segunda-feira, outubro 01, 2007

O problema do HIV-SIDA (1)

Os desafios do HIV-SIDA

Li aí que o Governo está a preparar uma nova Estratégia de combate ao HIV-SIDA. A Comissão Política da Frelimo discutiu este assunto num dos seus encontros mais recentes. Os jovens reunidos em Maputo há uma semana também fizeram o mesmo. O HIV-SIDA é o tema incontornável dos nossos dias. E dá dinheiro. O que é bom. Mas o que sabemos nós sobre este assunto? Sabemos mesmo o suficiente – para não dizer o necessário – para desenharmos qualquer que seja a estratégia de combate? Suponho que sim, pois há muita gente a trabalhar nisto e, conforme disse há bocado, há muito dinheiro envolvido na coisa. Vou tentar dar nas vistas com uma reflexão sobre os desafios que este assunto coloca às ciências sociais em Moçambique. A minha intenção é de insistir na pergunta de saber se sabemos o suficiente. Para esse efeito, vou abordar, ao longo das próximas postagens, alguns aspectos deste problema que me parecem pouco iluminados, isto é onde há mais especulação do que conhecimento. Vou apresentar esses espaços escuros como desafios para os cientistas sociais.

O problema do HIV é de ter um estatuto complicado como objecto. Por um lado, ele apresenta-se como facto, um facto que se apoia em conhecimento bio-médico inacessível a muitos de nós cientistas sociais. Isto intimida-nos, pois não gostamos desta dependência de outras pessoas. Uma das consequências dessa situação é de trabalharmos na base de que o que é do pelouro da bio-medicina é zona proibida das ciências sociais. Não aplicamos mais este princípio fundamental das ciências sociais que é de duvidar. Também é difícil duvidar preceitos que são defendidos com armas que vão muito para além do argumento científico. É só ver a reacção às dúvidas de Thabo Mbeki. Alguns aspectos dessas dúvidas são problemáticos, isso é inquestionável, mas quando um assunto começa a ser tratado ao nível da crença cega nós os cientistas sociais devemos duvidar. Não é preciso pertencer ao grupo dos rebeldes contra a “verdade do HIV” para ver que algumas coisas em relação a este assunto não estão a ser bem contadas. Nenhuma estratégia vai ter sucesso enquanto a sua base empírica for a crença.

O que a reflexão sobre o HIV precisa entre nós é a dessacralização dos factos bio-médicos. Mesmo no caso de factos menos controversos, precisamos de continuar a interrogar. Os factos são factos porque alguém os põe a falar para nós com referência a verdades que nos são transcendentes. Por exemplo, a bio-medicina diz que há uma condição complexa que precisa de ser satisfeita para que haja infecção de uma pessoa para a outra. Líquidos do corpo infectados com uma alta concentração de vírus devem entrar directa ou indirectamente na circulação sanguínea de outra pessoa. Isto é TPC para um cientista social. Em que circunstâncias é que isso é possível? A bio-medicina orienta o nosso olhar de forma mais específica chamando a nossa atenção para o facto de que os líquidos em questão são o sangue, o esperma, as secreções vaginais e o leite materno. Pois, a nossa obrigação aqui é de perguntar que situações sociais é que propiciam o transporte desses líquidos de um corpo para outro. Que condições estruturais é que facilitam essas situações?

Estas perguntas são importantes porque em muitos casos algumas das coisas que sabemos sobre o HIV não se fundam necessariamente em factos. Fundam-se apenas na extrapolação daquilo que sabemos sobre as formas de transmissão. Qual é o peso da transmissão por via sanguínea? Quem são as pessoas mais vulneráveis a isso? Em que condições? Que tipo de políticas específicas é que podem ser desenhadas para essas pessoas? Que diferenças regionais existem na distribuição de formas de transmissão? Uma série de perguntas importantes que não são colocadas ou quando são, não está claro com base em que critérios, por quem e quando. O facto de se partir, por exemplo, da suposição de que a via de transmissão por excelência em África é a via heterossexual não nos devia, em princípio, obrigar a pensar, como muitos dos programas de prevenção o fazem, que os nossos hábitos sexuais são o tipo de problema que pensamos ser. Em certa medida são, mas quando nos damos conta de que, no fundo, o nosso comportamento sexual não difere muito do comportamento sexual de outros povos, então devemos começar a interpelar as nossas crenças. Li há dois anos no jornal Le Monde que havia na França um índice bastante elevado de gravidezes precoces. Consultei os dados de infecção do HIV-SIDA para a França e vi que não eram assim tão elevados. O que isto nos diz? É evidente que não nos diz que não há problema em Moçambique, mas diz-nos que temos que investigar melhor e sermos mais precisos em relação ao que queremos dizer com a ideia de que o nosso comportamento sexual é um problema.

Ainda veremos estes problemas com mais atenção no prosseguimento desta série. Para já gostaria apenas de chamar a vossa atenção para o facto de que o tema “HIV-SIDA” é muito mais complexo do que andar a repetir a ideia de que o fenómeno do “ku txinga” é que está por detrás do seu alastramento. Ou que as representações sociais é que são relevantes...

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