quarta-feira, março 25, 2009

1,00 Mt para o mesmo de sempre?

Águas turvas

Vou me meter em águas turvas – ou limpas que me encarregarei de sujar – comentando algo que veio cair à minha caixa de correio. Trata-se de um pedido de donativo de 1 Metical formulado pelo Movimento Democrático de Moçambique. A ideia parece-me genial e revela que o novo partido integra indivíduos com muita criatividade ao mesmo tempo que lhes proporciona espaço para que façam uso dela. Recebi também um convite para me inscrever numa plataforma da internet que promete ser um espaço de informação e discussão. Espero que a moda pegue e que os outros partidos explorem estas possibilidades todas. Acho a criação deste partido bastante oportuna na medida em que o nosso sistema político, viciado pelo Acordo Geral de Paz, precisa de novos contextos de debate, mas acima de tudo de novos conteúdos para que o país continue a manter a sua estabilidade e, por essa via, manter ainda acesa a esperança de melhores dias para um número cada vez maior de moçambicanos.

Se o convite para contribuir com 1 Metical “Para mudar Moçambique SIM!... um Moçambique para todos, é possível” – reza o panfleto – reproduz o fundamental da mensagem desta nova formação, então devo dizer, e contrariamente ao que tenho lido por aí, que ainda não é desta vez que teremos novos conteúdos. Normalmente não gosto de comentar erros de redacção (para que os meus não sejam comentados...), mas devo abrir um parêntesis para chamar a atenção dos fazedores desta mensagem para a importância de uma boa apresentação. O problema não é escrever bem Português que isso só poucos é que conseguem; o problema é ter o cuidado de consultar esses poucos para que o que for à atenção da esfera pública não contenha erros. Eu, a título individual, posso não fazer questão de produzir algo que me apresente bem; mas uma formação com indivíduos que querem transmitir a ideia de que são competentes e eficientes precisa de tomar cuidado. Nestas pequenas coisas começamos a ver a qualidade do que nos é proposto. E a seriedade de quem fala.

Nas grandes coisas também. O panfleto parece apresentar a proposta que o MDM representa para o país. Fá-lo apelando à consciência de cada um de nós para o que temos de fazer em prol do nosso país. A ideia é excelente, mas a execução é algo curiosa. O apelo à consciência, para ser eficaz, precisa de descrever com precisão o que está mal no país e, a partir daí, indicar o que deve ser feito. Nessa descrição do que está mal ficam claras duas coisas: (a) quem fala, isto é, a partir de que posição e (b) a quem é dirigida a palavra, isto é, quem deve se sentir motivado a agir. O país descrito pelo panfleto parece a representação que uma classe média frustrada faz de Moçambique e de si própria. O panfleto diz que merecemos viver (a) sem coacção partidária para fazermos parte da administração pública a quem todos pagamos salário, (b) sem intimidações por não pertencermos ao partido de quem governa o país e (c) sem perseguições apenas por discordarmos de algo. Não quero, obviamente, dizer que nada disto aconteça, mas será este mesmo o problema do país? É o discurso da Renamo que tão pouco retorno deu.

O panfleto continua dizendo que é possível, sim (a) que o mérito dite a relevância social dos homens sem que seja necessário pertencer ao partido de quem governa, (b) que os homens cultivem a harmonia e o respeito pela consciência de outros e (c) porque Moçambique é a terra que Deus nos conferiu e podemos reafirmar o grande sonho de ontem que consiste em vivermos em harmonia, consolidando a nossa moçambicanidade. Aqui o enfoque já é outro; eleva-se o nível de abstração sem, contudo, se proporcionar um argumento que sugera a ideia de que outros partidos no país estejam contra este desiderato. Finalmente, o panfleto conclui dizendo que merecemos um país melhor, sim, e que para isso devemos participar na fundação do amanhã dos nossos filhos porque eles merecem viver. Com mais tempo ainda vou ler outros documentos da nova formação. O que está no panfleto, contudo, é decepcionante para além de ser pouco original. O Fórum Social moçambicano vai reconhecer imediatamente o seu slógan: Um outro Moçambique é possível!

Em texto recente (ler aqui e com atenção à discussão que se seguiu, sobretudo com o Jonas e com o Book Sambo) tentei levantar algumas questões que me parecem de fundo no que diz respeito aos desafios políticos enfrentados pelo país. Tentei sugerir que não basta estar contra a Frelimo para ter razão de existência no país e constituir alternativa. É preciso ter uma ideia do país, problematizar essa ideia e dizer como chegar lá ou, no mínimo, porque os outros não nos vão levar até lá. O panfleto reduz os problemas de Moçambique à Frelimo e parece sugerir que estar contra a Frelimo é suficiente como solução. É bem possível que esta estratégia seja racional do ponto de vista eleitoral. Contudo, ela fala para um sector bastante reduzido da população, sector esse fácil de co-optar por um partido inteligente em posse dos meios do Estado, e cai muito aquém do discurso de novidade que veicula. E não só. Perde uma excelente oportunidade de fazer o ponto de situação do país e recria, inconscientemente, a mesma Renamo que se revelou como grande impecilho à materialização do projecto político que se supõe estar na posse dos fazedores da nova formação.

Não percebo o alarido que a nossa imprensa e alguma blogosfera fazem de uma formação política com tamanha consciência dos problemas do país. Aliás, dado que parte da nossa imprensa decidiu que ser independente é estar contra o poder, o alarido não admira. Mas se querem ser diferentes, vão ter que fazer muito mais do que estarem simplesmente contra. E prestarem atenção aos detalhes.

12 comentários:

Anónimo disse...

oi Macamo, tenho andado muito longe ao comentários nos seus textos, simplesmente, porque acabos escolhendo outras coisas pelo pouco tempo que tenho. vamos a ordem do dia. águas turvas... MDM...é sem sombra de dúvida... águas turvas... não sujaste em nada. nos primeiros dias quando se dizia em viva voz que ia-se criar uma alternativa partidaria face a Renamo e a Frelimo, mas no concreto não é nada de novo, pois até agora pelos dados que venho recolhendo no meu exercicio díario como jornalista, verifico que este grupo é o resultado da divisão da Renamo, e por fim de gente meio-frustrada que assim encontraram alivio ao sufoco que estavam sujeitos na Renamo, não só, mas também, de pessoas que não aderem ou nao votam os partidos pelos programas que tem para o país, mas sim por frustracao, as vezes causada pela falta de iniciativas e criatividade. conheco pessoas que pessa(m)vam que Obama ou qualquer outro candidato a presidencia de um país, e se ele ganhar pessoas do mesmo país ficam sentados a espera de tudo, e por via disso, nada fazem para mudar a sua situacao social... o tempo ja se foi vou lhe mandar um texto que estou escrevendo sobre a situacao dos partidos politicos...

Júlio Mutisse disse...

O Egídio Vaz fez uma excelente análise crítica ao MDM. Tive a oportunidade de lhe dar os parabéns por isso, que os estendo a si meu caro mano Macamo.

Tenho dito que este MDM estava a fazer-se um movimento elitista até pelos meios usados para nos chegar. Já tinha abordado noutro lado que para ser alternativa era necessário ser mais do que um partido/movimento novo (o PDD já o foi um dia) era necessário apresentar-se com algo de novo, em termos de postura, discurso e ideias para desenvolver o país.

As sugestões do Egídio Vaz lá no blog dele na análise que faz ao MDM parece me que ganham corpo tendo olhando, por exemplo, para os trechos de discurso que trazes aqui.

Elísio Macamo disse...

caro mendes, devo esclarecer que nao quiz dizer que os membros do mdm sao pessoas frustradas. penso que esse é outro assunto. acho, porém, que a maneira como o panfleto em causa apresenta o país revela uma abordagem que é específica a um grupo social bem claro. sendo assim, penso que os problemas desse grupo podem, de facto, ser resolvidos no contexto dos outros partidos.
e neste ponto, júlio, concordaria com o espírito da leitura feita pelo egídio vaz na última parte da sua análise ao mdm. penso que ele levanta questoes importantes que deviam ter sido reflectidas pelos fazedores do movimento. nao concordo com o resto da análise. nao acho analiticamente útil explicar os problemas que simango teve com a renamo com base na ideia de que a sua ascensao política nao teria agradado à renamo e ao seu líder. nem creio que ele tenha ganho na beira por se ter apresentado como vítima de um "grupelho", por ter feito bom trabalho, por ter feito excelente campanha eleitoral ou porque o eleitorado da beira quisesse punir dhlakama. sao boas hipóteses de trabalho, mas dao, em minha opiniao, muita coisa por adquirido que ainda nao estamos a perceber muito bem. precisaria de uma sociologia da beira para começar a entender a plausibilidade destas hipóteses. igualmente, nao creio que o partido seja inviável por ser composto por desertores, embora o conteúdo do panfleto reflicta de facto uma agenda influenciada por essa condiçao. o importante parece-me uma leitura mais substancial da realidade do país e partir daí para procurar saber como cada um de nós deve reagir (respondendo aos reparos feitos pelo egídio vaz na última parte do seu texto com o sub-título "alternativa"). abraços

Anónimo disse...

Caros compatriotas,
acho oportuno o texto de elisio e os comentarios tambem mas considero completamente deselegante e imprudente a forma como o senhor Mendes Mutenda intervem. Chamar frustradas as pessaos que compoem o MDM, como se tivesse acesso a um detalhado perfil psicologico de cada um deles, 'e obra. Alias, vindo de alguem que 'e jornalista torna-se obra prima!
Este blogue, pelo que tenho percebido (corrijam-me se estou errado),tem, precisamente,tentado ser uma alternativa a essa forma pejorativa de participar no debate de ideias.
Cumprimentos

stayleir marroquim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
stayleir marroquim disse...

Caro Professor,

Antes de mais receba os meus cumprimentos.

Salvaguardando o devido respeito que reservo à sua pessoa, parece-me que outras interpretações podem ser feitas quanto ao teor do panfleto objecto de análise no seu artigo. Na verdade, pode até ser que no futuro as suas opiniões se confirmem (ou, que não se confirmem). É PRECISO ESPERAR.

Se me permite a comparação, as ilações que retira do panfleto deste movimento partidário, são como que uma análise feita à alguém, no sentido de saber se ela estará bem ou mal vestida, mas olhando só para os seus calçados (sem olhar para o resto da indumentária). . ..Pergunto-me se este panfleto transporta toda a essência do MDM. NÃO ME PARECE.

Também não me parece justo formar juízos conclusivos sobre o perfil do MDM quando (se não me engano) este mesmo partido tem cerca de um mês (pouco mais ou pouco menos) de "vida"...

Mas voltando ao panfleto, há quem, partindo das mesmas premissas, possa ter chegado a conclusões diferentes.

Da mesma forma que o apelo feito por esta formação política no sentido de terminar com "...a coacção partidária...", e "...intimidações.." tenham despertado em si a ideia de que estejamos provavelmente perante uma "classe média frustrada", há quem possa ter chegado, partindo das mesmas premissas, à conclusões bem diferentes. Até porque não me parece que pelo facto de a Renamo ter, no passado, discursado no mesmo diapasão sem sucesso seja, de per si, suficiente para retirar a ilação a que chegou: Que estamos provavelmente perante uma classe média frustrada. Muitos outros factores podem estar (e muito provavelmente estarão) por detrás do insucesso da Renamo (que, presumo, devem ser do conhecimento geral).

...
Por outro lado, não acho que o que se deve exigir desta nova formação política seja necessariamente a apresentação de ideias originais (claro que sempre que a originalidade for benéfica a ele devemos recorrer), como parece dar a entender no 4º parágrafo. Não basta ter ideias originais. As ideias até podem representar uma repetição de outras que no passado (ou presente) foram (ou são) defendidas por outros. Parece-me, sim, que uma das coisas mais importantes é que materialização destas ideias (que até podem não ser originais) seja bem efectuada.
...
Despeço-me Professor.
Desejo-lhe a continuação de bom trabalho.

Elísio Macamo disse...

caro stayleir, é bom vê-lo por aqui. nao tenho a certeza se percebi bem os seus comentários. espero nao ter transmitido a ideia de que a interpretaçao por mim feita seja a única possível. claro que nao e a prova disso é a sua intervençao. nao obstante, a existência de várias interpretaçoes nao conduz à necessidade de se esperar como enfatiza no seu comentário. críticas podem servir para rectificar as estratégias traçadas, creio.
espero também nao ter dado a impressao de que o panfleto fosse suficiente para analisar o projecto político do mdm. acho ter tomado o cuidado de limitar o alcance da minha interpretaçao tendo em conta o facto de só ter lido o panfleto. contudo, sou de opiniao que se pode usar o panfleto para ter uma ideia do projecto político que está por detrás do mdm. foi o que fiz. nao me parece um documento qualquer.
acho que há alguns equívocos no seu comentário. nao defendi a ideia que me atribui de que por a renamo ter tido um discurso idêntico no passado estamos perante uma classe média frustrada. nao creio ter feito essa inferência. sobre a classe média frustrada disse simplesmente que o panfleto parece ser a representaçao que uma classe média frustrada faz de moçambique. portanto, nem estou a dizer que o mdm é composto de gente frustrada. mesmo o nacionalismo moçambicano foi, em grande parte, feito por classes sociais frustradas pelo sistema colonial e que, em devido tempo, adequaram a sua ideia de moçambique a um eleitorado mais amplo. a representaçao feita no panfleto, acrescento agora, parece-me muito mal feita e é capaz de revelar limitaçoes no próprio projecto político. para mim os problemas levantados no panfleto teriam melhor formulaçao e abragência se incidissem sobre questoes mais fundamentais como a transparência, a integridade, a legalidade, etc. pode ser parte da estratégia eleitoral do mdm formular as coisas dessa maneira, mas acho isso fraco. repare, contudo, stayleir, que o facto de eu achar isso fraco nao implica que o mdm esteja errado, nem que nao venha a ter sucesso. todavia, partindo dessa percepçao e usando a prestaçao da renamo no passado como pano de fundo, interrogo-me que hipóteses de sucesso este tipo de abordagem tem. eu acho que a renamo se deu mal no passado por ter insistido muito numa política de ressentimentos. se o mdm enveredar por esse caminho corre os mesmos riscos.
dou-lhe razao que nao devemos exigir desta nova formaçao que apresente necessariamente ideias originais. nao creio ter feito isso no meu texto. formulei, contudo, a expectativa de que uma nova formaçao política em moçambique procure ser original tanto mais que a forma como o mdm é apresentado na nossa esfera pública enfatiza justamente esse elemento. acho que a originalidade também pode estar na forma de fazer as coisas. penso que estamos de acordo.
para si também continuaçao de bom trabalho. obrigado por ter passado por aqui.

Anónimo disse...

Oi pessoal compreendo que até certo ponto há um pouco de exagero no comentário que eu deixei aqui no “ideias criticas” de chamar “frustrados” algumas pessoas que estavam a pedir 1,00Mt para apoiar o MDM. Nesta ordem de ideia venho por este meio como já o disse anteriormente re-reconhecer o exagero e dizer que o erro é do homens, a palavra pairou sem que eu argumentasse os porquês chamei de uma corrente do MDM de frustrados, mas brevemente irei me pronunciar através deste e do meu blog www.mendes.bloguepessoal.com e a partir dai poderão ver até que ponto vai o meu argumento. Vou partilhar convosco alguns dados. Muitas pessoas que estão a filiar a este partido o MDM são pessoas que não tiveram campo de actuação na Renamo: Mais de 3000 pessoas de Nampula entregaram os seus cartões de membro da Renamo para se filiarem ao MDM, encabeçado por ex-delegado político da Renamo em Nampula – este dado parece não ter muita importância quando o coloco, mas podemos analisar juntos – uma pessoa que é expulsa na Renamo como Delegado político provincial e posteriormente, surge um outro partido, por sinal de dissidentes da Renamo e esse ou outro que também foi expulso vão unir forças, para em pouco tempo dizer que somos alternativa certa (?) face a Renamo e a Frelimo. As mesmas pessoas que foram expulsas na Renamo são as mesmas a dizer que vai imprimir dinâmica no país. É possível, mas duvido. O que se espera de uma pessoa que já estava desesperada politicamente (no caso especifico de Nampula)? Que mudanças vai implementar se noutro partido não conseguiu fazer? Será que não foi dado esta oportunidade na própria Renamo (excepto Deviz Simango)? O Deviz sozinho pode mudar o país? Ou ele precisa de pessoas capazes e não frustrados para dizer que somos alternativa certa. Pessoal a palavra “frustrada” é mesmo indecente, mas a coloquei à vossa disposição para o debate e não como uma forma de acabar com o MDM. Até breve!

Anónimo disse...

Caro Mendes, parece contradizer-te um pouco ou mesmo muito. Ora, falando de expulsos da Renamo, esqueces que o Daviz foi primeiro preterido e depois expulso. Se achas que Daviz pode mudar algo pq os outros não poderão contribuir?

Anónimo disse...

Aqui temos uma forma bem peculiar de analisar os fenómenos. O raciocínio do senhor Mendes Mutenda é o seguinte: todas as pessoas que são expulsas de determinada organização (não interessa por que razão foram expulsas, nem quem as expulsou e em que circunstancias isso ocorreu) não poderão fazer melhor em outra organização em que, eventualmente, se filiarem. Porque? Ora, que pergunta parva a minha: Porque são frustradas e os frustrados não concretizam objectivos.
Já agora que os mambas jogarão contra a poderosa selecção da Nigéria (que deve estar frustrada por não ter ganho o CAN passado, nem ter se qualificado ao mundial da Alemanha e que, por isso mesmo, não fará melhor contra os mambas) se o Tico-Tico, Dário ou Dominguez falharem significará isso que se vão frustrar e, logo, não conseguiram nunca mais marcar até que o jogo termine!
Belo raciocínio esse que atribui à frustração passada a impossibilidade de realizar os nossos desideratos.
De facto, caro Elisio, como bem dizia você, assim não vamos para Phambeni!

Célio disse...

Meus cumprimentos a todos os intervenientes neste debate, em especial ao E. Macamo. É a primeira vez que comento neste blog. Não fazia, no entanto, ideia da dimensão do debate em causa. Encanta-me a diversidade de pontos de vista, tanto mais que começo a simpatizar-me com a ideia de que todos os argumentos são válidos, independentemente de quem e em que condições os tece. Ciente de em nada ter contribuído para o presente debate em torno do conteúdo do panfleto do MDM, todavia, contento-me – por enquanto –, em saudar a crescente livre e democrática troca de ideias que caracteriza a nossa blogosfera. Até à próxima!

Elísio Macamo disse...

olá célio, obrigado pela passagem por aqui! forte abraço.