sexta-feira, maio 09, 2008

O direito à razão XIV

Prémios

Li na última edição da Revista Prestígio (Maio 2008) que o “Governo moçambicano entregou em Abril passado um prémio de 250 mil meticais à Maria de Lurdes Mutola pela conquista de uma medalha de bronze na prova dos 800 metros, no Mundial de Atletismo de Pista Coberta, que recentemente teve lugar na cidade espanhola de Valência”. A notícia continua da seguinte forma “[O] gesto enquadra-se na observância de um regulamento há pouco aprovado pelo Governo moçambicano visando estimular os atletas que se destacam nas provas internacionais conquistando medalhas para Moçambique”. O fundo da imagem que ilustra o artigo apresenta publicidade da Mcel, não a bandeira de Moçambique. Apenas um pormenor.

Não sei, sinceramente, se aplaudir ou reprovar esta iniciativa do nosso Governo. É ponto assente que Lurdes Mutola fez muito pelo país. Suponho até que Mo Ibrahim tenha ouvido falar dela antes mesmo de ouvir falar de Joaquim Chissano. Ela levou o nome de Moçambique para tudo que é canto no mundo. Por isto, mas sobretudo pelo facto de ela ter mostrado que é possível chegar ao topo no meio de todas as dificuldades que caracterizam o país, Lurdes Mutola é, sem dúvidas, uma heroína nacional. Ela é. Reconhecer isto é um dever patriótico. Fique, então, claro que o meu comentário não pretende diminuir os seus feitos. O meu comentário refere-se pura e simplesmente a esta medida governamental de atribuir prémios monetários a desportistas que conquistem medalhas em provas internacionais. Porquê?

Suponho que haja duas razões. Uma há-de ser a necessidade de os incentivar; a outra vai ser a necessidade de reconhecer o serviço que prestam à nação. Estas duas razões, se forem estas que estão na base da decisão governamental, não me parecem suficientemente fortes para justificar que o Governo use dinheiros públicos desta maneira. E pior: elas constituem um atentado ao nosso direito à razão por tentarem dissimular as insuficiências da nossa política nacional de desportos.

As duas razões estão obviamente ligadas. O Governo quer que os atletas se apliquem a fundo porque o Governo está interessado em que o nome do país seja conhecido além fronteiras. Muito bem. Mas para quê? Que benefício palpável é que o país está a tirar desse conhecimento? Quantos investimentos estrangeiros foram feitos no país em resultado da associação que os investidores fizeram entre Maria de Lurdes Mutola e Moçambique? Como é que o Governo apurou isso? É que se a argumentação é comercial, então vamos fazer essas contas de forma clara. Parte-se simplesmente da ideia de que o facto de alguém ganhar uma medalha significa que o país beneficia em popularidade? Ou existem critérios mais sólidos? Quais são esses critérios? Reparem que não me importo nada que a Federação Moçambicana de Atletismo premeie os atletas que se saiem bem em competições internacionais, desde o momento que esses dinheiros sejam da Federação. Importo-me, contudo, quando é o Governo a fazer isso, pois essa não me parece ser a sua função.

O Governo precisa de investir no desporto. Faz isso de várias maneiras, dentre as quais criando um quadro jurídico propício para esse efeito, ajudando na construção de infra-estruturas, criando condições para que a formação em desporto seja bem feita e não criar obstáculos àqueles que como os Craveirinhas no caso específico da Lurdes Mutola dedicaram o seu tempo, energia e interesse na promoção do seu talento. Vir mais tarde para colher os lucros em forma de popularidade e tirando do erário público dinheiros que deviam ir para a identificação e formação de talentos parece-me uma maneira bastante cómoda de promover o desporto sem fazer muito. É como se o Governo estivesse a dizer às pessoas para primeiro terem sucesso que só depois é que serão ajudadas. E repito: o pior nisto tudo é que estes prémios nutrem nas federações desportivas esta ideia perniciosa de que é tarefa única do Governo recompensar os atletas dedicados. A Lurdes Mutola corre porque quer e gosta. Os prémios que ela arrecadou honram o país e o país pode reconhecer isso através de várias maneiras como, aliás, a cidade de Maputo já o fez (dando-lhe a chave da cidade se não estou em erro), mas prémios monetários parecem-me algo desmesurados.

Digo isto também por razões muito pessoais. Há muitos moçambicanos por aí que através do seu trabalho e dedicação também vão elevando o nome do país bem alto. Só que o trabalho que fazem não vem na televisão, nem nas páginas dos jornais. Alguns mereceriam também incentivos materiais, se o princípio fosse mesmo esse, mas que critérios usaria o Governo para definir os montantes? Porque premiar só desportistas e não premiar académicos, homens de negócios, funcionários públicos e moçambicanos que vivem no exterior e que com o seu exemplo de profissionalismo vão promovendo o bom nome do país? O Governo está a dar o sinal de que só reconhece patriotismo no desporto? Só faz bem ao país quem pratica desporto?

É claro que, infelizmente, existe esta expectativa entre nós de que tudo quanto fazemos – mesmo que seja por vontade própria – tem que ser pago pelo Governo. Estou contra. Os 250 mil meticais dados à Maria de Lurdes Mutola foram muito mal aplicados. São um atentado à nossa razão, pois o trabalho do Governo não consiste em premiar, mas sim em criar condições para que cada vez mais talentos se revelem. Que tal aplicar os 250 mil meticais na criação de um programa de identificação e promoção de mais jovens que podem seguir as peugadas da nossa menina de ouro? Ou porque não dar o montante a um cientista social para investigar o papel do Governo no sucesso de Maria de Lurdes Mutola?

Já agora, quem foi a pessoa que fez esta sugestão ao Governo? Alguém devia obrigar esse engraçadinho a tirar uma parte do seu salário mensal no financiamento do desporto na sua área de residência até completar o prejuízo que deu ao erário público!

8 comentários:

Patricio Langa disse...

MEC felicita três artistas moçambicanos

O MINISTÉRIO da Educação e Cultura congratulou, em nome do Governo de Moçambique, os artistas Santos Calisto, dos “Massukos”, pelo Prémio Ambiental “Gold Man”, nos Estados Unidos, e Ottis, pelo Prémio Prestígio na Lisboa Night.

Maputo, Sábado, 10 de Maio de 2008:: Notícias

De igual modo, o MEC felicitou o artista Jimmy Dludlu pelo Prémio “Best Contemporay Jazz Album” (Melhor Álbum de Jazz Contemporâneo”, na “South Africa Music Award”. Segundo uma nota recebida na nossa Redacção, os três artistas mais uma vez engrandeceram e elevaram bem alto o nome de Moçambique em palcos internacionais, feitos que, de acordo com a fonte, “nos enchem de orgulho e elevam cada vez mais a nossa auto-estima”. “Os seus feitos devem servir de exemplo para a nossa juventude e para a classe de artistas em particular”, lê-se no comunicado, que acrescenta que esta é mais uma demonstração de que os moçambicanos, em cada área de actividade, estão decididamente empenhados no combate à pobreza e no engrandecimento do país.

Patricio Langa disse...

i ta ku yini!

Jonathan McCharty disse...

Caro Elisio!
Parece que o que esta a faltar nesta "onda" de premios, sao mesmo os academicos, hehe!

Adicionei-o aos meus "elos" no meu blogue (ainda no seu primeiro gatinhar). Espero que não esteja a incorrer em matérias do fórum de "invasão de propriedade privada/intelectual"!

Abraço

Elísio Macamo disse...

faltam prémios monetários para os outros também... assim nao nos aplicamos devidamente! obrigado, jonathan, vou visitar assim que puder.

Bayano Valy disse...

eu sempre disse às pessoas do meu círculo que no dia que alguém fora de moçambique achar que o meu trabalho merece premiação não quero saber de governo algum vir-me bater a porta para um encontro com o presidente da república ou qualquer outro ministro. se não reconhecem o meu trabalho hoje, não quero que mais tarde por ter ganho reconhecimento internacional alguém faça aproveitamento político disso - vejo isso como um aproveitamento político.
concordo que o dinheiro podia ser utilizado para outros fins, e porquê não entregá-lo à federação de atletismo? me parece que o ministério da juverntude e desportos está a virar um banco. ai do dia em que tivermos todas as equipas e atletas ganharem ao mesmo tempo. veremos se o ministério terá dinheiro para todos esses!
a ideia de que quem ganha é premiado financiaremente é difícil de tragar.

Elísio Macamo disse...

bayano, até porque esse reconhecimento vá que nao vá. o monetário (só para desportistas) é que incomoda. alguém vai sempre querer fazer aproveitamento político de tudo. isso é normal. mas podemos aproveitar a ocasiao para procurarmos saber o que de substancial está a ser feito. esta dos desportistas é, de certeza, ideia de uma federacao qualquer por aí que nao faz a mínima ideia do que deve fazer para incentivar os desportistas. manda a factura para outros. nós.

Bayano Valy disse...

é verdade que nós é que acabamos arcando com as despesas. quanto as premiações, são mesmo uma iniciativa governamental. se aínda me recordo, começaram com a equipas femininas de basquetebol do despeortivo e ferroviário de maputo que ficaram em 1º e 2º lugar, respectivamente, no último campeonato africano da modalidade em seniores femininos. foram até galardoadas pelo chefe do estado que falou dessa premiação. na altura até alguna atletas mostraram a sua satisfação porque esse prémio não passava pelas mãos dos dirigentes, mas os era directamente canalizado. para além de dinheiro, as atletas receberam terrenos e a bim se encarregou de abrí-las novas contas bancárias com um montante inicial de 25 mil meticais. enfim, acho que são decisões tomadas no calor do momento e que acabam sobrando para nós.

Anónimo disse...

nao se compreende a final quem luta contra a pobreza obsoluta,se este montante beneficia um individuo sem criterio claro