Porque o HIV é um problema?
Por vezes a pesquisa social empírica contribui melhor para a sociedade quando se faz de parva e pergunta coisas óbvias. Por exemplo, porque o HIV-SIDA é um problema? Melhor ainda, porque é que um governo deve combater o HIV-SIDA? Reparem que não se trata de questionar o que está a ser feito agora. O desafio é pôr a descoberto a economia política que sustenta a abordagem de um determinado problema e, por essa via, identificar possíveis constrangimentos, possíveis nós de estrangulamento, possíveis resistências e apurar quem tem um interesse genuino na solução do problema.
A indústria internacional do HIV-SIDA parte simplesmente da ideia de que é óbvio que se deve combater este mal e que há acordo sobre isso. Indicam-se, por exemplo, razões económicas. Pessoas formadas morrem; gente empregada morre e o governo vê as suas receitas fiscais diminuídas; consumidores reduzem-se; despesas surgem para famílias, por exemplo, com funerais e sustento de órfãos; grandes despesas para os sistemas de saúde; diminuição da força de trabalho. Enfim, do ponto de vista económico pode ser visto como um obstáculo muito grande ao desenvolvimento. Faz sentido. Mas sempre? Em todas as circunstâncias? E porquê? Que condições estruturais e sociais predominantes em Moçambique fazem com que o HIV-SIDA seja um problema do ponto de vista económico? Aqui podemos olhar para aspectos particulares como, por exemplo, para a questão dos professores. Em que medida os índices de infecção de professores constituiem um problema para o nosso sistema de educação? Porque desaparecem professores formados ou porque o nosso sistema de educação não está organizado de maneira a reagir a oscilações no apetrechamento em recursos humanos? A mim, por exemplo, interessaria saber qual é a relação entre professores que morrem de HIV-SIDA e os que abandonam a profissão à procura de melhores condições.
Fala-se também de razões sociais, algumas das quais implícitas nas razões económicas. Por exemplo, o aumento de órfãos, a destruição de estruturas familiares, a erosão da confiança nas relações sociais, o aumento de estigmatização, etc. Aqui podemos pegar, por exemplo, na questão dos órfãos e perguntar em que medida é um problema. Não nos esqueçamos que existe uma longa tradição em alguns meios moçambicanos de adopção e criação de crianças de parentes, próximos e distantes. Como é que os órfãos do HIV-SIDA se encaixam nesta estrutura? Como é que essa estrutura está a mudar? Será que o facto de serem órfãos do HIV-SIDA é mais importante ou a precariedade geral das condições de vida de muita gente é que constitui o problema? Na África Central fala-se das chamadas “crianças feiticeiras” e como nesta indústria o importante é repetir uma coisa, a coisa é tão repetida ao ponto de parecer que seja um problema quantitativamente significativo. Seja como for, eu estaria interessado em saber como esse problema se manifesta, em que meios sociais e em que contextos.
Do ponto de vista político sobrepõe-se uma espécie de razão instrumental. Assim, fala-se do interesse que governos têm em se manterem no poder, garantir votos, agir agora para que o problema não aumente e, finalmente, talvez também o sentido de responsabilidade. Mas lá está, que sabemos nós sobre as verdadeiras motivações dos políticos? A indústria do HIV-SIDA continua de costas viradas à África do Sul por suspeitar que o governo daquele país não esteja interessado na solução do problema. Mas será assim tão simples quanto isso? Em que medida é que o cálculo do voto pode levar um governo a agir? De que maneira é que a dimensão do problema do HIV-SIDA se pode insinuar como factor político susceptível de influenciar o comportamento dos políticos e decisores políticos? São os eleitores que constituem o factor determinante ou é, talvez, a própria indústria com o seu poderio financeiro?
Como podem facilmente ver, aqui também precisamos de saber muito mais do que pensamos saber. O interesse científico do HIV-SIDA não está apenas na repetição do papel do “sexo seco” no alastramento do mal. Há mais perguntas que podemos colocar, perguntas muitas vezes óbvias demais para serem consideradas pelos promotores da indústria, mas que são determinantes para a formulação de qualquer política de intervenção. Eu tenho, por exemplo, a impressão de que a insistência, entre nós, no Jeito ou fidelidade tem muito a ver com o facto de que sabemos muito pouco sobre o problema. Sabendo pouco, não podemos ter abordagens mais diversificadas. E aqui nós os cientistas sociais somos chamados a intervir ajudando a formular melhor os problemas com um conhecimento mais rico. Esse conhecimento vem de perguntas. Perguntas óbvias.
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