sexta-feira, setembro 28, 2007

A palavra (5)

Da necessidade de repormos a palavra

A questão é: o que significa repormos a palavra? Algo me diz que esta questão é do âmbito da metodologia das ciências sociais. A única resposta satisfatória que tenho para a pergunta remete-me à própria legitimação das ciências sociais. O que fazemos quando fazemos ciências sociais? Acho que estamos simplesmente a tornar o mundo mais intelegível, sobretudo o mundo social. Para ser mais conciliatório, deixem-me acrescentar que tornar o mundo social mais intelegível não é incompatível com as várias agendas sociais e políticas que cada um de nós pode ter, por exemplo, acabar com as desigualidades, ajudar os desfavorecidos, combater os males da corrupção, mostrar ao governo com quantos paus se faz uma canoa, etc. A intelegibilidade é sempre anterior a qualquer intervenção, suponho.

Aprendi, se me posso permitir uma reflexão mais pessoal – posso, afinal este blogue é meu! – muito das pessoas cujo mundo da vida tem sido o meu objecto de estudo empírico. Quando comecei a fazer pesquisas nos finais dos anos noventa na província de Gaza tive que passar por um novo processo de socialização que me mostrou até que ponto a educação formal constitui um atentado à minha integridade pessoal. A educação formal despe-nos do que somos, introduz-nos num mundo que precisa de uma visão do mundo específica e de um vocabulário especial para ser intelegível e susceptível de ser apreendido. Para fazer a minha pesquisa tive que voltar a falar a minha língua materna tendo constatado, com muito horror, que os vários anos de educação formal me haviam tornado funcionalmente analfabeto na minha própria língua. Tive que reaprender a emitir opinião na minha língua, formular questões, explicar as minhas preocupações e uma série de outras coisas.

Doeu. Mas reparei, no processo, que não estava realmente a reaprender a língua, mas sim a aprender a criar consensos sobre a realidade e como ela pode ser apreendida. Os conceitos de sociologia que estruturavam a minha maneira de apreender a realidade tornaram-se practicamente irrelevantes nas conversas do dia a dia com pessoas com um quotidiano completamente diferente do meu. Aprendi a procurar ver o mundo com outros olhos e a justificar a minha visão das coisas, algo a que já não estava habituado, pois o normal entre nós é que os outros – a maioria – sintam vergonha da forma como apreendem o mundo. Descobri que o mundo se constitui na sociabilidade como resultado da negociação que fazemos ao nível da palavra. Descobri que o mundo, por si próprio, não é transparente. É preciso torná-lo transparente. Descobri que muitas vezes o facto de usarmos a língua portuguesa quando falamos com os outros – com o mundo periférico – é que nos confere razão e autoridade. Não é a nossa inteligência ou maior conhecimento das coisas.

Eu aconselho a todo o jovem académico moçambicano que ganhe o hábito de falar sobre as coisas que aprendeu na universidade com gente muito menos formada do que ele e, sobretudo, numa língua vernacular africana. Quando estou em Moçambique passo um quarto do meu tempo dessa maneira e isso tem me ajudado a perceber melhor os conceitos que uso para apreender o mundo, mas também a apreciar o que é necessário dizer, e de que maneira, para ser inteligível. Quando ainda leccionava sociologia na UEM fazia, de vez em quando, exercícios de tradução com os estudantes que consistiam em pedir que eles traduzissem um conceito de sociologia para a sua língua materna. Alguns subtraíam-se a isso com todo o tipo de subterfúgios, mas os que o faziam constatavam, suponho, que ficavam a perceber melhor esses conceitos. Conservo com muito carinho dois trabalhos de fim de cadeira que dois estudantes de sociologia na UEM escreveram em sua língua materna africana.

Uma experiência particularmente interessante no meu trabalho de pesquisa foi uma conversa com um curandeiro que me disse estar a ver coisas ao meu redor. Perguntei-lhe que coisas estava a ver e ele disse-me simplesmente “coisas”. Apercebi-me logo a seguir que o problema não eram realmente as “coisas”, mas sim o “ver”. E aí ficou evidente para mim que “ver” não é simplesmente “ver”. Perguntei-lhe o que é que ele via e ele disse-me que “via” simplesmente. O que é ver? A conversa não continuou porque eu tinha chegado aos limites do que a educação formal me permite apreender e articular. Não sabia mais – continuo a não saber – como lhe perguntar o que significa “ver”. Tenho, contudo, a certeza que há uma maneira intelegível de colocar essa pergunta e que com mais conversas podemos lá chegar.

Essas dificuldades de comunicação entre nós é que tornam necessária a reposição da palavra. Repomo-la não tanto para criticarmos, como muitos de nós pensam ser a função principal do académico, mas, repito, tornarmos o mundo mais intelegível através do acordo a que chegamos sobre o significado das palavras e sobre as condições em que podemos dela fazer uso. A recusa de muitos académicos de participarem no debate público é uma recusa de contribuírem com o seu conhecimento para tornarmos o mundo que partilhamos mais intelegível. É uma recusa de interpretar Moçambique. É grave. E essa recusa não se faz apenas pelo silêncio, um silêncio que se torna cúmplice quando ele se abate sobre pronunciamentos ou práticas públicas que ferem o que sabemos. A recusa faz-se também pela incapacidade de expôr o raciocínio de forma clara e acessível aos outros.

Não levantaria esta questão se ela não fosse sintomática do esvaziamento de conteúdo a que votamos a nossa esfera pública. Na verdade, para muitos de nós escrever e falar complicado é um fim em si. Escrevemos e falamos complicado para mostrarmos que podemos escrever e falar complicado, não para abordarmos um assunto. A erudição, entre nós, consiste na impenetrabilidade do nosso raciocínio. Repito: menciono isto não só para criticar esse tipo de intervenção, mas para salientar que faz parte do silêncio. Se quiséssemos ser entendidos, portanto, trocar impressões sobre conteúdos, havíamos de fazer o esforço de sermos mais claros.

A recusa faz-se também pela procura de subterfúgios para não fazermos aquilo que é nosso dever, nomeadamente interpelarmos criticamente o mundo em que vivemos. Pessoalmente, não vejo mal nenhum que um académico queira não só viver bem, como também melhor do que outros. Não é isso que vai diminuir as suas capacidades intelectuais e, de resto, não existe uma lei natural que diga que o verdadeiro intelectual é aquele que vive asceticamente. O que constitui problema é usar essa desculpa para desonrar a classe usando o subterfúgio material para não assumir as suas responsabilidades perante a esfera pública nacional. Vamos, por favor, repôr a palavra honrando a profissão que livremente escolhemos e, não resisto ao slógan político aqui, recuperando a nossa auto-estima como académicos!

Tudo o resto parece-me simplesmente conversa fiada.

Sem comentários: