A cólera e as reacções populares
Prossigo com a minha reflexão sobre o sentido crítico. Desta feita gostaria de me debruçar sobre um fenómeno bastante interessante que está a abalar o país neste momento. Refiro-me à colera e a reacção popular nas províncias de Cabo de Delgado e Nampula que consiste em ataques às autoridades sanitárias que são acusadas de trazer a doença com o cloro que distribuem. Este tema insere um potencial muito elevado de mistificação pelos cruzamentos que se podem fazer com a questão da tradição e modernidade, analfabetismo, ignorância e, como não podia deixar de ser, fragilidade ou indiferença do Estado em meios locais.
Os jornais têm vindo a noticiar com muita frequência estes ataques. A questão que me interessa neste texto não é de explicar as reacções populares. Para fazer isso teria de investigar o assunto ou ler uma quantidade considerável de trabalhos sobre o assunto para deles retirar ideias que poderiam servir de apoio para a formulação de argumentos mais ou menos plausíveis. Não fiz nem uma, nem outra coisa. O que me interessa fazer é outra coisa, nomeadamente reflectir sobre qual pode ser a nossa reacção às explicações que outros nos dão sobre o fenómeno. Espero mostrar, a este respeito, que aqui também há um grande potencial de credulidade, uma credulidade enformada por factores normativos, mas também por uma certa preguiça da nossa parte em irmos ao fundo das questões.
Vou concentrar a minha atenção num tipo de argumento que é frequente na nossa esfera pública e que consiste em chegar a conclusões a partir da constatação de correlações e partir dessas correlações para uma causa. No fundo, não há nada de errado neste procedimento e, aliás, a responsabilidade pelas conclusões que são tiradas não pertence aos autores, mas sim a nós os leitores que preferimos as dar por adquirido. Portanto, à semelhança dos outros textos já aqui publicados, o meu ponto de vista não é de que os autores das ideias que vou apresentar e discutir aqui estão enganados ou não sabem o que fazem, mas sim de que os seus argumentos nos colocam desafios que devemos enfrentar de forma crítica como contribuição para uma esfera pública responsável e crítica. Existe, felizmente, um trabalho científico da autoria do Professor Carlos Serra do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane com o título Cólera e Catarse, realizado em 2002 (e publicado em 2003) na província de Nampula, que se debruça sobre esta problemática e procura proporcionar explicações. O estudo pode ser baixado aqui. A estrutura do argumento desse estudo apresenta as características de um argumento que parte de correlações para a causa. Mais adiante explico isto melhor.
Por enquanto, vou apresentar, de forma resumida, o argumento central desse estudo. Segundo os autores do estudo a crença popular (de que a cólera é introduzida pelo governo através do cloro) não é algo irracional como muitos de nós nos sentiríamos inclinados a crer. Ela documenta uma crítica popular ao Estado que não é dialogante, é ineficaz na solução dos problemas do povo, é representado por funcionários alheios aos anseios do povo e tudo isto num ambiente de privações. Na verdade, segundo o estudo a crença pode ser irracional do ponto de vista da explicação científica das causas da cólera, mas perfeitamente coerente com aquilo que os autores do estudo chamam de “consciência de privação”. De certa forma, portanto, o estudo diz-nos que esta crença é o resultado de um Estado, digamos, problemático contra o qual os populares reagem. Do ponto de vista formal, a estrutura do argumento é simples e consiste de uma premissa apenas. A premissa diz que existe uma correlação entre A (natureza do Estado) e B (crença popular). A conclusão é de que A é a causa de B. A hipótese formulada para o estudo gira em torno deste argumento: “A crença de que a cólera é introduzida pelo governo em Nampula através do cloro (fenómeno) é um indicador de insegurança popular (nível 1) ampliada pela tensão política (nível 2).”. Já na preparação da problemática os investigadores haviam anunciado a intenção de “desnudar o mito da cólera” através da obtenção de “... conhecimento das opiniões dos cidadãos sobre o Estado no concernente à prestação de serviços essenciais como água, saúde e educação”. O estudo confirma o nível 1 (a crença como indicador de insegurança popular), mas não encontra sustento para o nível 2 (a crença é ampliada pela tensão política), uma decisão que a leitura atenta dos depoimentos reproduzidos sugere ser algo arbitrária.
Para este efeito, os investigadores entrevistaram várias pessoas em alguns distritos da província de Nampula. Essas entrevistas produziram depoimentos muito interessantes que, na interpretação dos investigadores, revelam um mal-estar popular em relação ao papel do Estado. Os dados obtidos desta maneira em todos os distritos inquiridos convergem na apreciação negativa do papel do Estado e de algumas ONGs, por um lado, e na reacção que consiste em atacar os agentes do Estado e das ONGs como vectores do mal. O estudo critica duramente aqueles entrevistados, na sua maioria representantes do Estado, que atribuem a acção popular ao analfabetismo e à ignorância. Ele tenta mostrar que a crença não tem nada de irracional, mas é uma reacção (normal?) à indiferença e oportunismo dos agentes do Estado.
Interpelar criticamente
Como ler criticamente um estudo tão bem feito como este? Ainda há espaço para distância crítica? A correlação entre apatia do Estado e crença no mito da cólera é, nos dados apresentados pelo estudo, tão elevada que não pode haver outra maneira de interpretar os resultados. Existem basicamente três estratégias para interpelar criticamente este tipo de argumento. Todas elas consistem em perguntas. A primeira pergunta é a seguinte: será que existe mesmo uma correlação entre A e B? A segunda não menos importante é a seguinte: haverá alguma razão para supor que a correlação não seja simplesmente pura coincidência? Finalmente, a terceira pergunta é: é concebível que haja um terceiro factor (digamos C) que constitui a causa de A e B? Esta última pergunta não é inocente. Na verdade, há muitas correlações que fazemos no quotidiano e que se explicam, muitas vezes facilmente, com recurso a uma terceira variável. Por exemplo, podíamos associar a quantidade de estragos num incêndio ao número de bombeiros que o debelaram e concluirmos que os bombeiros são a causa do estrago. Contudo, pode ser que o tamanho do incêndio tivesse exigido mais bombeiros pelo que o próprio tamanho é que seria responsável pelos estragos simplesmente por ser um grande incêndio. Da mesma forma, podíamos concluir, a partir de dados que nos mostrassem que os idosos lêem menos do que os mais jovens, que a explicação para isso seria a própria idade, isto é o facto de com a idade as pessoas ficarem intelectualmente menos atentas, etc. Na verdade, porém, a explicação simples poderia ser de que os mais velhos lêem menos porque na sua maioria são analfabetos. Por conseguinte, a nossa distância crítica tem que nos conduzir a eliminar outros factores que possam estar por detrás da correlação imputada. Pensar criticamente significaria, neste caso, justamente eliminar esses factores.
Colocadas as coisas desta maneira, podemos começar a ver alguns problemas com o estudo. Em relação à primeira pergunta (será que existe mesmo uma correlação entre A e B?) podemos, socorrendo-nos dos dados facultados pelo estudo, dizer que de facto existe uma correlação entre a apatia do Estado e a crença popular. Os vários depoimentos são prova disso. Abro aqui, porém, um parêntesis para dizer que seria interessante perguntar também se em todo o lado onde se manifesta este tipo de crença o Estado é visto como sendo apático ou, dito de outra maneira, porque sendo o nosso Estado geralmente apático (suponhamos) não se verificam estas crenças noutros pontos do país com a intensidade que elas têm em Nampula? Estas perguntas são particularmente pertinentes na consideração da terceira pergunta mais adiante.
A resposta à nossa segunda pergunta (haverá alguma razão para supor que a correlação não seja simplesmente pura coincidência?) é menos linear. Há um investimento normativo muito forte por parte dos investigadores para estabelecer a responsabilidade do Estado. A (ir)responsabilidade do Estado é a resposta padrão dos estudos feita pela Oficina de Sociologia. Porque há linchamentos? Porque há privatização da justiça face à inoperância do Estado. Porque as pessoas frequentam as igrejas pentecostais? Porque estão a reagir à ausência do Estado cuja responsabilidade é escondida pelo discurso da culpa pessoal das preces feitas nessas igrejas. O que quero dizer com isto é que o estudo foi feito com a intenção de “desnudar o mito da cólera” através da obtenção de “... conhecimento das opiniões dos cidadãos sobre o Estado no concernente à prestação de serviços essenciais como água, saúde e educação”. Conhecidas que são as “insuficiências” do nosso Estado, era concebível que o discurso popular fosse diferente do apurado? Não me parece. Em certa medida, portanto, o estudo confirmou a sua própria profecia.
Contudo, há aqui e ali elementos interessantes que vão sobressaíndo dos depoimentos populares. Por exemplo, fala-se de conflitos entre duas interpretações do Islão; fala-se de conflitos entre os jovens e os mais velhos; fala-se de conflitos entre mulheres e homens, embora (tendo em conta o facto de se tratar de sociedades matrilineares) me pareça haver exagero na apresentação da novidade do protagonismo feminino. Estes conflitos são secundarizados no estudo e não merecem a atenção prolongada dos investigadores. O que me parece uma pena. Na verdade, teria sido muito interessante cruzar estes conflitos com o perfil social daqueles que se envolveram no ataque aos agentes da autoridade e procurar saber se aí também há correlações a fazer. É verdade que do ponto de vista da pesquisa seria difícil encontrar pessoas que tivessem a coragem de dizer que cometaram delitos, mas mesmo assim a partir dos depoimentos teria sido possível estabelecer correlações entre estes outros conflitos e as crenças. Os autores não fizeram nada disso e esta omissão parece-me constituir o calcanhar de aquiles de um estudo que, de outro modo, é um excelente exemplo da pesquisa social empírica. A responsabilidade, porém, não está nos autores, mas naqueles que vão ler o estudo sem procurar interpelar as suas conclusões para além do que foi dito.
À terceira pergunta (é concebível que haja um terceiro factor (digamos C) que constitui a causa de A e B?), para voltarmos à vaca fria, podemos responder afirmativamente. Podíamos dizer que a crença em si é manifestação de ignorância ou de estruturas tradicionais de pensamento, mas que isso em si não é fundamental. O que é fundamental é explicar a reacção violenta na sequência da crença. Aí podíamos dizer quer a reacção violenta, quer a apatia do Estado são fenómenos que são explicados pelo desmoronamento das estruturas de autoridade naquela região de modo que a nossa atenção não se deve cingir apenas às críticas ao Estado, mas às transformações que ocorrem naqueles meios. E, de facto, os vários outros conflitos mencionados, mas não aprofundados, revelam que a questão da autoridade é fulcral. É interessante notar que as pessoas, no fundo, sabem que o cloro não causa a cólera. Desconfiam das intenções dos representantes do Estado, mas esta desconfiança não explica a sua reacção violenta. Noto, ao reflectir sobre este estudo, que a crítica é a mesma que já havia formulado ao estudo sobre os linchamentos que, à semelhança deste, também não explicava porque a reacção ao Estado ausente consistia na acção violenta contra os outros.
Que fique bem claro: não escrevi isto para retirar o mérito ao estudo – que, insisto, é um bom e belo exemplo de um estudo empírico social – nem para dizer que o estudo foi mal feito ou que não devemos concordar com as suas conclusões. Escrevi isto para chamar a vossa atenção para o que está envolvido quando interpelamos criticamente os argumentos baseados na constatação de correlações que conduzem a causas. Escrevi também para mostrar que a interpelação crítica não pára às portas dos académicos. A opinião dos académicos, sobretudo quando ela se baseia em estudos sólidos como este, não é imune à crítica. A crítica pode ser feita sem retirar o mérito aos autores, mas no sentido de mais saúde na esfera pública. Alguns, como sempre, vão se zangar e dizer que eu próprio devia fazer os meus estudos e não me pôr a comentar os estudos dos outros. A esses só direi o seguinte: um dia! Por enquanto, dá-me gosto reflectir o que os outros reflectiram.
Um aspecto que gostaria de enfatizar é o seguinte: não há magia na ciência. Há apenas método. Conclusões impressionantes não são o resultado de qualidades excepcionais das pessoas que as tiram. São o resultado do método que eles aplicam na reflexão. E o método está ao alcance de todos nós. Uma boa maneira de se aproximar do método é aprender a ser crítico em relação ao que lemos ou ouvimos. Ser crítico de forma sistemática. Para evitarmos ser como aqueles que atacam agentes da saúde na falsa crença de que eles é que são a causa da cólera. E para sabermos distinguir uma explicação de uma justificação. O estudo aqui analisado mostra que existe um pano de fundo social e político que torna fecunda a imaginação das pessoas. Como o próprio estudo mostra, do ponto de vista científico trata-se de uma atitude irracional; contudo, o estudo prefere dar o benefício da dúvida às pessoas procurando nas privações que elas passam a coerência dessa crença. Penso que ao fazer isso subestima os efeitos que a desintegração da autoridade em contextos de profundas transformações sociais podem ter sobre as pessoas.
17 comentários:
Interessante Professor, muito interessante….o exercício de interpretação para “além do que foi dito”, acaba desaguando na crítica sistemática, que longe de procurar retirar o mérito dos autores, procura as fragilidades que passam despercebidas ao autor, sempre com o fito de melhorar a obra e algumas vezes actualizá-la.
A mim, inquieta-me as conclusões que o académico faz antes do estudo; afastando as hipóteses chaves para aquelas que o convém e me questiono: não será essa professor, uma outra forma de “preguiça da nossa parte em irmos ao fundo da questão?”
caro amosse macamo, concordo com a sua interpretaçao do significado da abordagem aqui proposta. infelizmente, isso também precisa ainda de se enraizar entre nós. há colegas que ainda nao perceberam que crítica nao é apenas destrutiva e que até pode ser uma forma de valorizaçao do seu trabalho. agora, o que o inquieta, inquieta-me a mim também, daí, em parte, estes textos. há uma certa maneira de estar na esfera pública que nos impele sempre ao que nos convém, mesmo em face de dados que nos mostram outras coisas. algumas discussoes que temos tido nos blogues têm muito disso e há sempre aquele que vai aparecer e dizer que nao há objectividade, é tudo normatividade. de facto, nenhum de nós é objectivo, mas penso que há valor em tentar sê-lo. pelo menos essa seria uma das maneiras de contribuir para melhores abordagens do nosso país. abraços
Mais uma vez é o sociólogo Elísio Macamo contra Carlos Serra. Ou crítica da Crítica. Aquele convite de vir ensinar como se faz crítica ainda nao foi lhe mandado? Nao é possível escrever cinco artigos sem mencionar Carlos Serra? Também pode ser uma maneira de ser fã dele, né?
Continuo a aprender como se critica uma crítica, mas esperava aprender também a fazer crítica como tal. Para quando?
Khanimambo!
Josué Langa
caro josué langa, obrigado pelo seu comentário. por acaso sou grande fa de carlos serra. acho que é o melhor sociólogo que o país tem. a sua produçao intelectual nao tem paralelo e ele tem feito muito pela formaçao de novos investigadores. o seu decálogo de um sociólogo devia ser referência obrigatória para todos nós. creio, contudo, que o josué langa nao percebeu a intençao do texto ao resumi-la à oposiçao elísio macamo contra carlos serra. se o país chegar ao ponto de mandar convites para alguém ensinar a fazer crítica, entao está tudo perdido. mas o seu comentário revela, infelizmente, a extensao do problema. acho isso muita pena. quanto à questao de saber se é possível escrever cinco artigos sem mencionar carlos serra a minha resposta é um nao claro. nao é possível. abraços
O comentário do Josué Langa resume MUITO BEM como funcionam as coisas na nossa esfera pública. A crítica é vista como oposição ao criticado. Nunca se vê esta como o tomar do bastão ou a tentativa de abrir outros ângulos para debater a mesma questão enriquecendo-a.
É assim que se criam os proscritos nos partidos, nas mais diversas organizações e até nas famílias. A ideia de que todos temos que fazer coro ou estamos contra tomou conta das mentes de muitos bons moçambicanos a exemplo de Josué. Esquecemo-nos que mesmo no canto coral há o tenor o alto o baixo e por aí além mas, mesmo assim, cria-se (na maior parte das vezes) harmonia.
É por causa de pensamentos como o do Josué acima que acho que as caixas de ressonância estão a multiplicar a despeito de uma massa crítica consciente, tudo isso para a desgraça desta pátria que deviamos amar, sem hipotecar as nossas consciências.
júlio, o problema é mais grave do que isso. o problema é que josué langa nao existe. se há alguma coisa na qual prestei atençao durante a minha formaçao formal foi na leitura e interpretaçao de textos. o "josué langa" escreve a partir de uma perspectiva que entra em choque com a pessoa que pretende ser. leia bem o comentário. mas estes sao alguns dos académicos e democratas que temos. vaidosos, aversos à crítica e intolerantes. mesmo supondo que eu estivesse numa campanha pessoal de perseguiçao a carlos serra qual seria o mal de comentar criticamente a sua obra se ao fazê-lo respeitasse (como creio que faço) as suas ideias? nunca me referi às suas ideias neste blogue sem as apresentar devidamente e mostrar onde discordo. e se ele é comentado mais vezes aqui é porque ele produz muito sobre o tipo de assuntos que também me interessam e que me parecem importantes para apreender o país. nao vejo mal nenhum nisso e se o "josué langa" tivesse lido o texto como josué langa (e nao como alguém que se sente visado) também nao veria mal nenhum nisso. é outro assunto, mas vem a calhar: tenho mais medo dos nossos "críticos" do que dos políticos que eles criticam! há um grande potencial de intolerância nesta malta.
Já ontem, quando li o comentário, me apercebera que o “Josué Langa” não era quem pretendia ser, está claro. Inquieta-me que se troque o rigor científico, com ataques a personalidade; que se confunda a antiguidade com o saber, porque até na religião, nunca se atestou a fé pelo maior ou menor tempo de reza. (pode se ter fé no primeiro dia da reza ou não?)
Os intolerantes de hoje, são os que se acostumaram a ditar regras sem serem contrariados, são os que acham suas posições dogmas e é lógico, só não sei se legítimo, que se revoltem com quem pense diferente.
Desagrada intensamente esta maneira de ver as coisas e já agora, se não nos queremos criticados, o melhor seria guardar o pensamento na bruma das nossas gavetas.
Critica (obra) sim; intolerância e ataques(pessoais) não!
Caro Elísio, continue a alimentar a esfera pública com estes apelos ao direito à razão. Os "Josué Langas" deste mundo continuarão a confundir recessão crítica com animosidade.
Estão habituados a bajular. Nunca hão-de saber que uma das formas de respeitar um Professor é prestando atenção aos seus trabalhos, criticando-os.
Criticar é uma maneira de mostrar que se leu uma pesquisa. De mostrar o nosso próprio entendimento sobre o que foi dito. Que nem sempre há-de concidir com as formulações originais.
Ainda bem que é assim. Que dois intelectuais da estatura de Elísio Macamo e Carlos Serra tenham ideias diferentes. Isso é bom para o país.
Intuo que o próprio Carlos Serra dá o devido valor a estas recessões críticas. Continue a faze-las sem embargo os bajuladores.
Obed L. Khan
Professor E. Macamo,
Gosto muito da sua exigencia e no seu rigor de análise e, é claro que, nalgumas vezes posso discordar com seus posicionamentos mas o certo é que está a contribuir significamente para uma nova forma de ver e fazer as coisas. Tenho aprendido muito a ser um critico e na esfera publica nenhuma ideia é final e intocável.
Elísio Macamo, Fico parvo com os pronunciamentos dos Langas! porque tenho comprado e (re)lido bem as obras dos dois Sociólogos e tenho percebido que em algumas do Elísio consta a colaboração do C. Serra por um lado por outro é que no que tenho percebido o Serra custuma criticar factos e o Elísio a forma como esses factos são criticados acho em mim que aqui há uma clara complementaridade, onde está o mal nisso? Langa veja que em algum momento porque não sou obrigado a nada há vezes que descordo com Elísio, Carlos mas digo te, eles são minhas referências...
São os Langas que não deixam o C. Serra mostrar que o Elísio Macamo está a enterpretar mal os seus textos porque a decotomia deles é este ou aquele não o que ele (E. Macamo) ve neles! Abraços
Caro Professor Elisio, infelismente tenho constatado, com alguma tristesa, que pessoas como "Josue" dominam este pais e pessoas como Voce e Serra, sao, na minha opiniao, uma minoria. Estas pessoas tem dificuldades em reconhecer o merito dos outros - tentam atacar mesmo sem "razao"! Eu sempre tenho dito que, se neste pais valorizasse o merito como tal, pessoas como Elisio Macamo e Carlos Serra estariam a frente deste pais, e nao seriam obrigados a discutir com pessoas com Josue!
What a pity!
caro amosse macamo, é isso mesmo. crítica sim, intolerância e ataques pessoais, nao! somos muitos que ainda temos de aprender isso. o que me incomoda é que uma parte significativa das pessoas mais intolerantes e aversas à crítica é composta por gente que grita aos quatro ventos as virtudes da democracia e da liberdade de expressao. há um nível de incoerência simplesmente assustador. caro obed, eu acho que o carlos serra do decálogo do sociólogo e dos combates pela mentalidade sociológica tem a postura que exiges. os inúmeros jovens sedentos de conhecimento e referências de pensamento precisam de um carlos serra que acredita naquilo que ele próprio escreveu e usa esse material como critério de selecçao dos seus defensores. caro bive, sublinho o que você próprio escreveu: nenhuma ideia é final e intocável na esfera pública, nem mesmo a ideia de que nenhuma ideia é final e intocável. nessa incerteza reside toda a paixao que a actividade científica evoca em muitos de nós. caro chacate joaquim, nao há nada melhor do que modéstia e comedimento. já os gregos aconselhavam muito ao temperamento como melhor estado de espírito para dar campo à razao. abraços
caro anónimo, lisonjeia-me e obriga-me a discordar um bocado. o país nao precisa de pessoas como eu ou carlos serra à frente. o país precisa de muita gente em baixo que faz uso da razao para interpelar aqueles que estao à frente. nunca confie os destinos de um país a um académico" confie-os à razao natural dos homens e crie condiçoes para que ela se manifeste e desenvolva. o "josué langa" nao é uma pessoa qualquer. é uma pessoa com méritos académicos muito maiores do que os meus, mas veja por onde se meteu...
Meus Caros,
Brilhante exercício académico este que o Elísio nos presta. Estás mais uma vez de parabéns.
Quando alguém se engaja numa pesquisar é porque tem normalmente uma inquietação, e acha que deve tentar perceber melhor. Ao pesquisar ele está centrado na objectividade como interpela o seu problema e não no que os potenciais leitores da sua pesquisa vão pensar. Caso adoptasse postura contrária, seria um político e não académico. Obedece somente as suas convicções e as regras de investigação científicas internacionalmente aceites. Toadavia, o autor deve estar ciente que a partir do momento que coloca a sua obra na esfera pública, esta será alvo de apreciação critíca, sublinha-se, dentro dos limites do objectivo do seu trabalho (e ainda bem que não somos perfeitos, pois isso nos confere a possibilidade de poder melhorar mais um pouco em busca da suposta perfeição). Este exercício é necessário, visto que permite enriquecer a obra; abrir outras possibilidades de olhar para o mesmo objecto; oportunidades de esclarecimento (nem sempre se consegue transpor para o papel aquilo que se pensa, e nem sempre se consegue perceber bem o que se lê) do que foi escrito.
Custa-me tanto acreditar que mesmo de muitas explicações que foram dadas acerca do papel da crítica na esfera pública, ainda existam pessoas que pensam como o Josué Langa. E sinto ainda muito mais, por ser meu xará. Mas o que fazer! Só podemos continuar a insitir.Acredito que o próprio professor Carlos Serra, académico que é, terá muito gosto em se inteirar das observações que são feitas sobre o seu livro, já que ele não é omnisciente. A crítica é inerente ao mundo académico e a vida em geral. Com este exercício, o Elísio presta ao Carlos Serra e aos demais uma grande ajuda, na medida em que denuncia algumas zonas de penumbra que podem ser exploradas e aprofundas pelos autores da pesquisa ou servir de fonte de inspiração para os outros. Isto permite alargar o o entendimento que temos sobre o objecto e ficámos todos a ganhar.
Já agora caro professor Elísio, tenho uma dúvida o conhecimento é ou não um fenómeno social? Isto é, na medida em que uma proposição para adquirir estatuto de conhecimento resulta da contribuição, cooperação e colaboração dos outros, onde a crítica se assume como uma das ferramentas indispensáveis para o efeito. Será que um homem, de per si só, pode se arrojar de alcançar a plenitude do conhecimento, sem necessidade de interagir com os outros? Tenho as minhas reservas.
Finalmente, ainda bem que nem todos Josues sao pensam da mesma forma. Fico até constrangido por este tipo ser meu xará.
Josué J. Muchanga
Um amigo deu-me a "chave" da intolerância que se verifica no seio da classe académica moçambicano. Foi numa conversa há alguns dias atrás. Porquê alguns académicos ficam histéricos, apenas porque a sua obra foi criticada?
Segundo o meu amigo, é problema de massa crítica. Ele deu o exemplo do Elísio. E disse que no sítio onde o Elísio ensina deve haver dezenas de académicos do seu calibre. Que escrevem artigos científicos. Se criticam mutuamente. Ou seja, Elísio beneficia constantemente duma "revisão de pares"
O que é que acontece no nosso sítio, que se chama Moçambique? Durante muito tempo Carlos Serra brilhou sozinho. Tibana brilhou sozinho. Castelo Branco brilhou sozinho. Cada um na sua área de interesse. O que eles diziam ou escreviam era reverenciado. Nunca tinham sido criticados. Nunca se beneficiaram duma "revisão de pares".
Muitos deles são brilhantes de verdade. Continuava o meu amigo. Não é qualquer pessoa que escreve o Decálogo de um Sociólogo. Só que, de tanto estarem sujeitos a palmadinhas nas costas, acabaram se habituando a isso. E, o que é pior, ficaram intolerantes.
Nessa intolerância não estão sozinhos. Todos aqueles que, ao longo das últimas décadas, se habituaram a encarar os nossos académicos como Papas, ou mesmo como Deuses ficam pessoalmente ofendidos quando alguém interpela o seu Papa. O seu Deus.
O que dá esperanças ao país é que está a surgir uma massa crítica importante, constituída por uma inquieta intelectualidade verdadeiramente moçambicana. Surge às dezenas. A era das palmadinhas nas costas está a chegar ao fim. Talvez esta seja uma das grandes conquistas da independência nacional. Milhares de filhos de “indígenas” nas universidades. Muitos deles tão bons quanto o Carlos Serra. Tão bons quanto Elísio Macamo. Estes milhares de intelectuais estão ávidos de espaço. Não reconhecem nenhum Papa. Não reconhecem nenhum Deus que escreva livros ou blogs. E ainda bem que é assim.
Os intelectuais mais antigos da nossa terra, se quiserem continuar relevantes, devem aprender a viver no meio de constantes interpelações críticas. Aprender a responde-las às claras. Sem capas. Sem Josués inventados.
Obed L. Khan
Caro Obed, quem tem às costas "Josué Langa" e que observa que "outros ficarão a fazer-se intermináveis perguntas digestivas que tomam por respostas" em alusão, a meu ver, a crítica que se faz ao seu trabalho, dificilmente alinhará pelo caminho que sugeres para "continuar relevante."
E para mim o problema não está na existência de muitos que têm numa determinada classe "verdadeiros Deuses", o problema é esta classe que assumiu essa consideração e, bem no fundo, devem se considerar Deuses, intoncáveis e inabaláveis. A intolerância não pode vir só do apoio/palmadinhas nas costas... há de ser por isso que inventamos Josués, para dizer o que não podemos dizer assinando pelo próprio nome.
Mas o exercício de interpelação não pode parar. Os "Milhares de filhos de “indígenas”" "Tão bons quanto Elísio Macamo" e Carlos Serra ávidos de espaço, têm que o conquistar, buscando permanentemente o saber, e despirem-se do preconceito e da arrogância de tudo saberem, preparando-se para a luta intelectual que se travará quando puserem o seu conhecimento a público.
Um abraço.
Júlio Mutisse
fico feliz em constatar que nao estamos sozinhos na preocupaçao por uma relaçao verdadeiramente crítica com o nosso país. acho que devemos reconhecer que nao é fácil aceitar a crítica, nenhum de nós aceita a crítica de ânimo leve. só que essa nao é a questao. a questao é de saber que circunstâncias é que encorajam alguns de nós a cultivar essa hostilidade à crítica. algumas razoes foram bem analisadas por vocês, josué muchanga (josué de verdade), obed e júlio. a outra razao que é mais do pelouro da teoria do conhecimento está ligada ao entendimento das ciências sociais. o mentor de "josué langa" está agarrado à ideia de que a análise científica tem como objectivo pôr a descoberto as forças ocultas que conspiram para oprimir o "povo". essa visao da ciência (que já critiquei neste blogue por várias vezes) é política e necessariamente intolerante porque está convencida de que quem nao vê as coisas desta maneira só pode estar contra o "povo". é um problema ligado à leitura acrítica de marx, um problema de grande envergadura porque polariza e radicaliza. nao é à toa que este tipo de abordagem considera as letras inflamatórias de "azagaia" como exemplos de "crítica social". eu acho que esta teoria de conhecimento é muito perigosa e quanto mais cedo alguns dos nossos jovens se afastarem dela, melhor para o país. existem injustiças gritantes na nossa sociedade, mas aqui alinho com aquelas correntes liberais que acham que o desafio intelectual consiste em incutir nas pessoas o espírito de solidariedade e empatia que os torne sensíveis ao sofrimento dos outros. quando tiver mais tempo vou fazer uma reflexao sobre este assunto, sobretudo em ligaçao com a conversa que tenho acompanhado por aí de criaçao de um partido.
josué (verdadeiro), existe uma bela metáfora que responde à tua questao: nós somos anoes nos ombros de um gigante. o conhecimento é cumulativo. quem diz ser original hoje em dia simplesmente leu pouco. bom fim de semana e menos perguntas digestivas!
Enviar um comentário