quinta-feira, maio 08, 2008

A gratidão (10) Fim

Teias de gratidão

Estou a chegar ao fim. Termino como comecei. Com Simmel, Georg Simmel, o sociólogo alemão em quem me inspirei para reflectir sobre a gratidão entre nós. Ele escreve que a gratidão pertence a estes microscópicos e infinitamente rijos fios que ligam elementos da sociedade uns com os outros e, por meio disso, tecem-nos em forma de vida completa e sólida. A sociedade, traduzo eu o pensamento de Simmel, é feita de teias de gratidão e como em tudo o resto o nosso interesse crítico podia incidir sobre a questão de saber até que ponto esta ideia de Simmel descreve a nossa sociedade. Se não o faz podemos procurar saber porquê; se achamos que o faz podemos também procurar fundamentar a nossa convicção.

Não tenho a certeza se estou mesmo interessado na gratidão como tal. Nem sei se estou interessado nas várias coisas que tenho abordado ao longo desta série, mas também em vários outros textos aqui no blogue. Estou à procura da sociedade moçambicana, mas não sei exactamente onde ela está. Meti na cabeça, apoiando-me em alguns subsídios da sociologia (no caso em Simmel), que a sociedade está em todo o lado, mas escondida. À nossa espera. Ela é como um espírito que aguarda pacientemente pela sua vez e não abandona nunca a esperança de um dia ter a oportunidade de se manifestar, incomodar algumas pessoas ao ponto de elas sentirem a necessidade de o levarem de volta à sua casa. Vejo este espírito escondido em tudo. Na forma como falamos; nas coisas que dizemos; no que fazemos; na maneira como fazemos as coisas; na relação que temos com coisas; na nossa indiferença em relação a certas coisas; no nosso interesse por certas coisas; enfim, em tudo quanto existe e pode ser notado.

Fazer sociologia nestas circunstâncias é como andar a virar pedrinhas para ver o que se esconde por detrás ou debaixo delas. É um farejar constante quais cães que vão fazendo aquilo que só eles sabem fazer, nomeadamente ir deixando as suas marcas pelo caminho e deixando muita gente a se sentir como se fossem aquelas árvores impávidas e serenas que vão observando os cães vindo levantar as patas e regar com jactos quentes e rápidos os seus troncos. Mexer num assunto como a gratidão é um pretexto para mexer com várias outras coisas. É um pretexto para mexer com o nosso sentido normativo, com o nosso sentido de comunidade, o nosso sentido de formalidade e institucionalização, com o nosso sentido de esfera pública, solidariedade, dever, com o nosso sentido de cidadãos. Viro a pedrinha ou urino no tronco e, pimba, é como se tivesse produzido uma bola de cristal que me permite ver certas coisas inacessíveis ao olho nú. Inacessível não quer dizer, porém, que ninguém mais no estado normal as possa ver; quer dizer simplesmente que os nossos hábitos críticos, a nossa maneira de formularmos perguntas, o tipo de curiosidade que temos não nos permitem ver as várias outras coisas que podíamos ver se nos libertássemos de certos fardos normativos e metodológicos.

Conversava outro dia com um diplomata de nacionalidade portuguesa que infelizmente já não está em Moçambique, para mim um dos melhores – senão mesmo o melhor – conhecedor da realidade política moçambicana dos últimos tempos (não digo o seu nome porque não o quero comprometer com nada, mas se ele estiver a ler vai saber que é dele que falo ... ainda estou a ler o livro sobre a identidade!) e deleitava-me com esta sua capacidade de se colocar no lugar dos outros e procurar saber a partir desse truque metodológico que sentido certas decisões, certos procedimentos e, naturalmente, certos fenómenos fazem. Tenho a impressão de que alguns de nós cientistas sociais fazemos pouco disto. Que pena! Não foram muitas as vezes que conversamos enquanto ele esteve em Maputo, mas essas poucas vezes serviram sempre para temperar o meu entusiasmo crítico e procurar encontrar uma posição de enunciação que me não comprometesse demasiado com juízos de valor. Não é possível parar de aprender!

Tem sido um empreendimento difícil. Operacionalizei-o com base na convicção de que ainda sei muito pouco sobre a nossa realidade social. Sem esse conhecimento não é possível fazer crítica com cabeça, tronco e membros. Preciso de saber mais. Daí, cá estamos nós, o interesse pela gratidão. Que mundos andam escondidos no interior de coisas tão triviais como esta? De que maneira posso obrigar o espírito de que falava há parágrafos atrás a revelar-se nestas coisas triviais? E como posso saber que ele já se está a revelar? Este é apenas o primeiro passo, titubeante, duma longa caminhada. É preciso dar este passo. Preciso de saber mais sobre os nossos mundos de vida, as nossas visões de mundo não no sentido de os folclorizar como alguns por vezes se sentem tentados a fazer, mas no sentido de saber como é que apesar de tudo ainda se afirmam, de que maneira, com que consequências e o que tudo isso quer dizer em relação às noções de Moçambique que andam pelas nossas cabeças.

Por tudo isto só posso dizer obrigado ao conjunto das nossas relações sociais, a este espaço de construção de maneiras de estar na vida ao qual nós damos o nome de Moçambique. Obrigado pela sua impenetrabilidade, pelo desafio que constitui à reflexão e, acima de tudo, por não cobrar nada pela oportunidade que me dá de agitar a minha massa cinzenta. Alguns dos seus filhos podem ser ingratos, mas o país em si ainda não é. Se essa não é uma razão para ser optimista... Mpoyombo, Makamu!

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