segunda-feira, março 16, 2009

A caixa de ferramentas do sociólogo

Avante!

Estou sem tempo para participar activamente na discussão das minhas postagens. Na minha última postagem, um comentador anónimo teceu as seguintes considerações sábias:

No Post "Crise social e bodes expiatórios (1)" o Professor Carlos Serra refere, na Adenda, que é o cenário de privações de todo o tipo que estão na retaguarda dos boatos (que levam, em alguns lugares, ao assassinato de inocentes). Diz ainda o ilustre Professor que esse boato-linguagem errada expressa um problema verdadeiro. Suponho que aqui ele se esteja a referir ao velho problema da ausência, ineficiência e injustiça do Estado. No próprio post eu coloquei um comentário, tendo saido uma mensagem a informar-me de que o meu comentário seria publicado após a aprovação do dono do blog. Já passaram mais de 48 horas sem que o comentário fosse publicado. Desconheço as razões da nâo saída do meu comentário, o que me deixa consternado, pois nele colocava questões que gostaria que fossem discutidas por Carlos Serra e por outros bloguistas. As questões que eu colocava, com muito respeito, eram: as privações extremas conduzem necessariamente ao boato e aos linchamentos? Podemos então assumir que em Moçambique sempre que ocorrerem "privações de todo o tipo" teremos que esperar boatos e assassinatos de gente inocente? Perguntava ainda ao ilustre Professor como é que ele explicava as generalizadas excepções que ocorrem ao longo de todo o nosso país. Refiro-me às inúmeras comunidades da nossa terra que, embora destituidas de todo, não assassinam vizinhos acusando-os de amarrar a chuva e, também, não assassinam agentes de saúde, voluntários da Cruz Vermelha e agentes da polícia, acusando-os de espalhar a cólera.

Lamento bastante não ter podido reagir a tempo a este comentário. Ele levanta o tipo de questões que interessam discutir para uma melhor saúde da esfera pública. Li um comentário anónimo no blogue em questão de alguém que se referia de forma depreciativa à minha última postagem repetindo o velho e usado argumento de que não faço pesquisa própria e passo o tempo à espera de reagir ao que os outros fazem. Infelizmente, este tipo de reacção revela uma grande incompreensão do que está envolvido na actividade científica. Já escrevi várias vezes sobre o assunto, mas pelos vistos é necessário repetir: participar na produção de conhecimento científico não consiste apenas em fazer trabalho de pesquisa original e individual sobre uma determinada matéria empírica; faz parte desse exercício interpelar os dados produzidos por outros; essa interpelação pode ser quer para confirmar as conclusões tiradas, quer para as contestar interrogando as premissas e os métodos. Quem fica a ganhar com esse exercício somos todos nós, incluindo a pessoa interpelada. É também a nossa esfera pública que, dessa maneira, vai adquirindo melhores bases para julgar o conhecimento que ela própria produz e veicula. Só se sente mal com a interpelação aquele que não percebe a natureza do processo científico. O comentário em questão terminava com a exortação xangan “phambheni” (avante ou para a frente), exortação que entra em conflito com o seu próprio conteúdo, pois a atitude subjacente é de resistência ao avanço.

Superstição e explicação

Vamos, então, identificar no comentário que voltei a reproduzir mais acima algumas das coisas que interessam mesmo discutir. Vejo duas, todas elas ligadas à natureza do processo científico. À primeira darei o nome de superstição para chamar a vossa atenção para atitudes que considero nocivas à saúde da esfera pública. A grande diferença entre a magia e a ciência reside num pequeno pormenor: a magia tem explicação para tudo, enquanto que a ciência pode admitir não ter explicação para uma determinada coisa. Isto não quer dizer, obviamente, que todos os cientistas sejam comedidos quando estão perante um determinado fenómeno. A tentação é sempre forte de querer “explicar” seja o que for, sobretudo nos dias de hoje com jornais, televisão e plataformas de internet a exigir sempre a nossa opinião sobre tudo. Esta apetência por explicar tudo acaba diminuindo as nossas faculdades críticas, pois ao invés da interrogação crítica que nos vai obrigar a colocar perguntas e a nos distanciarmos dos nossos quadros normativos aceitamos o mais rápido possível tudo quanto nos parece plausível desde o momento que vá de encontro ao que queremos que a realidade seja. Reparem, neste ponto, que ao contrário do argumento frequente segundo o qual o mundo da produção científica se subdividiria entre os que produzem conhecimento e os que apenas contestam, a interrogação crítica mostra que essa distinção não tem muita razão de ser. A interpelação crítica é também produção de dados, pois interrogar é investigar. Interrogar é uma maneira de obter mais informação com base na qual podemos formar opinião. Aqui nota-se a visão bastante limitada da ciência que alguns de nós temos.

Não ter explicação para tudo não diminui o valor do empreendimento científico. Na verdade, a coisa não fica pela constatação de que não temos explicação para uma determinada coisa. Mais importante do que dizermos “não sabemos” é procurar saber porque não sabemos. O debate metodológico na base da ciência encontra toda a sua força progressiva neste ponto. É essa força que faz avançar o conhecimento científico e isto sem prejuízo das críticas mais ou menos justas feitas pelos filósofos e historiadores da ciência. Esta questão é recuperada pela segunda coisa que gostaria de identificar como tema de reflexão na discussão levantada por certos fenómenos sociais. É o velho tema da explicação que cada vez mais precisa de maior atenção nos nossos meios académicos. Tenho regularmente reflectido sobre este assunto neste blogue, mas continuo a sentir a falta de uma discussão séria destas questões. Infelizmente, a atitude que alguns colegas académicos têm também não encoraja este tipo de discussão que, contudo, me parece imprescindível para o fomento da produção científica no país.

Vou recordar aqui um filófoso americano, Donald Davidson, que há várias décadas atrás sugeriu a ideia de que na explicação de acções intencionais tomássemos razões como causas dessas acções. A sua reflexão é um bocado complexa para que eu a exponha com todo o cuidado necessário aqui, mas talvez ajude na compreensão ter em conta um debate na filosofia da ciência que colocava a pergunta de saber se descrever uma acção como sendo racional (por exemplo, matar alguém por crer que essa pessoa tenha amarrado a chuva) seria o mesmo que considerar essa acção racional. A questão gira à volta dos termos “descrição” e “consideração”. “Descrição” é factual e implica identificar o contexto normativo (a chuva pode ser amarrada; pessoas que amarram a chuva são anti-sociais; é justo matar pessoas anti-sociais) dentro do qual podemos estabelecer uma relação causal entre uma acção e uma razão. Carl Hempel, um grande filósofo da ciência, havia dito que a relação entre acção e razão em si não era suficiente. Era preciso identificar uma lei que servisse de ponte entre as duas coisas, por exemplo, uma lei do tipo “sempre que o Estado se mostra indiferente em relação às comunidades, estas vão fazer justiça com suas próprias mãos em resposta às suas crenças”.

“Consideração” contém o elemento de avaliação. Contém a ideia de que a explicação de uma acção não só é plausível como também a aprova. Assim, não basta dizer que os que matam têm as suas razões (racionais) para o fazer, mas também é preciso insinuar que matar é o único que essas pessoas podem fazer nas circunstâncias. Aqui as coisas tornam-se complicadas, pois o investigador passa da explicação (ainda que problemática como podemos facilmente ver) para a justificação. Essa passagem é facilitada pelo tipo de “lei” que estabelece a relação entre acção e razões que no nosso caso é sempre a mesma e enfadonha história do Estado indiferente e da precariedade. É uma “lei” normativa que transforma de forma perfeitamente legítima razões em causas, mas, ilegitimamente, quer transformar racionalizações em explicações causais. É óbvio que isso não pode pegar ao mesmo tempo que começa a revelar quão sério é o problema que vem com a recusa do debate metodológico com insinuações despropositadas acerca da integridade intelectual.

A sugestão de Davidson de olharmos para razões como causas não conta uma história completa porque o momento de “explicação” envolve a conflação de várias coisas que interessaria discutir com muita atenção. Essa conflação ignora várias alternativas. Por exemplo, para a acção de matar alguém em Longe (na Zambézia) por ter amarrado a chuva existem várias alternativas: (a) não matar (prendendo, julgando, marginalizando, etc.); (b) ignorar; (c) queixar ao régulo; (d) aliar-se a ela (porque não, sobretudo tendo em conta que essas pessoas estão materialmente bem?), etc. Explicar, nestas circunstâncias, significa dizer porque a acção de matar é a única racional nessa situação. A resposta, como já vimos, é o Estado indiferente. Mas isso é uma pergunta, pergunta muito bem colocada pelo comentador anónimo citado mais acima: quando é que a indiferença do Estado leva as pessoas a matarem outras? E reparem que o mesmo exercício pode ser feito em relação a todos os elementos do fenómeno. Por exemplo, para a crença na capacidade mágica de amarrar a chuva existem várias alternativas: (a) Deus não quer que chova; (b) são as tais mudanças do clima; (c) quem sabe? (d) a comunidade não fez certos rituais; (e) os espíritos estão chateados, etc. A pergunta aqui é: quando é que se prefere a crença na capacidade mágica de amarrar a chuva às outras alternativas? A resposta, como já vimos, é a lei universal do Estado indiferente. Não preciso de repetir quão enfadonho isto é e, até, assume um carácter quase religioso.

Cultura do debate

Fazemos muito mal ao nosso próprio país recusando o debate constructivo. Fazemos muito mal à academia de que somos membros sugerindo constantemente a ideia de que podemos explicar tudo. Fazemos muito mal aos que se iniciam na reflexão crítica encorajando-os a desprezarem a discriminação na abordagem das coisas. O país faz-se no debate, pois nenhum de nós tem a chave para a solução dos nossos problemas. Só através do empreendimento conjunto que é a troca de impressões é que podemos alcançar consenso (ou não) sobre a natureza dos problemas que precisam das nossas soluções. Igualmente, a academia precisa de modéstia para avançar, pois só com isso é que ganhamos ímpeto para interrogarmos os nossos instrumentos. Finalmente, ser crítico, repito, não é dizer mal de, mas sim diferenciar, investigar e interpelar. Somos rápidos na sentença do que na sua fundamentação. E por causa disso vemos tudo da mesma maneira, sem diferenças, nem nada. Em Longe (na Zambézia) nem todos os membros da comunidade estão a matar outros membros suspeitos de terem amarrado a chuva. Que desafios é que esta constatação nos coloca? Apenas o desafio de dizermos que as pessoas têm as suas razões, ou também o desafio de reconhecermos que essa constatação impõe limites às nossas explicações preferidas?

Avante? Assim?

12 comentários:

Unknown disse...

Bom dia Professor!

É de facto preocupante, embora a pessoa livre de querer ou não discutir um determinado tema com alguem participante da esfera pública. é como tenho dito, não significa não ser desta família só pelo facto de idealizar diferente dos outros e o grupo não é obrigado a adoptar minhas ideias mesmo que eu as julgue certas!os pronunciamentos do anónimo tendem a dizer que E. Macamo persegue os trabalhos e os próprios investigadores! porque faria isso!

Vejamos então o central:Os linchadores preferem a creditarem que não chove porque o fulano é que tem o poder mágico para isso! e não existe um estrumento legal capaz de mediar esse conflito, logo esta auxência proporciona adopção de medidas para a solução do problema porque a chuva é uma necessidade da maioria estão sacrifiquemos poucas vidas pelo bem da maioria.

Elísio, digo isto porque a feitiçaria é uma realidade nas nossas nações seja ela feita atravéns de crenças ou substituição da malária, TB, HIV/Sida etc na morte das pessoas quando surge um conflito a este nível a justiça não consegue mediar! Exatamente porque tem na mania de querer provar tudo! quer dizer, o que não se pode provar não existe! é verdade que o estado não pode ser refém de crenças mas não pode ignora-las. abraços

Júlio Mutisse disse...

Meus caros,

Tive um professor na Faculdade de Direito que dizia que, pelo facto de estarmos na Universidade, pertenciamos a uma minoria esclarecida e que isso devia, para nós, ser uma responsabilida. E é de facto, difere é a forma que a assumimos. Temos formação e informação, temos que saber usá-la.

Isto me leva a um ponto. A forma como interpretamos os fenómenos. Devemos simplesmente fazer eco do que o povão diz apenas? Ou devemos, usando a informação e formação que temos, tentar estudar os fenómenos e, quiçá, interpretá-los diferentemente. E isso não implica, necessariamente, ir de acordo com as percepções que a mamana do xipamanine (com todo o respeito por ela, é das actividades de mamanas como aquelas do Xipamanine que saimos muitos de nós que nos aventuramos a comentar aqui na net) tem sobre os diversos fenómenos e nem aranjar justificações que, quando muito, só ajudam a legitimar práticas nocivas já que, em Moçambique, palavra de Dr. principalmente quando diz o que todos querem ouvir, por mais errado que esteja, é dogma.

Há dias, em conversa com meu irmão mais velho, o Patrício Langa, o Amosse Macamo, PC Mapengo e outros, abordávamos o contributo que cada um de nós jovens, na sua área de formação, pode dar a nação e, até, no entendimento de factores como esses dos "prende chuva". Isso parte de assumirmos a nossa responsabilidade como partes desta "minoria esclarecida" cuja principal preocupação deve ser estudar os fenómenos avançando com propostas de soluções para os problemas que esses fenómenos enceram.

É um empreendimento que temos que assumir, sem esperar unanimidade mas contando sempre com uma contante interpelação.

Anónimo disse...

Há uma coisa gravíssima que entra em conflito com o que Elísio designa por espírito científico e que nem o autor do blog, nem Chacate e nem Mutisse referiram. Creio que é o falso pudor científico, tipicamente moçambicano, que refreiou os três bloguistas de abordarem o tema. Refiro-me à censura.

O que dizer quando um Professor Catedrático, um docente de Metodologia de Investigação, opta por suprimir um comentário que sugere que a conclusão enunciada parece não reunir os quisitos para ser replicada na maioria das situações similares às da amostra? No lugar de debater, de apresentar argumentos, opta-se por suprimir a interpelação do oponente.

A atitude, na verdade não parece própria de um cientista, de um pesquisador. Parece mais adequada a um ideólogo que enuncia uma nova ideia destinada a salvar a pátria. Se a intolerância é hoje anacrónica para os ideólogos, ela é simplesmente inaceitável para um cientista.

A recusa de publicação de um comentário, no blog de um Professor Catedrático poderia ser compreendida nos casos de manifesta má educação. Não parece o caso do comentário em apreço. De outro modo é intolerância inaceitável.

Começa-se por suprimir um simples comentário. Depois, sem se dar conta avança-se para suprimir o artigo ou o livro de um oponente. Daqui para a supressão do próprio oponente o passo é muito curto. E estes maus exemplos de falta de uma verdadeira predisposição para o debate livre de ideias são dados pelos nossos académicos de referência. Muito triste.

Obed L. Khan

Unknown disse...

Obed L. Khan, se ver o meu primeiro comentário refiro a isso e o seu nível de preocupação.

J. Mutisse, a assunção da "minoria esclarecida" na solução dos problemas que apoquetão a nossa sociedade passa necessariamente por fazer parte do conhecimento "empírico" porque para mim andarmos a dizer que as pessoas que se comportam dessa maneira é porque são analfabétos! é uma forma símples de contornar o que podeia efectivamente ser estudado! Ora, Alice Mabote argumenta tão bem o fenómeno por exemplo das 5 irmãs que ocorreu na Matola e tento levantar no meu blog, dizia que "a fetiçaria é algo tradicional o que é novo é a forma de resolver porque antigamente o feiticeiro erra espúlso do meio onde vive" Hoje conheço pessoas com formação superior, que basta se deslocarem dos seus locais de origem não querem mais lá porem os pés alegando feitiçaria! é esta questão que levanta-se! é ou não uma realidade? Quem pratica? seu estatuto social? como era antes, hoje e amanhã? será que a única forma de resolver é ignorar? Está claro que não, porque continua directa ou indirectamente a afectar a nossa sociedade. e também não acho correcto dizer que é pelo facto de sermos maioritariamente analfabetos como disse Benvida Leví! Veja que as 5 menina são minimamente alfabetizadas pelo que acompanho! e mais, já se reportou casos de linchamentos no Zimbabué um país onde estudos mostram 89% de taxas de escolarização! e depois, seria também de perguntarmos se em Angola há linchamentos na mesma porporsão que Moçambique? abraços

PS/ não estou a legitimar estudos de ninguém nem nenhuma prática criminosa.

Julio Mutisse disse...

Chacate,

Há fenómenos que não podemos, simplesmente, contornar porque parte da nossa realidade e vivência.

O que defendo é que, temos uma responsabilidade acrescida de procurar entender certos fenómenos para além das crenças que NÓS sabemos ter pouco de ciêntífico e, quiçá, encontrar outra forma de abordar os fenómenos.

Makwero, imagine que chegamos lá em Mazucane minha terra, e aquela tia daquela mafureira frondoza nos diz que a mafureira já não dá mafura porque a vizinha do lado "singuitou" a árvore enfeitiçando de tal forma que, em Dezembro, não há xicaba, nem Munhantsi nem nada? Ficas-te por aí? Mesmo sem sair do campo do obscurantismo, limitarias-te a racionalizar o entendimento que a titia tem das razões porque a mafureira não dá mafura e a explicar, daí, qualquer acto que ela tome contra a vizinha singuitante? Porque não perguntar, por exemplo, (dentro do obscurantismo ainda) se ela tem Phalhado, se não serão os tinguluvis ("deuses") dela que estão zangados por ela, há muito, não visitar a campa da chará dela, lá no marumbini onde há 50 anos ninguém põe os pés? Porque não perguntar-lhe das razões que teriam levado a vizinha a singuitar a árvore, se, por ventura não teria sido em resposta a um acto irreflectido dela que ofendeu a vizinha e os deuses dela?

Com o conjunto de conhecimentos adquiridos na escola Chacate, podes tentar convencer a nossa tia a receber uma equipe de extensionistas/agrónomos para verificarem se a árvore não está doente e se a doença daquela árvore não poderá afectar outras da mesma espécie. Isso porque, eventualmente, tu não dominas a ciência e logo não tens explicação/justificação para aquele fenómeno.

Agindo assim, podes até safar muitas árvores e ajudar as tias a se reconciliarem. Não achas? Me parece que é um pouco disto que nos tem sido sugerido.

O que não podemos permitir é que, em nome dessas coisas que nós podemos tentar ajudar as pessoas a entender de outra forma, deixemos as pessoas morrerem e, mais do que isso dá-mo-las razão nos actos bárbaros que cometam.

Obed,

Há fenómenos que acho que nem vale a pena comentar. No referido sítio já fui censurado também. E é um daqueles sítios se ataca tudo e todos em nome das liberdades e da Democracia. Acho que só revela incoerência e incapacidade de conviver com a diferença num ambiente que tem que se reproduzir nessa diferença.

Mutisse

Elísio Macamo disse...

caro chacate joaquim, penso que a questao gira em torno da sua exortaçao no primeiro comentário para que se nao ignorem crenças. o que significa nao ignorar crenças? o que significa tomar crenças a sério? eu acho que temos a responsabilidade de estudar estas coisas, mas o estudo é para compreendermos, nao para justificarmos. penso que é aí onde reside o equívoco. nao basta dizer que as coisas têm a sua racionalidade. precisamos de discussoes mais sérias sobre o que isso significa, uma discussao que tome em consideraçao a nossa formaçao como bem adverte o júlio mutisse. é esquizofrénico tentar dar crédito a coisas que entram em choque com a nossa formaçao.
caro obed, nao comentei a omissao por nao saber o que realmente levou o autor do blogue a nao publicar o teu comentário. pela forma como temos "discutido" no passado sinto-me inclinado a considerar plausível a tua interpretaçao, mas isso é tudo quanto posso fazer. se insisto com estes textos é para proporcionar um espaço alternativo onde as questoes possam ser discutidas de acordo com os seus próprios méritos e nao em respeito por consideraçoes normativas. acho que o tom baixou um bocado e parece-me haver uma maior predisposiçao para considerar alternativas, mas como sempre isso leva muito tempo.

Anónimo disse...

Caro Elisio, o comentario censurado nao ee meu! A indignacao que a censura em causa me causou nao se deve a razoes pessoais directas.

Obed L Khan

Unknown disse...

Meus Caros,

...as privações extremas conduzem necessariamente ao boato e aos linchamentos? Podemos então assumir que em Moçambique sempre que ocorrerem "privações de todo o tipo" teremos que esperar boatos e assassinatos de gente inocente?

Este debate está muito excitante. As contribuições dos intervenientes são magníficas, contudo, a questão levantada pelo anónimo (acima assinalada em itálico) acaba por suscitar outras inquietações, diversas das tratadas por Elísio neste artigo.

A questão em causa é se será razoável transformarmos o estudo do professor Carlos Serra em proposições gerais? Podemos generalizar os resultados do estudo para outras circunstâncias similares ? Tenho as minhas reservas. Suponho que este estudo apenas procura perceber e explicar situações particulares de determina comunidade em certa região. Ao tentarmos transformar os resultados de estudo em lei, modelo ou proposições gerais, corremos o risco de repetir os problemas já denunciados primeiro por David Hume e depois por Karl Popper e David Miller, sobre as questões ligadas à validade do método indutivo.

Portanto salvo melhor opinião, julgo que a validade do estudo do professor Carlos Serra circunscreve-se apenas às particularidades e circunstâncias que o determinaram. Ao fazermos generalizações estaríamos a exportar alguns resultados que nada têm a ver com as outras circunstâncias em estudo.

Josué J. Muchanga

Elísio Macamo disse...

caro josué, excelente e oportuno comentário o seu. é isto que devíamos discutir mais. creio que as reservas em relaçao à generalizaçao das conclusoes do estudo do prof. serra sao bem vindas, mas nao resolvem o problema de base. e o problema de base é de saber que circunstâncias legitimam a inferência por ele feita. dito de outra maneira, o que o leva a supor que a fraqueza do estado explique o comportamento em questao tendo em conta o facto de que outros indivíduos na mesma comunidade preferiram agir de outro modo? aí será necessário fazer uma sociologia mais completa da comunidade que pode, entre outras coisas, constatar que os que agridem e matam os que amarram a chuva sao uma minoria, digamos, de marginais ou de pessoas que querem ajustar contas com alguém. o estudo sobre a cólera bem como o estudo sobre os linhcamentos parecem-me inconclusivos a este mível. a inferência é demasiado grotesca para servir de explicaçao. era tao bom que o anónimo que colocou o comentário se pronunciasse sobre a sua intervençao.

Anónimo disse...

Caro JJM
Quem é que, para qualquer anormalidade social que ocorra onde quer que seja, apela para se ter em conta o que se escreveu em "Cólera e Catarse"? Submeter as experiências de Ionge, de Nicoadala, de 5 de Fevereiro, de Mogincual, de Pemba, de Dondo, da Beira e de outros lugares às conclusões desse ensaio não é o mesmo que dizer elas podem ser replicadas irrestritivamente?

O que estou a dizer, caro JJM, é que quem sugere que as proposições do estudo são universais é o seu próprio autor. O que eu e outros estamos a fazer é duvidar da plausibilidade dessa generalização.

Unknown disse...

Caro anónimo,

Desculpe-me responder tarde. Estou contudo grato pela clarificação da questão . É que pela forma como a questão foi colocada, salvo melhor interpretação, dava a entender que estivesse a sugerir que a validade do argumento do professor C. Serra, estava dependente da sua capacidade de explicar qualquer situação similar. Daí as minhas reservas. Veja que o Elísio toma uma posição diferente para a aferir a validade do argumento, pois ele preocupa-se com a análise total do fenómeno, sublinha-se, dentro da mesma unidade de análise. Ou seja, que factores determinam os que não matam ? A questão é importante para aferir até que ponto, o factor ausência do estado é determinante para a explicação do fenómeno. Por outras palavras, como se explica que indivíduos sujeitos ao mesmo factor (ausência do estado), uns optam pelo linchamento como forma para exteriorizar a sua satisfação e os outros não ? É uma pena que o professor Serra, como é habitual, nunca nos dá a possibilidade de interagirmos com ele para percebermos um pouco mais do seu estudo.

Josué J. Muchanga

Unknown disse...

Errata:onde lê "satisfação", leia-se insatisfação.

Josué J. Muchanga