sábado, janeiro 10, 2009

Xithlangu VI

História, compreensão e incoerência

Uma leitora do blogue, a Maria, enviou-me um documento "power-point" com uma versão interessante do conflito Israel-Palestina. Coloquei-o aqui para os interessados. Acho a versão interessante pelo recuo histórico que faz para justificar o que deve ser feito hoje. Particularmente interessante é também a naturalidade com que a acção violenta de uns (Hamas) é justificada com base nesse recuo histórico ao mesmo tempo que a acção violenta de outros (Israel) é condenada também, embora parcialmente, com base nesse recuo histórico.


Para os que têm vindo a ler atentamente o que tenho escrito nos últimos tempos sobre o Zimbabwe e Robert Mugabe é natural que eu esteja do lado do recuo histórico. Tenho a certeza que as mesmas pessoas que no caso do Zimbabwe sempre dizem que a história é história e deve ser esquecida, na abordagem do caso israelita agarram-se à história para condenar Israel e apoiar os palestinos. Não lhes passa pela cabeça dizer, como dizem no caso do Zimbabwe, que o Hamas é um grupo terrorista sem o apoio de todo o povo palestino e que precisa de ser combatido. Depois disso, vai-se resolver o problema. Os vizinhos da Palestina deviam esquecer solidariedades políticas do passado, isolar o Hamas, juntar-se ao côro de vozes que diabolizam esse grupo e só depois disso encontrar uma solução para os problemas criados pela história.


Muitos deles não vão dizer isso por duas razões: não são nem coerentes, nem estão interessados em perceber o problema. E este é para mim o principal problema que enfrentamos na nossa esfera pública: a incoerência e a pressa das soluções. O problema é que para se ser coerente, é necessário privilegiar a razão à emoção. Só a razão é que nos permite abordar assuntos a partir de critérios mais ou menos independentes que concentram a nossa atenção nos méritos de uma questão. A emoção é, naturalmente, forte e vai sempre querer nos puxar para o seu lado. É ela muitas vezes que faz com que desconfiemos das versões que ouvimos por aí e nos interessemos por uma melhor compreensão. Todavia, se mesmo depois de nos informarmos melhor e sabermos que as coisas são diferentes do que o que o nosso coração nos diz seguimos o coração, bom, aí tornamo-nos culpados do crime previsto e punido pelo tribunal de integridade intelectual.

Eis, então, a bomba: acho importante que se faça um recuo histórico para se perceber o problema palestino. Contudo, não concordo com o recuo que este documento faz, embora para os propósitos políticos almejados pelos seus autores seja legítimo que eles assim procedam. Não concordo com o recuo porque no meu entender o recuo histórico, numa perspectiva analítica, não deve ter como objectivo justificar a acção de uns e condenar de outros (como o documento faz), mas sim de perceber o contexto que torna intelegível essa acção. Acho que são coisas diferentes. Quando olho para a expropriação da população africana na Rodésia do Sul como forma de perceber o problema zimbabweano não o faço (nem nunca o fiz, apesar de ler críticas que me imputam isso) para justificar o que Mugabe faz hoje. Faço-o para perceber o que o motiva e poder perceber, também, como ele vê e avalia vários ângulos da questão. Não é correcto limitar as liberdades de outros, torturá-los, matá-los, etc., mas um observador que quer perceber uma situação tem que estar preparado para dar ao actor directamente envolvido nessa situação o benefício da dúvida quanto ao que ele diz ser a sua motivação. Se Mugabe diz que luta pelos direitos do seu povo, então a minha obrigação é de partir desse pressuposto e não simplesmente envolver-me na discussão e dizer que é mentira. E isto é tão importante quanto nenhum de nós está envolvido na resolução daquele problema. Somos apenas circundantes. Porque não tentar mesmo perceber?

Então, o conluio britânico e americano contra os palestinos em 1948 não justifica os ataques indiscriminados do Hamas, mas é extremamente relevante para percebermos a posição a partir da qual o Hamas apreende a sua situação e a do seu povo. É também crucial para percebermos porque forças menos radicais (a OLP dos nossos dias) não têm o protagonismo que durante tanto tempo tiveram. É também importante para podermos desenhar cenários sobre soluções alternativas, se é que elas existem. É claro que também podemos simplesmente dizer, como se diz, que só existe uma solução e essa solução consiste em obrigar Israel a parar com a sua agressão. Os alemães têm um ditado segundo o qual para quem tem apenas um martelo todos os problemas são um prego. Para quem vê os problemas da vida social em termos de bons e maus no mundo, na verdade, só há bons e maus. E os maus têm que ser diabolizados como condição de resolução de problemas. Uns diabolizam Israel, outros Hamas. Tudo mesma coisa.

Mas isto é triste, sobretudo quando vem de gente que diz ter algo a contribuir para o fomento do nosso país. Por isso, jovens cientistas sociais que passam por aqui, ponham-se a pau. O mundo está cheio de profetas. Quase todos eles são falsos. Emancipem-se! Resistam à tentação de seguir profetas. Não se deixem desencorajar por aqueles que dizem que é perca de tempo tentar perceber problemas. Esses estão com preguiça de pensar. Pensem, pensem, pensem.

2 comentários:

Anónimo disse...

Oi Macamo
É extremamente complicado quando na nossa esfera publica faz-se analises baseadas em focos emocionais. Falo do caso Israel e Hamas. Este conflito por mais que as correntes de opinião atiram as culpas para o Israel, suportando-se em dizeres do tipo Israel está a cometer genocídio, matar inocentes, civis do povo palestino, não é bem verdade que o Hamas seja inocentado deste problema. O problema analise critica sobre qualquer assunto que mexe com o mundo é de, apontarmos o dedos baseando-se no presente se no entanto recorrermos aos antecedentes, o mesmo caso Israel & Palestina (Hamas); Robert Mugabe & Reino Unido; Dhlakama & Fraude nas Eleições. Este último que nos fez cair de costas numa conversa “sem nome” com a nossa Televisão(TVM), Afonso Dhlakama, justificou-se desta vez, a derrota do seu partido nas eleições autárquicas de 2008 alegando que o problema não é do líder é da Frelimo que, segundo ele, manipulou o processo eleitoral. Voltando ao assunto principal, o caso Israel e o movimento Hamas, requer uma analise profunda e recorrendo, sobretudo, ao passado para compreendermos o presente. Obrigado Macamo por mais um texto! Mendes Mutenda

Elísio Macamo disse...

caro mendes,
estas coisas sao complicadas. o que israel, com o apoio dos eua, está a fazer aos palestinos brada aos céus. o que o hamas faz é de uma irresponsabilidade incrível. mas a análise deste problema nao termina com essas constataçoes. a análise começa aí e é isto que alguns dos nossos analistas precisariam de interiorizar antes de mandarem calar os que interpelam criticamente. sobre o zimbabwe escrevi, apoiando-me num dos mais finos intelectuais africanos, mahmood mamdani, que temos ali um caso paradigmático dos desafios que se colocam aos países africanos numa situaçao de colonizaçao bem sucedida. o desafio zimbabweano, sobre o qual mais gente que se diz intelectual devia realmente reflectir, é esse mesmo: como consolidar um estado democrático num contexto viciado pela história e estruturalmente injusto? israel e palestina apresentam-nos problemas idênticos pelo menos do ponto de vista dos desafios que colocam à noçao e prática de democracia em contextos onde a identidade, a religiao e ressentimentos históricos viciam o ambiente. curiosamente, esses problemas nao nos sao distantes pelo que até seria do interesse de moçambicanos reflecti-los com toda a distância crítica possível. no nosso país também há desigualidades estruturais historicamente sedimentadas que colocam a democracia sob forte ameaça. se um dia conflitos deflagarem nao nos vai servir de nada andar à procura de bons e maus. abraços