segunda-feira, maio 26, 2008

A caixa de ferramentas do sociólogo

Ando longe dos blogues por várias razões. Vai continuar assim por mais algum tempo. Não obstante, eis uma reflexão sobre o que está a acontecer na África do Sul.

Mafohlan

Esta palavra é onomatopeica e é xangan. Quando alguém anda onde há capim alto produz, no ouvido xangan, o som “fohla-fohla-fohla”. Só há capim alto, onde não há caminho. Portanto, esse som só é produzido por quem faz corta-mato. É daí que o verbo “ku fohla” (literalmente: fazer corta-mato) tenha a conotação do que é feito à margem do que é correcto. Por exemplo, uma relação extra-marital pode ser descrita como “ku fohla”. A ideia é de alguém que abandona o caminho certo ou legítimo para andar por áreas que não são reconhecidas como sendo caminho. Em Gaza há sensivelmente quinze anos que se utiliza o substantivo formado a partir do verbo “ku fohla” (“mafohlan”) para descrever os jovens que atravessam ilegalmente a fronteira com a África do Sul à procura de emprego. Eles não “abrem” como se fazia na década de oitenta; fazem corta-mato.

Aquando das cheias de 2000 no vale do Limpopo baptizou-se um peixe que apareceu aí com as águas das cheias com o nome de “mafohlan”. Creio que se tratava de uma espécie cultivada em viveiros na África do Sul e que foi arrasada pelas enxurradas desse ano até à foz do rio limpopo no Oceano Índico. Trouxe grande alívio às populações vítimas das cheias. O peixe era grande, tinha carne que se fartava, era fácil de pescar e muito barato. A opinião unânime de todos com quantos falei sobre esse peixe foi de que o “mafohlan” tinha um sabor horrível. Não havia maneira de o preparar condignamente sem ferir o paladar local. Cozendo-o desfazia-se, fritando-o mesma coisa. As pessoas chamaram-no de “mafohlan” porque tal como os seus próprios filhos, mas em sentido contrário, esse peixe também atravessou ilegalmente a fronteira com a África do Sul. Tal como os seus filhos lá na África do Sul este peixe entre os locais era um mistério por explicar. E a melhor maneira de explicar um mistério é tornando-o ainda mais misterioso; ignorem o pleonasmo, por favor.

Assim, o grande ponto de interrogação para as pessoas foi sempre de perceber porque o peixe tinha de ter um sabor tão desagradável se vinha para ser comido. Muitos alinharam a explicação com a maldade natural das coisas da vida e da sua experiência histórica. Com efeito, nada vem de borla. Se vem mesmo de borla, então alguma coisa não vai estar bem. Neste caso era o sabor que não estava bem. E, convenientemente, ninguém se preocupou em saber se a forma de preparar a presa não seria o principal problema. Antes pelo contrário, muitos detiveram-se no tamanho dos ossos do peixe. O “mafohlan-peixe” não tinha espinhos. Tinha ossos, disseram-me. E isto levou muitos a suspeitarem que o peixe não fosse realmente peixe. Era uma outra coisa qualquer. Peixe, decididamente, não era. Toca daí a conjenturar milhares de coisas sobre o “mafohlan-peixe”, a mais importante das quais foi que ele se alimentava de cadáveres das pessoas e animais que se tinham afogado nas cheias. Nenhuma destas conjenturas vai contribuir para que a carne do peixe saiba melhor. Isso é mais do que evidente.

Analisar fenómenos sociais

A história do “mafohlan-peixe”, mas também do “mafohlan-pessoa” sempre me fascinou. Durante as minhas pesquisas sobre percepções locais de calamidades na periferia do Xai-Xai recolhi vários relatos sobre isto. Tenho-os guardados por aí à espera de uma oportunidade para os interpelar sobr as propriedades da nossa realidade social que eles revelam. Os actuais acontecimentos na África do Sul dão-me uma oportunidade de começar a fazer isso. E como no caso das manifestações de 5 de Fevereiro no nosso país as ciências sociais estão perante o desafio de decidir se o que dizem sobre o que se está a passar corresponde a uma descrição, explicação ou, simplesmente, avaliação de um fenómeno social. É evidente que estamos perante uma manifestação do fenómeno de xenofobia. Mas isso é confirmação dos atributos do conceito “xenofobia” ou avaliação dos actos reais? É também evidente que a pobreza e desigualidade que caracterizam o quotidiano dos habitantes dos bairros periféricos lá na África do Sul tem muito a ver com o que se está a passar. Mas isso é explicação ou justificação? É interessante notar que a forma mais evidente de desigualidade naqueles bairros não é o conjunto de condições em que os estrangeiros se encontram, mas os altos níveis de vida que outros sul africanos (brancos e negros) gozam. Porque não atacar a esses? Esta pergunta é tanto mais importante quanto na discussão sobre o 5 de Fevereiro em Maputo falou-se muito de símbolos da distância do Estado e da ostentação como principais alvos da ira popular. Se alguém defendeu este tipo de tese naquele caso devia agora explicar porque na África do Sul são os estrangeiros e não o Estado ou seus representantes que estão a ser vítimas desta violência. Se disser que é porque agora a violência é uma manifestação de xenofobia, bom, lá estamos nós bem quentinhos no abraço desconfortável da circularidade sociológica mascarada em erudição.

Os relatos sobre o “mafohlan-peixe” e o “mafohlan-pessoa” são instructivos como pontos de entrada para uma abordagem académica sobre o assunto. Antes de entrar nisso, porém, deixem-me fazer um reparo sobre a natureza da violência que estamos a ver na África do Sul. Circulam imagens horríveis da sanha assassina que caracteriza essa violência. Isso está a levar muitos de nós a termos dúvidas sobre a humanidade dos perpretadores e, pior do que isso, a tentar reduzir isso a um essencialismo africano. Porque é que nós os africanos somos assim tão brutais e desumanos, é a pergunta que colocamos. Não é o Homem que é assim tão brutal e desumano. É o sul africano, em particular, e o africano, em geral. Pessoalmente, considero arrepiante a violência que assistimos na África do Sul e sinto-me profundamente revoltado. Recuso-me, contudo, a ficar por aí ou a insistir na brutalidade como o aspecto principal da nossa tentativa de compreender. A brutalidade é secundária, mesmo se revoltante. E não é africana. Em todas as situações de conflito e de manifestação de violência a “orgia dos loucos” – para usar a feliz expressão de Ungulani ba ka Khosa – é sempre uma possibilidade. Os americanos estão a fazer o mesmo no Iraque e em Guantanamo. O exército português fez o mesmo entre nós. O exército sul africano fez o mesmo na região. Quem quiser temperar a sua indignação contra a “negrofobia” só precisa de ler o livro de Nadja Manghezi sobre o ANC em Moçambique. É simplesmente horrível o que os homens são capazes de fazer contra outros homens.

E já que estou neste assunto. A nossa capacidade de violência contra outros é infinita. Estamos todos indignados com o que está a acontecer aos nossos compatriotas na África do Sul. Mas no nosso quotidiano vivemos lado a lado com outros em piores condições ainda. Vivem uma existência horrível, em bairros inseguros, mas muitos de nós ficamos à espera da brutalidade africana dos sul africanos para nos sentirmos solidários. Porque não organizamos marchas contra a pobreza absoluta e contra tudo quanto leva os nossos jovens a fazerem corta-mato à procura de melhores condições de vida? Não estou a colocar estas perguntas todas para provocar mal-estar em todos nós. Coloco-as simplesmente para contextualizar a natureza da violência, mas também para chamar a atenção para o que precisamos de problematizar quando abordamos esta questão. O que está em jogo neste assunto sul africano? Ingratidão e brutalidade? Não me parece. Está em causa, uma vez mais, o desafio de construção de um Estado dentro do qual o indivíduo não seja vulnerável. É um caminho tortuoso que ainda temos que seguir; nós e os sul africanos.

Dizia mais acima que os relatos do “mafohlan-peixe” e “mafohlan-pessoa” eram instructivos. Eles revelam a nossa tendência natural de transferirmos para outros os nossos próprios problemas através da mistificação. Assim, o “mafohlan-peixe” é que é misterioso, não a nossa incapacidade de com ele lidar. Na África do Sul o “mafohlan-pessoa” é que é misterioso (e culpado), não a sua própria capacidade de com ele lidar. Ora, não quero dizer com isto que a necessidade de bôdes expiatórios explique o que está a acontecer na África do Sul. Quero, isso sim, dizer que precisamos de analisar essa realidade que os protagonistas não querem analisar ou, simplesmente (porque não?), analisam mal. O que torna possível este protesto, se protesto for, e porque é necessariamente violento e dirigido a um grupo populacional específico? Que relaçao existe entre o sul africano e o seu próprio Estado? Como é que essa relação se articula institucionalmente? Que possibilidades têm os sul africanos, sobretudo os sul africanos nos bairros periféricos, de influenciarem a acção do Estado? Como é que são as relações entre os vários grupos populacionais nesses bairros periféricos? São necessária e intrinsecamente conflituosos? Enfim, uma série de perguntas que precisamos de fazer para começarmos a perceber o que se está a passar. A minha hipótese é de que estamos perante uma manifestação clara da fragilidade do Estado. Esta fragilidade não é apenas ao nível da sua capacidade de controlar a violência, mas sim de proporcionar espaços de articulação individual e colectiva dentro do sistema político. Ao que tudo indica, o sistema político sul africano continua ainda muito “apartheidizado”, isto é, ainda não confere direitos políticos reais a uma grande maioria da sua população. Nestas circunstâncias, qualquer incidente pode ser a faísca que o rastilho precisa para fazer explodir o dinamite. E nas circunstâncias precárias em que se vive nesses bairros periféricos, quando o dinamite explode proporciona a muitos várias oportunidades de resolverem momentaneamente os seus problemas materiais através da pilhagem. Não é inconcebível que a pilhagem não venha a ser o motivo principal da caça aos estrangeiros.

A análise que se impõe entre nós

Da mesma forma que o 5 de Fevereiro em Moçambique foi assustador por nos ter mostrado a fragilidade do nosso Estado, os acontecimentos na África do Sul, ao mostrarem a fragilidade deste Estado que julgamos ainda mais poderoso, torna premente a questão da relação entre o indivíduo e o Estado. É verdade que a cúpula política sul africana subestimou o problema e portou-se de forma vergonhosa. Uma boa parte da nossa indignação como moçambicanos vem um pouco da nossa própria experiência como receptores da ajuda solidária da Tanzânia e da Zâmbia. Podemos falar mal da Frelimo como quisermos, mas uma coisa que ela fez nos anos imediatamente a seguir à independência foi insistir connosco para que nunca esquecessimos a ajuda destes países. Penso que é essa “socialização” que está a contribuir bastante para o nosso sentido de indignação. E aqui, como aliás não podia deixar de ser, aproveito para abrir um parêntesis para lamentar a atitude de algumas pessoas que criticam os sul africanos por não mostrarem reconhecimento pelo que fizemos por eles, mas ao mesmo tempo, criticam os líderes da região quando são solidários pelas mesmas razões. Parece-me contraditório. De qualquer maneira, Thabo Mbeki e seu governo revelaram grande inépcia política por não terem incutido ao seu povo – como a Frelimo do período imediatamente a seguir à independência fez connosco – este espírito de reconhecimento. O Presidente sul africano ou outra personalidade política daquele país deviam se ter deslocado aos locais do crime para manifestarem a sua solidariedade com os “irmãos africanos” e reconhecimento pelo que nós passamos para que eles fossem também livres. O facto de não o terem feito – tanto quanto eu saiba – constitui um atestado vergonhoso das suas qualidades políticas. Se calhar o nosso governo devia usar fontes diplomáticas para fazer chegar essa mensagem de indignação.

Esta relação do Estado com o indivíduo entre nós é também importante para uma melhor compreensão do que está a acontecer. Podemos nos indignar pelo que acontece do outro lado da fronteira, mas não devemos esquecer a nossa responsabilidade. E aqui não poupo os sucessivos governos moçambicanos por nunca se terem verdadeiramente interessado na sorte dos seus cidadãos além-fronteiras. Desde o tempo colonial que o Estado em Moçambique é construído na base do trabalho de moçambicanos lá na África do Sul. Quando ficamos independentes em 1975, vimo-nos imediatamente confrontados com um grande problema de desemprego rural criado pela redução do número de mineiros moçambicanos na África do Sul. Aprendemos nessa altura a necessidade de reduzirmos a nossa dependência da África do Sul e a retórica revolucionária dos anos subsequentes ainda nos deu a impressão de estarmos a fazer alguma coisa por isso. Contudo, com o fim do Apartheid acabou também, entre nós, o discurso da redução da dependência e passamos, antes pelo contrário, a cultivá-la com afinco como se os males da dependência residissem apenas no facto de um governo ser “irmão” ou não. Os moçambicanos vítimas da violência selvagem sul africana são em primeiro lugar, pelo menos para mim, vítimas do desleixo do nosso Estado que deixou de pensar seriamente na questão da redução da dependência da África do Sul. Pior ainda, eles são vítimas da sua vulnerabilidade perante o Estado. Não podemos pensar o problema sem também equacionarmos estes aspectos. Indignação sim, mas, por favor, temos também que pensar no que isto significa para a nossa política. Os nossos trabalhadores imigrantes (incluindo os “mafohlan-pessoa”) só são assunto quando se trata de tirar proveito deles, mas quando algo como isto lhes acontece só temos pena. Por exemplo, que mecanismos de assistência é que o Ministério do Trabalho tem para dar socorro em casos destes? Não ficaria surpreendido se não houvesse nenhum. E isto parece-me grave ao mesmo tempo que é sintomático de tudo quanto está errado na nossa concepção e prática do Estado.

Penso que a análise desta problemática tem que passar por tudo isto. Só indignação não basta. E andar a dizer que é tudo culpa de Mugabe que não quer sair do poder também não dá.

25 comentários:

Júlio Mutisse disse...

Um regresso em força!!!

Anónimo disse...

Estou a deliciar-me com a sua intervencao, de facto bastante interessante. Precisamos que estejas sempre no activo.
abracos
Rildo

Anónimo disse...

Texto interessante professor. Permita-me acrescentar uma questaozinha, qual e o imaginario dos sulafricanos sobre o papel dos paises vizinhos na historia do seu pais? Emidio Gune

Elísio Macamo disse...

obrigado, júlio e rildo, estou a trabalhar, infelizmente, a meio-gaz. venho à internet por alguns minutos e depois tenho que cuidar da saúde e de outras coisas que lixam a saúde.
caro emídio gune, a sua pergunta é pertinente, mas difícil de responder. suponho que queira saber o que os sul africanos pensam do que nós fizemos por eles. acho que a resposta teria que ser diferenciada. sem conhecer muito bem a áfrica do sul colocaria como hipótese a ideia de que na cúpula há duas percepções diferentes. há a da velha guarda, sobretudo militar (estilo zuma), que tem um profundo reconhecimento. a violência forja laços fortes; há também a geração tecnocrática (estilo mbeki) que parece achar que a ajuda foi um simples acidente histórico; essa geração não perdoa nkomati, sobretudo por nunca ter percebido a dinâmica do próprio conflito militar. leia nadja manghezi para perceber melhor isto. estiv ainda hoje a ler um comunicado de imprensa do presidente mbeki e fiquei simplesmente atónito. ele menciona a solidariedade dos povos da região no último parágrafo e da forma mais indiferente possível, diz assim: "não podemos esquecer a hospitalidade que foi concedida aos sul africanos... o apoio dos estados da linha da frente ... foi decisivo para a conquista da democracia...". percebe onde quero chegar? hospitalidade é uma coisa, ser punido por essa hospitalidade, como o exército do apartheid fez connosco, é outra coisa; apoio é uma coisa, sofrer represálias por esse apoio é outra coisa. e tudo isso contribui bastante para que hoje muitos dos nossos compatriotas não tenham no seu país as condições que precisariam para não andar a incomodar outros. não sei como o nosso governo pensa sobre isto, mas este era o momento ideal para mostrar auto-estima protestando energicamente contra a atitude do governo sul africano. o embaixador sul africano devia ter sido convidado ao ministério dos negócios estrangeiros (se não foi), e o nosso lá devia ter sido chamado de volta. no seio da sociedade sul africana a situação é ainda mais complexa. aqueles que viveram no exílio bem como uma boa parte da classe médica intelectual têm uma atitude de reconhecimento muito forte. o problema, porém, é que o mundo celebrou tanto os feitos sul africanos (nação arco-íris e mandela) que muitos pura e simplesmente se esqueceram do que outros fizeram por eles. é esta a mensagem que deve estar a chegar lá em baixo. e não devemos esquecer que a luta anti-apartheid foi sempre coisa de jovens estudantes (pós-soweto, por exemplo) e negros em profissões liberais. nunca foi coisa da periferia. enfim, apenas hipóteses. o que acha?

Jorge Saiete disse...

A não satisfação das expectativas geradas com o fim do apartheid deve ser uma das principais razões do descontentamento da maioria dos Sul Africanos (vitimas da violência estrutural). Infelismente, naquele país parece existir uma tendencia de criação de extremos, gente extremamente rica num lado e noutro, gente extremamente pobre. A classe média é insignificante e os poucos que estão na classe média são (aos olhos dos nacionais pobres)maioritariamente estrangeiros. Esta situação preocupa a maioria dos sul africanos e infelismente encontram nos estrangeiros os responsáveis pela situação. Um Sul africano fez a seguinte questão a um jornalista " o que tu farias se a tua mãe desse acomodação a mim e não a você (que é filho dela)?

Concordo que o nosso Governo tenha negligenciado a nossa dependencia com a Africa do Sul mas duvido que nesta altura de crise seria boa opção mandar regressar o nosso embaixador. Parece-me que estariamos a exacerbar a situação, já por si caótica mesmo aceitando que Mbeki e o seu gabinete fizeram pouco para conter a violência ainda na fase inicial.

Anónimo disse...

Professor, interessante análise, mas esse reconhecimento bem forte como é traduzido na prática? Mais, lembrando que esses jovens guerreiros, ou não tinham nascido ou tinham menos de cinco anos quando o Apartheid foi declarado terminado. Acho que ficaria mais complicado porque essa história, enquanto experiência próxima, diz pouco ou quase nada a esses jovens, nem a muitos de nós aqui em Moçambique. Penso que Apartheid pode ser memória colectiva, mas não experiência de muitos deles, problemas deles são com o hoje. Nkomati, parece-me pedra no sapato de muitos ‘comrades’, incluindo os que estiveram nas trincheiras em Moçambique, do outro lado da fronteira já fui chamado traidor por ser moçambicano, por conta de Nkomati. Foi na brincadeira, mas uma brincadeira que pode ser uma hipótese de trabalho. Dizem alguns que os outros vizinhos do Zimbábwe, quando estavam bem, apoiaram o PAC e não o ANC. Exceptuando o presidente da Tanzania, prefiro não comentar atitudes e muito menos as declarações de nenhum dos presidentes, o que já é em si um comentário nada abonatório... Esse comunicado quando foi emitido? O que fizeram, onde andaram ou mantiveram-se antes? Concluindo, concordo que temos aqui uma oportunidade ímpar para repensar os rumos errados que o nosso país vem destrilhando, incluindo o mito da boa vizinhança e amizade para com os povos, que até é sugestivo mas não deve fazer perder a lucidez de Moçambique como um Estado e não uma província de um outro país, e por isso não deve depender eternamente de outros países. Caro Saiete quando 28 mil pessoas voltam de maos a abanar a situacao ja esta execerbada, nao acha? Emidio Gune

Júlio Mutisse disse...

Emídio, Saiete & Elísio,

Os sul-africanos (como a maioria dos africanos) estão orgulhosos de serem os hospedeiros do Mundial de 2010. Se calhar os que maltratam os estrangeiros na RSA, ainda não pensaram nos efeitos dos seus actos em relação a esse tão importante acontecimento.

Sem querer reeditar a teoria da "mão externa" largamente debatida na blogosfera a quando dos acontecimentos de 5/02, ocorre me o seguinte:

1. as obras relacionadas com o mundial podem sofrer (novos) atrasos atendendo que parte substancial da mão de obra está a ser hostilizada e, inclusive, morta (isso se considerarmos que muitos dos "pedreiros" a trabalhar na construção dos estádios, túneis para o metro etc são estrangeiros, inclusive, Moçambicanos);

2. a imagem da África do Sul fica debilitada; nota-se uma incapacidade das autoridades em controlar o fenómeno. E quando vierem os hooligans ou potenciais hooligans?

3. Os atrasos nas obras e a insegurança (se atendermos que muitos estrangeiros escalarão a RSA por alturas do Mundial) podem determinar a retirada do Mundial a RSA e a África no geral em benefício de outro continente, com perdas para todos nós (já tenho uma casinha pronta para arendar por essas alturas).

4. Quem sairia a ganhar?

Seria inconcebível pensar numa "mão externa" interessada em, com a onda de distúrbios e ataques aos estrangeiros, demonstrar que a RSA não está preparada para acolher o mundial e, não pegando o argumento da insegurança, criar condições para o atraso das obras que determinariam a retirada do mundial para um país que estivesse melhor preparado?

É que tudo me parece estranho e eu ainda ando a busca de razões para tudo o que está a acontecer. Outras que não sejam a pobreza, o vão entre os governantes e os governados etc.

Bayano Valy disse...

Caro elísio,
É a terceira vez que escrevo este comentário (não sei porquê digo este porque há sempre variações visto não ter salvo os dois textos anteriores e estar a confiar na minha mente para reproduzir, pelo menos, o teor das anteriores) porque de alguma forma perdi os anteriores. Bem, quero antes agradecê-lo pelas aulas de linguística que amiúde vai-nos dando. Por exemplo, é uma bela incursão etimológica que fazes para dismistificar a palavra mafohlane e a variação dos seus significados ao longo do tempo. Também ganhas pela feliz analogia que fazes, e sobretudo sobre a fluidez do conceito utilidade que emprestas ao mafohlane que é útil enquanto vale. Pois é, misterioso e útil até o seu tempo ¬– acho que a expressão inglesa “overstaying one’s welcome” é muito sucinta.
Concordo que não se pode de forma alguma essencializar-se esta violência gratuíta. A história humana está repleta de barbaries. Mais recentemente, começando de hitler à stalin, dos americanos aos bin ladins deste mundo, dos mobutu aos sionistas, de mugabe à ruanda, da mnr ao apartheird. Enfim, é um catalógo negro da nossa história. Temos que ser os primeiros a advogar contra o uso de dois pesos e duas medidas – a humanidade é uma, e não podemos ter senhores e servos.
Também concordo que não podemos exigir nada à áfrica do sul por termos apoiado os seus combatentes. Se os apoiamos foi porque servia os nossos interesses – só para ser reaccionário, porquê não ficamos ao lado dos boers? Levantaste uma reflexão sobre gratidão cujas incursões podem muito bem servir-nos de ferramentas de análise dessas manifestações xenófobas, principalmente no que concerne a esta questão de cobrança de dívidas, como muitos pretendem. Acho eu que esta é uma oportunidade para reflectirmos sobre o projecto político que queremos e pensamos que melhor poder-nos-á ajudar a construír a nossa nação. Recordo-me que num debate havido no ispu o prof lourenço de rosário afirmou categoricamente que havia uma percepção de que o moçambicano é um súbdito e não cidadão pleno (dá para reflectir, não?).
De facto, os sucessivos governos da frelimo parecem ter-se eximido das suas funções de esboçar políticas de protecção aos seus cidadãos no exterior. Tivemos que fazer uma barulheira para que leonardo simão mexesse alguma palha de modo a que se levasse ao tribunal o farmeiro boer que soltou os seus cães sobre trabalhadores moçambicanos apenas porque exigiram o seu vencimento (talvez não admire muito essa atitude visto mais tarde ter sido ele que “escravizou” os seus compatriotas na sua farma de rosas).
Será que temos mesmo políticas de protecção dos nossos compatriotas no exterior ou tudo se resolve caso a caso?
Os sucessivos governos parecem mais com sanguessugas. Que tratamento tiveram os madjermanes ou têm os madjoni-djoni? As suas remessas servem para quê? Será que de facto beneficiam o estado moçambicano ou a alguns indivíduos? Quantos anos passaram para que finalmente(?) se resolvesse o problema dos madjermanes?
Se o país exporta o seu capital humano, porquê não se tem políticas para captação de remessas? Estou em crer que há alguns países que desenvolveram ou estão a desenvolver através da exportação do seu capital humano. Mas evidentemente que deve haver grande transparência nisso, e penso que parte dessas remessas podia ser utilizado para a protecção dos nossos compatriotas no exterior..
Não há dúvidas que a questão do acordo de nkomati aínda está por se resolver. Recordo-me que em 1999 quando fazia o meu estágio num órgão de informação em londres, privei durante um dia com o moeletsi mbeki, que insistia que o que a frelimo fez foi traír o anc quando assinou o acordo. Eu defendia-me que nalgum momento o país tinha que seguir a sua própria política externa que era guiada pelos seus próprios interesses. Mbeki insistiu que na primeira oportunidade que eu estivesse em joanesburgo o procurasse. Fí-lo dois anos mais tarde e apresentou-me a um grupo de quadros do anc que sentem-se traídos até hoje. Infelizmente, não se fala muito do assunto mas seria bom que se começasse a debater a questão de uma forma cândida.

Anónimo disse...

BOOOOUUUUM!!!!! HAHAHAHAHAAHA ISTO ANIMA MESMO ...FOGOOOOO!

O PROF. ELISIO NÃO BRINCA MESMO...xchiiiiiiisssá!!! acho que alguém devia pagar por estes textos que estão no BLOG xchiiisssá!!!

HUMMMM talvez alguns que leem estes textos ficammm a BATER CABEÇA!!!OS DO SAVANA E DO ZAMBEZE DEVEM ESTAR A DIZER ele já voltou....hahahahahaha e veio com tudo!!!

SIM SENHOR PROF. MACAMO!!! GANDA PENSADOR.... mereces um premio PROF.

um abrasssssssssssso continua assim

KAVIARY

Anónimo disse...

confesso que dá muito gosto ler estes post´s do prof. elisio macamo...frequento o blog há algumas senamas mais já pude aprender muita coisa aqui...


parabens prof. elisio!!!

CLAUDIA CHISSANO

Anónimo disse...

este professor elisio não dá para fazer parte da NOMENKLATURA/do PODER ou lhe dar um cargo no governo da RENAMO nem FRELIMO PQ já vimos outros marionetes que hoje dizem uma coisa e amanhã lhe pedem opnião sobre determinado assunto ficam que nem o AMORIM BILA e muitos outros doentes pelo discurso oficial...

É triste ver pessoas assim não conseguem dar uma opnião...

o professor elisio é muito perigoso pq dispara por todo lado e sabe o que diz!!!

OUTROS como Fernando Lima, Eng. Venâncio, Jeremias Langa, Salomão Moiane e outros grandes homens que ensinam-nos muito .....pena que os pseodo politicos/académicos continuam com discursos falaciosos...

Paulo Magno

Anónimo disse...

desculpa fugir ao tema principal mas quero concordar com o Paulo que o Amorim Bila é um desastre pior que o da China ...

quando assisto o programa pontos de vista da stv, fico preocupado com as intervençoes do homem.

Acho que antes do programa ele é instruido para dizer/defender as ideias do partido mas a dada altura nem aquilo que lhe mandam dizer ele diz....nem a ideia dele não sai... triste!!!! mas é assim cada um quer chegar lá...

Reflectindo disse...

Caro Bayano
Ainda bem que introduziste essa questão de sentimento de traição de quadros do ANC pela Frelimo ou se não é pelos moçambicanos. E, eu dou um exemplo concreto: na Frontline Institute, uma escola com estudantes africanos na Dinamarca, os moçambicanos foram agredidos fisicamente pelos sul-africanos, após a assinatura do Acordo de Nkomati.

Jonathan McCharty disse...

Concordo com o Elisio & Bayano quando referem que o nosso governo deve comecar a ter uma postura "mais agressiva" quando se trata de defender o cidadao e os interesses nacionais! Nao devemos continuar a agir como se de marionetes nos tratassemos! Ha dias o presidente referiu a proposito dessa onda de violencia/xenofobia que "as nossas relacoes sairao reforcadas"! Eu acho que este tipo de afirmacoes ambiguas, sem punho mesmo, nao sao apropriadas para estes momentos!
Em relacao a situacao no Zimbabwe, o sr. presidente disse que "nao nos devemos intrometer nos assuntos internos doutros paises"! Mas e' sabido por todos nos, o quanto a nossa economia tem sido penalizada "pelos assuntos internos desse pais"!
Concordo que e' altura de comecarmos a definir o nosso rumo aqui na SADC, nem que tenhamos que tomar posicoes vigorosas, quando os nossos interesses sao postos em jogo! E o meu apelo e' que o nosso executivo tem que comecar a ter tomates! Nos nao somos um pais qualquer, subdito e manietavel por qualquer um!

Elísio Macamo disse...

caros amigos, obrigado pelas vossas intervenções. acho que esta troca de impressões está muito interessante. acrescentei mais azeite ao lume com mais um texto a tentar reflectir sobre a noção de protesto. como fico pouco tempo na net não posso reagir prontamente a todas as interpelações com a atenção que cada uma delas merece.
gostaria, no entanto, de começar por pedir aos que tecem elogios (que agradeço!) para não o fazerem à custa de outras pessoas. fica mal. defendo a ideia de que se alguém tem que ser criticado, tem que ser pelas suas ideias que devem ser honestamente apresentadas e discutidas. isto é importante para cultivarmos o tipo de debate que o nosso país precisa.
acho que é importante que o nosso governo mostre que coloca os interesses dos seus cidadãos acima da fraternidade que nos liga a outros povos. essa é a condição de valorização dessa fraternidade. creio que teria sido útil reagir assim neste caso, tanto mais que como estamos a ver, a julgar pelas várias contribuições aqui, alguns sul africanos influentes têm uma opinião negativa do nosso contributo e da nossa importância. continuo com a impressão de que existem forças no interior do anc que têm uma outra atitude, forças essas que tiveram protagonismo militar e, portanto, em melhor posição de julgar a correlação de forças. ainda vou escrever uma recensão crítica do livro de nadja manghezi, pois acho que nos dá pistas muito interessantes ao mesmo tempo que confirma algumas coisas que estão nas entrelinhas do livro de jacinto veloso.
sei que não respondi directamente às várias interpelações, mas se alguém achar que eu devesse responder directamente que me diga, por favor. assim que puder, faço-o.

Júlio Mutisse disse...

Eu gostaria que me respondesse se Seria inconcebível pensar numa "mão externa" interessada em, com a onda de distúrbios e ataques aos estrangeiros, demonstrar que a RSA não está preparada para acolher o mundial e, não pegando o argumento da insegurança, criar condições para o atraso das obras que determinariam a retirada do mundial para um país que estivesse melhor preparado?

Elísio Macamo disse...

caro júlio, inconcebível não é, talvez improvável. eu precisava de saber um pouco mais sobre o assunto para emitir uma opinião mais abalizada. teríamos, provavelmente, que procurar o culpado entre países potenciais beneficiários duma tamanha decisão pela fifa ou entre forças internas sul africanas que querem demonstrar a incapacidade do seu país para organizar um evento dessa natureza. custa-me, porém, imaginar que alguém inicie esse tipo de violência com esse objectivo, mas o que me custa imaginar não precisa de ser o limite do concebível. tenho mais facilidade em imaginar que alguém se aproveite do início da violência para tirar proveito nesse sentido. de qualquer maneira, a questão que tu levantas é útil como critério de avaliação da fraca reacção do governo sul africano. era de esperar que pelo menos o perigo de comprometer o mundial levasse as autoridades a serem mais decididas. enfim, apenas uma tentativa de resposta.

Anónimo disse...

"...andar a dizer que tudo é por culpa do Mugabe que não quer sair do poder na dá". Se bem entendo, o Prof. não recusa que o Mugabe tenha alguma culpa. Gostava que o o Prof. elabore mais sobre a responsabilidade (ou irresponsabiliadade) do Mugabe neste assunto porque há quem diga os alvos centrais dos protestantes são os zimbabweanos porque são a maioria.Estão lá fugindo da situação crítica do zimbabwe nos últimos 8 anos.

Anónimo disse...

"...andar a dizer que tudo é por culpa do Mugabe que não quer sair do poder na dá". Se bem entendo, o Prof. não recusa que o Mugabe tenha alguma culpa. Gostava que o o Prof. elabore mais sobre a responsabilidade (ou irresponsabiliadade) do Mugabe neste assunto porque há quem diga os alvos centrais dos protestantes são os zimbabweanos porque são a maioria.Estão lá fugindo da situação crítica do zimbabwe nos últimos 8 anos.

Elísio Macamo disse...

caro anónimo, a culpa não é só de mugabe. é também de adão e eva que desencadearam tudo isto. por favor, indiquei claramente nesta postagem e na postagem subsequente o que julgo útil discutir. se o anónimo acha que devíamos também discutir mugabe, diga-o e diga também porquê. se achar isso interessante talvez me envolva nessa discussão.

Anónimo disse...

Julgo últi discutirmos também Mugabe porque, até onde eu sei, a maioria dos emigrantes que sao alvos dos protestantes são zimbabweanos que fogem da crise no zimbabwe, onde Mugabe é presidente.

Elísio Macamo disse...

caro anónimo, siga em frente e exponha os seus argumentos. este espaço é aberto. de certeza que haverá mais gente interessada em aprofundar esse assunto.

Anónimo disse...

Mugabe pode ate ter alguma culpa mas não se lhe deve atribuir toda responsabilidade sob risco de deixar a solta outros culpado quiçá mais culpados que Mugabe. Quando se morre de cheias no Zambeze por exemplo, não vamos apenas culpar os céus que "abriram as portas" para as chuvas. Existem muitos outros elementos a considerar. Mas humanos são assim gostam de achar e cedo um culpado a quem responsabilizar. Quanto mais cedo se acha melhor. Livra-se do risco de descobrir nossa própria responsabilidade no "milando".
O facto da maioria de emigrantes alvos de ataques serem Zimbabweanos não nos deve precipitar a conclusões. E por favor que ninguém "precipitadamente" ache que estou a defender ou inocentar Mugabe.

Ercilio Langa disse...

Gosto do texto, acho-o de excelentíssima qualidade. Vou usar a primeira parte numa das aulas de leitura e interpretação de textos aos jopvens da secundária. Penso que dava um excelente artigo aos candidatos ao exame de admissão em língua portuguesa.
Acho que podia reuní-los e distribuir aí desde o primeiro ao quinto anos de Sociologia na UEM.
Digo isso evido ao rigor conceptual. Precisamos muito!
Vou sugerir o texto numa das aulas de sociologia.

Elísio Macamo disse...

força, ercílio! e obrigado.