A dado momento da sua intervenção (já não me lembro se em resposta a perguntas de jornalistas ou não) ela lamentou o facto de haver moçambicanos que apresentam uma imagem negativa do País. Ela reagia, particularmente, a relatórios de consultores que diziam que o ambiente de negócios em Moçambique é mau. A Primeira Ministra explicou que o problema era metodológico. Muitos consultores, disse ela, vêm a Moçambique e fazem a recolha de dados com base em conversas com algumas pessoas. O problema, segundo a governante, é que essas pessoas que prestam depoimento começam a apresentar uma imagem destorcida da realidade por razões que só elas é que conhecem. A rematar a Primeira Ministra apelou para que essas pessoas simplesmente dissessem a verdade.
Isto é fala sem consequências. Há três coisas que são problemáticas no raciocínio da Primeira Ministra. A primeira coisa é simplesmente factual. Na verdade, muitos consultores (incluindo a minha própria pessoa) precisam de conversar com pessoas para obterem informação. Essas pessoas são de diversos quadrantes sociais, económicos e políticos. Pode ser que haja uma e outra mal predisposta em relação ao governo, mas de uma forma geral, os depoimentos de vários acabam revelando a tendência central. Para além das conversas, contudo, os consultores fazem recurso ao documentos oficiais e têm outros recursos metodológicos que lhes permitem formar uma opinião abalizada menos dependente de juízos pessoais de valor. O que acho problemático ao nível deste primeiro aspecto factual é a forma clara como as afirmações da Primeira Ministra revelam o fraco conhecimento que os nossos governantes têm sobre como funciona a pesquisa empírica. Podemos ter problemas em relação à consultoria como empreendimento científico, mas a transparência não constitui problema de maior. Do fraco conhecimento do funcionamento da pesquisa empírica à conclusão de que as ciências sociais não são relevantes para o combate à pobreza absoluta não vai uma grande distância.
Segundo, a ideia de que um comentário negativo em relação ao País só pode advir de maldade é também muito problemática. Para já, este tipo de atitude torna impossível qualquer tipo de discussão sobre seja o que for em Moçambique, pois os governantes podem sempre dizer que as pessoas que criticam ou apontam aspectos negativos fazem-no porque não querem o País por bem. Este é ainda um mal menor. O pior desta atitude é que liberta o governo da responsabilidade de explicar os seus actos, de convencer os que estão cépticos e, enfim, de fazer tudo para que cada vez menos pessoas duvidem das suas intenções e do seu trabalho. A Primeira Ministra quer transformar as pessoas em fãs do governo. Esta atitude constitui, em minha opinião, uma ameaça séria à democracia e ao debate livre de ideias.
Finalmente, o terceiro aspecto problemático é a ideia de conspiração. O que está mal no País, isto é o que a Primeira Ministra parece estar a sugerir, resulta do facto de que há moçambicanos não patrióticos. Só é patriótico o moçambicano que não aponta erros, diz constantemente “viva” ao Governo e confia nas boas intenções dos governantes.
Pessoalmente, tenho fortes reticências em relação ao compromisso da nossa Primeira Ministra com a transparência e o debate de ideias. Os seus pronunciamentos não inspiram muita confiança. Mas lá está, eu não estou a dizer a verdade. Quero mal ao País. Não sou patriota.
11 comentários:
Concordo com o Professor. Todavia, receio que o que acaba de explicar seja extensível a maioria dos outros consultores, não só estrangeiros como nacionais, e que são tantos.
Há sim, trabalho, muito trabalho de má qualidade e que o Professor Macamo está cansado de os rasgar. Esses, sim merecem toda a crítica da Primeira Ministra.
Mas também há consultarias,que não passam de um referendo ideológico. Encomendados por Estados ou Agências para aferir os desenvolvimento de determinados vícios como:
Estado da Democracia
Transparência
Boa Governação, etc.
Portanto, não estou aqui a defender a PM, antes pelo contrario. Também estou a lamentar a qualidade de outras consultorias que pelas recomendações que fazem, podem sufocar ainda mais os destinos do pais.
Esta resposta esta inspirada no seu texto: porque a pobreza nao e o nosso principal problema.
sem dúvidas. o que me inquietou nestas afirmações foi a ideia de que a "verdade" é só o que não contradiz o discurso do governo. com esse tipo de atitudes não vamos longe.
seria, de facto, interessante saber o que pensa a nossa primeira ministra sobre a verdade quando convida as pessoas a dizerem a "verdade".
vamos supor que assim seja.
cara iolanda, levantas pontos interessantes que importa discutir. só que têm, em minha opinião, pouco a ver com o meu comentário. penso, mas não tenho a certeza, que estás a confundir "crença" e "verdade", por um lado, e verdade "essencial" e verdade "relativa", por outro lado. o meu comentário às afirmações da primeira ministra não me obriga a produzir o meu entendimento da noção de verdade, embora esse exercício seja importante numa perspectiva filosófica que não é a minha. comentei o facto de ela, aparentemente, associar a "verdade" àquilo que corresponde com a sua atitude normativa. responder a isso dizendo que cada qual tem a sua noção de verdade é uma receita para nunca nos entendermos. no final de todas as coisas o que eu estou a dizer é justamente que temos que discutir estas coisas. não vejo em que medida é que reagindo à limitação do debate por ela proposta constitui a mesma coisa. mas se achas legítimo que alguém coloque a suspeita de "não-verdade" sobre o pronunciamento que ofende a nossa orientação normativa, muito bem.
olá, continuo a pensar que levantas pontos interessantes. contudo, o seu sentido escapa-me cada vez mais e não estou certo se esses pontos são relevantes para o que tentei fazer aqui. o teu último comentário revela isso, pois não questionei os teus esforços, mas sim levantei a questão levantada pelo comentário da PM segundo o qual o que ofende a sua própria orientação normativa seria "não-verdade". portanto, sempre defendi a ideia de que qualquer que seja a ideia de verdade que tenhamos, ela não pode limitar o debate. nesse sentido não vejo porque estou, eu próprio, a limitar o debate, a fazer fala sem consequências ou sujeito à ilusão da ideia de verdade. qualquer que seja o fundamento filosófico do que entendemos por verdade ele não nos vai ser útil se não reconhecer a primazia da competência no debate. o comentário da PM é simplesmente falacioso, pois baseia-se no ad hominem. não é, portanto, a verdade que conta, mas sim a plausibilidade do que dizemos. sempre disse isto, razão pela qual não entendo porque tenho que discutir noções de verdade. a questão é, para mim, lógica. mas se insistes que tem a ver com a verdade ou lugar de verdade ou ideia de verdade, muito bem. vai, de certeza, ajudar-te nos teus propósitos. nos meus não ajuda, mas acho interessante que alguém reflicta sobre isso.
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