quarta-feira, dezembro 03, 2008

Um problema bicudo

Os amigos de lá longe

As negociações no Zimbabwe estão assim-assim. Um amigo chamou a minha atenção para uma carta redigida pelo ex-Presidente sul africano, Thabo Mbeki, a Morgan Tsvangirai, líder do MDC, em reacção a uma carta do seu secretário geral, Tendai Biti, a denunciar as propostas dos mediadores como sendo uma nulidade e a retirar-se do processo negocial. Thabo Mbeki respondeu bem (infelizmente, não consigo fazer hiperligações. Eis o endereço completo: http://www.talkzimbabwe.com/news/117/ARTICLE/3818/2008-11-28.html). Reproduzo mais abaixo umas partes muito interessantes dessa resposta (em tradução livre) apenas para chamar a vossa atenção para uma coisa muito importante que está em jogo neste assunto: a nossa soberania. Os receios do MDC são bem fundados pela experiência de violação dos seus direitos como humanos e como força política naquele país. Contudo, eles só podem abordar com seriedade o problema zimbabweano se o colocarem no seu devido contexto africano. E aqui não ajuda o coro habitual de vozes no nosso país a apresentar Morgan Tsvangirai como vítima do lobo mau (Robert Mugabe) e Thabo Mbeki como alguém que pactua com esse lobo mau.

Raramente concordo com Mbeki, mas no que se segue tiro o meu chapéu:

Sabe certamente também que o resto da África Austral, os seus vizinhos, também teve a obrigação incontornável de arcar com o peso da crise do Zimbabwe de várias maneiras. Sabe que entre várias outras coisas, muitos países da nossa região deram abrigo a números elevados de imigrantes económicos do Zimbabwe que constituem um certo fardo para os nossos países. Fiéis ao conceito e prática de solidariedade africana nenhum dos nossos países e governos tem falado publicamente deste fardo com receio de incitar à xenofobia que todos nós rejeitamos. Não obstante, os líderes do povo do Zimbabwe, incluíndo a si, meu caro irmão, devem ter em conta que a dor que sentem é uma dor que é transferida para as nossas massas que também enfrentam os seus próprios desafios com a pobreza, desemprego e subdesenvolvimento.
Este fardo em especial não é acarretado pelos países da Europa Ocidental e da América do Norte que beneficiaram sobremaneira da migração para o Norte de mão de obra zimbabweana qualificada e formada. No final de todas as contas, o Zimbabwe terá de existir em paz e colaboração produtiva com os seus vizinhos na África Austral e com o resto de África. Vendo as coisas realisticamente, o Zimbabwe nunca partilhará vizinhança com os países da Europa Ocidental e América do Norte e, por via disso, garantir o seu próprio sucesso com base na amizade com esses países e desprezo pelas decisões dos seus vizinhos africanos imediatos. Digo isto de forma humilde para sugerir que não ajuda ao Zimbabwe, nem lhe vai ajudar a si como Primeiro Ministro do Zimbabwe, que o MDC de forma arrogante repudie decisões bem sérias da nossa região, e portanto do nosso continente, descrevendo-as como uma “nulidade”. Pode ser que, por seja qual for a razão, considere a nossa região e o nosso continente como sendo de pouca relevância para o futuro do Zimbabwe na crença de que outros muito mais longe, na Europa Ocidental e na América do Norte, sejam de maior importância.
Consta-me, neste sentido, que pelo simples facto de os líderes da nossa região não terem concordado consigo em relação a assuntos que constavam da agenda da Cimeira Extraordinária da SADC os denunciou publicamente como sendo “cobardes”. Este tipo de procedimento é capaz de lhe valer espaço mediático prominente. Contudo, posso lhe garantir que não vai contribuir em nada para resolver os problemas do Zimbabwe. Enquanto vai garantindo para si próprio aplausos à custa de nos insultar como “cobardes” vai ter que considerar também o facto real de que os nossos povos aceitaram nos seus países números elevadíssimos de irmãs e irmãos zimbabweanos num espírito de solidariedade humana, preparados para enfrentar as obrigações daí resultantes. Nenhum dos nossos países revelou características cobardes quando fizeram isso.
Todos nós consideramos estranho e insultuoso que pelo facto de não concordarmos consigo num assunto insignifcante prefira descrever-nos de uma maneira que é extremamente ofensiva do ponto de vista da cultura africana e, portanto, ofenda o nosso sentido de dignidade como africanos além fronteiras.


Entretanto, li que Morgan Tsvangirai escreveu uma carta aos líderes da SADC e ao Presidente sul africano a exigir a demissão de Thabo Mbeki como mediador. O problema do Zimbabwe é mesmo complicado. E o único responsável por isso não é apenas Mugabe ou alianças nacionalistas passadas.

28 comentários:

Bayano Valy disse...

caro elísio,
ultimamente ando muito oucpado e não tenho tido tempo para ser mais activo. a questão que trazes é de tamanha importância (pelo menos para mim) que não posso deixar de comentar, embora de forma rápida e sem muito rigor crítico.
o problema da carta de mbeki quanto à mim é o facto de usar o argumento errado para justificar os seus próprios erros e falhas e também os da região, e por tabela do continente no processo de negociação da crise zimbabweana. mbeki está a tentar transferir o fardo para o lado do mdc. o repúdio do mdc das decisões (engraçado que mbeki as acha sérias) da sadc radica do facto de que me parecem one sided e favorecendo ao regime de mugabe. o comunicado de sandton (última cimeira da sadc) foi um atentado à razão.
eis alguns artigos:
10.The Extra Ordinary Summit considered the political and security situation in Zimbabwe and observed that no government has been formed subsequent to the holding of the elections and the signing of the Global Political Agreement. As a result, the country is unable to effectively address the challenges facing the people of Zimbabwe.
11.In view of the above, Summit decided that:
(i) the Inclusive Government be formed forthwith in Zimbabwe;
(ii) the Ministry of Home Affairs be co-managed between the ZANU-PF and MDC-T;
(iii) the efficacy of the arrangement referred to in paragraph 2 above, be reviewed after six (6) months by the Parties with the assistance of the guarantors, SADC, AU and the Facilitator.
(iv) to give effect to these decisions and the provisions of the Global Political Agreement, the Parties must, without any further delay, introduce the Constitution of Zimbabwe Amendment Number 19.
ora bem, dizer que nenhum governo foi formado no zimbabwe é de alguma forma ser muito liberal com a realidade. o mdc está justamente a desafiar a composição desse mesmo governo, e está a pedir com toda a justiça que se lhe seja concedido o ministério do interior (não sei onde a co-liderança pretendida aqui possa ser objecto de análise séria - é uma perca de tempo). se até hoje existem entraves ao processo é justamente porque mugabe não quer uma outra forma a não ser a dele (pode ser legítimo, mas já dai culpar o mdc por não aceitar as decisões "sérias?" da sadc é no mínimo tentar enganar a todos todas as vezes).
questão da vizinhaça: é interessante que mbeki possa falar (dar aulas) disso, e esquecer-se de mencionar o desprezo de mugabe com relação aos seus vizinhos. exemplos são o tratamento ao falecido mwanawasa e masire. até ao próprio mandela, e porquê não falar da graça machel? essas são afrontas que são esquecidas (convenientemente?) por mbeki. quanto à linguagem, parece-me que é justa a utilização de cobarde. talvez quisesse que fosse mais grave do que isso. o critério utilizado por mbeki para fustigar um lado (mesmo que em forma de resposta) mostra de que lado pendem a sua solidariedade, e o mdc tem razão quando exige a sua demisssão.
abraços

Anónimo disse...

Não Elísio.
Só é bicudo, ou só se tornou um problema bicudo, porque Mbeki e Comp. Lda. insistem numa postura pueril e vil. Faz-me lembrar aquela passagem no “Pela Boca Morre o Peixe”, de Leite de Vasconcelos: “Em crianças e donzelas, ingenuidade é sinónimo de virtude. Nos políticos significa incompetência ou dissimulação”.
Concordo com Mbeki quando lamenta que Tsvangirai acuse os pares de Mugabe de “cobardes”. Mas concordo por razões diferentes. O termo cobarde não parece apropriado para caracterizar a postura dos que, salvo honrosas mas poucas excepções, insistem nas sinuosas e lamentáveis soluções politicamente insustentáveis. As pessoas podem ser cobardes por medo ou fragilidade, sobretudo quando confrontadas com ameaças, humilhações sucessivas ou forçadas a decisões cruciais. Mas não é este o caso.
O que Tsvangirai devia ter dito é que a posição dos pares de Mugabe é escandalosamente vil. O vil, contrariamente ao medroso, pode ser hábil, astuto, dissimulado e não necessariamente cobarde. Em parte, mas só em parte, se confunde com o cobarde. Mas o vil não tem problema algum em tomar decisões rápidas e ridículas, desde que sejam a seu favor, favoreçam e reforcem seu prestígio, nem que seja aparentemente; garanta seu poder e seu sentido perverso de auto-estima.
Para não serem acusados de incompetência e co-responsáveis pelo desastre político e humano em que o pode político colocou o Zimbabwe e toda a África Austral, os pares de Mugabe refugiaram-se na famigerada política silenciosa. Deu no que deu: um pântano político verdadeiramente vil.
Há dias, por causa da última de Mugabe, relativamente aos vistos que negou aos três famosos internacionais, incluindo a Mama Graça, preparei uma reflexão que está por concluir, devido a outras prioridades. Quando, ou se alguma vez sair a público, gostaria que se intitulasse: “Mugabe é fixe! O Mérito de uma Coragem Despudorada”. Soa a sarcasmo, não é? Sim, nestes casos, não existe outro jeito, a não ser recorrer a algum sarcasmo para nos proteger a sanidade intelectual. Mas como não sei quando poderei finalizar tal draft, adianto aqui parte do seu argumento. Em poucas palavras é o seguinte: Se Mugabe ficar por mais algum tempo no poder (um ano mais deve ser suficiente), irá fazer um grande favor à opinião pública e àsociedade civil em geral. Acabará por expor os que pensam como ele, mas por diversas razões não o mostram. Duas das razões são óbvias: 1) Falta da mesma coragem desavergonhada que Mugabe tem de sobra; 2) Conveniência pessoal; alguns sabem que perderiam mais do que ganhariam se enveredassem pelo mesmo caminho obstinado.
Mugabe não tem, ou já perdeu há muito tempo, o chip da vergonha e pudor que um ser humano normal tem; mas alguns dos nossos líderes da SADC ainda o têm. Nestes não estão incluídos, obviamente, os pouquíssimos que já deixaram claro que a franqueza e compromisso para com os cidadãos não podem ser sacrificados em nome de pactos vis e suicidas.
Á medida que o cerco aperta, a paciência se esgota, e o assunto não ata nem desata, os que ainda têm alguma vergonha, mas nenhuma coragem para expressarem abertamente sua enorme fascinação pela intransigência, persistência e coragem de Mugabe, vão procurar esconder ainda mais e melhor o seu espírito íntimo.
Acredita Elísio. Sem sarcasmos, acredita que eu, se não tiver mais nenhum motivo para sentir gratidão por Mugabe, pelo menos ter este último; o que designo por mérito de uma coragem despudorada. Mérito, porque tal coragem serve de espelho reflector do espírito mais íntimo e dissimulado dos seus pares. Neste reflector projectam-se e ficam a nu caracteres, pelos vistos, não menos recalcados e traumatizados do que o de Mugabe. Podemos imaginar o que por lá vai Só não verá quem não quiser.
Cada ser humano é dotado de capacidade de intuir sobre o espírito dos outros. Neste caso, muita boa gente teve dificuldade de intuir, porque se deixou levar pelo seu lado parvo. Quando menos esperamos, acontece-nos: ficamos vítimas do lado parvo que todo o ser humano possui, mas deve ser capaz de controlar.
Enfim, as coisas estão no limite do suportável; o que não significa que Mugabe demore mais a cansar-se e esgotar-se do que os seus pares e rivais. O primeiro a cair na malha do ridículo em que a dissimulada política silenciosa mergulhou os pares foi o próprio líder mediador, o Sr. Mbeki. Esta sua carta só mostra até onde vai o folgo de Mbeki. Depois de fazer de todos nos parvos, ainda vem a público numa de virgem incauta? É preciso lata! Lata que só um vil, não um cobarde, consegue ter. Por isso, desculpa-me, Elísio; em vez de tirar o chapéu, após ter lido a carta toda, em inglês, mesmo se já tivesse um chapéu na cabeça, não deixaria de procurar um guarda-chuva. Por favor, cuidado que não só o HIV-SIDA e tuberculose que são altamente contagiosos.
Quanto mais se prolongar a crise do Zimbabwe, mais claro se tornará o quanto estamos a ser vítimas dum coro vil, apostado numa opção política vil. Recuso-me a aceitar aquela máxima, segundo a qual cada povo merece o governo que tem. Não! Não posso aceitar que os povos da África Austral, a começar pelo povo do Zimbabwe, mereçam o que nos é dado assistir. Por este caminho, se a carta de Mbeki for levada a sério pela SADC, em vez de darem ouvidos a Tsvangirai, ainda irão dizer (naquele ar cândido à lá Salomão, quando nos apresenta a dita posição oficial dos pares), que o mau da fita é só e apenas Tsvangirai.
Mas quem manda a Tsvangirai confundir comportamento vil com cobardia? Tsvangirai aceitou mergulhar no pântano do ridículo... Será que vai conseguir sair daquele pântano? O seu instinto de sobrevivência levou-o a tentar. Mais algum tempo e iremos ver o resultado. Além disso, se Mbeki sair da frente dos outros e abrir campo para que os demais pares exibam seu espírito mais íntimo, iremos poder algo mais. Através do reflector de coragem despudorada de Mugabe, espero podermos observar outras coisas muito importantes.
Um grande abraço
AF

Elísio Macamo disse...

caros bayano e af, compreendo a vossa indignação tendo em conta a natureza bicuda deste problema. compreendo também que, tal como o mdc, dirijam a vossa indignação contra o mediador e contra a região. não concordo convosco. não concordo com a ideia implícita nos vossos comentários, e frequentemente veiculada na nossa esfera pública, de que a região, pela sua cumplicidade, é também responsável pelo problema. não, os zimbabweanos é que são responsáveis pelo problema; nós os outros só ajudamos a piorar, sobretudo a grã-bretanha de tony blair e todos aqueles que preferem diabolizar mugabe. mbeki é o alvo mais fácil de abater e esquecemo-nos de que se trata de um processo negocial que envolve um governo (legítimo ou não) e uma força de oposição (legítima ou não). quando o próprio ocidente tentou negociar o fim de conflitos na nossa região não deu tratamento igual às partes. isso não é cobardia, nem fraqueza. é pragmatismo. a carta de mbeki está bem colocada porque tenta chamar tsvangirai à razão e à sua responsabilidade pela sorte do país. se mugabe não ouve, pelo menos ele devia ouvir. o que mbeki diz é que é preciso avançar, não esperar pela vitória final que será muito provavelmente pírrica. é neste sentido que lhe tiro o chapéu. pessoalmente, pelo que tenho observado e lido, não tenho muita simpatia por tsvangirai. é mais um destes inúmeros casos africanos (chiluba, dhlakama, etc.) que ganha protagonismo por causa dos erros dos detentores do poder. e ele está a demonstrar agora, nesta fase crucial do campeonato, que não tem estatura política à altura dos ideais que ele próprio reclama. como é que pode insultar a região e ainda esperar que ela indique outro mediador? que mediador estará disposto a entrar numa contenda em que só pode sair a perder ele próprio? a intransigência só é útil quando a gente confia em alguma coisa, menos nos interesses do povo que pensamos estar a defender. o mdc devia, em minha opinião, ir à frente e participar activamente na solução do problema do seu país. os europeus e americanos são muito bons a destruir, mas vão ser necessárias boas razões para os convencer a construirem. mais uma vez, mbeki tem razão ao recordar tsvangirai da importância da região. o futuro do zimbabwe, para o bem e para o mal, está na região. af, esse trabalho interessa-me. tens rascunho que eu possa ler e comentar? abraços

Bayano Valy disse...

caro elísio,
concordo contigo no tocante ao facto de que os zimbabweanos são responsáveis pelos seus problemas. foram às eleições e votaram no mdc e tsvangirai, não tendo dado a este último os 50% mais um voto. e quando mugabe lançou os seus "cães" sobre eles se acobardam e mantiveram-no poder, dai este problema bicudo. mas recordo-me de uma era em que éramos solidários para com os povos da região (ganhamos algum até porque mugabe deu aulas de inglês à alguns moçambicanos lá em quelimane quando os outros lutavam contra ian smith e os selous scouts. também perdemos biliões de dólares quando fechamos as fronteiras à rodésia). nessa altura a responsabilidade era nossa como região. agora custa-me a crer que não tenhamos alguma responsabilidade com relação ao problema bicudo zimbabweano. sem dúvidas que os zimbabweanos têem de encontrar as suas próprias soluções para resolver o problema, mas continuamos a sofrer como diz bem o mbeki.
agora, um processo negocial só conhece frutos promissores se quem estiver a conduzi-lo não mostrar favoritismo. mas ao que parece mbeki juntou-se também à caravana de diabilização ao tsvangirai. quando estive no zimbabwe em fevereiro, março e abril ouvi o mugabe a chamar o tsangirai de filho de prostituta (o engraçado é que são parentes), como também chamou aos habitantes do subúrbio de mbari (onde a maioria vota mdc e onde é a constituência de mugabe). chegou-se a fazer uma lei a denunciar os insultos que apenas era aplicável aos outros menos ao tio bob. esse foi um dos episódios da diabolização do líder da oposição. mbeki apenas vem fazer eco ao burburinho. nas suas declarações (mbeki) fica a sensação de que tsvangirai é o mandatário da grã-bretanha. que mal há nas pessoas procurarem aliados? aliás, não foi porque a região (líderes) não ouviu o grito de socorro da oposição (as imagens dum tsvangirai na cama do hospital ainda são recentes) que a mesma insistiu em buscar apoio no reino unido?
não há dúvidas que tony blair teve intervenções que não ajudaram na resolução do caos zimbabweano. mas também não há dúvidas (quanto à mim) que blair foi usado e continua a sê-lo para justificar a permanência de mugabe no poder, qual cavalo de batalha!
a responsabilidade não deve apenas ser partilhada quando nos convém, mesmo quando a cena está mal temos que ter a audácia de ajudar a resolver - parece-me mais o caso do treinador que surge no imaginário dos adeptos quando a equipa anda mal.

Anónimo disse...

aLô.

interessante a discussão.

Sinto que no fundo dos argumentos assenta a noção de "quem é o vilão e quem é a vítima?". explico-me. ao que me parece os actos, declarações e seus argumentos pesam de acordo com a imagem que temos dos quatro intervenientes deste processo (Mugabe, Tsvangirai, Mbeki e a SADC). talvez devessemos fugir a este exercício (de diabolizar pessoas) que repetidamente a comunicação social tenta nos empurrar.


tenho uma questão.

Tomando em consideração a questão da soberania do Zimbabwe qual deveria ser a postura da SADC?


abraços

Anónimo disse...

Creio que nós temos tido uma atitude desculpalizadora para o infantilismo dos políticos zimbabweanos. A nossa atitude, fazendo coro às agências internacionais mais poderosas, é responsabilizar Mbeki, a SADC e toda a região pelo colapso do Zimbabwe.

Onde está a responsabilidade de Mugabe? Onde está a responsabilidade de Tsvangirai? Eu creio que este último e o seu MDC, tendo surgido a ganho popularidade como líderes e movimento de protesto; tendo ganho notariedade por apontar os erros (mais do que evidentes) de Mugabe, têm receio agora de perder essa áurea de respeitabilidade iniciando-se no empreendimento complexo que é governar um país.

Suspeito que eles se sentem bem como oposição ou como movimento de protesto militante. Talvez no Zimbabwe tenha que surgir um Partido com apetência verdadeira pelo poder.

O mundo já tinha assistido, antes, a esta falta de garra e de apetência pelo poder. Por exemplo, o Partido Comunista Português, que se notabilizou como um movimento de resistência ao fascismo em Portugal, fugiu literalmente do poder quando circunstâncias políticas e históricas excepcionais colocaram este Partido na antecámara do poder em Lisboa. Quem não se lembra da primavera e do verão de 1974, quando o PCP, querendo, poderia ter tomado o poder em Portugal?

Mesmo entre nós, a atitude de Dlhakhama e da sua Renamo, desde os tempos da famosa guerra pela democracia, nunca se posicionaram como verdadeiros concorrentes ao poder. Sempre que este parecia próximo, a Renamo e Dlhakhama gugiam a gritos.

Mbeki tem razão, em minha opinião. Quem tem que resolver as confusões do Zimbabwe são os zimbabweanos. Quem teve que resolver nossas confusões aqui fomos nós. Não foi Mário Rafaeli, nem Aldo Ajello, nem Arap Moi, nem D. Jaime (sózinho). Foram os nmoçambicanos e suas lideranças.

Porque teria que ser diferente no Zimbabwe?

Obed L. Khan

Elísio Macamo disse...

caro bayano, eu acho que o maior erro da regiao nao foi parecer ter-se aliado a mugabe. o maior erro foi nunca nenhum dos países se ter dado a maçada de pensar o problema do zimbabwe na perspectiva dos próprios interesses. explico-me, aliás, já em tempos escrevi aqui no blogue que faltava uma política moçambicana em relaçao ao zimbabwe, portanto, uma política que nao tivesse como objectivo principal resolver o problema daquele país, mas saber lidar com as consequencias. deixamo-nos envolver nas más intenções da gra-bretanha de tony blair e no coro de vozes que entre nós só estavam interessadas em diabolizar mugabe e ficamos com o problema de que aquele problema nao se resolvia por nossa falta de interesse. repito, bayano: nao tenho nenhuma estima por tsvangirai (pelo que li sobre ele), mas acho que ele é parte da soluçao do problema. sem ele nao se resolverá muita coisa. também nao tenho estima por mugabe, mas sem ele (como ele é) também será difícil encontrar uma soluçao. ao menos que se pense em intervençao militar, qualquer soluçao daquele problema vai ter que tomar em consideraçao o mugabe tal e qual o conhecemos. aí espero mais estatura por parte da oposiçao. ela nao devia hostilizar aqueles que ainda podem ter algum ascendente sobre mugabe sob pena de ter que arcar com a responsabilidade de ter contribuido para conduzir o país ao desastre. tsvangirai pode escolher as suas alianças como bem entender, mas como diz mbeki, e bem, o futuro do zimbabwe está na regiao.
caro haid, eu de facto acho lamentável que o debate sempre resvale para esse lado. isso nao tem ajudado e se eu no meu comentário anterior tornei claro que nao morro de simpatias por tsvangirai foi só para temperar esta ideia constantemente transmitida de que o único mau da fita neste imbróglio é mugabe. amanha ainda nos vamos surpreender. tentei na resposta ao bayano dar uma ideia do que acho que devia ser o papel da sadc. ela pode ajudar a partir da identificaçao dos seus próprios interesses. penso que ela está a fazer um excelente trabalho, sobretudo mbeki. apesar de tudo quanto a uniao europeia fez para que a regiao deixasse de ser interlocutora válida de mugabe (aos olhos deste) ela conseguiu que mugabe aceitasse negociar. se a regiao tivesse seguido o caminho do botswana e da zambia teria ficado tudo perdido. ainda bem que houve bom senso da parte dos restantes. os zimbabweanos que têm os interesses do seu país no coraçao nao deviam hostilizar a sadc. deviam apoia-la. fazer parte de um governo de unidade nacional é uma excelente vitória naquele contexto tao intransigente do zimbabwe. eu nao hesitaria. o resto virá.

Elísio Macamo disse...

caro obed, infelizmente só li o teu comentário depois de ter postado o meu. estamos em sintonia. tu ecoas o que mbeki disse, e bem, na sua carta a tsvangirai, nomeadamente que ele deve deixar de sentir conforto na simples posiçao de oposiçao. o zimbabwe precisa agora de uma oposiçao com sentido de estado. é verdade que o que ela recebe em troca é pouco, mas tendo em conta toda esta horrível e contraproducente diabolizaçao de mugabe, parece-me muito. quem diria que um diabo daqueles iria aceitar negociar? um aspecto que um dia devemos analisar com cuidado é a motivaçao da nossa crítica ao mugabe. é evidente que nao é só o mugabe que nos indigna, mas também a oportunidade que ele nos proporciona para criticar o nosso próprio governo por aquilo que a sua aparente inércia representaria em termos das suas credenciais democráticas. acho legítimo que dirijamos a nossa crítica ao nosso governo, ainda que nao concorde com ela. é assim que deve ser. mas a ideia de que cumplicidades do passado, ou tendências autoritárias, é que explicam a nossa atitude oficial é simplesmente problemática. o que tornou a intermediaçao da regiao difícil foi a insistência dos europeus de que a regiao fosse dar ordens a mugabe num assunto em que ele, mal avisado ou nao, acha que está em jogo a independência do país. a falta de sensibilidade para esta questao, sempre remetida para a sua apetência pelo poder, contribuiu bastante para complicar a abordagem do problema. eu devo pertencer a uma minoria no país, mas sinto muito orgulho pelo facto de o nosso governo nunca ter vergado a estas chantagens. aplaudi fortemente a sua resistência contra a chantagem feita no ano passado em relaçao à participaçao de mugabe na cimeira com a ue. adverti, contudo, que era necessário ter uma política nossa em relaçao as possíveis consequências da crise naquele país. é o único que podemos fazer bem.

Bayano Valy disse...

caro elísio,
desta vez vou concordar contigo sobre a nossa própria responsabilidade no sentido de saber lidar com as repercussões e consequências do problema zimbabweano. houve uma altura em que pensei que tínhamos começado a abordar a questão: quando da vinda dos farmeiros zimbabweanos brancos. mas o que transpareceu depois foi que apenas surgiu uma oportunidade que a tomamos sem uma política clara do que se pretendia. dai pra cá nyet. porquê nunca procuramos discutir a questão que colocaste? não sei dizer. alguns podiam dizer que com a mania de se querer atingir consensos de baixa intensidade. mas eu acho que o problema maior é nunca o governo ter sabido dizer-nos qual é a nossa política externa. se sentar em cima do murro; se colocar apenas moçambique em frente... aliás, até podem-nos dizer que qualquer que seja a política terá o intuito de colocar o país em frente mesmo se os resultados são diferentes do objectivo. hoje estamos à beira de uma eclosão de cólera - são cidadãos moçambicanos que vão correr todos os riscos. o que fazemos? pensamos em nós e os outros, ou apenas em nós? fechamos a fronteira de novo? o que fazemos?

Elísio Macamo disse...

ok, bayano, nos pontos gerais estamos a entrar de acordo. a necessidade de uma política nacional clara em relaçao aquele problema é evidente. no texto em questao, que até foi publicado no notícias, sugeria a criaçao de uma comissao nacional de peritos que pudesse fazer isso. é tempo de pensarmos os problemas a partir de nós mesmos e dos nossos interesses. para te ser franco, nao sei que tipo de ascendente é que um governo da frelimo pode ter sobre mugabe (e se ele for o tipo de pessoa que dizem ser) depois de tudo quanto este fez para nos defender do terror da renamo durante a guerra dos 16 anos. por vezes, a nossa vontade de criticar obriga-nos a exagerar a nossa importância.

Anónimo disse...

Exacto:
Aos poucos, cada vez mais africanos decentes vão conseguindo ultrapassar a barreira da sua auto-censura; aquela auto-censura que cada um de nós exerce em si próprio, por diversas razões (medo, timidez, necessidade de cuidado, preconceito, e muitos outros motivos).

A recente postura de Desmond Tutu é que merece que se lhe tire o chapéu; não é a postura de Mbeki e seus parece.

Sorry, Elísio. Não tens razão. Ou melhor, tens a tua razão, que infelizmente duvido te leve a bom porto. Quando escrevi o primeiro comentário não tinha lido o de Bayano Valy. Apesar de não nos conhecermos, parece que estamos em sintonia. Não me admira. A sensatez é uma opção tão legítima como o erro de análise.

Tu próprio, eventualmente, vais ter que sentir vergonha deste carnaval perverso. Na verdade, estou espantado que ainda encontres forma de tentar intelectualiza-lo e desculpabilizá-lo. Mas vais ter de deixar de confundir as coisas com confusões como as que apresentas sobre Tsvangirai, Mbeki, Dhlakama e companhia. Isso revela confusão de assuntos e comportamentos humanos.

O problema, neste caso, gira em torno de Mugabe. É verdade. Ele está a ser diabolizado? Coitadinho. Obviamente, o objectivo, a mestria e habilidade de Mugabe tem sido exactamente capitalizar com os nossos demónios e complexos sub-consicientes: confundir, vitimizar-se e convencer-vos que 90% dos seus problemas são criados na No. 10 Downing Street. Por isso, e por muitas outras razões, considero Mugabe fixe. Ele leva-nos na boa, ao ponto de nos pôr entretidos, num debate patético sobre se está ou não a ser diabolizado.

Não significa que o seu fim seja o fim dos problemas do Zimbabwe. Também o fim de Stalin não foi o fim do socialismo soviético; mas foi certamente o princípio para se preparar o fim do problema soviético.

Mbeki, se quisesse dar-se ao respeito, imediatamente após ter-se demitido de Presidente da África do Sul, remetia-se ao silêncio. Relativamente ao caso Zimbabweano, tinha boa desculpa. O mínimo que devia ter feito, era sair airosamente, pelo facto de ter deixado de fazer parte dos pares, ao deixar de ser Presidente da A.S.
Como é possível que aceite continuar feito mediador? Com que direito e com que sentido de respeito? Obviamente, como os outros não são parvos, incluindo o actual que o substituiu, disseram-lhe: “Socio, fica a acabar a tua grande obra". Só não lhe disseram, mas alguns devem ter pensado: "Agora, mesmo não sendo Presidente, acaba a borrada que fizeste”.

Realmente, Zuma e o actual Presidente da A.S devem estar mesmo apostados em mostrar que Mbeki é um camarada bestial ... mas como palhaço. E o certo é que, cada vez menos sem surpresa, Mbeki aceitou e parece que se honrado com a figura que está a fazer.

O que é preciso impor a Mugabe é o mesmo que se impõe a quer fascista e racista. E Tutu, agora, vem nesse sentido.

Foi o que se impôs a Ian Smith. E repara. Smith durou metade do seu tempo. Porquê? Sabes por quê? Porque era branco e declaradamente racista. Isto facilitou as coisas, por incrível que te possa parecer.

Por que será que um negro, tão ou mais racista do que Smith, de merecer ficar o dobro do tempo no poder? Sabes qual deve ser a resposta mais verdadeira? Porque o racismo do negro contra o preto é ainda considerado mais tolerável do que o do branco para com o negro. Este é um problema, de todos nós, negros e brancos; somos ainda demasiado complacentes para com o racismo do negro para com o preto.
E deixa-me clarificar aqui a questão do racismo. Ao falar do racismo de Mugabe, não me refiro ao racismo anti-branco. Aliás, para Mugabe, insultar o branco para parece o faz sentir-se feliz. Mugabe nutre uma fascinação velada, mas espantso, pelos brancos da No. 10 Downing Street.
Escondeu (ou não?) a sua admiração (o seu amor-ódio) por Smith.
A grande raiva dele é não ter conseguido fazer obra como fez Smith. E como está ele a tentar igualar-se a Smith? A única forma é pela negativa; destruindo tudo o que de bom foi edificado antes dele, e enquanto isso fazer obra sadomasoquista, vingar-se no preto, não no branco.

Come on, Elísio. O que se passa com o sentido crítico? Smith, o racista tabaqueiro, como Samora gostava de o insultar, saiu do poder com mais dignidade do que se pode esperar que aconteça com Mugabe. O teu alegado "problema bicudo", em boa parte tem menos a ver com política do que com questões psico-analíticas e outras.

Este era um dos pontos que gostaria de elaborar no meu “Mugabe é fixe! O mérito da coragem despudorada”. Adianto-o aqui. Quanto a partilhar o draft, sim; mas deixa-me arranjá-lo um pouco mais, para que seja partilhável.

De qualquer forma, aqui vão mais um ponto, para quem quiser reflectir no assunto. Vocês, os sociólogos, psicanalistas e psicólogos, deviam pensar menos em rivalidades político-ideológicas, e olhar mais para os traumas e complexos de inferioridade (disfarçados de complexos de superioridade) que pessoas, não só Tiranos como Mugabe, ocultam por de trás de fingidas e exacerbadas intransigências político-ideológicas. Se o fizerem, talvez entendam melhor a natureza e substância do bicudo no dito "problema bicudo".

Um abraço
AF

Elísio Macamo disse...

obrigado, af. mugabe é mau, mbeki e co. sao maus, smith foi bom, construiu e saiu com dignidade e tudo que nao encaixe neste esquema de pensamento é má análise. que mais queres ainda discutir? tens toda a razao. essa de racismo de negro é a máxima; os negros podem se maltratar uns aos outros que ninguém vai mexer palhinha que for. incrível! mas o pior ainda é a dignidade que conferes a um indivíduo como smith. eu cresci em gaza a fugir dos "mirages" enviados por esse senhor, devia ter ignorado as sirenes que alertavam contra a dignidade contida nas bombas que esses caças largavam sobre gente indefesa. vamos discutir, mas a sério. nao é obrigatório que a gente entre de acordo, mas misturar assuntos desta maneira nao ajuda muito. acho que com o bayano valy começamos a nos entender e nao creio que tenha sido necessário que ele modificasse a sua opinao em relaçao a mugabe ou mbeki.
e uma coisa, af: a palavra "racismo" nao faz parte do meu vocabulário analítico; nem racismo de branco, nem de preto. francamente!

jpt disse...

confesso que me custa muito lê-lo quando se acerca do Zimbabwe. V. tem sempre defendido uma grande depuração discursiva (o que não implica, nem para si nem para outros, linearidade, claro) e neste caso ela cai. Ok, a G-B (e não só Blair) é parte fundamental e responsabilizável pela situação [o Zimbabwe será um caso de sociedade pós-colonial, termo que me horroriza conceptualmente, mas que neste caso terá justificação], seja como potência colonial expropriadora, seja como parte incumpridora dos acordos de independência (no sentido da Rodésia não ser exactamente um país independente, que não me vou por aqui a discutir formalismos da ciência política). Ok, Mugabe foi líder do país (não sei se terá sido grande líder pré-independência, mas para o caso pouco conta). Ok, os colonos (britânicos na maioria, mas também de outras origens) são (foram) uma camada (classe?) possidente, terratenente, exploradora e dotados dos (ou pelo menos de parte) de traços culturais recorrentes no colonialismo europeu em África. Ok, este é o pano de fundo, o húmus, e daí que V. retira admiração e satisfação de e em Mugabe.
Honestamente acho impossível olhar para o Zimbabwe sem esse pano de fundo histórico - e não serei grande druida por isso. E acho que a diabolização de Mugabe não serve para muito (o mundo, essa cada vez menor "região", está cheio de demónios).
Mas a partir daí V. acorrenta-se a uma afectividade que é, em si, surpreendente. Estamos no domínio do infalsificável e podemos encher posts e posts que não me parece que possamos vir a concordar. Mas deixo-lhe dois exemplos da sua argumentação (ou da que saúda, fazendo-a como se sua), atomísticos mas não marginais, e que acho significantes, de uma análise assente na crença.

a) não gosta de Tsangiverai, acha-o à imagem de outros lideres da região como mero epifenómeno produzido nos "erros" (sic)dos políticos no(s) poder(es). Isto ecoa, e de que maneira, todo o discurso do movimento comunista em finais de 80s e inícios de 90s, tentando explicar a-sociologicamente, a involução do socialismo real, URSS e Aliados. Era constante a referência aos "erros (e desvios", já agora). O que é isso, o poder passa a ser - quando dá jeito - antropomorfizado, desprovido de fundamentos socioeconómicos, ausente de conteúdos de ideário? Mugabe e os seus começaram, de súbito, a cometer erros, imprevidências (como antes, e o paralelo não é meu, é imposto pela homologia explicativa que V. utiliza, os erros foram cometidos por Brejnev, Ceausescu, Jaruzelski, etc)? Não sei Tsangiverai é um bom político, se virá a ser (se o vier a ser) um bom presidente [Walesa, já agora, não deixou grande memória aquando no poder]. Mas é essa a questão?

b)V. aplaude e cita Mbeki - nem vou alongar-me sobre o conteúdo da mediação ao longo destes anos - "Este fardo em especial não é acarretado pelos países da Europa Ocidental e da América do Norte que beneficiaram sobremaneira da migração para o Norte de mão de obra zimbabweana qualificada e formada." Sim, os milhões de emigrantes (refugiados económicos na maioria, com toda a certeza alguns refugiados políticos) emigrando por via térrea naõ aportaram às portas da "Fortaleza Europa" ou ao muro intra-nafta. Calcorrearam o que puderam em particular até à Africa do Sul. Poderia ser de outra forma? Fisicamente, digo-o. Isso é argumento que se use. Mbeki está a brincar?
Mais, V. acha justificável neste ãmbito, aplaudir a tirada que cito acima, pura demagogia. Mbeki tem dados objectivos (naõ os peço a si, claro) sobre a verdadeira dimensão do lucro (econónmico, científico, técnico) ocidental (britânico, australiano, presumo) com a chegada dos milhares de zimbabweanos de relativa elite (a que apanha o avião, pelo menos). E, bem mais importante, da relativa dimensão - ou seja, do impacto nessas sociedades e economias, dessa imigração? Não é esta tirada a mais pura das demagogias, mais uma vez atirando a malandrice para além do muro. Diabolizando (prática que V. tanto critica) o ocidente, descurando os maus-espíritos dentro da vizinhança (sim, nisso concordamos, a região não é uma casa)

Só estou a falar da sua argumentação. Do Zimbabwe nem tanto: as expropriações cleptocráticas, as milhentas violações dos direitos políticos e de cidadania, a catástrofe económica, os "rearranjos" urbanísticos por via administrativa, a aldrabice eleitoral, uns largos anos de malfeitorias tornam Mugabe um totem muito diabolizável. Não é bom a para a análise? Para a praxis? Porventura não o será. Mas caramba, confundir a exigência de uma análise extensiva com a simpatia, explícita por vezes, implícita sempre, com o homem e o seu regime, é absolutamente .... olhe, surpreendente, para não dizer pior.

Elísio Macamo disse...

caro jpt, estamos a falar de coisas diferentes. o meu ponto de partida é de facto que alguém tenha colocado na agenda política (mal ou bem) o fardo da história. acho pena que tenha sido mugabe, mas se calhar esse facto nao esteja desligado de todo o problema. tarde ou cedo, a namíbia e a áfrica do sul também vao ter que confrontar esse problema. aí veremos que tipo de político vai colocar o problema. há várias maneiras de colocar o problema. a maneira que mugabe escolheu é problemática (daí os erros de que estou a falar), mas isso nao tira legitimidade ao assunto que ele apresenta, nem faz dele o principal problema do zimbabwe. eu simplesmente nao encontro sustento para a ideia de que ele é o culpado por tudo e nem sei de que maneira é que essa postura crítica tem ajudado para a soluçao do problema. é claro que nem mugabe, nem tony blair, nem mbeki, nem tsvangirai sao responsáveis por tudo quanto se passa lá. todos juntos, sim. daí que ache extremamente oportuna a intervençao de mbeki ao chamar a atençao de tsvangirai para a necessidade de ele ter maior sentido de estado. pelo menos dele devíamos todos nós esperar mais responsabilidade já que de mugabe nao podemos esperar nada. e essa responsabilidade, como mbeki muito bem recorda, passa por ele reconhecer a importância da regiao e cuidar-se da hipocrisia europeia.
o meu problema, jpt, é com a rapidez com que nós deixamos passar hipocrisia. nenhum país europeu iria aceitar uma situaçao como a do zimbabwe, áfrica do sul ou namibia. a última vez que isso aconteceu a coisa terminou mal. houve uma segunda guerra mundial. aqui na europa, jpt, é muito difícil viver com a diferença; fala-se de integraçao e essa noçao nao tem nenhuma relaçao com a noçao de "tolerância" que conhecemos da filosofia liberal. a integraçao aqui é a diluiçao do diferente no igual. nao quero com isto dizer que o zimbabwe deve criminalizar as minorias, como se faz por aqui. o que estou a dizer é que esta falta de sensibilidade para os serios problemas que o colonialismo nos legou (e neste caso dou muita razao a mahmood mamdani) é simplesmente hipócrita. eu, pelo menos, nao me vou juntar ao coro de vozes. e um pequeno reparo: na mesma altura em que mugabe mandou demolir habitaçoes em harare, sucedia o mesmo em lisboa. as vítimas disso foram trabalhadores imigrantes. muitos voltaram do serviço apenas para ver que onde estava a sua habitaçao já nao havia nada. tirania das autoridades portuguesas? nao, jpt, nao: o exercício do poder tem destas coisas. há muita gente por aí que pode andar a condenar isso e fá-lo. do meu canto, prefiro tentar colocar as coisas na sua devida perspectiva e ver se percebo o que se está a passar. o meu ponto de partida é normativo, disso nao há dúvidas, mas nao é nessa base que reclamo plausibilidade. o assunto do zimbabwe é complicado, mas nao é só por causa da maldade de mugabe. é apenas nisto que tenho insistido e vou continuar a insistir até todos perderem a vontade de me ler. portanto, nao vejo em que medida estou a confundir a exigência de uma análise extensiva com a simpatia. estou a exigir peso e medida na abordagem de um problema complicado.

jpt disse...

acima o disse, poderíamos encher posts e posts ... e também o digo, é do registo do infalsificável. Não com isto me pondo acima, refutando a hipótese de V. (ou outrém) me refutar a linha de raciocínio, mas explicitamente afirmando a implausibilidade de um acordo. Caramba, V. atrás (em post antigo) explicitou a simpatia antiga. Mas nem é isso, é a interpretação (e olhe que daqui é sempre uma interpretação simpática, ainda que quantas vezes discordante) do conteúdo, tom, forma, desenho e isso.

Mugabe não é o problema único. Claro que concordamos - e o discurso europeu (não apenas britânico) está preso nisso. Mas também o discurso popular e de elite africano (ou melhor dizendo, o discurso burguês e de elite moçambicano) reduz a coisa defendendo o homem (a cimeira de lisboa permitiu-me ouvir tanto dislate sobre o assunto) porque afronta os brancos (é assim mesmo que se diz). Venha o diabo e escolha entre os produtores de desconhecimento? Hum, excesso de relativismo, o homem (e seus acólitos) não são machamba que se cheire, não vejo porque hei-de aspergi-los.

Também concordo que a Namíbia e a Africa do Sul virão a colocar o problema (li, algures, que a Namíbia o tem vindo a resolver com expropriações remuneradas, em relativa paz e relativa quebra de produtividade, mas foi coisa distraída de jornal, não afianço da profundidade. Mas é tão pouca gente que a ausência de uma verdadeira pressão demográfica sobre os recursos, ainda que esta seja relativa, impede uma comparalção simples. E li, mail and guardian, que a pressão sobre a terra sul-africana se vem colocando ao nível dos conflitos sociais (e com alguam tradução judicial), que implica que cedo ou tarde a questão terá que ser resolvida ou, pelo menos, dirimida estatalmente/politicamente. E quanto haverá a aprender sobre as dinâmicas zimbabweanas

sobre a questão europeia (que presumo ser o seu "aqui") da integração das minorias (i)migrantes também concordo da complexidade, bem para além dos discursos do "correctismo multi-identitário" da época. Mas honestamente não me parece que seja esse o cerne da questão

há um ponto (aliás, há variadissimos pontos) de total discordância, que naõ é, mais uma vez, marginal. É o centro da questão, é a vontade interpretativa. V. fala de arranjos urbanísticos em Lisboa e compara-os, a seco, com o Zimbabwe. Eu não acredito que V. considere os fenómenos comparáveis. Seja sob o ponto de vista da racionalidade urbanística, seja sob o ponto de vista dos propósitos políticos, seja sob o ponto de vista do impacto (e da dimensão) sociológica. Não conheço em profunidade (nem em superficialidade, já agora) os contornos do caso lisboeta mas (e V. que me lerá há alguns anos far-me-á o favor de me achar insuspeito de grandes simpatias pelo poder autárquico socialista português) o efectivo combate há habitação informal e ilegal urbana (que é uma verdadeira linha de combate dos edis, como se diz por cá, lisboetas) não tem os contornos de rearranjo urbano-sociológico-político das cidades zimbabweanos

insisto, EM, em entrando nestas questões zimbabweanas (que são muito mais do que o mugabe e o zimbabwe) V. torpedeia o depuramento habitual das suas linhas de raciocínio.

diria, bem-vindo à afectividade. Diria se a dama fosse outra.

E, para concluir, não concordo. Estamos a falar do mesmo. Exactamente do mesmo.

Anónimo disse...

Obrigado Elísio Macamo,
Eu espero continuar com vontade de ler o que escreves. Isto não significa que aceite restringir-me às balizas dos preconceitos em que raciocinas. Que mais quero ainda discutir?
Tens dúvidas que não haveria muito mais para discutir a sério e não a brincar às intelectualizações e criticismos superficiais?
Dizes tu: “essa de racismo negro é a máxima”. Será mesmo? É curioso. Nem paraste um minuto para ponderar se é máxima ou mínima. Foi logo! A máxima! Espantoso, não é? Olha que heresia a dele. Agora quer vir com a tese do racismo negro-preto! Foi assim que pensaste, não foi?
Quem esta surpreender és tu. Em que mundo sociológico anda o Elísio Macamo? Será que ainda não te apercebeste do racismo do negro para com o preto? Não admira, pois dizes que a palavra “racismo” (já?) não faz parte do teu vocabulário analítico. Porquê? Não encaixa no teu vocabulário politicamente correcto? Ou é por que achas que o racismo já desapareceu da realidade que analisas, seja ela europeia, africana ou americana?

A minha alegação sobre a existência de um forte e talvez crescente racismo negro para com o preto, deixou chocado. Não diria perturbado, pois ainda consideras a coisa tao surpreendente que não justifica preocupação. Justifica mais repulsa ... por enquanto.
Pode ser. Esse assunto faz parte de um real social que, pelos vistos, não faz parte da tua galaxia analítica. Entendo a inconveniência e o incómodo que o assunto cause, tanto na generalidade dos políticos como na dos intelectuais (sejam eles do intelctuais do regime, ou intelectuais orgânicos).
Tens melhor termo do que racismo? É “odd” falar-se de racismo do negro para com o preto?
Há tanta coisa odd neste mundo. E não é por não falarmos das coisas "odds" que deixam de existir e ser reais. Aceitaria outro termo melhor, se existisse. Mas outro que não escamoteie a realidade discriminatória em países africanos, incluindo Moçambique, entre negros e pretos. Nunca ouviste, na rua ou no bar, ou mesmo no trabalho, um negro (não um branco) a desferir declarações violentas como a seguinte? “Oh seu preto! Pensas que eu sou preto como tu? Não chateia negro, ouviste?”.
Uma pessoa negra que trata a outra da mesma raça como ser inferior; a humilha até ao tutano, insulta e espezinha, com enorme desprezo e desdém, chamas-lhe o que? Divergência ideológica? Diversidade afirmativa ou rivalidade política? Obviamente, com tais preconceitos, não me admira que tenhas grande dificuldade em aceitar que Mugabe tem-se manifestado tão racista para com Tsvangirai, como racista foi Ian Smith para com Mugabe.
Mugabe tem coragem de insultar Tsvangirai da forma mais vil e nojenta (Bayano, o primeiro comentador nesta série, recorda que em Abril ouviu Mugabe chamar-lhe filho de prostituta). Não sei se alguma vez lhe chamou explicitamente preto. Mesmoo que não o diga explicitamente, não é preciso. A sua posição é de completo racismo, no sentido discriminatório da pessoa que ele considera inferior a si. Para Mugabe Tsvangirai é preto, não é negro.Isto, mais do que o Blair, motiva-o a recusar entregar o poder à oposição. Uma boa desculpa de mau perdedor, mas infelizmente, não encontrou melhor.
Enfim. Pelo que percebo, vamos ter de esperar que apareça um outro Frantz Fanon, com uma versão contemporânea do “Pele Negra Mascaras Brancas”. Neste caso, e em conformidade com o meu argumento, uma versão com um título que desde já adianto: “Pele Preta Mascaras Negras”. Aqui fica a sugestão, não para ti; para quem realmente queira analisar a realidade social e racial, em vez de fingir que o racismo, seja ele de que tipo for, é uma construção imaginativa e inexistente. Ainda não perdi a esperança que algum sociólogo da novíssima geração se interesse por analisar este ponto (tese) sobre o racismo do negro para com o preto. E não precisará de ir muito longe. Podia começar pela análise das relações sociais, no trabalho e não só, entre patrões e empregado domésticos ou outros trabalhadores, na Cidade de Maputo. Uma amostra estatisticamente representativa, para então, de forma objectiva, poderem vaticinar ou não se eu estou ou não a delirar.

Quanto à afirmação sobre a dignidade de Smith, na forma como abandonou o poder, o teu ressentimento é visível. mas mais grave ainda tornou-se mauzinho. Escreveste: “mas o pior ainda é a dignidade que conferes a um indivíduo como smith. eu cresci em gaza a fugir dos "mirages" enviados por esse senhor ...”.

Só para tua informação. Não fugi dos mirages, como tu, mas foi apenas porque Smith não os enviou para Quelimane. Foste mais herói do que eu, dado que apenas participei na abertura de abrigos? Felizmente, no tempo das chuvas, os tais abrigos acabaram numa espécie de piscinas para os patos da vizinhança. Mas espero que não queiras começar a arranhar feridas passadas; sabes que doem a todos; ou as dores dos bonzinhos do regime são dores mais patrióticas do que as dos anti-regime?

Ficaria muito comovido com as tuas recordações sofridas, causadas pelo Tabaqueiro, se depois delas, em Sofala e Zambézia, não tivessem surgido muitas outras vítimas de ataques também aéreos e terrestres. Vindos de onde? Não foi do Smith, nem do Botha. Foi do exército que se dizia “nosso” e para defender os moçambicanos; um exército com alguns comandantes que achavam que a única forma de lidar com os "bandidos armados" era optar pela política da terra queimada.

Quanto à tua tirada sarcástica – “devia ter ignorado as sirenes que alertavam contra a dignidade contida nas bombas que esses caças largavam sobre gente indefesa. vamos discutir, mas a sério”. É mesmo uma tirada mazinha e de muito mau gosto. Não fica bem, nada bem, a quem tanto apela à seriedade analítica. Ninguém, muito menos eu na nota que escrevi, confundi elogios à dignidade da saída do poder com qualquer elogia aos ataques do Smith. Levar a conversa para esse lado, misturando os ataques de que foste vítima com o assunto da saída digna (de Smith)do poder, comparativamente à recusa vil e nada digna Mugabe, em abandonar o poder, é uma desconversação desonesta. Se as balizas da tua troca de opiniões forem essas, diz. Aí, sim, concordarei contigo que não há muito, ou mais nada, para debater.

Para que fique claro o meu ponto, insisto e até o reforço. Smith revelhou dignidade na forma como concedeu a derrota, tal como revelaram dignidade Botha e D’Klerk na África do Sul. Obviamente, se fosse a comparar dignidades, maior dignidade do que as destes, existiu na decisão de Mandela, ao abandonar o poder enquanto vencedor; ou seja, sem ser pela derrota, por via do voto, nem derrota pelos bastidores partidários, no caso de Mbeki.

Será que contra factos queres arranjar argumentos? Viste Smith, ao reconhecer que estava derrotado e politicamente isolado, recusar-se caprichosamente sair do poder? Ou exigir que os votos da maioria revertessem para ele, porque tinha sido no seu regime que o País se converteu no famoso “celeiro de África”? Viste-o fazer do povo refém de uma opção suicida, em que querem que a maioria vencedora assuma o alegado “sentido de estado”, unicamente porque um regime fascista teima em importo o seu fascismo? Viste-o mobilizar um exército de vândalos e saqueadoresque foram para as ruas bater e assassinar quem ousasse votar na oposição?
E sobre Mugabe, pelo que parece, ainda achas pouco o que fez. Quem tem que assumir uma atitude responsável, um sentido de estado que até tu já reconheces que Mugabe não tem, é a oposição? Achas bem este carnaval insólito, sanguinário e destrutivo, ao ponto de se inventarem governos patéticos para acomodar um fascista que se recusa a sair do poder que perdeu? É sério termos que assistir à esposa de Mugabe, em plena campanha, dizer aos zimbabueanos e ao mundo inteiro, que tirem o cavalinho da chuva, porque em caso de derrota, o marido não entregaria o poder?
Isso é sério?
Francamente, digo eu
AF

Elísio Macamo disse...

caro af, é difícil conversar contigo porque tu teimas em misturar assuntos. insistes numa linguagem normativa que eu quero tirar da discussao. se achas que essa linguagem normativa deve permanecer na discussao, muito bem, mas essa já nao é a minha discussao. estás interessado em provar que mugabe é mesmo mau. eu nao digo o contrário, só digo que isso nao é essencial para a abordagem da questao daquele país. se nao concordas, muito bem, a tua discordância está registada. a tua linguagem é forte demais para o meu gosto, nao me sinto bem nesse tipo de discussao. devo-te, contudo, um esclarecimento em relaçao à noçao do racismo. ela nao faz mesmo parte do meu vocabulário analítico. o que quero dizer com isso é que nunca utilizei essa noçao para explicar seja o que fosse. desafio-te a me indicares um texto onde eu tivesse feito isso. ademais, em tempos publiquei neste blogue uma reflexao sobre a questao zimbabweana em que argumentava contra a ideia de que o problema zimbabweano pudesse só ser visto a partir de um prisma racial. nao vejo a utilidade da ideia de um racismo de pretos. o facto de um indivíduo preto se sentir superior a outros pretos e tratá-los dessa maneira nao confere valor analítico à ideia de que se trata de racismo. a ter que abordar esse fenómeno eu iria justamente pelos outros factores que tu próprio mencionas, nomeadamente as desigualidades sociais, etc. uma razao que me leva a nao utilizar essa noçao analiticamente prende-se com o facto de para além de nao explicar nada, poder servir para esconder coisas mais importantes e óbvias como por exemplo a falta de conhecimento ou o oportunismo. portanto, essa noçao nao tem absolutamente nenhuma utilidade analítica para mim, mas repare que isso nao te impede de a utilisares. penso que já te está a ajudar a "perceberes" o caso do zimbabwe. boa sorte!
caro jpt, ainda bem que você fez também a sua intervençao, pois os termos e a forma como a faz, ainda que em discordância, preservam o essencial da discussao e revelam que há questoes de fundo a debater. como você muito bem nota, mugabe nao é o problema único e o discurso europeu está preso nisso. essa é a minha questao, embora aceite que a maneira como eu coloco a questao seja simpática a mugabe. nao há excesso de relativismo, há simplesmente a preocupaçao de evitar as armadilhas de argumentos morais. há, claro, simpatia. mas aí penso que para além de você ou outra pessoa torcerem o nariz por isso nao há nenhuma razao analítica para exigir outra postura. nao é por eu aparentemente optar por uma análise que parece defender o indefensável do ponto de vista moral que eu vou me juntar aos discursos morais de um dos lados. eu desconfio de todo o argumento que depende do posicionamento moral para ganhar plausibilidade.
seria interessante discutir essa questao dos arranjos urbanísticos em lisboa e em harare, mas isso vai nos levar para muito longe. mencionei-a para acautelar contra o ambiente que se criou à volta da discussao de mugabe e que consiste em apenas indicar seja o que for que está mal para provar que ele é indivíduo abjecto. muitas dessas coisas nao resistiriam a uma análise mais cuidada e, em muitos casos (suponho) até podíamos chegar a conclusoes que provavelmente ilibariam mugabe. mas o contexto emocional que se criou faz vista grossa sobre isso e poucos têm a coragem de duvidar. nao obstante, acho que está a ser muito rápido em negar as semelhanças e isso pode até estar ligado a este ambiente emocional que torna tudo plausível quanto encaixa na imagem que temos e precisamos de ter de mugabe.
caro jpt, nestas questoes zimbabweanas nao me afastei nem um bocado da minha linha de raciocínio. o procedimento é o mesmo que tenho seguido há anos. tento analisar os méritos da questao independentemente da opiniao da maioria e, tanto quanto possível, sem cair no debate meramente político. o elemento afectivo é forte, mas nas outras questoes também, nao sei como é que nunca notou isso.
acho que neste comentário demonstrou estarmos a falar do mesmo. e é tao pouco. arrisco um resumo: o jpt concorda com a ideia de que o assunto é apresentado de forma simplista por ambos os lados, mas acha, para além disso, que a forma como eu o abordo pode introduzir um elemento de relativismo que seria prejudicial à apreciaçao correcta da maldade da acçao de um dos protagonistas principais ou dos méritos da questao. concorda? pois, eu acho que esse elemento, que nao é relativista, mas tempera a apetência por moralismos, é absolutamente necessário. abraços

JOSÉ disse...

Parabéns a AF e JPT pelas suas lúcidas intervenções.
Elísio Macamo continua igual a si mesmo, intransigente e inflexível, indiferente à tragédia que nos rodeia, brevemente será ultrapassado pela História! A sua análise da situação no Zimbabwe insere-se na linha de pensamento avançada por muitos políticos e intelectuais, que tenta desculpar os nossos erros e incapacidades, culpando sempre os outros. Portanto, ontem o culpado da crise no Zimbabwe era Tony Blair, hoje é o MDC e amanhã não faltarão outros bodes expiatórios. Esta atitude tem causado danos incalculáveis à imagem de África!
A realidade é que a hecatombe no Zimbabwe deve-se exclusivamente à megalomania de um criminoso que não quer abandonar o poder e ao apoio dos seus comparsas, certos líderes africanos bem identificados. Este é que é o problema bicudo que Elísio Macamo refere! Mugabe não precisa de ser compreendido e justificado, mas deve ser isolado, removido e se possível julgado pelos crimes cometidos.
A carta de Thabo Mbeki é um autêntico atestado de incompetência, este indivíduo não tem credibilidade nem idoneidade para ser mediador.
O ridículo da situação é que o MDC deveria apenas estar a negociar as modalidades do afastamento de Mugabe, uma vez que o Povo falou bem alto que não quer este déspota no poder, no entanto certos políticos e analistas (bem identificados) têm o despudor de criticar o MDC por não aceitar as migalhas de Mugabe.
Não podemos honestamente esperar que o Mundo nos leve a sério enquanto estivermos dispostos a fechar os olhos aos desmandos de líderes que são rejeitados pelo seu próprio Povo. Todos aqueles que apoiam directa ou indirectamente Mugabe ou preferem ficar silenciosos, têm sangue nas suas mãos!
Num futuro próximo, e apesar dos esforços de certos políticos e intelectuais, Mugabe e o seu regime serão consignados para o lixo da História e o Zimbabwe livre e democrático será uma realidade.
Uma nota final: infelizmente, em Moçambique o racismo e o tribalismo são mesmo uma realidade!

Bayano Valy disse...

caro elísio,
andei com pouco tempo para continuar e estou a ver que o debate aqueceu. bem, para retornar à tua questão sobre uma comisssão para olhar para o problema zimbabweano, eu penso que se vamos criar uma, temos mesmo que ser muito rigorosos na definição dos seus termos de referência, para que se fique claro desde o início qual o seu mandato. e é necessário que seja um tor em que todos se revejam.

Anónimo disse...

Estimado José,
Depois desta sua síntese, acrescentar algo mais seria mera ruminação intelectual. Vamos esperar para ver. Qual das duas soluções propostas por Tutu irá contribuir para a libertação do desafortunado Zimbabwe das duas cóleras que de padece presentemente: a cólera do fascismo político e a cólera, doença diarreica aguda, recentemente declarada e fomentada pela primeira.
Cumprimentos
AF

Unknown disse...

Ilustres,
Por que isto está bom, permitam-se que partilhe convosco as minhas inquietações.
Será que perceber o problema do Zimbabewe reside apenas em perceber R. Mugabe? Será que Zimbabwe é R. Mugabe e vice-versa? E os outros actores sociais, são simples marionetes? Sem nenhum protagonismo no processo histórico do Zimbabwe? O problema do Zimbabewe resume-se em culpados e inocentes?Tenho poucas certezas. Ora, desde que se desencadeou a crise no Zimbabwe, o discurso da maioria foi sempre diabolizar e culpar Mugabe. E daí, aonde nos levou esta atitude? Estou cansado de ouvir este argumento moral e normativo. Tenho para mim, que a diabolização do Mugabe leva-nos e nos levou à uma situação circular; não acrescentou valor na percepção que temos do problema. Talvez até, a obsessão que temos em culpar Mugabe ocupa-nos tanto, deixa-nos satisfeitos no sentido de dever intelectual cumprido e nos impossibilita de apreciar outros factores, igualmente relevantes para a percepção do problema. Será que o Mugabe é realmente a causa do problema do Zimbabwe ou é, talvez, um dos seus efeitos ? Mas afinal, qual é na verdade o problema do Zimbabwe?
Por isso acredito quanto mais abordagens inovadoras forem partilhadas para a percepção do problema do Zimbabwe, ficaremos todos a ganhar. Não se preocupem que aquelas ideias que forem fracas, não irão subsistir. Um argumento não precisa de um guardião permanente, ela vale por aquilo que vale. Concordo e apoio todas novas formas de abordar e tentar perceber o problema Zimbabweano.

Josué J. Muchanga

Nelson disse...

Ok. Retira-se Mugabe e qual 'e o passo seguinte? Coloca-se Tsangirai no poder? O ocidente levanta as sancoes? E a questao da terra como fica?
Alguem me da umas possibilidades please?

Elísio Macamo disse...

caros amigos, peço imensas desculpas por ter andado afastado do blogue. o meu acesso está bastante limitado estes dias. caro nelson, creio que está a colocar uma questão muito importante que mostra as limitações das abordagens normativas defendidas por af e por josé. não há análise, apenas ódio, emoção e diabolização. nenhum de nós, a não ser por mero acidente, vai influenciar o curso dos acontecimentos naquele país de forma significativa - o que não quer dizer que a opinião pública não conte; é claro que conta, mesmo para o pior como estamos a presenciar agora e o josué muito bem coloca no seu comentário. tanta diabolização só tornou o problema ainda mais intratável, o que obriga os moralistas a repetirem as mesmas coisas: afaste-se mugabe, o diabo! penso que esta é uma diferença importante de abordagem. enquanto uns pensam que analisar o problema é propôr soluções, eu entendo analisar o problema como sendo analisar o problema, isto é perceber como é possível tudo quanto está a acontecer lá, o que explica a acção dos intervenientes, que condições tornam certos cursos de acção mais prováveis do que os outros. não tenho nenhuma ilusão de, com a minha análise, alterar seja o que for naquele país. amanhã mesmo mugabe ou tsvangirai podem morrer e o problema pode ser completamente diferente! os apelos às emoções já podem não servir para muita coisa. portanto, tentar reflectir este problema com a maior distância analítica possível é uma das condições necessárias ao desenho de cenários que tragam melhor convivência aquele país. isso passa por reconhecer a racionalidade da acção dos vários intervenientes que não se reduz à simples apetência pelo poder da parte de mugabe ou a oportunismo ou coragem por parte de tsvangirai. o problema da terra é real, mas em si não explica completamente a natureza particularmente problemática do assunto. é um problema de estrutura económica e distribuição de oportunidades e riqueza que os zimbabweanos vão ter de resolver encontrando formas de acção política sensatas e justas. a região, particularmente thabo mbeki - o novo diabo - tem desempenhado um papel excelente. é extraordinário como apesar de todos os esforços externos de tornar o problema intratável a região conseguiu manter-se como interlocutor válido; mesmo tsvangirai reconhece isto.
bayano, concordo contigo que a haver uma comissão, ela deve ser bem seleccionada. os critérios a observar na selecção vão ter que levar em conta a capacidade de identificar os nossos interesses, mas também o interesse por uma apreciação fria do problema em si.
josué, acho que samora machel já havia identificado o problema do zimbabwe muito bem quando alertou mugabe contra a sua atitude complacente de pensar que uma prosperidade - e popularidade no ocidente! - ganhas à custa da manutenção de uma estrutura económica enviesada não eram coisa fiável. este é o problema que ao longo do tempo foi sendo exacerbado pela própria actuação de mugabe, por uma intervenção muito mal pensada da grã-bretanha de tony blair e de sectores da comunidade internacional e, naturalmente também, por este ambiente de diabolização de mugabe que simplesmente criou um contexto normativo em que tudo que corre mal no zimbabwe, por mais bizarro que seja, é da responsabilidade de mugabe. estamos em sintonia quando diz que precisamos de novas abordagens. essa necessidade torna-se mais evidente ainda quando lemos a reacção bastante agressiva dos "críticos". a apetência por uma linguagem agressiva e apelos morais coloca-os, curiosamente, muito mais perto de mugabe do que se devem estar a dar conta.
abraços e bom fim de semana a todos!

Nelson disse...

Eu penso que no fundo(mesmo sem dizer)queriamos todos que o problema do Zimbabwe fosse simples. facil de resolver.Gostariamos que sua solucao se limitasse em retirar Mugabe do poder mas eu comeco a desconfiar que mesmo sendo necessario, retirar Mugabe nao seria suficiente. Me lembrei agora do Iraque. Penso que os EUA do Bush achavam que bastava se "desambaracar" de Saddam Hussein para que tudo virasse paraiso no inferno que Iraque se tornara. Realizavam-se eleicoes "democraticas" e prontos. Mas oque se passou desde que Saddam Hussein foi executado ate entao, mostra que o problema nao era apenas Saddam. Pensando assim acho que o certo seria nao so exigirmos que Mugabe se retirasse ou fosse retirado(por Deus) mas que tambem fossemos ja pensando oque se faria asseguir a isso. Como seria por exemplo geridos os outros pequenos problemas "acoplados" a Mugabe? O das terras por exemplo, agora quase totamente ignorado, nao 'e menos importante, nem seria para quem viesse a assumir o poder.

Nelson disse...

Li que Mugabe disse que a colera que assola(assolava) é resultado dum ataque químico. Em paralelo tenho lido aqui na blogosfera muito sobre Zimbabwe e Mugabe. Opniões diferentes mas eu vejo mais semelhanças do que diferenças entre nós. Nós que defendemos Mugabe e nós que defendemos o Ocidente. É que estamos todos pouco nos lixando para o sofrimento dos Zimbabweanos. Nos importamos é em defender nossas posições. Apresentar argumento intelecualmente bem elaborados para provar que Mugabe não presta e ou o Ocidente. Demonizamos um ou outros e enquanto nos entretemos com isso a colera que Segundo Mugabe felizmente já não existe no Zimbabwe vai fazendo das suas. Nós que achamos que Bush e Blair e agora Brown são tão “diablos” quanto Mugabe porque também já viloraram e tanto os “ human rights”, somos tão iguas a nós que achamos que Mugabe é pior porque faz sofrer o seu próprio povo. Qual é a diferença? Só porque na Britain não colera, nos states também não há? E não h’a lá outros males. Somos igualzinhos sim. Porque enquanto os Zimbabweanos se danam lá com a colera, as Zimbas se prostituem nas ruas do Maquinino em troca de míseros meticais para se manterem vivas. Nós que a semalhança de Kofi Anan, Jimmy Carter e mama Graça achamos que seria bom entrar no Zimbabwe e ir avaliar a situação somos tão iguais a nós que achamos que o mais certo seria “mandar passear” essa turma de velhos que não tem mais oque fazer. Assim mostrariamos que Zimbabwe é dos Zimbabweanos e que eles( os velhotos) não tem autoridade moral, legitimidade alguma de se intromenterem.
Somos igualzinhos sim porque tal como Mugabe e como o ocidente estamos mais preocupados com nossos orgulhusinhos que mais nada. Já antes, muitos antes dissemos todos nós que Zimbabwe estava bem. Fizemos tudo para que não houvsse dialogo entre Mugabe e Tsvangirai porque achamos que Tsivangirai é um bonequinho criado pelo ocidente pura e simplesmente para invabilizar a sábia governação de Mugabe. Nós aplaudimos as sanções porque achamos que forçariam Mugabe a abandonar o poder. Nós aplaudimos a teimosia de Mugabe em se manter no poder porque achamos que assim o poderoso ocidente aprenderia uma vez por todas que “Africa é dos africanos” e aqui mandamos nós e mais uma vez ficamos aplaudindo enquanto os Zimbabweanos iam se lixando.
Eu estou farto dessas semelhanças.

Elísio Macamo disse...

também estou farto dessas semelhanças, caro nelson. é por isso que continuo a tentar fazer a reflexao.

JOSÉ disse...

Elisio Macamo afirma que no género de análise feita por mim ( e outros com ideias semelhantes ), não há análise, apenas ódio, emoção e diabolização. Se fosse outra pessoa a fazer este género de comentário, eu iria ficar extremamente ofendido, pois está a insultar-me usando generalizações descabidas, mas como é o Elisio Macamo este tipo de linguagem enquadra-se perfeitamente no seu estilo, trata-se mesmo de ruminação intelectual ou diarreia mental. Recentemente fui avisado por um distinto intelectual, que Elísio Macamo, entre outras coisas, é uma pessoa que não respeita as ideias contrárias. Fiquei convencido!

Elísio Macamo disse...

obrigado.