sexta-feira, outubro 05, 2007

O problema do HIV-SIDA (5)

O papel do Estado

Na semana passada o ex-secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, esteve em Berlim a pedir dinheiro para o Fundo Global de combate à tuberculose, malária e SIDA. Conseguiu biliões de dólares. Quando vi isso nos noticiários só abanei a cabeça. Mais uma instituição para nos distrair do que é essencial, pensei. Não é que esteja fundamentalmente contra o Fundo Global. Sei que tem feito boas coisas. Sei também que a sua existência é importante por trazer à atenção pública internacional a importância destas doenças. Estou contra o que a sua existência pode significar para a coerência da acção nacional e, sobretudo, para a elaboração de melhores formas de intervenção. Tenho dúvidas, muitas mesmo.

A história por vezes é uma boa aliada. A concepção do Estado moderno tem muito a ver com epidemias. O Estado moderno europeu, ou pelo menos a ideia de política pública, é impensável sem a peste. Coisas como fronteiras, passaporte e saúde pública são herdeiras directas da peste. Mesmo o conceito de “isolamento” – que vem da palavra italiana “isola” (ilha), que era para onde eram levados os indivíduos em quarentena – está ligada ao efeito estruturante da peste na intervenção pública. Antes mesmo de instalar o Conselho Nacional de Combate ao SIDA teria sido útil meter o pessoal que faz parte disso num seminário à porta fechada sobre a história de epidemias para ver se eles aprendiam um bocadinho a ver o HIV-SIDA como algo essencialmente antigo que exige um outro tipo de respostas. A história da peste, mas também da cólera – é só ler o excelente livro de Daniel Defoe sobre a peste em Londres – tem lições interessantes e acho lamentável que elas não tenham sido absorvidas pelos que fazem a nossa política do HIV.

Passei algumas horas a ler o Plano Estratégico Nacional de Combate ao HIV-SIDA de 2004 e que é válido até 2009. É um relatório que resulta de um trabalho sério, aturado e comprometido com a coisa. Contudo, fiquei também boquiaberto perante uma certa ausência de estratégia, fraca profundidade analítica e pouco interesse de articulação da estratégia com os desafios do desenvolvimento. Mas este é um problema geral do nosso país e, sobretudo, da forma como o governo funciona. Aqui, como em muitas outras coisas, o debate público podia ser o melhor conselheiro, mas há ainda gente que ainda não percebeu isto. As pessoas podem se enganar no desenho de estratégias, ninguém é omnisciente. Daí a importância de encorajar o debate público para que as pessoas saibam como corrigir enganos, falhas e erros. Custa-me a acreditar que esta “Estratégia” tenha sido o fio condutor de tudo quanto se tem feito nesta área nos últimos anos. Nenhuma das sete áreas de intervenção aborda o grande desafio da saúde pública em geral. O SIDA é simplesmente mais um negócio, com a agravante de ser um negócio chorudo. Perto de 80% do orçamento (de proveniência externa e interna) para as actividades de combate ao HIV-SIDA é consumido pelo próprio Conselho Nacional de Combate ao SIDA, pelo menos para os anos 2002 e 2003 (os anos mencionados na plano estratégico). E pior: a tendência é crescente quando a justificação é de que é preciso apetrechar a instituição com meios. Sim, claro, mas até quando?

O Plano Estratégico faz incursões aventureiras pela cultura moçambicana dizendo coisas como “a sexualidade é, em sociedades como a nossa, fundamento básico da moralidade familiar” e, constatando que existe sexualidade masculina e sexualidade feminina conclui, “por isso, a sexualidade é um recurso do poder e de força”. Fiquei simplesmente estarrecido, sobretudo porque é justamente esta maneira de pensar que impede as pessoas de olharem para os verdadeiros desafios estruturais e públicos desta epidemia. Quando se fala da pobreza e problemas de urbanização, por exemplo, é sempre na perspectiva de argumentar que esses problemas criam oportunidades para as pessoas adoptarem comportamentos de risco. Será mesmo esse o problema da pobreza? Não será, talvez, o problema mais geral de levar uma vida em que não existem incentivos estruturais para que a saúde pública seja do interesse de cada um de nós? Como é que se pode pensar o HIV-SIDA em moldes diferentes? Como é possível pensar esta epidemia para além dos modelos bastante simplistas da indústria que a sustenta?

Quiz nesta série chamar a vossa atenção para este tema como um grande desafio à nossa imaginação. O Plano Estratégico definiu a área de intervenção número 6 como área de investigação – felizmente, faz parte da porção do bolo maior, pois está incluída no âmbito do “sistema de suporte” e “estrutura do CNCS”. As tarefas que define para a área são algo ingénuas, mas já dá para começar. Há muito que podemos estudar em relação a este assunto, começando mesmo pela própria estratégia. Ela fala, por exemplo, das representações de saúde e doença na medicina tradicional como se fossem as representações de saúde e doença do indivíduo comum. É legítima esta suposição? Duvido. Faz vista grossa a incongruências estatísticas como, por exemplo, o facto de a província de Tete registar os níveis mais altos de conhecimento de pelo menos duas formas de prevenção do HIV-SIDA (esta tabela no relatório está estranhamente em língua inglesa) ou o facto de em Gaza haver mais de 35% de mulheres que sabem destas coisas mais do que homens. A que se deve isto? É defeito metodológico ou há explicações estruturais? Porque os estrategas não se interessam em perceber este fenómeno?

Enfim, aqui está uma oportunidade para sermos “práticos” e contribuirmos para o combate à pobreza absoluta.

7 comentários:

Unknown disse...

Caro Elísio
Neste, como em muitos outros sectores, estamos perante o problema de competência: as pessoas que estão à frente desta instituição - extremamente vital para o que se pretende: o controlo das infecções, ou pelo menos a inversão dos seus índices de crescimento - são as competentes para estarem à frente dela? Esta pergunta é válida para muitas das nossas instituições. Generalizou-se bastante entre nós a ideia de que qualquer um pode dirigir qualquer instituição. O que tem contado não é o essencial, se a pessoa tem ou não as competências e capacidades desejadas para a posição; apenas a capacidade de lobbing... E eis nos aqui nesta fase, em que o CNCS parece estar encalhado e desnorteado... e sem resultados! Infelizmente para o país.
MMabunda

Elísio Macamo disse...

caro moisés, obrigado por me tirares do tema "mugabe"... sim, lembro-me de ler um texto teu na revista "positiva" em que te debruçavas sobre este problema. é sério. de qualquer maneira, penso que podíamos remediar a situação fazendo o essencial. por exemplo, o plano estratégico indica metas claras e concretas. porque é que no momento de revisão da estratégia - agora, portanto - não se passa isso a pente fino e se pergunte, em caso de incumprimento, porque não se cumpriu, quem é o responsável por isso e como se deve controlar melhor o desempenho da próxima vez? por mim até se pode perguntar porque o ministro da saúde não fez nenhuma visita relâmpago ao cncs... tudo menos tentar elaborar agora uma estratégia que não aprenda da experiência passada.

Unknown disse...

o problema continua o mesmo, melhor dizer: desaguamos no mesmo ponto. as pessoas que conduzem o processo (elaborar o plano estratégico, implementá-la, avaliar a implementação, corrigir o que houver para corrigir, aperfeiçoar isto e aquilo...) são as mesmas cujas competências reputamos de problemáticas. Assim fica difícil caminhar com coerência para alguma direcção.
E o pior na nossa condição é que nunca se penaliza a falta de resultados - ou resultados deficitários. Mesmo nos discursos, os nossos responsáveis nunca em voz alta abordam os fracassos. É evidente para quem está atento que o Governo não está nada satisfeito com o CNCS, mas nunca em público um responsável usou os termos apropriados.
pessoas com alguma competência (pelo menos científica) são capazes de elaborar uma estratégia, avaliarem-na e corrigirem o que for necessário.
É como tens dito... ESTAMOS MAL!

Elísio Macamo disse...

pelos vistos estamos mesmo mal! mas o que dirias, por exemplo, da obrigatoriedade de programas desta natureza serem avaliados por instituições independentes? da mesma forma que se encomendam consultorias para elaborar uma estratégia podia se encomendar um trabalho de avaliação...

Unknown disse...

Seria uma saída boa essa que propões se as pessoas que depois têm que decidir sobre as recomendações dessas instituições independentes fossem as mais certas, i.e., competentes. Julgo que precisamos de uma revolução... (não verde!) se calhar cultural ao mais alto nível, que valorize bastante a competência, não a esperteza...

Eugénio Chimbutane disse...

As avaliações tem sido feitas por consultores também. Pelo menos contratam. Mas como mera formalidade contratual. Para continuarem a receberem fundos dos doadores. E mesmo no processo de selecção de consultores já ouví histórias e estórias. Os lobies servem para tudo neste país. Daí o ciclo de incopetências, irresponsabilidade e falta de alcance de objectivos: Demagogia!

Falando de costas quentes nos empregos estou a escrever um artigo sobre: costas quentes e ineficiência nas empresas - uma variante do conflito de agência (agency).

Aguiar disse...

Bom dia Professor
Olhando para os bilhoes de dolares de Koffi,...olhando particularmente para a SIDA...intriga-me porque se gasta tanto dinheiro com gente que à partida se sabe que vai morrer, qdo existem outras doenças (por exemplo varios tipos de tumores), que sao susceptiveis de cura, e seria suficiente investir um pouco mais na sua prevençao. Tenho posto esta questao a varios colegas, inclusivé do seu país tbem, que me dizem que se “deve dar uma morte digna as pessoas”, e justificam isto com a tradiçao africana - o ritual em torno dos funerais... pelo que pergunto, quem se ocupa dos vivos? Porque nos preocupamos apenas com aqueles que sabemos que vao morrer e nao com aquelas que ainda podem viver? Existe uma explicaçao cientifica para isto?

saudaçoes cordiais.