Objectividade pela …ésima vez
Está connosco na Universidade de Bayreuth durante toda esta semana Thomas Luckmann, sociólogo alemão, mais conhecido por ter juntamente com Peter Berger escrito um dos livros de sociologia mais lidos e citados fora da disciplina, nomeadamente “a construcção social da realidade”. É professor visitante durante uma semana e tem estado a fazer seminários com estudantes. Na segunda feira proferiu a conferência de abertura. Num acto invulgar para este tipo de ocasiões, mas em reverência pela sua estatura e obra, os estudantes leram uma mensagem de boas vindas exprimindo o seu orgulho por o ter connosco. Ao agradecer os estudantes pelo gesto simpático, Thomas Luckmann contou uma história que se passou consigo próprio nos anos setenta. Leccionava ele, nessa altura, em Frankfurt e diz ter recebido uma carta escrita pela associação de estudantes da universidade de Viena. Nela os estudantes diziam ter lhes constado que a sua universidade havia oferecido um posto de trabalho a Thomas Luckmann e eles pediam-lhe que por amor à universidade de Viena ele não aceitasse!
Esses eram os anos da agitação estudantil, mas também de um entendimento militante da ciência que começou a bater em retirada apenas na década de oitenta. Conserva ainda alguns redutos aqui e ali, sobretudo em Moçambique onde a natureza da política impõe limitações à emancipação intelectual. Já nos finais da segunda década do século passado a universidade alemã havia passado por momentos iguais. Max Weber foi na altura convidado por estudantes para proferir duas palestras subordinadas aos temas “a ciência como vocação” e “a política como vocação”. Estas palestras foram publicadas e tornaram-se clássicos da fundamentação da importância da objectividade para o sucesso do empreendimento científico. Max Weber ele próprio foi político. Ele fazia política. Mas ele reconheceu a importância de separar as coisas e parece tê-lo feito com sucesso. Sempre que a blogosfera se mete a discutir esta questão da objectividade refugio-me nesses textos procurando alento neles.
Este é o caso agora. E decidi por isso traduzir alguns trechos da palestra “a ciência como vocação” só para usar a autoridade de Max Weber para ilustrar os ideais que me orientam na minha abordagem do país:
“... A política também não cabe aí [na cátedra] da parte do docente. Muito menos quando um docente se debruça cientificamente sobre a política. Com efeito, a tomada de posição de natureza prática e política e a análise científica de fenómenos políticos e posições de partidos são coisas diferentes. Quando alguém num comício fala sobre a democracia, fá-lo sem esconder o seu ponto de vista pessoal; justamente isso: tomar claramente partido é seu verdadeiro dever e responsabilidade. As palavras que uma pessoa precisa para tal não são, na circunstância, os instrumentos da análise científica, mas sim os instrumentos de propaganda política para influenciar outros. Essas palavras não são a charrua que vai tornar o solo do pensamento contemplativo mais leve, mas sim a espada contra o inimigo: meios de luta. Numa aula magisterial ou na sala de aulas, pelo contrário, seria frívolo usar da palavra dessa maneira. Aqui espera-se, quando por exemplo se fala de “democracia”, que alguém pegue nas suas formas diversas, analise-as no seu funcionamento, constate que consequências individuais cada uma das suas formas tem para as condições de vida, depois pegue nas formas não democráticas da ordem política e contraste-as e tente chegar ao ponto a partir do qual o auditório pode estar em posição de identificar o ponto de onde ele pode formar opinião tendo em conta os seus ideais. Contudo, o verdadeiro professor vai ter o cuidado de não usar a cátedra para impor ao seu auditório uma opinião, seja de forma directa, seja por sugestão – pois esta é naturalmente a forma mais desleal quando alguém “deixa os factos falarem por si”.
Mas porque é que não devemos fazer isto? Adianto desde já que alguns colegas que respeito muito são de opinião que não é possível impor esta auto-limitação e, mesmo se fosse possível, que isso seria apenas um capricho a evitar. Bom, o problema é que não é possível demonstrar a alguém cientificamente a sua responsabilidade como professor académico. Podemos apenas esperar dele integridade intelectual: a capacidade de ver que a constatação de factos, a constatação de proposições matemáticas ou lógicas ou mesmo da estrutura interna de bens culturais dum lado, e de outro lado a resposta à pergunta sobre o valor da cultura e dos seus conteúdos individuais e também sobre como no interior de uma comunidade cultural ou duma formação política se deve agir – ver, portanto, que se trata aqui de problemas heterogénos. Se ele [o docente] querer ainda saber porque não pode abordar estas questões heterogéneas na sala de aulas a resposta que se lhe deve dar é simples: porque o profeta e o demagogo não têm lugar no púlpito de uma sala de aulas: “vá para as ruas e fale publicamente”. Lá, portanto, onde a crítica é possível. Na sala de aulas onde a pessoa está perante o seu auditório, você [o profeta e o demagogo] cala-se e o professor é que fala; eu pessoalmente considero irresponsável que estudantes, para poderem progredir, tenham de frequentar aulas dum professor sem que esteja lá ninguém que o possa interpelar criticamente, e que este por sua vez se aproveite disso não para, como devia ser a sua tarefa, ser útil aos estudantes com os seus conhecimentos e experiências científicas, mas sim para os carimbar com o seu próprio selo político. É na verdade possível que não consigamos cancelar as nossas simpatias subjectivas por completo. Mas nesse caso sujeitamo-nos à crítica mais severa constituída pelo fórum da nossa própria consciência. E não prova nada, pois erros, erros de facto, são possíveis e isso não infirma a obrigação de procurar pela verdade. Justamente por causa disso e em razão do interesse científico rejeito essa atitude. Encontro nas obras dos nossos historiadores a prova de que sempre que o homem da ciência vem com o seu juízo de valor a compreensão completa dos factos termina...
... se alguém é mesmo professor de alguma utilidade, então a sua primeira tarefa é de obrigar os seus alunos a reconhecerem factos desconfortáveis, factos que, em minha opinião, são desconfortáveis para a sua opinião partidária; e existem para toda e qualquer opinião partidária – por exemplo mesmo para a minha – esses factos extremamente desconfortáveis...”
Max Weber e a ciência como vocação. A tradução do alemão é da minha inteira responsabilidade. Não tenho, infelizmente, nenhum exemplar disto em português. Tenho visto muitos jovens na blogosfera moçambicana a descartarem o desiderato de objectividade com muita pressa. Dizem que somos todos políticos, só que uns são declarados e outros não. Alguns anónimos têm até me convidado a dizer abertamente que escrevo em nome da Frelimo e do sul do país. Dizem que para documentar o meu compromisso com a objectividade devia também criticar a Frelimo e seus chefes. Característicamente, trata-se de gente anónima que de tão convicta que está do seu sentido democrático e da sua coragem usa o anonimato para ser rude e grosseira. Felizmente, é pouca gente que faz isto, apesar de meter muito veneno na nossa esfera pública.
Recordo-vos um texto que publiquei aqui no seguimento da minha reflexão sobre os entraves à uma esfera pública saudável (isto é mais uma dica para o Nelson Livingstone que perguntou numa das suas postagens porque só se deplorava a má qualidade, mas não se lhe fazia o diagnóstico). Chamo a vossa atenção particular às reacções de alguns anónimos (ou do mesmo) e não-anónimos a esse texto para terem consciência da dimensão do problema. Vejam como ignoraram completamente os méritos da questão e se puseram a insultar tudo e todos. Eu até fico arrepiado só de pensar que gente que pensa assim e emula estes esquemas de pensamento se considera “crítica” e “oposição” no país. É gente que não parece se interessar pelos méritos de uma questão, mas está sempre de garras afiadas para atacar pessoas confundindo as suas motivações políticas com tudo quanto todas as outras pessoas fazem.
Eu lanço um apelo à blogosfera moçambicana: vamos isolar esse pessoal que nos querer atrapalhar e só quer espalhar o ódio. O nosso país é coisa séria. Vamos fazer questão de ler com atenção o que cada um de nós escreve, aplicar o princípio de caridade na abordagem de ideias que nos parecem fracas procurando melhorá-las antes de as atacarmos e vamos ter a modéstia de reconhecer os nossos limites. Não é grave não perceber ou não saber uma coisa. Da mesma forma que Fidel Castro dizia que o único que é necessário para que haja chefe é que haja uma vaga, vamos reconhecer sem vergonha que a condição do conhecimento é mesmo não sabermos. Opinar só por opinar faz mal à esfera pública. E aos meus colegas docentes só posso recordar a responsabilidade que sobre eles pesa para tomarem a sério a sua tarefa de educar os mais jovens. Não se educa os jovens encorajando-os a pensar que as suas ideias mal formadas e os seus preconceitos são a revelação da verdade. Educa-se-lhes incutindo neles a modéstia. Escrever o que confirma os preconceitos da maioria só para ter muitos leitores, seguidores e votos nos vários concursos em que participamos (melhor isto, melhor aquilo, melhor não-sei-quantos) serve apenas a vaidade individual (que é assunto pessoal e legítimo), mas faz muito mal ao sentido crítico. E como diz, e bem, Weber: sempre que o homem da ciência vem com o seu juízo de valor, a compreensão completa dos factos termina... E termina mesmo. Abrem-se as alas ao anónimo para meter a sua peçonha.