domingo, abril 29, 2007

Fala sem consequências IV

Regresso ao blogue com mais um exemplo da fala sem consequências. Vem da Primeira Ministra. Ouvi-a (e vi-a) num noticiário da televisão moçambicana em finais de Março. Ela falava à margem de um encontro qualquer de empresários ou coisa parecida.

A dado momento da sua intervenção (já não me lembro se em resposta a perguntas de jornalistas ou não) ela lamentou o facto de haver moçambicanos que apresentam uma imagem negativa do País. Ela reagia, particularmente, a relatórios de consultores que diziam que o ambiente de negócios em Moçambique é mau. A Primeira Ministra explicou que o problema era metodológico. Muitos consultores, disse ela, vêm a Moçambique e fazem a recolha de dados com base em conversas com algumas pessoas. O problema, segundo a governante, é que essas pessoas que prestam depoimento começam a apresentar uma imagem destorcida da realidade por razões que só elas é que conhecem. A rematar a Primeira Ministra apelou para que essas pessoas simplesmente dissessem a verdade.

Isto é fala sem consequências. Há três coisas que são problemáticas no raciocínio da Primeira Ministra. A primeira coisa é simplesmente factual. Na verdade, muitos consultores (incluindo a minha própria pessoa) precisam de conversar com pessoas para obterem informação. Essas pessoas são de diversos quadrantes sociais, económicos e políticos. Pode ser que haja uma e outra mal predisposta em relação ao governo, mas de uma forma geral, os depoimentos de vários acabam revelando a tendência central. Para além das conversas, contudo, os consultores fazem recurso ao documentos oficiais e têm outros recursos metodológicos que lhes permitem formar uma opinião abalizada menos dependente de juízos pessoais de valor. O que acho problemático ao nível deste primeiro aspecto factual é a forma clara como as afirmações da Primeira Ministra revelam o fraco conhecimento que os nossos governantes têm sobre como funciona a pesquisa empírica. Podemos ter problemas em relação à consultoria como empreendimento científico, mas a transparência não constitui problema de maior. Do fraco conhecimento do funcionamento da pesquisa empírica à conclusão de que as ciências sociais não são relevantes para o combate à pobreza absoluta não vai uma grande distância.

Segundo, a ideia de que um comentário negativo em relação ao País só pode advir de maldade é também muito problemática. Para já, este tipo de atitude torna impossível qualquer tipo de discussão sobre seja o que for em Moçambique, pois os governantes podem sempre dizer que as pessoas que criticam ou apontam aspectos negativos fazem-no porque não querem o País por bem. Este é ainda um mal menor. O pior desta atitude é que liberta o governo da responsabilidade de explicar os seus actos, de convencer os que estão cépticos e, enfim, de fazer tudo para que cada vez menos pessoas duvidem das suas intenções e do seu trabalho. A Primeira Ministra quer transformar as pessoas em fãs do governo. Esta atitude constitui, em minha opinião, uma ameaça séria à democracia e ao debate livre de ideias.

Finalmente, o terceiro aspecto problemático é a ideia de conspiração. O que está mal no País, isto é o que a Primeira Ministra parece estar a sugerir, resulta do facto de que há moçambicanos não patrióticos. Só é patriótico o moçambicano que não aponta erros, diz constantemente “viva” ao Governo e confia nas boas intenções dos governantes.

Pessoalmente, tenho fortes reticências em relação ao compromisso da nossa Primeira Ministra com a transparência e o debate de ideias. Os seus pronunciamentos não inspiram muita confiança. Mas lá está, eu não estou a dizer a verdade. Quero mal ao País. Não sou patriota.

11 comentários:

Egidio Vaz disse...

Concordo com o Professor. Todavia, receio que o que acaba de explicar seja extensível a maioria dos outros consultores, não só estrangeiros como nacionais, e que são tantos.
Há sim, trabalho, muito trabalho de má qualidade e que o Professor Macamo está cansado de os rasgar. Esses, sim merecem toda a crítica da Primeira Ministra.
Mas também há consultarias,que não passam de um referendo ideológico. Encomendados por Estados ou Agências para aferir os desenvolvimento de determinados vícios como:
Estado da Democracia
Transparência
Boa Governação, etc.
Portanto, não estou aqui a defender a PM, antes pelo contrario. Também estou a lamentar a qualidade de outras consultorias que pelas recomendações que fazem, podem sufocar ainda mais os destinos do pais.
Esta resposta esta inspirada no seu texto: porque a pobreza nao e o nosso principal problema.

Elísio Macamo disse...

sem dúvidas. o que me inquietou nestas afirmações foi a ideia de que a "verdade" é só o que não contradiz o discurso do governo. com esse tipo de atitudes não vamos longe.

Aguiar disse...
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Elísio Macamo disse...

seria, de facto, interessante saber o que pensa a nossa primeira ministra sobre a verdade quando convida as pessoas a dizerem a "verdade".

Aguiar disse...
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Elísio Macamo disse...

vamos supor que assim seja.

Aguiar disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elísio Macamo disse...

cara iolanda, levantas pontos interessantes que importa discutir. só que têm, em minha opinião, pouco a ver com o meu comentário. penso, mas não tenho a certeza, que estás a confundir "crença" e "verdade", por um lado, e verdade "essencial" e verdade "relativa", por outro lado. o meu comentário às afirmações da primeira ministra não me obriga a produzir o meu entendimento da noção de verdade, embora esse exercício seja importante numa perspectiva filosófica que não é a minha. comentei o facto de ela, aparentemente, associar a "verdade" àquilo que corresponde com a sua atitude normativa. responder a isso dizendo que cada qual tem a sua noção de verdade é uma receita para nunca nos entendermos. no final de todas as coisas o que eu estou a dizer é justamente que temos que discutir estas coisas. não vejo em que medida é que reagindo à limitação do debate por ela proposta constitui a mesma coisa. mas se achas legítimo que alguém coloque a suspeita de "não-verdade" sobre o pronunciamento que ofende a nossa orientação normativa, muito bem.

Aguiar disse...
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Elísio Macamo disse...

olá, continuo a pensar que levantas pontos interessantes. contudo, o seu sentido escapa-me cada vez mais e não estou certo se esses pontos são relevantes para o que tentei fazer aqui. o teu último comentário revela isso, pois não questionei os teus esforços, mas sim levantei a questão levantada pelo comentário da PM segundo o qual o que ofende a sua própria orientação normativa seria "não-verdade". portanto, sempre defendi a ideia de que qualquer que seja a ideia de verdade que tenhamos, ela não pode limitar o debate. nesse sentido não vejo porque estou, eu próprio, a limitar o debate, a fazer fala sem consequências ou sujeito à ilusão da ideia de verdade. qualquer que seja o fundamento filosófico do que entendemos por verdade ele não nos vai ser útil se não reconhecer a primazia da competência no debate. o comentário da PM é simplesmente falacioso, pois baseia-se no ad hominem. não é, portanto, a verdade que conta, mas sim a plausibilidade do que dizemos. sempre disse isto, razão pela qual não entendo porque tenho que discutir noções de verdade. a questão é, para mim, lógica. mas se insistes que tem a ver com a verdade ou lugar de verdade ou ideia de verdade, muito bem. vai, de certeza, ajudar-te nos teus propósitos. nos meus não ajuda, mas acho interessante que alguém reflicta sobre isso.

Aguiar disse...
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