Do sociólogo Francisco Carvalho recebi o oportuno texto que se segue. Espero que suscite o debate que merece. O tema é importante e continua a merecer a nossa atenção. A propósito recordo uma reflexão minha aqui.
Violência Contra a Mulher versus Violência Simbólica
O problema da violência doméstica ou da violência contra a mulher é, como o problema do HIV/SIDA, sobretudo, um problema de mentalidade. A minha grande inquietação não é o ponto de vista masculino em relação à violência dirigida contra a mulher, mas o ponto de vista das próprias mulheres em relação a este acto. Fiquei chocado com a atitude duma mulher tão influente como a Dama do Bling, que presumivelmente é formada em Direito, durante uma entrevista num programa da STV de sábado passado. Ela recusou-se a condenar a violência doméstica, limitando-se a dizer que “em brigas de marido não se deve meter colher” e apresentando argumentos pouco convincentes do tipo “eles se amam”.
De um homem, como eu, pode-se esperar tudo na forma de abordar este assunto; os homens normalmente tentam normalizar e minimizar este assunto, em parte em defesa dos seus interesses. É claro que existe muita mulher que acredita que é normal um homem bater numa mulher: “é uma forma de expressão do amor”, enfim, “é um assunto que diz respeito à eles dois”. Mas, quando se trata de alguém que deve mobilizar a opinião pública em torno da mudança de mentalidade a proferir estas declarações, a coisa torna-se grave. Estamos numa época em que se fala muito sobre a questão do género e direitos humanos da mulher, e inclusive existem campanhas contra a violência contra a mulher espalhadas em todo o lugar. Como é que uma mulher tão influente e se calhar bem (in)formada como a Ivânea, que em vez de aproveitar este momento para encorajar as mulheres a denunciar estes actos, pode ainda continuar a ter uma posição tão superficial como esta?
A luta contra a violência doméstica só terá sucesso, em parte, se as próprias mulheres deixarem de serem emocional e sentimentalmente dependentes dos homens e tornarem-se racional e intelectualmente independentes deles. Muitas mulheres vão à escola, estão nas universidades, trabalham, mas continuam a se curvar diante dos homens quando estão em casa. Não conseguem ser feministas na sua vida doméstica, passam a vida a “lamber as botas” dos seus homens para os não perderem, submetendo-se a todo tipo de humilhações em nome do amor, da crença de que “ele é o único” e na a ideia de que “homem deve-se babar”. E os homens diante deste cenário de legitimidade da violência de gênero ou melhor da violência simbólica, pois algumas não reconhecem estes actos como violência, só saiem em vantagem reforçando a sua dominação.
9 comentários:
bem, o assunto dos direitos e liberdades da mulher sempre me interessou. e por acaso quando vi a tal entrevista no programa “palavra de mulher” da anabela adrianápolos fiquei atento. entrei um pouco tarde e por isso não pude acompanhá-lo todo. a entrevista cobriu várias questões, desde a polémica actuação em avançado estado de gravidez até ao facto de ter ganho qualquer prémio na áfrica do sul e nenhum jornalista a tê-la entrevistado com relação ao feito (um desabafo, se diga de passagem). a bling falou da sua carreira, do tal diário de uma dama irreverente (que de nada tem), e do facto de não estar a pensar em fazer filhos tão já com a qualificação de que se vierem não há problemas. enfim, pareceu-me estranho não ter falado da sua realização académica.
pois bem, embora não tenha acompanhado a questão de “briga de homem e mulher não se mete colher” enquadro essa afirmação no contexto de uma bling que talvez tenha-se retraido em face das críticas que recebeu da sociedade. sendo que, talvez ache não estar preparada para aparecer e defender uma posição contra a violência doméstica. talvez não seja por acaso que quando o “cantorino” ta basilly agrediu selvaticamente a esposa que se encontrava em avançado de gravidez não tenha aparecido nenhum membro da sua classe a criticar a sua atitude bárbara, nem mesmo quando a miss zav revelou no programa “moçambique em concerto” ter deixado o namorado, oliver style, porque a tinha também agredido.
a bling ou ivânea fez o curso de direito, mas durante a entrevista não conseguiu aliar a ciência às suas afirmações. nalguns momentos a anabela teve que sacudi-la para clarificar algumas questões que importam à mulher. por exemplo, perguntada se a mulher devia ou não lutar pelos seus direitos, ela entrou num emaranhado para poder justificar a posição de que ela já os tinha. não entendi onde queria chegar.
agora, o facto de tentar compreender a razão pela qual a bling não aproveitou a oportunidade para criticar tais atitudes brutais perpretados por alguns homens contra as suas companheiras, não quer dizer que estou a favor. pelo contrário. acho que é primeiro da compreensão do problema que podemos depois avançar com as nossas suposições. porquê é que as mulheres parecem estar a concluir com os agressores? porquê razão encobertam esse tipo de atitudes? porquê é que pensam que levar porrada é normal? porquê é que julgam que o que as sevícias sofridas pela vizinha não lhe podem visitar um dia? o quê é que esse tipo de atitude diz sobre o seu conceito de cidadania? até quando continuaremos como sociedade a tolerar esse tipo de atitude?
já como muçulmano tenho visto homens a violentar as suas mulheres em nome do islão e quando lhes são perguntados onde exactamente encontram uma sustentação para tal tipo de atitude engolem o canário, e isso apenas acontece porque deliberada ou não não se ensina a mulher a não aceitar esse tipo de sevícias. é mesmo o problema de mentalidade que leva o homem a dirimir os seus conflitos com a sua companheira de forma violenta. diria mais: é próprio de um cobarde bater no mais fraco (pois, já estou a moralizar).
Obrigado Bayano, homens como nos que acredita que bater numa mulher e cobardia precisa-se!
Caros Elísio, Francisco e Bayano,
Acho a questao da violencia doméstica muito relevante para ser debatida. Como violencia doméstica nas suas diversas vertentes e nao apenas como a violencia contra a mulher, apesar desta ser a mais falada.
Lembro-me duma professora minha no 2o Ano da faculdade (actualmente ela é governante!)que nas conversas sobre violencia doméstica aconselhava as meninas a nao levarem "questoes dos livros" para casa, porque, dizia ela "lá em casa o marido é que manda" Atitudes dessas levam-me a nao ficar surpreso com os exemplos que o Bayano deu. Se entrevistássemos umas 10 mulheres (de preferencia figuras públicas e doutoras ou Doutoras) da nossa sociedade poderíamos ficar aterrados com as suas opinioes sobre a violencia doméstica, a violencia contra a mulher...
Sobre o facto de a Bling nada conseguir expressar com base na sua formacao académica pode ser apenas mais uma das milhares de pessoas com diplomas sem a correspondente bagagem...caso nao, ela teria que mostrar que fez o curso e pescou alguma coisa
Thomas
thomas,
trouxeste uma nova questão ao debate: a construção das atitudes e o processo de perpetuação de estereótipos. a bling diz que em briga de marido e mulher, enquanto a tua professora falava de não levar questões dos livros para casa. e ao que parece nem são os homens que fazem tais pronunciamentos. a própria mulher é que de alguma forma também aparece a contribuir na manutentação de um status quo ainda que lhe seja adversa. não vejo muita diferença com o caso das velhas lá no sudão e alguns países circunvizinhos que se encarregam elas de cortar o clitóris da neta ou toda a moça que a enviarem. mulher a perpetuar violência contra ela mesma.
Meus caros, a ciência cultiva-se; não basta passar pelos bancos da escola, fazer o curso com mérito e boas notas e, depois, relaxarmos; é necessário espevitar o bichinho, ler, investigar, problematizar.
A carreira da Bling pode não deixar espaço para a dra. Ivânea se expressar. Aliás é possível que não estejam claramente definidos os limites do personagem Dama do Bling e dos próprios da Dra. Ivânea.
Posso vos garantir (porque fiz o percurso universitário com ela) que a dra. Ivânea foi uma boa estudante. Ela está agora num mercado como o show bizz que, no nosso contexto, é tão provinciano que só uns poucos se apercebem(ram) da influência que têm e do papel que em função dessa influência podem jogar na mudança de atitudes na sociedade. Deve ser este o caso da Dama do Bling; perdeu a oportunidade de chamar a Dra. Ivânea para o lado e aconselhar-se com ela para mudar a face da violência influenciando as mulheres a não pôr esses casos de baixo da cama (onde mais dia menos dia se guardará uma catana que acabará matando o agressor de longa data com prejuízo para a própria mulher - violência chama violência).
Portanto, mesmo que a entrevistada fosse a Dra. Ivânea (cuja graduação dista agora 5 anos), o facto de ser simplesmente formada em Direito não ajudaria em nada se, eventualmente, ela não estuda os assuntos, não se cultiva. Mas ela já disse que o curso está a ser bem usado.
Só teremos pronunciamentos diversos se este conjunto de "cantadores" assumir uma outra postura. Presumo que a Anabela tenha chamado a Bling para aquele programa esperançosa de que, com a formação da pessoa que encarna o personagem, podessemos ter mais bons exemplos como os sugeridos pela senhora Mangaze (Esperança) mas, deve se ter defraudado também.
Só o facto de só estarem a intervir neste debate homens mostra como a mulher moçambicana ainda não ganhou a "consciência de género" por analogia a "consciência de classe" cara a Karl Marx, que é um passo determinante para emancipação de qualquer grupo que se considere oprimido. Eu arriscaria a dizer que, ainda por analogia ao sistema capitalista de dominação em Marx, o sistema de dominação masculina actual criou um espaço para acomodar os interesses das mulheres, sobretudo as mulheres com “consciência de género”, de modo que, as suas reivindicações por mais que apareçam ao de cima não me parecem serem radicais, logo não são levadas a sério, pelo menos pela grande maioria de mulheres mocambicanas.
caro francisco,
porquê é que uma ideia deve parecer radical para ser tomada a sério? não parece ser essa uma posição contraproducente? será que mesmo o espaço está de tal forma estruturado de sorte que a acomodação pareça ser um exercício de "tokenismo"? o que podemos começar a fazer para que as ideias sobre consciência do género sejam tomadas a sério?
Amigos,
Não vou comentar a posição da Dama do Bling...
A violencia contra a mulher é um assunto muito complexo, e pode ser interpretado de várias formas, penso existir ainda uma herança do passado onde a função social da mulher era reduzida a maternidade, o homem na sua qualidade provedor e chefe, usava da violencia como o meio “lícito” de educá-la. Mesmo com o passar dos anos, prevelance uma grande diferença de poderes entre o homem e a mulher, a sociedade de hoje dita “moderna” continua patriarcal.
“A luta contra a violência doméstica só terá sucesso, em parte, se as próprias mulheres deixarem de serem emocional e sentimentalmente dependentes dos homens e tornarem-se racional e intelectualmente independentes deles...” Penso que o amigo Carvalho esqueceu-se de um factor muito importante: A dependência financeira. Esta, associada a falta de prespectivas para um futuro melhor, faz com que muitas mulheres não denuciem casos de violência. Que políticas de justiça, educação, segurança que possam oferecer sustentabilidade para que ela possa transpor certas barreiras na sua reinceserção social existem? E se existem qual é a sua eficiência? E o agressor que acções são desenvolvidas para que ele se regenere?
“Muitas mulheres vão à escola, estão nas universidades, trabalham, mas continuam a se curvar diante dos homens quando estão em casa...”Concordo que isso possa acontecer, muitas delas agem assim para preservar o bom nome na sociedade, a figura de “casal feliz” mesmo que a realidade seja outra.Ainda assim, julgo que este grupo é muito reduzido, sendo que o maior parte é formada por aquelas que dependem financeiramente dos maridos.
“Não conseguem ser feministas na sua vida doméstica, passam a vida a “lamber as botas” dos seus homens para os não perderem, submetendo-se a todo tipo de humilhações em nome do amor, da crença de que “ele é o único” e na a ideia de que “homem deve-se babar”. Hehe, o amigo está nervoso com as mulheres mesmo...não acho que babar ou lamber botas seja o ” móbil” para violência, há mais do que isso, aliás quem não gosta que lhe babem? Ou melhor qual é o homem que não gosta de se sentir o “dono do pedaço?”. É por isso que deve humilhar a mulher? Imagine que ela não o babasse, não lhe lambesse as botas a vida seria melhor?Compreendo a sua preocupação mas não acho justo atirar-nos as culpas.
Um abraço
caros amigos, acho a vossa discussao bastante interessante. concordo com a ideia de que o problema é bem maior do que a simples agressao física. acho que aqui voltamos a enfrentar o sério problema de tornar realidade aquilo que a nossa constituiçao dispoe, nomeadamente os direitos individuais. teremos nao só que perceber como tornar isso possível como também dar uma atençao especial à situaçao da mulher. neste ponto gostaria de concordar com yndongah quando reclama nao ser justo que se atirem as culpas às mulheres. há um brilhante trabalho de fim de curso em sociologia na uem, da autoria de judite nhambisse, sobre as mulheres profissionais. é um excelente documento das vicissitudes porque elas passam, mas ao mesmo tempo, uma celebraçao da sua perseverança e coragem. elas sao vítimas, mas nao sao passivas. abraços
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