sobre os intelectuais e académicos que, em minha opinião, devem adoptar critérios de análise que procurem evitar a "atrofia" e o "veneno" das ideologias para que os decisores políticos tenham menos apetência por esse tipo de análises. é por esta razão que tenho criticado o ânimo bastante leve com o qual alguns de nós prescindem da noção de "neutralidade" ou "objectividade".
"neutralidade" e/ou "objectividade"
Dois elementos quanto a mim bastante importantes e que entretanto para nossa infelicidade, fazem muita falta
aí está!
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