Prossigo com a minha lista (incompleta) de problemas lógicos da abordagem normativa. Depois de termos visto o supérfluo e o apelo às emoções, vamos hoje ver problemas ligados à mudança de assunto, causalidade e irrelevância.
Mudar de assunto
O terceiro grupo de problemas que nos é apresentado pela abordagem normativa diz respeito a uma forma de argumentação que altera o foco de discussão das razões que são apresentadas para a pessoa que as apresenta ou defende. Este tem sido o principal problema na nossa discussão interna do assunto. Há três manifestações deste problema. A primeira pode ser caracterizada de forma muito geral como ataques à pessoa. Tem várias ramificações. Se alguém diz que é preciso analisar o problema zimbabweano com equilíbrio, aparece alguém a dizer “pois é, o que entende esse fulano de análise para sugerir seja o que for?”; a outra ramificação é circunstancial: “pois é, a pessoa que diz que é necessário analisar o assunto com equilíbrio diz isso porque não está lá no Zimbabwe a sofrer na pele as consequências da irracionalidade de Mugabe”; a outra é a do “tu também”: “pois é, no caso do Zimbabwe ele quer equilíbrio, mas quando foi do assunto tal ele não aconselhou nenhum equilíbrio”. O remédio aqui é insistir na separação dos assuntos, algo que eu infelizmente por vezes, não consigo fazer. Mas já estou a aprender. Já estou a conseguir ignorar aqueles que tentam a todo o custo misturar a minha pessoa com os assuntos em discussão. É difícil, mas com prática e exercício vai encaixar.
A outra manifestação é o apelo à autoridade, isto é à ideia de que se uma coisa é dita por alguém com autoridade, então ela é correcta. Em muitos casos é de facto assim, mas nem sempre. Pior, nunca é aconselhável confiar na opinião de autoridades sobretudo quando se trata de assuntos controversos. Há autoridade para os dois lados, infelizmente. No caso do Zimbabwe temos o caso recente de Koffi Annan, Graça Machel e Jimmy Carter que deram conferência de imprensa em Johanesburgo a dizer o que disseram sobre o Zimbabwe. Tendo em conta que nem puseram os pés naquele país para poderem falar com conhecimento de causa sobre a situação humanitária, é difícil dar-lhes o crédito que a sua autoridade parece exigir a alguns. Não é por Desmond Tutu dizer que as coisas estão mal ou bem, que elas vão estar realmente mal ou bem.
Há gente que diz que conhece bons estudos que mostram que o caso do Zimbabwe está todo relacionado com a loucura de Mugabe. E não diz que estudos são esses. Este aspecto do apelo à autoridade está relacionado também com uma manfestação do ataque à pessoa que consiste em dizer coisas do género “até porque há muitos bons intelectuais moçambicanos que acham que o Elísio Macamo está enganado” e concluir, a partir daí, que o Elísio Macamo está mesmo enganado, o que não seria de estranhar dado que ele é humano. Há um exemplo disto num comentário recentemente colocado numa das várias discussões sobre o assunto do Zimbabwe. O remédio aqui é avaliar a idoneidade da autoridade, contrastar as afirmações dessa autoridade com as afirmações de outras autoridades e decidir. Este aspecto parece-me particularmente importante, pois tenho notado entre alguns bloguistas a tendência de ignorar as fontes que são citadas, e mesmo assim se sentir qualificado em comentar o que se pensa ser o conteúdo dessas fontes. Ou ler mal essas fontes e ainda ter a coragem de vir a público dizer que percebeu. A iconoclastia é, naturalmente, algo a emular, mas precisa de ser informada.
Finalmente, uma outra manifestação da mudança de assunto é a preferência pelo estilo sobre a substância. A maneira como se apresenta um argumento ou a pessoa que o defende é tida como critério de plausibilidade. Os europeus são muito mais desenvolvidos do que nós, por isso é muito provável que a sua posição em relação ao Zimbabwe seja correcta. Koffi Annan foi Secretário Geral da ONU, portanto, ele não pode estar a avaliar incorrectamente a situação do Zimbabwe. Desmond Tutu foi um grande combatente anti-apartheid, portanto, a sua opinião em relação a Mugabe não pode estar equivocada. O estilo e a substância não têm nenhuma relação intrinsecamente útil na avaliação da plausibilidade de um argumento, por muito que a gente queira que seja assim. Este aspecto é de extrema importância sobretudo no nosso contexto onde a proliferação de canais de emissão de opinião parece estar a forçar as pessoas a terem imperiosamente uma opinião formada sobre quase tudo. Perante essa pressão, muitas pessoas optam por enveredar pelo mais fácil que consiste em prestar atenção ao estilo em detrimento da substância, sobretudo quando a substância implica reflexão autónoma, leitura e informação.
Qualquer que seja o caso, na discussão do assunto do Zimbabwe há um potencial bastante forte de desvio de atenções para o que não é relevante. Muitas discussões particularmente acesas deste assunto são-no por causa disto. É preciso prestar muita atenção para não se deixar envolver nessa espiral. Mas reconheço que é difícil.
O problema da causalidade
Este problema é particularmente relevante na discussão da urgência de se afastar Mugabe do poder como condição sine qua non de resolução da crise zimbabweana. A tendência da abordagem normativa aqui é de estabelecer relações de causalidade bastante problemáticas, apesar de parecerem, a olho nú, evidentes. Há várias manifestações disto que eu gostaria de discutir. A primeira diz respeito à coincidência. A crise alimentar no Zimbabwe tornou-se particularmente aguda após as ocupações ilegais e violentas de fazendas. Daí conclui-se que as ocupações são a causa da crise alimentar. Em certo sentido são. Mas noutros sentidos muito mais importantes também não são. Há várias outras razões que podem explicar uma crise alimentar. Más políticas governamentais; falta de créditos à agircultura; seca; desequilíbrios na estrutura de mercados, etc. Mahmood Mamdani tentou mostrar, em texto que discuti recentemente, apoiando-se em estudos feitos por um investigador do Instituto de Estudos de Desenvolvimento da Universidade de Sussex, que esta correlação entre ocupação de terras e crise alimentar é bastante problemática. O remédio aqui é mostrar que estamos perante um efeito de coincidência. Podemos fazer isso demonstrando que mesmo sem a causa o efeito teria sido possível ou que existe uma outra causa. O Zimbabwe, neste sentido, não é o único país da África Austral que teve problemas alimentares nos últimos anos.
A outra manifestação do problema da causa é o que a lógica chama de causa complexa. Isto é muito complicado. Uma determinada situação pode ser resultado de vários outros factores, dentro dos quais o factor que é identificado por alguns é apenas um. O caso da cólera que assola o Zimbabwe neste momento é bom exemplo. A realidade da cólera é um facto e não está em disputa, mesmo que Robert Mugabe ele próprio negue a coisa. Contudo, dizer, como se tem dito, que ela é resultado da política mal dirigida de Mugabe é problemático. Naturalmente que um governo pode ser negligente ou aplicar as políticas erradas para lidar com um determinado problema. Mas para agir o governo do Zimbabwe precisa de meios de que neste momento não dispõe em resultado das sanções que lhe são aplicadas. É legítimo esperar que um governo, por motivos de força maior (como por exemplo não ver o seu povo a sofrer), deixe de ser intransigente e se vergue à vontade dos outros. Creio também ser legítimo que um governo não sinta como sua responsabilidade resolver problemas que são exacerbados por uma atitude externa problemática.
Neste sentido, não me parece correcto responsabilizar apenas Mugabe pela cólera dado o contexto geral problemático, muito embora seja legítimo depositar a responsabilidade final no seu governo. Um aspecto interessante, sobre o qual não tenho certeza, porém, é que consta que os municípios de Harare e de Bulawayo, onde o problema da cólera é sério estão sob o controlo da oposição. Se isto for verdade, não teríamos nenhuma razão de responsabilizar a oposição pela coisa; nem seria correcto que alguém dissesse que uma vez que quem tem o controlo supremo no Zimbabwe é Mugabe, logo, a oposição não pode fazer nada, pois aí estaríamos a alinhar pelo argumento contrário que acabei de apresentar, nomeadamente que as sanções têm que ser também consideradas. Uma abordagem menos normativa do assunto devia também incluir aqueles que tornam uma actuação responsável difícil. As sanções são tão responsáveis pela cólera quanto a própria intransigência de Mugabe.
Colocar-se à margem do assunto
Vou apenas mencionar duas manifestações deste problema. Ele consiste numa dificuldade básica de provar a veracidade de uma conclusão. A primeira manifestação diz respeito a conclusões irrelevantes. Somos culpados deste problema quando tiramos uma conclusão que na realidade prova uma outra coisa. Por exemplo, alguém nos pode dizer: “é preciso apoiar o isolamento de Mugabe. Não podemos continuar a ver os zimbabweanos a procurarem refúgio nos países vizinhos. Temos que ajudar aquele povo irmão”. Penso que o problema aqui é evidente. Podemos concordar com a necessidade de ajudarmos o “povo irmão” do Zimbabwe e mesmo com a necessidade de travarmos os fluxos de refugiados. Mas isso não significa necessariamente que temos que isolar Mugabe. Podemos também acabar com as sanções; podemos parar de diabolizar o tipo; podemos fazer pressão sobre a oposição para assumir uma maior atitude de compromisso. Isto é, o sofrimento do povo zimbabweano não nos obriga a tirarmos a conclusão de que é preciso isolar Mugabe. Se calhar, justamente por causa desse sofrimento devemos reflectir se este isolamento é de facto aconselhável. Portanto, o remédio aqui é mostrar que a conclusão não é a que alguém queria demonstrar.
A outra manifestação é tipicamente moçambicana. É o espantalho. Ataca-se um argumento que é diferente do apresentado, mas mais fraco. Exemplos sempre ajudam: “aqueles que dizem que não é bom diabolizar Mugabe são esses académicos cúmplices do poder que sempre querem responsabilizar os outros pelos problemas africanos”. Ou: “Devemos isolar Mugabe. A região não quer isolar Mugabe por causa de dívidas passadas. Mas os líderes da região tinham que ver que há coisas mais importantes do que essas dívidas do passado”. É bem possível que, de facto, alguns académicos (eu também, já agora) que estão contra a diabolização de Mugabe achem também que os problemas africanos têm uma componente externa; é também possível que os líderes da região tenham em conta dívidas do passado. É bem possível, porque não? Mas essa não é a questão, nem é o seu argumento. Esses académicos (eu, por exemplo) dizem simplesmente que a diabolização tem contribuído para tornar o problema difícil e isso é independente da minha posição em relação a responsabilidades externas. Igualmente, os líderes da região acham – e o ex-Presidente Chissano tem repetido isto – que a falta de diálogo tem sido o principal problema, e a plausibilidade do que ele diz é independente dessas dívidas do passado. Se eu vendo guarda-chuvas e digo a alguém para comprar uma porque amanhã vai chover, o que interessa saber é se de facto amanhã vai chover ou não, independentemente do benefício que eu possa vir a tirar da venda.
Mais uma vez a integridade intelectual
Repito. O que acabo de escrever aqui aplica-se aos argumentos dos que defendem Mugabe. Aplica-se também aos que optam por uma abordagem analítica. São critérios gerais completamente alheios aos nossos posicionamentos ideológicos. Mesmo os exemplos que fui dando aqui e a forma como os dei podem ser desafiados seguindo estes critérios gerais. Não há magia aqui. Há simplesmente o desafio da integridade intelectual que não vai deixar de se impor só porque a pessoa que a defende é a menos indicada, argumentou mal em algumas ocasiões ou é a favor do sofrimento do povo zimbabweano. Os políticos podem prescindir destas coisas e têm-no feito. Mas aqueles que abordam estes assuntos numa perspectiva mais intelectual não podem se permitir esse luxo.
Todos os caminhos vão dar à integridade intelectual. Ninguém tem mais integridade intelectual do que os outros. Só há aqueles que, entre nós, fazem dela uma bandeira. E o caso zimbabweano precisa muito desse tipo de gente. Se mais não fosse, pelo menos para que fique claro quem está a fazer política (e, portanto, é parte do problema) e quem quer analisar (e, portanto, ser parte da solução).
Mudar de assunto
O terceiro grupo de problemas que nos é apresentado pela abordagem normativa diz respeito a uma forma de argumentação que altera o foco de discussão das razões que são apresentadas para a pessoa que as apresenta ou defende. Este tem sido o principal problema na nossa discussão interna do assunto. Há três manifestações deste problema. A primeira pode ser caracterizada de forma muito geral como ataques à pessoa. Tem várias ramificações. Se alguém diz que é preciso analisar o problema zimbabweano com equilíbrio, aparece alguém a dizer “pois é, o que entende esse fulano de análise para sugerir seja o que for?”; a outra ramificação é circunstancial: “pois é, a pessoa que diz que é necessário analisar o assunto com equilíbrio diz isso porque não está lá no Zimbabwe a sofrer na pele as consequências da irracionalidade de Mugabe”; a outra é a do “tu também”: “pois é, no caso do Zimbabwe ele quer equilíbrio, mas quando foi do assunto tal ele não aconselhou nenhum equilíbrio”. O remédio aqui é insistir na separação dos assuntos, algo que eu infelizmente por vezes, não consigo fazer. Mas já estou a aprender. Já estou a conseguir ignorar aqueles que tentam a todo o custo misturar a minha pessoa com os assuntos em discussão. É difícil, mas com prática e exercício vai encaixar.
A outra manifestação é o apelo à autoridade, isto é à ideia de que se uma coisa é dita por alguém com autoridade, então ela é correcta. Em muitos casos é de facto assim, mas nem sempre. Pior, nunca é aconselhável confiar na opinião de autoridades sobretudo quando se trata de assuntos controversos. Há autoridade para os dois lados, infelizmente. No caso do Zimbabwe temos o caso recente de Koffi Annan, Graça Machel e Jimmy Carter que deram conferência de imprensa em Johanesburgo a dizer o que disseram sobre o Zimbabwe. Tendo em conta que nem puseram os pés naquele país para poderem falar com conhecimento de causa sobre a situação humanitária, é difícil dar-lhes o crédito que a sua autoridade parece exigir a alguns. Não é por Desmond Tutu dizer que as coisas estão mal ou bem, que elas vão estar realmente mal ou bem.
Há gente que diz que conhece bons estudos que mostram que o caso do Zimbabwe está todo relacionado com a loucura de Mugabe. E não diz que estudos são esses. Este aspecto do apelo à autoridade está relacionado também com uma manfestação do ataque à pessoa que consiste em dizer coisas do género “até porque há muitos bons intelectuais moçambicanos que acham que o Elísio Macamo está enganado” e concluir, a partir daí, que o Elísio Macamo está mesmo enganado, o que não seria de estranhar dado que ele é humano. Há um exemplo disto num comentário recentemente colocado numa das várias discussões sobre o assunto do Zimbabwe. O remédio aqui é avaliar a idoneidade da autoridade, contrastar as afirmações dessa autoridade com as afirmações de outras autoridades e decidir. Este aspecto parece-me particularmente importante, pois tenho notado entre alguns bloguistas a tendência de ignorar as fontes que são citadas, e mesmo assim se sentir qualificado em comentar o que se pensa ser o conteúdo dessas fontes. Ou ler mal essas fontes e ainda ter a coragem de vir a público dizer que percebeu. A iconoclastia é, naturalmente, algo a emular, mas precisa de ser informada.
Finalmente, uma outra manifestação da mudança de assunto é a preferência pelo estilo sobre a substância. A maneira como se apresenta um argumento ou a pessoa que o defende é tida como critério de plausibilidade. Os europeus são muito mais desenvolvidos do que nós, por isso é muito provável que a sua posição em relação ao Zimbabwe seja correcta. Koffi Annan foi Secretário Geral da ONU, portanto, ele não pode estar a avaliar incorrectamente a situação do Zimbabwe. Desmond Tutu foi um grande combatente anti-apartheid, portanto, a sua opinião em relação a Mugabe não pode estar equivocada. O estilo e a substância não têm nenhuma relação intrinsecamente útil na avaliação da plausibilidade de um argumento, por muito que a gente queira que seja assim. Este aspecto é de extrema importância sobretudo no nosso contexto onde a proliferação de canais de emissão de opinião parece estar a forçar as pessoas a terem imperiosamente uma opinião formada sobre quase tudo. Perante essa pressão, muitas pessoas optam por enveredar pelo mais fácil que consiste em prestar atenção ao estilo em detrimento da substância, sobretudo quando a substância implica reflexão autónoma, leitura e informação.
Qualquer que seja o caso, na discussão do assunto do Zimbabwe há um potencial bastante forte de desvio de atenções para o que não é relevante. Muitas discussões particularmente acesas deste assunto são-no por causa disto. É preciso prestar muita atenção para não se deixar envolver nessa espiral. Mas reconheço que é difícil.
O problema da causalidade
Este problema é particularmente relevante na discussão da urgência de se afastar Mugabe do poder como condição sine qua non de resolução da crise zimbabweana. A tendência da abordagem normativa aqui é de estabelecer relações de causalidade bastante problemáticas, apesar de parecerem, a olho nú, evidentes. Há várias manifestações disto que eu gostaria de discutir. A primeira diz respeito à coincidência. A crise alimentar no Zimbabwe tornou-se particularmente aguda após as ocupações ilegais e violentas de fazendas. Daí conclui-se que as ocupações são a causa da crise alimentar. Em certo sentido são. Mas noutros sentidos muito mais importantes também não são. Há várias outras razões que podem explicar uma crise alimentar. Más políticas governamentais; falta de créditos à agircultura; seca; desequilíbrios na estrutura de mercados, etc. Mahmood Mamdani tentou mostrar, em texto que discuti recentemente, apoiando-se em estudos feitos por um investigador do Instituto de Estudos de Desenvolvimento da Universidade de Sussex, que esta correlação entre ocupação de terras e crise alimentar é bastante problemática. O remédio aqui é mostrar que estamos perante um efeito de coincidência. Podemos fazer isso demonstrando que mesmo sem a causa o efeito teria sido possível ou que existe uma outra causa. O Zimbabwe, neste sentido, não é o único país da África Austral que teve problemas alimentares nos últimos anos.
A outra manifestação do problema da causa é o que a lógica chama de causa complexa. Isto é muito complicado. Uma determinada situação pode ser resultado de vários outros factores, dentro dos quais o factor que é identificado por alguns é apenas um. O caso da cólera que assola o Zimbabwe neste momento é bom exemplo. A realidade da cólera é um facto e não está em disputa, mesmo que Robert Mugabe ele próprio negue a coisa. Contudo, dizer, como se tem dito, que ela é resultado da política mal dirigida de Mugabe é problemático. Naturalmente que um governo pode ser negligente ou aplicar as políticas erradas para lidar com um determinado problema. Mas para agir o governo do Zimbabwe precisa de meios de que neste momento não dispõe em resultado das sanções que lhe são aplicadas. É legítimo esperar que um governo, por motivos de força maior (como por exemplo não ver o seu povo a sofrer), deixe de ser intransigente e se vergue à vontade dos outros. Creio também ser legítimo que um governo não sinta como sua responsabilidade resolver problemas que são exacerbados por uma atitude externa problemática.
Neste sentido, não me parece correcto responsabilizar apenas Mugabe pela cólera dado o contexto geral problemático, muito embora seja legítimo depositar a responsabilidade final no seu governo. Um aspecto interessante, sobre o qual não tenho certeza, porém, é que consta que os municípios de Harare e de Bulawayo, onde o problema da cólera é sério estão sob o controlo da oposição. Se isto for verdade, não teríamos nenhuma razão de responsabilizar a oposição pela coisa; nem seria correcto que alguém dissesse que uma vez que quem tem o controlo supremo no Zimbabwe é Mugabe, logo, a oposição não pode fazer nada, pois aí estaríamos a alinhar pelo argumento contrário que acabei de apresentar, nomeadamente que as sanções têm que ser também consideradas. Uma abordagem menos normativa do assunto devia também incluir aqueles que tornam uma actuação responsável difícil. As sanções são tão responsáveis pela cólera quanto a própria intransigência de Mugabe.
Colocar-se à margem do assunto
Vou apenas mencionar duas manifestações deste problema. Ele consiste numa dificuldade básica de provar a veracidade de uma conclusão. A primeira manifestação diz respeito a conclusões irrelevantes. Somos culpados deste problema quando tiramos uma conclusão que na realidade prova uma outra coisa. Por exemplo, alguém nos pode dizer: “é preciso apoiar o isolamento de Mugabe. Não podemos continuar a ver os zimbabweanos a procurarem refúgio nos países vizinhos. Temos que ajudar aquele povo irmão”. Penso que o problema aqui é evidente. Podemos concordar com a necessidade de ajudarmos o “povo irmão” do Zimbabwe e mesmo com a necessidade de travarmos os fluxos de refugiados. Mas isso não significa necessariamente que temos que isolar Mugabe. Podemos também acabar com as sanções; podemos parar de diabolizar o tipo; podemos fazer pressão sobre a oposição para assumir uma maior atitude de compromisso. Isto é, o sofrimento do povo zimbabweano não nos obriga a tirarmos a conclusão de que é preciso isolar Mugabe. Se calhar, justamente por causa desse sofrimento devemos reflectir se este isolamento é de facto aconselhável. Portanto, o remédio aqui é mostrar que a conclusão não é a que alguém queria demonstrar.
A outra manifestação é tipicamente moçambicana. É o espantalho. Ataca-se um argumento que é diferente do apresentado, mas mais fraco. Exemplos sempre ajudam: “aqueles que dizem que não é bom diabolizar Mugabe são esses académicos cúmplices do poder que sempre querem responsabilizar os outros pelos problemas africanos”. Ou: “Devemos isolar Mugabe. A região não quer isolar Mugabe por causa de dívidas passadas. Mas os líderes da região tinham que ver que há coisas mais importantes do que essas dívidas do passado”. É bem possível que, de facto, alguns académicos (eu também, já agora) que estão contra a diabolização de Mugabe achem também que os problemas africanos têm uma componente externa; é também possível que os líderes da região tenham em conta dívidas do passado. É bem possível, porque não? Mas essa não é a questão, nem é o seu argumento. Esses académicos (eu, por exemplo) dizem simplesmente que a diabolização tem contribuído para tornar o problema difícil e isso é independente da minha posição em relação a responsabilidades externas. Igualmente, os líderes da região acham – e o ex-Presidente Chissano tem repetido isto – que a falta de diálogo tem sido o principal problema, e a plausibilidade do que ele diz é independente dessas dívidas do passado. Se eu vendo guarda-chuvas e digo a alguém para comprar uma porque amanhã vai chover, o que interessa saber é se de facto amanhã vai chover ou não, independentemente do benefício que eu possa vir a tirar da venda.
Mais uma vez a integridade intelectual
Repito. O que acabo de escrever aqui aplica-se aos argumentos dos que defendem Mugabe. Aplica-se também aos que optam por uma abordagem analítica. São critérios gerais completamente alheios aos nossos posicionamentos ideológicos. Mesmo os exemplos que fui dando aqui e a forma como os dei podem ser desafiados seguindo estes critérios gerais. Não há magia aqui. Há simplesmente o desafio da integridade intelectual que não vai deixar de se impor só porque a pessoa que a defende é a menos indicada, argumentou mal em algumas ocasiões ou é a favor do sofrimento do povo zimbabweano. Os políticos podem prescindir destas coisas e têm-no feito. Mas aqueles que abordam estes assuntos numa perspectiva mais intelectual não podem se permitir esse luxo.
Todos os caminhos vão dar à integridade intelectual. Ninguém tem mais integridade intelectual do que os outros. Só há aqueles que, entre nós, fazem dela uma bandeira. E o caso zimbabweano precisa muito desse tipo de gente. Se mais não fosse, pelo menos para que fique claro quem está a fazer política (e, portanto, é parte do problema) e quem quer analisar (e, portanto, ser parte da solução).
6 comentários:
Elísio,
A lembe li fambile. Aprás-me notar que certas coisas não se foram com este 2008 já a enrolar a tenda.
Uma delas é a coerência que se manifesta muito na forma como, desde sempre, abordas o tema Zim e "Mad Bob". um tema sempre apaixonante mas, muitas vezes abordado da mesma forma que se aborda Mugabe, atrofiando a possibilidade de debate/diálogo.
Espero que a coerência se mantenha em 2009.
obrigado, júlio. ontem os nossos estudantes organizaram uma festa de natal que teve como ponto alto a entoação conjunta do grande "let it be" dos "beattle". algumas coisas têm de ser vistas assim mesmo. boas festas!
Prof.
Festas felizes,
A necessidade de cruzamento de abordagens, nao limita o debate, esse e o meu pensamento. Quero com isto concordar que sim Mugabe e parte do problema hoje sobretudo se olharmos para a perspectiva de que "perdeu eleicoes" nao e o legitimo governante do povo Zimbabweano de tal forma que a sua autoridade enquanto individuo que deve influenciar outrem nao contrinui positivamente pra melhoria do estado de coisas no Zimbabwe. Mas por outro lado concordo plenamente consigo, quando fazes uma corelac ao historica do Zimbawe dando a entender que os factos historicos Zimbaweanos foram escalados como que um castelo de areia ou um baralho de cartas condenado a desabar a qualquer momento, isto e, mesmo sem Mugabe em qualquer instante o Zimbabwe teria que resolver os problemas adiados, e e o que esta acontecer. Voltando ao inicio, acredito que o cruzamento destas duas abordagens pode completar a abordagem sobre o problema Zimbaweano.
Abraco
caro noa inácio, obrigado pelo seu comentário. eu tenho defendido nesta questao a ideia de que a concentraçao em mugabe (diabolizando-o) tem sido parte do problema, nao da soluçao. isto nao quer dizer, obviamente, que ele nao tenha responsabilidade pelo que acontece no seu país; nem quer dizer que ele seja bom político ou a soluçao para o seu país. quer dizer que precisamos de abordar o assunto com o equilíbrio (o noa inácio chama a isso de "cruzamento de abordagens") necessário. o recuo histórico que faço nao é para mostrar quem é o "verdadeiro" culpado. é simplesmente para contextualizar o que tem vindo a acontecer e permitir que, na abordagem do assunto, tenhamos sensibilidade para a racionalidade da acçao dos principais protagonistas. a preocupaçao em diabolizar mugabe nao nos permite fazer isto. e isso é uma pena, pois aí perdemos a oportunidade de fazer o tal cruzamento. esse cruzamento permite-me, só para complicar as coisas, duvidar muito dessa sua ideia de que mugabe "perdeu eleiçoes". nao sei se essa afirmaçao ainda faz muito sentido no contexto daquele país. boas festas!
Sinto-me pequeno estar agora a escrever este comentário que nem chega a ser. Sou um dos seus admiradores na arte de espressar aquilo qie achas, percebes, com base em linhas da ciência. isso é algo positivo, confesso que li suas duas obras "trepar o país pelos ramos" e a recente "planicies sem fim", achei uma maravilha e noto que, es um dos mocambicanos que fala as coisas sem medo. enfim, Elisio estas de parabens. Sou Mendes Mutenda, Estudante da Escola de Jornalismo em Mocambique(mutenda54@gmail.com)www.mendes.bloguepessoal.com
caro mendes, bem vindo ao blogue. a abordagem crítica do país é um desafio muito grande que reclama a atençao de quase todos nós. abraços
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