segunda-feira, abril 16, 2007

Fala sem consequências I

Para mim está claro, sobejamente claro, que a pobreza – absoluta ou não – não é o principal problema que afecta o País. É um problema sério, disso não pode haver dúvidas. Mas não é nem principal, nem faz parte do grupo de problemas principais. A razão, digamos filósofica, disto é simples, ainda que problemática: não faz sentido prático definir uma consequência como problema. E a pobreza é isso mesmo: uma consequência. Logo, o desafio político, mas também académico, devia, em minha opinião, consistir em identificar o que faz com que a pobreza seja uma consequência. Dito de outra maneira, qual é a causa da pobreza? É verdade que isto pode nos levar a enveredarmos por um caminho interminável em que constantemente iremos perguntar qual é a causa de seja o que for que nos interessa perceber. Qual é a causa da causa, por assim dizer.

De qualquer maneira, penso que é útil prestarmos mais atenção à forma como concebemos os nossos problemas. A contribuição que as ciências sociais podem dar ao desenvolvimento do País reside justamente aí como, aliás, não me farto de repetir. Qual é o problema? Porque é ele problema? Quem o define? Como? É fácil ver, a partir destas perguntinhas, porque a nossa vocação reside aqui mesmo. Cada uma delas tenta recuperar o mundo em que vivemos dando-nos a saber como os outros membros da sociedade o apreendem. É a partir deste tipo de observações que julgo ser legítimo recusar ao combate à pobreza absoluta – entendida no seu sentido oficial, pois pobrezas absolutas há muitas – o estatuto de principal desafio do País. Na verdade, a pobreza material de um bom número de moçambicanos manifesta apenas condições estruturais que precisam ainda de ser interpeladas.

Uma dessas condições é a representação política. Até que ponto é que o nosso sistema político representa os interesses dos moçambicanos? Tenho em mim que o nosso sistema político é altamente deficiente a este nível. É democrático no sentido formal do termo, mas extremamente deficiente no sentido substancial na medida em que não proporciona mecanismos adequados de articulação dos interesses dos seus sujeitos. Ou melhor: o povo não tem onde queixar. É daí, para encurtar a história, que o povo é vulnerável à incúria, desleixo e ineficiência dos orgãos estatais. Enquanto o nosso sistema não garantir esta articulação de interesses – portanto, transformar fundamentalmente a relação entre governantes e governados – dificilmente seremos capazes de lograr os desafios que achamos que o País nos coloca.

Uma manifestação particularmente gráfica da deficiência do nosso sistema político é a fala sem consequências da classe política. Na verdade, o nosso País é dos poucos no mundo democrático em que um político pode com toda a naturalidade dizer coisas sem sentido sem o receio de ser interpelado criticamente. Não me refiro aqui ao acto de criticarmos o que os políticos dizem – que isso é coisa simples demais e possível entre nós. Refiro-me, isso sim, à articulação entre o que um político diz e a realidade feita de actos concretos que se consubstanciam na própria responsabilidade do político. O discurso de luta contra a pobreza absoluta, por exemplo, prospera neste ambiente de fala sem consequências em que a simples evocação do grande objectivo – a vitória sobre a pobreza absoluta – liberta as pessoas da necessidade de justificar o que disseram e de partilhar connosco os critérios que usaram para recuperar a realidade.

Durante a minha curta estadia em Moçambique em finais de Março e princípios de Abril notei vários momentos desta fala sem consequências. No dia em que o prédio 4 Estações foi destruído assisti na TVM um programa especial sobre o assunto em que desfilaram algumas personalidades públicas. Duas que chamaram a minha atenção foram as do Vice-Ministro do Turismo – que estava no estúdio – e do Ministro das Obras Públicas – que estava no local da implosão. Não percebi nem sequer uma palavra do que o Vice-Ministro do Turismo disse, mas o ar grave que ele tinha convenceu-me de que ele estava provavelmente a dizer algo bastante profundo. Mais interessante, porque talvez mais coerente, foi o Ministro das Obras Públicas. O jornalista perguntou-lhe se ele antes da implosão estava nervoso. A resposta foi curiosa, mas um exemplo perfeito da fala sem consequências. O Ministro disse que não ficou nervoso porque “... confia nas pessoas”. Ele explicou que tinha falado com os técnicos e estes lhe tinham garantido que tudo ia correr bem. Só isso. O que eu gostaria que vocês imaginassem são os critérios que devem ser satisfeitos por um Ministro das Obras Públicas para ser ministro das obras públicas: confiar nas pessoas. Se algo tivesse corrido mal naquela implosão o Ministro sempre podia dizer, em sua própria defesa, que as pessoas abusaram da sua confiança. Quem quiser já pode começar a fazer a sociologia da negligência que conduziu à agressão terrorista dos habitantes de Maputo no dia 22 de Março. O Presidente da República confiou no Ministro da Defesa; o Ministro da Defesa confiou nos seus subordinados; os seus subordinados confiaram nos seus subordinados; estes também; estes outros também; também, também, também até ao ... buummm!

Porque “eu confio nas pessoas” é fala sem consequências? Simples: é fala sem consequências porque a pergunta do jornalista, bem feita ou entendida, não está interessada na atitude geral do Ministro como pessoa, mas sim no entendimento que ele tem da sua responsabilidade como governante. O que a pergunta do jornalista quer saber é (a) se o ministério tem instrumentos – técnicos e administrativos – de verificação da segurança – para as pessoas – de empreendimentos como aquele, (b) se esses instrumentos foram aplicados, (c) se o ministério ficou satisfeito com os resultados apurados e, acima de tudo, (d) se o ministério tem maneiras de reagir ao que, por ventura, correr mal, incluíndo responsabilizar os autores, compensar as pessoas, socorrer vítimas e reestabelecer a ordem. Portanto, o Ministro até podia explicar que a sua confiança nas pessoas se baseia na Meditação Transcendental que o nosso anterior Presidente elegeu como caminho pessoal, mas para os efeitos da responsabilização política necessária ao fomento do nosso País essa revelação seria completamente irrelevante.

Mas lá está: ele pode falar como lhe der na gana; o nosso sistema político não oferece aos seus sujeitos nenhuma possibilidade de interpelar um governante que fala sem consequências. E para mostrar que isto é um problema gravíssimo que começa mais em cima deixem-me citar o que acabo de ler do boletim de informação compilado pelo jornalista britânico Joseph Hanlon com base no noticiário da Agência Moçambicana de Informação. O Presidente da República é citado como tendo dito num discurso proferido em Pebane na semana passada que a falta do hábito e amor pelo trabalho eram as principais causas que contribuíam para perpetuar a fome e a pobreza no País. E mais. O Presidente achou estranho que num País com tanta terra fértil e tantos rios houvesse gente a passar fome e a viver em pobreza extrema. Concluiu, segundo Hanlon, que o problema era da preguiça de um bom número de moçambicanos que passam a vida a descansar mesmo sem nada terem feito. Descansam até se cansarem de descansarem. Isto é fala sem consequências ao mais alto nível e revela até que ponto não entendemos o inimigo que queremos abater.

De facto, a inquietação bíblica do Presidente da República – na abundância da água o idiota anda cheio de sede – tem a sua razão de ser. Como é que um País com tantos recursos minerais, tanta energia, tanta fauna bravia, tanta costa, tanto capital humano e tantos combatentes contra a pobreza está na cauda das estatísticas internacionais de desenvolvimento? Preguiça? Mas, insisto, a inquietação do Presidente da República faz sentido. Só que para fazer ainda mais sentido e escapar à acusação de ser fala sem consequências ela tem que ser dirigida à política, não aos “preguiçosos”. O que a política está a fazer para que as pessoas tenham acesso a essa terra fértil e possam usar esses rios todos? Que alternativas é que a política está a proporcionar aos que não sendo preguiçosos não têm queda, nem força para o trabalho agrícola? É mesmo possível em Moçambique passar a vida a descansar? Não é mais provável trabalhar só por trabalhar – vendendo produtos em quantidades cada vez mais ínfimas nas ruas – e tudo isto porque quem devia criar as condições para que as pessoas libertem a sua iniciativa e energia está entretido a combater a pobreza retoricamente?

Tenho mais exemplos de fala sem consequências que vou apresentar ao longo dos próximos dias.

11 comentários:

Egidio Vaz disse...

Eu li o texto de princípio ao fim. E tem sido um bom exercício ler os seus longos textos enformados por uma visão com rigor científico. Obrigado, mais uma vez por estar mais perto de nós, moçambicanos, brindando-nos com análises tão incisivas como essas.
Mas gostaria de comentar sobre um ponto: é que os que proferem tais falas sem consequências também se esforçam em remeter à ausência os que os interoelam.
Aqui é que estou bastante alarmado. Análises como essas, em um país normal, tinham que ser regastadas pela imprensa e respectivos professores de jornalismo para constituirem temas de debate.
E, falando específicamente dos jornais, o seu texto, como de muitos outros, mereciam dstaque nas páginas de jornais. Isso não acontece. Porque aos que proferem palavras sem consequência, são lhes reservados páginas de destaque e aos texos como esses, disputam cantinhos ora denominados "recreio e divulgação", ora "sociedade" ou pior "a minha opinião"; num autêntico "vai te embora que aqui mandamos nós".
Intriga-me saber que, uma interpelação à "ctos de fala sem consequência também mereçam "espaços sem consequência".
Quantas vezes o seus textos apareceram "apertados" entre meia página de publicidade da Kayum Centre e Necrologia?!!
Ainda estamos longe de imolarmos a ciência ou o esforço dos cienntistas, pior aqueles que não garantam que "todo o moçambicano coma".
Há contudo, uma grande descrença à capacidade da ciência poder ajudar na produção da tão almejada riqueza. O que até agor ouvi do discurso oficial, não passa de superstição, pois quer-se acabar com a pobreza assim, de repente, "trabalhando no campo"; na terra. Assim mesmo, todos mãos-à-enxada! Isso sim, é superstição. Quando se chega à convicção de que não mais precisamos de perceber as causas da pobreza porque já as conhecemos, de certeza que estaremos não tão longe da loucura. E de certeza há quem poderá ficar maluco por, nos próximos três anos, não lograr os objectivos que pomposamente anunciou.
Porque, discurso político não se deve assemelhar ao supersticioso. Há que sermos lúcidos quando falamos sobre pobreza.

ninozaza disse...

O ex-governador da província de Inhambane num dos seus discursos disse que em Inhambane as pessoas estavam a morrer de fome porque não tinham apetite, porque se tivessem não iriam morrer a fome pois nos distritos desta provincia existem imensas arvores de fruta.
Mais um exemplo de fala sem consequência, felizmente este senhor já não é governador de Inhambane. O mais grave é que o preóprio Presidente da República também entra no mesmo diapasão.
Estamos mal muito mal.

Egidio Vaz disse...

Ou ele não sabe o que é falta de apetite, o ele é tão ignorante que nem para fascineiro servia.
A falta de apetite já é em si, sintoma de uma patologia! Portanto, em vez de andar a gozar as pessoas, o estranho do Governador deveria perceber que estava perante pessoas doentias e que já agora, clamava por cura imediata! Mais, se os frutos são silvestres, então, está ai mais uma razão para que ele fizesse qualquer coisas, se não estava a sugerir que os inhambanenses também se transformassem em homens silvestres.

chapa100 disse...

podes crer egidio, é caso de medicina e antropologia tentar perceber porque a populacao nao come um determinado fruto, percepcoes sobre saude e alimentacao nutritiva variam entre a construcao social do que é comivel e do que faz bem a minha saude e da minha comunidade.

o problema da responsabilizacao é resultado desta nossa maneira eucaristica de perceber o poder e suas instituicoes.o problema da fe, mesmo com suas caracteristicas sociais, nao é ciencia. por isso quando governantes dizem-nos para termos fe nas instituicoes do estado, estao a deluir e fugir a responsabilizacao. trasnformando o exercicio de poder numa santidade que exige de nos uma passividade desconfortante e benefica para a classe politica no poder.

dizer que es preguicoso tem a mesma dimensao que dizer a outra pessoa que é catolico, e por isso tem que perdoar. isto justifica o artigo do coronel sergio vieira sobre a responsabilidade colectiva da explosao do paiol, publicado no domingo. dizer que es preguicoso literalmente transfere as respostas que nao tenho para ti e assim justifico porque estas excluido do "bem estar". e acho que o presidente esta ser mal assessorado, porque ate agora a interpretacao do problema da pobreza esta ser calculado atraves de uma regua inclinada.

Egidio Vaz disse...

Ya! Gostei dessa de "régua inclinada". E estou a imaginar o assessor a agarrá-la! Boa

ninozaza disse...

Essa questão da assessoria também é muito discutivel, eu acho que o Presidente também pensa e toma decisões pensadas e decididas por si. Aque talvez seja caso de diuzer que o Presidente esta errado e pensa que o caminho que traçou vai conduzi-lo ao almejado fim da pobreza absoluta.
E claro que vai conseguir já que neste país todos os governantes fazem balanços positivos da sua governação.

Elísio Macamo disse...

interessante discussão! ocorrem-me apenas duas coisas para acrescentar às vossas opiniões. 1. temos um problema sério de dar conteúdo ao debate na esfera pública. curiosamente, aqueles que acusam as ciências sociais de não serem práticas são os mesmos que não conseguem dar conteúdo prático ao que dizem. o desafio, para nós, consiste em interpelá-los ao nível da articulação entre o que dizem e a realidade. com a excepção da primeira ministra e do procurador geral, cujos pronunciamentos públicos têm sido insistentemente infelizes, não quero sugerir com esta interpelação que estejamos perante pessoas que não sabem do que falam. acho que sabem, mas ainda não lhes ocorreu reflectir de forma mais prática sobre o que dizem. 2. no fundo, este é o problema do fantasma da frelimo, do grande equívoco colectivo que nos leva a supor que se nos calamos ou não apontamos erros estamos a satisfazer a vontade da frelimo. não é verdade. quem se cala com esta justificação é apenas um cobarde. a frelimo é uma coisa muito difusa e tudo quanto tenho ouvido e lido do presidente da república revela um homem culto e aberto à crítica. mesmo o seu compromisso com o combate à pobreza parece-me genuino. o que falta na nossa política é talvez uma maior abertura à ideia de que não é só quem é membro da frelimo e não critica que tem os interesses do país no fundo do seu coração. muitos entre nós têm ainda que se libertar dessa ideia. enquanto isso vamos interpelando da melhor maneira que pudermos. gostaria que sobretudo os jornalistas prestassem mais atenção ao que os políticos dizem e não os deixassem escapar com facilidade. servir não é fácil.

ilídio macia disse...

Excelente análise! Esta forma de ver as coisas é louvável. Este texto não devia circular apenas na blogosfera. Tem que ser visto por mais pessoas que não têm acesso à internet. Dr., mais uma vez, o meu muito obrigado!

chapa100 disse...

ninonaza! boas intencoes precisam de boas ideias. o presidente guebuza tem boas intencoes, acabar com a pobreza em mocambique, identificou alguns problemas que provocam pobreza: deixa-andar, corrupcao, e falta de auto estima. sao todos validos dentro de uma debate generico. o mesmo que dizer: es pobre porque es preguicoso. que as instituicoes do estao nao funcionam porque sao corruptas, que os mocambicanos nao valorizam a sua identidade por falta da auto-estima. estas sao solucoes simples para problemas mal identificados. mas solidarizo-me com as intencoes do presidente, a pobreza e tao visivel, dentro daquilo que cada um constroi e interpreta a sua realidade. o caminho entre o problema e a solucao e bastante longo e complexo, muitas das vezes ele e encurtado pela generalizacao de conceitos e pela pressa de dar respostas e solucoes. o que chamo atencao, em relacao a assessoria ao presidente, tem haver com a capacidade de produzir conhecimentos e praticas que resultam dessa interacao entre identificar o problema e encontrar solucoes. a ponta da agulha nao e mais importante mas a sua cabeca que com a linha coze. pensar que a agulha de cozer e importante porque pica e fura, nao explica a necessidade de combater a nudez, ou produzir roupa. ai entram os assessores e os ministros.

como escreve o Dr. elisio, e eu sou daqueles que escrevi que o combate a pobreza absoluta escolhido pelo pres. guebuza so e validade se a repeticao desse discurso estar acente num exercicio transparente, autonomo e critico. o objectivo de combater a pobreza tem que dar a cada um a liberdade de pensar e correr a sua maneira. so assim se promove responsabilidade. exemplo 1: para mim o maior perigo que a frelimo corre nao e a grandeza ou o ideal do discurso da pobreza absoluta, mas a falta de respostas coerentes para questoes de operacionalidade do seu programa que sejam tangiveis e sectoriais.
exemplo 2: hoje por exemplo o governo nao consegue dar respostas sobre politicas especificas e problemas especificos, tudo se confunde na pobreza absoluta. apostar no distrito responde a necessidade de uma revolucao verde? a uma necessidade de descentralizar os orgaos do estado? a necessidade aumentar a cobertura de servicos? combater a exclusao rural? aumentar e fortalecer a presenca do estado e sua autoridade? reforma do sector publico? continuidade nas politicas de descentralizacao e governacao local?

e respostas para estes exemplos traduzem esta necessidade de debate e busca de boas ideias que possam satisfazer esta boa intencao. e a resposta como podemos ver traduz a cada um de nos sociologos, historiadores, economistas, medicos, empresarios, electrecistas, engenheiros de contrucao civil, professor, assistentes sociais, mukheristas, a capacidade de buscar recursos e espacos legitimos que possam responder a dilemas de cada sector desta sociedade.

Elísio Macamo disse...

chapa100, gosto da distinção entre "boas intenções" e "boas ideias". suponho que esteja a estabelecer uma diferença entre objectivos e meios para alcançar esses objectivos. acho isso útil. e como bem observa, não nos podemos apenas fiar nas boas intenções. é isso mesmo!

chapa100 disse...

professor e isso. apesar do texto estar minado de erros. coisas da lingua e da computacao.