Vejam como inicia o discurso do Procurador-Geral da República e reflictam comigo o papel deste ceremonial todo na distinção social. Prestem atenção à forma como ele se dirige ao povo:
Senhor Presidente da Assembleia da República,
Excelência;
Venerando Presidente do Tribunal Supremo,
Excelência;
Venerando Presidente do Conselho Constitucional;
Excelência;
Senhores Membros do Conselho de Ministros,
Excelências;
Senhoras e Senhores Deputados,
Excelências;
Senhores Membros do Corpo Diplomático;
Distintos Convidados;
Caros colegas das Magistraturas Judicial e do Ministério Público;
Minhas Senhoras e Meus Senhores;
Caro Povo Moçambicano (sublinhado meu)
E não nos esqueçamos: ele estava a falar na casa dos representantes do povo. Em sua própria casa o povo é apenas “Caro Povo Moçambicano”, em último lugar depois de excelências e venerandos. Quanto mais vazio o conteúdo, mais importante se torna a forma. Depois de um início tão pomposo esperava também um fim igualmente pomposo. Nada disso. O discurso termina assim:
“Para terminar quero agradecer a paciência de me ouvirem e a atenção prestada. Muito obrigado”. Só isso? Para quê nos habituar mal para terminar assim tão asceticamente? Para onde foram as excelências? Já estavam a dormir? Bom, ele tinha mesmo que agradecer a paciência. 107 páginas! Algumas perguntas aos que entendem da matéria: 1. O Procurador-Geral da República foi à Assembleia ler o relatório inteiro de 107 páginas? 2. Esse relatório foi disponibilizado previamente aos deputados? 3. Os deputados discutiram com base no que ouviram o PRG a ler? 107 páginas? 4. quanto tempo levou para esse efeito? 5. É assim com todos os relatórios? 6. Não era melhor produzir uma síntese com as linhas gerais e facultar o relatório completo previamente para melhorar a qualidade da discussão?
Já começo a perceber porque os debates são por vezes fracos. Aliás, o próprio relatório – que estou a ler aos bocadinhos – parece-me de facto muito pobre. Não me refiro à questão política de saber se a Procuradoria-Geral da República está ou não a fazer o seu trabalho, apesar de me criar perplexidade a frase “[E]m suma, no ano de 2006, a legalidade, o combate ao crime e a administração da justiça funcionaram bem”, algo que, politicamente, o Procurador-Geral da República não precisa de dizer. Pode deixar isso à Ministra da Justiça. Refiro-me à qualidade analítica do documento e ao que ele revela sobre o que uma intervenção institucional deve ser. Espero voltar a este assunto quando tiver tempo para fazer uma análise discursiva ao documento. O Caro Povo Moçambicano merece saber de que estão a falar os venerandos e excelências quando se encontram em sua casa. Sei que estou a ser populista. Mas este tipo de linguagem ofende a minha auto-estima como moçambicano.
1 comentário:
Admiro o seu nível de atenção, caro Dr. Este, é para mim, um dos melhores textos desta semana.
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