Khanimambu Frelimo
Não vou fazer propaganda partidária. É um pouco de nostalgia por tempos que já lá vão. 1975-1983. Anos incríveis de entusiasmo milenarista em que muitos acreditaram no impossível. A Frelimo deve acordar com pesadelos à noite só de pensar naqueles gloriosos tempos quando milhões de pessoas entoavam, exortados por Samora Machel, “khanimambu Frelimo”. Era o hino inoficial de Moçambique. Talvez seja boa ideia em algum momento voltar a estes momentos da história para os analisar à luz do que sabemos hoje. Como foi possível sonhar assim? Como foi possível acreditar? Como foi possível ter esperança? Como foi possível aceitar que a construção de um país passa por consentir sacrifícios? Como foi possível que slógans (as famosas palavras de ordem; reparem: palavras de ordem!) pudessem motivar pessoas? Eram as emoções? Era o instinto de multidão que hoje, volvidas apenas algumas décadas, se manifesta pelo linchamento, pela resistência à ordem e pelo cinismo?
A fazer esse recuo para rever os momentos seria, naturalmente, importante incluir na análise toda a dramaturgia do “khanimambu Frelimo”. Não vou fazer isso agora. O que me interessa fazer, antes pelo contrário, é chamar a vossa atenção para o conteúdo desse hino revolucionário. Reparem: hino revolucionário! Hino; revolucionário. A Frelimo de então tinha uma inclinação imbatível para o verbo pomposo. Hino até porque era, mas revolucionário? Se calhar sim. Se calhar sim, se por revolucionário entendermos uma mudança radical e fundamental da ordem social. Mas temos ques er anacrónicos, isto é vermos essa mudança radical e fundamental com os olhos de hoje e do que a nossa sociedade é. Na verdade, o conteúdo deste hino naquela altura marcava uma certa continuidade com algumas noções de gratidão presentes entre nós. Só hoje com o seu desaparecimento aparente é que podemos falar de revolução. O hino dizia “obrigado Frelimo, por ter liberto a terra; agora vamos poder trabalhar a terra; vamos trabalhar; vamos ter comida suficiente; vamos estudar”e muitas outras coisas boas que gente normal e trabalhadora faz. O hino tem a estrutura melódica dos hinos religiosos de igrejas proféticas reunidos no famoso livrinho “mhalamhala ya evangeli”. Simples e monótono, mas profundamente comovente quando cantado por muitas vozes, sobretudo fora de tom. Reparem que o hino era uma exortação. A Frelimo fez a sua parte, dizia o hino, agora nós vamos fazer o resto. Agradecer à Frelimo significava, portanto, arregaçar as mangas e fazer-se ao trabalho. Mesmo a ideia de que havemos de ter comida suficiente (havemos de ficar saciados, é o que se cantava) não significava que a coisa seria automática. Não. A implicação era de que vamos ter comida suficiente graças ao facto de termos trabalhado.
Este hino correspondia, em minha opinião, a uma noção de gratidão que também está presente na nossa cultura, nomeadamente aquela gratidão que se manifesta quando as pessoas, em xangan, dizem “u tirhile!” (trabalhaste!). Na verdade, há certos contextos em que as pessoas agradecem desta maneira, isto é reconhecendo o esforço e empenho de outros. Ao dizerem “trabalhaste!“ estão, em certa medida, a dizer que só vão merecer a boa acção dos outros se também trabalharem. “U tirhile” é para mim uma das formas mais bonitas de agradecimento que tenho ouvido e gosto de ouvir. Trabalhaste! O reconhecimento de esforço parece-me uma condição de valorização do que os outros fazem. Implica também uma obrigação. Obrigação, reparem! Estou em crer que as pessoas que cantavam „khanimambu Frelimo“ naqueles anos inesquecíveis saíam desses comícios e reuniões com grande vontade de fazer o que o hino os exortava a fazerem.
A reflexão sobre isto devia também tentar perceber porque não foi possível manter esse significado. Porque não foi possível? O meu palpite é de que a própria Frelimo perdeu de vista, ou nunca percebera, o significado profundo desse hino. Com efeito, o hino deixou de ser uma exortação para ser uma celebração da própria Frelimo. Cada vez mais se insistiu no acréscimo da estrofe “Presidente Samora Machel sabe como libertar a terra”, algo que assumia formas algo indecorosas quando o grande líder se calava para ouvir o povo a entoar essa estrofe. Pior ainda, da forma futura “havemos de trabalhar, havemos de estudar, havemos de matar a fome, etc.” passou-se para o presente do indicativo: já estamos a trabalhar (que até era verdade), já estamos a estudar (idem), já temos comida suficiente (que não era verdade, sobretudo a partir de 1979; imaginem pessoas em campos de “deslocados” a cantarem isso!). Mas esta mudança de perspectiva correspondia, infelizmente, à imposição de uma nova relação de poder que como vimos em postagem anterior (ver aqui) criava condições para uma espécie de patrimonialização das relações sociais. A Frelimo ficou dona da terra a quem todos nos sentíamos obrigados. É por isso que era importante dizer também que já tínhamos comida suficiente, pois segundo os seus planos já devíamos ter comida suficiente.
Hoje, o “khanimambu Frelimo” continua bem vivo no dever de gratidão que temos em relação à Renamo, aos doadores, à IURD, à imprensa independente, aos “críticos”, ao “Chapa”, ao governo (naturalmente), à “autoridade tradicional”, às ONGs, à sociedade civil, etc. Nenhum destes “obrigados” constitui exortação para nada. É uma artimanha para nos submetermos à vontade dos outros.
10 comentários:
Alguém sabe explicar o que ocorreu na minha mente enquanto lia o texto?
É que as passagens que se referem as estrofes do ‘famoso’ hino estão em lingua Portuguesa, mas soavam em xangan a medida que as lia. Aconteceu com alguem mais?
Oh Patrício, no meu caso, para além de as interiorizar em xangan, por dentro eu cantava. A minha geração (1975) ainda "apanhou" esta onda embora, se calhar, já na fase do "culto de personalidade" da própria Freli a que o Elísio se refere.
Khanimambo, Khanimambo Frelimo (4x)
Hi ta xura, hi ta xura Moçambique (4x)
Etc.
Todas as revoluções tiveram uma fase de grande euforia em que, acreditava-se, tudo era possível. Eu tive sempre a curiosidade de perceber como é que todo um país pode ser embalado nesse género de crenças. Quem estudar a revolução francesa, a revolução russa de Outubro de 1917, a revolução chinesa ou a revolução cubana há-de encontrar este fenómeno da inacreditável crença que o Elísio tão bem descreve.
Talvez isso revele que a revolução moçambicana foi indógena. Porque duvido que esse espírito colectivo de abnegação e fé num futuro (breve) radioso possa se ter verificado nas "revoluções" que ocorreram na Europa do Leste a partir de 1945. Duvido que possa ter ocorrido nas "revoluções socialistas" propiciadas por golpes de estado em África (Benin, Etiópia, Congo Brazavile, Bourkina Fasso e outros). Duvido mesmo que este fenómeno tenha sido tão intenso em Angola quanto em Moçambique.
As revoluções genuinas têm, na verdade, este condão de despertar estas grandes, e positivas, e efémeras emoções nas massas populares. Líderes pouco escrupulosos podem, também, fazer emergir paixões negativas como os fusilamentos massivos e públicos em Cuba, os excessos da revolução cultural na China, os escessos do stalinismo na URSS a partir de 1923
Quando os anos passam e os povos outrora revolucionários olham para trás, não conseguem na verdade acreditar que eles é que foram os autores de toda aquela "obra". É só ver o Khanimambo FRELIMO. Todos nós cantamos com muito entusiasmo e, hoje, não percebemos porque nos esganitamos daquele modo até ficarmos roucos.
A única explicação plausível é esta que eu avanço. A nossa revolução era endógena e genuina.
Obed L. Khan
sim, patrício, a mim também aconteceu enquanto escrevia. fenomenal esse hino! júlio, a tua geração apanhou "se ha xurha, se ha xurha musambike"... obed, sim, estes momentos têm isto e como bem dizes o momento de 1975 respondia a algo genuino e endógeno. como recuperar isso? precisamos tanto neste momento. não precisamos dos excessos, do totalitarismo, do culto da personalidade, mas sim da crença num futuro melhor fruto do nosso trabalho. como lograrmos isso? penso que muitos de nós, académicos, temos o desafio de pensar estas coisas, o dever de operacionalizarmos no debate crítico o que ainda é possível e ainda não foi feito. por exemplo, como lograr a auto-estima? o que significa isto para cada um de nós independentemente da sua orientação política? acabar com o espírito do deixa-andar, o que significa isso? cada vez mais estou convencido de que não é de visões que o país é pobre, mas de homens e mulheres capazes de as transformar em projectos possíveis. é por isso que faço recurso à gratidão para saber se não haverá nela elementos que nos permitam avançar. é uma longa caminhada e embora não cante "khanimambu frelimo" vou entoando "mpoyombo makamu" que vou explicar na próxima postagem...
caros,
há um questionamento que sobre como recuperar aúreos de 75, sem os seus excessos. muito difícil. acho eu que todos os povos passam anos a fio esperando de um "messias", e quando chega (muitas vezes pregando no deserto) pode até ser capaz de galvanizar a nação toda em volta de um mesmo ideal contanto que existam todas as condições para as grandas epopeias. quando guebuza apareceu pensei que fosse o tal "messias". quantos anos passam? quatro? virei agnóstico há muito. mesmo assim lentamente vou acreditando que sou o meu próprio "messias" - heresia!!!! se cada um de nós for um "messias" e entregar-se de forma abnegada ao serviço de outrem, podemos talvez recuperar esses momentos (demasiado idealista). só que não sei acreditando que somos todos "messias" não acabaremos todos feitos um adonis: sem acção que não seja auto-lisonjeira. talvez se repararmos para a ética de trabalho dos protestantes como estudada por weber possamos aprender alguma coisa.
A "ignorância" deve ter contado muito nessa "euforia revolucionária" eu penso. As massas eram tão facilmente mobilizadas. Ninguém se assentava à mesa redonda para os nossos técnico-rigorosamente críticos debates de hoje. Ninguém "pensava", analisava e previa os resultados. Partia-se à luta seja ela qual fosse movido pela força dos discursos que eram acreditados de forma mais "ingénua" aliados à um desejo cego de ver mudanças. Quem parava para analisar as implicações? Hoje somos académicos, questionamos e as vezes em demasia. Somos cautelosos, calculistas e "desconfiados". Analisamos minuciosamente os discursos. Lhes estudamos as estruturas, descobrimos os "flows" as "gafes" e decidimos oque fazer com eles. A arte de "interpretar" cresceu e basta que um discurso seja interpretado para decidirmos se nos alinhamos ou não. Enfim tenho uma visão meio céptica. A cultura de trabalho honesto deixou de ser valorizado.
caro bayano, o desafio parece-me ser de perceber o que faz de um messias um messias e como nos devemos relacionar com essa ideia. um pouco hereticamente em relação à moda crítica actual gostaria de dizer que guebuza pode não ser exactamente o messias que pensamos precisar, mas é decididamente um político com visão e com sentido estratégico apurado. ele precisa, contudo, de assessores (e aí refiro-me aos membros do seu governo) com vontade, capacidade e arrojo suficiente para pegarem nas suas visões, interpretarem-nas e propor programas de acção. o combate ao espírito do deixa-andar, por exemplo, virou nas mãos dos seus seguidores um comentário crítico ao anterior governo e não um desafio de repensar o estado. esse desafio podia ter incluído, para além do balcão único e da criação do problemático ministério da função pública, uma reflexão profunda sobre o papel do estado, as competências dos seus funcionários e o espaço de acção local e individual. não pode ser o próprio guebuza a pensar estas coisas; os que com ele trabalham devem fazer este trabalho. é claro que reconhecer esses desafios todos significaria questionar coisas bem assentes na nossa cultura política e isso não é fácil (nem saudável do ponto de vista material individual).
caro nelson, gostava de concordar com a ideia entre aspas de que a ignorância terá contado muito para a euforia revolucionária, mas tenho dúvidas. naquele tempo havia debates "técnico-rigorosamente críticos", se calhar até muito melhores do que agora. eram, contudo, à porta fechada e tinham a mesma estrutura discursiva que alguns dos nossos debates de hoje têm, nomeadamente a ideia de que o que é plausível é o que confirma os nossos palpites normativos. isto conduziu à muita intolerância e acabou insulando o poder da realidade. o povo foi crescendo e com isso ficando cada vez mais complexo na sua orientação e nos seus anseios, mas o poder quiz disciplinar esse povo à sua imagem. o sistema político não evoluiu no mesmo sentido, isto é de se reformar para dar cada vez mais espaço à expressão da diferença. fechou-se com todas as consequências que conhecemos e com as quais ainda hoje vivemos através de formas problemáticas de crítica. compreendo a visão céptica, mas isso só enfatiza a necessidade de pensarmos uma maneira de estarmos na esfera pública que permita o reconhecimento e exercício da diferença responsável. obrigado pela sua passagem por aqui.
Os jovens de 1962 abdicaram da curtição, dos txilings da época e até da escola para "combater a escória" (usando o palavreado do Rapper Valete)e libertar a pátria do jugo colonial.
O povo moçambicano agradeceu esse feito (de intelectuais a camponeses acredito que ninguém ficou indiferente à euforia pós 25/06/1975) e embarcou na euforia do Khanimambo Frelimo, e criaram-se as tais espectativas de educação para todos, fartura, etc.
É óbvio que hoje, perante as dificuldades concretas que o país enfrenta com estátisticas a indicarem que milhares de crianças em idade escolar continuam fora do sistema educacional a euforia de HITA DJONDZA (vamos estudar) que caracterizou os primeiros anos de independência se desvaneça... e comecemos a questionar quem está no poder que, por acaso é quem eufosivamente agradecemos (e acredito continuamos a agradecer) pela independência nacional.
Há como voltar à euforia daqueles anos? Não sei. Tenho as minhas dúvidas aqueles anos foram únicos. Nem a "Continuadores" é a mesma...
A propósito dos ideais messiánicos (Valy...) fui a busca de algo que li há tempos sobre o meu ídolo Hugo Chávez que, até certo ponto, é aplicável à generalidade dos países da América Latina que estão a fazer uma viragem acentuada à esquerda para desespero dos vizinhos mais a norte. As condições de vida naqueles países fizeram aparecer líderes (na sua maioria vindo de classes de baixa renda).
Segundo Pablo Uchoa jornalista da Globonews autor do livro “Venezuela: A Encruzilhada de Hugo Chávez”, a reacção contra Chávez se deve em grande parte ao fosso social entre as classes dominantes e dominadas na Venezuela, que há séculos polarizou – até ideologicamente – a sociedade venezuelana e criou uma violência dinâmica de exclusão.
Nesse sentido, o autor mostra que realmente havia semelhança de ideias entre Chávez e Lula. Seu governo de carácter messiânico nasceu da profunda desilusão com os líderes políticos que tradicionalmente governaram o país. “De tal forma que se criou um vácuo institucional onde os líderes não correspondiam às aspirações da população”.
Nesse contexto, surgiu Chávez, capaz de aglutinar toda a esperança popular que os governantes corruptos e irresponsáveis tinham subestimado nos quarenta anos anteriores. “Ele veio de um ambiente de exclusão onde, historicamente, nunca houve convivência dos partidos e os civis mais ricos intercalaram o poder com os militares”, diz.
Será que a insatisfação em Moçambique, depois da euforia dos meados dos setenta é tanta capaz de fazer surgir um Chávez moçambicano? Mais, porque Guebuza, que chegou a criar a ideia de um "regresso" ao passado ainda não se afirmou como o "messias" aglutinador? Será só questão de assessoria ou falta algo?
caro júlio, tu também tens com cada ídolos! mas, seriamente, tu perguntas porque guebuza ainda não se afirmou como o "messias" aglutinador. sabes, eu não creio que o país precise de um novo messias, nem de alguém que nos aglutine. essas coisas precisam de um inimigo externo visível contra o qual as massas podem ser mobilizadas; precisam também de meios. chavez tem os estados unidos, o capitalismo e o petróleo. nós em 75 tínhamos o colonialismo português, o imperialismo e mais tarde o apartheid; tínhamos, como meios, a ideia de que os recursos do estado eram inesgotáveis. hoje, júlio, só podemos ter demagogos, sobretudo fora da frelimo uma vez que essa é a única forma de quebrar o monopólio político por ela exercido. e eles vão surgindo e beneficiando dos erros da frelimo. feliz ou infelizmente, neste momento a frelimo só se pode bater a si própria. mas isso em parte corresponde a uma lógica assente do pluralismo democrático, nomeadamente a que diz que nenhuma oposição ganha eleições, só governos é que as perdem.
será só questão de assessoria ou falta algo? o país não precisa de um "messias" aglutinador, mas isso não quer dizer que guebuza não seja um político bastante perspicaz e com visão. quando eu dizia que havia problemas de assessoria referia-me a um problema muito mais geral e que ultrapassa o seu círculo imediato. pegue na mais importante medida política do pós-independência (em minha opinião!), nomeadamente os 7 milhões para os distritos. o que é que o ministério das finanças, o ministério da planificação e desenvolvimento e o ministério da administração estatal fizeram com esta ideia? NADA! guebuza lançou um desafio às pessoas e era obrigação dessas pessoas, gozando da sua competência técnica ou possibilidade de contratar serviços técnicos, para reflectir seriamente o alcance dessa visão e repensar toda a estrutura de governação. isso devia ter incluido a limitação dos próprios poderes do presidente para que ele seja responsável por muita coisa, mas não responsabilizado por tudo quanto corre mal. teria sido uma óptima oportunidade para pensar como devolver a iniciativa às pessoas e fazer uma melhor distribuição da culpa pelo que corre mal. no fundo, não são só os assessores que se sairam mal. nós também, nós os académicos, estamos a reagir tardiamente a estas coisas com reflexões críticas mais profundas e íntegras. estou a pensar numa reflexão mais elaborada destas questões. espero ter mais tempo proximamente.
Realmente o Júlio tem cada ídolos! Só que o desculpo. Eu próprio às vezes me descubro admirando Mugabe, Chavez e outros que tais. Deve ser essa propensão de admirar todos aqueles que possam manter e sustentar o desafio contra a prepotência dos grandes poderes
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