segunda-feira, dezembro 08, 2008

A autoridade (2)

As fontes da autoridade

Vou começar pelo mais difícil, nomeadamente tentando encontrar na minha língua materna, o Xangan, elementos que me permitam pensar a autoridade. Encorajo a todos os aspirantes a cientistas sociais no nosso país que prestem particular atenção às suas línguas maternas. Pode ser que o nosso domínio dessas línguas não seja suficientemente forte por razões que todos conhecemos. Contudo, não faz mal tentar se socorrer delas. Mesmo que os detalhes e nuances nos escapem, o simples facto de tentarmos reflectir estes conceitos a partir dessas línguas ajuda a alicerçar a nossa perspectiva na nossa própria vivência. Isso parece-me crucial para evitarmos a violação que alguns conceitos, usados sem cuidado, representam para as nossas realidades. O recurso aos subsídios que nos são dados pela língua não garante, naturalmente, a veracidade do que dizemos subsequentemente. Não obstante, esse recurso é útil do ponto de vista de alicerçamento da reflexão no nosso mundo da vida.
Em Xangan ocorrem-me dois termos que me parecem se aproximar do sentido de autoridade na sua acepção sociológica. Um termo é “ku pfumeta” e outro é “ku fumisa”. São completamente diferentes. O primeiro, “ku pfumeta” é derivado – se não me engano – do verbo “ku pfumela” que significa literalmente “aceitar, concordar, anuir, converter-se”. Não sei exactamente qual é a forma linguística apropriada para descrever a morfologia de “ku pfumeta”, mas a ideia é de que alguém autoriza outra pessoa a fazer determinada coisa. “Ku pfumeta” implica, portanto, uma relação entre duas pessoas que é constituída pela prerrogativa que uma dessas pessoas tem de permitir que a outra faça determinada coisa. É bom reter este elemento, pois é importante para o resto da discussão. O segundo termo é “ku fumisa” que é derivado de “ku fuma” que quer dizer governar e reinar. “Ku fumisa”, porém, é mais uma destas excelentes formas gramaticais das língua bantu que pega numa palavra e dá-las tantas voltas quantas forem necessárias para produzir o maior número de sentidos possíveis. “Ku fumisa” é o acto de fazer alguém reinar ou governar. Suponho que intervenha aqui também o mesmo elemento de autorização contido no primeiro termo. Alguém governa por permissão de outrém.
A existência destes dois termos não me parece fortuita. Tenho em mim que ela revela a presença de um elemento crucial no exercício do poder e que assenta em muito mais do que simplesmente na força. E esta é a definição formal (da sociologia) da noção de autoridade. Ela representa o poder socializado e domesticado pelos homens. É a transformação do poder em dominação conforme escreveu há muitos anos o sociólogo alemão Max Weber. A autoridade, na abordagem de
Weber, é a probabilidade de fazer obedecer as nossas ordens por certas pessoas. Essa probabilidade é marcada pela legitimidade da prerrogativa que temos de emitir ordens. Weber identificou três fontes fundamentais de legitimidade, nomeadamente a tradicional, a carismática e a jurídico-racional. A legitimidade tradicional assenta na referência à necessidade de manutenção da tradição. A carismática assenta nas qualidades excepcionais de um líder. A jurídico-racional assenta num direito codificado e implementado por uma estrutura burocrática. Estas formas de legitimidade não significam, evidentemente, que uma vez identificadas elas condenem as pessoas ou comunidades ao seu quadro de referência. Nada impede que uma autoridade tradicional se transforme numa autoridade carismática ou jurídico-racional. Contudo, é preciso também vincar que não há nenhuma espécie de fatalismo histórico que implique a evolução inexorável de uma forma para outra.
O que me parece interessante salientar, sobretudo no que diz respeito aos caminhos problemáticos que a discussão sobre a chamada “autoridade tradicional” em Moçambique tem assumido, é que ela também, concebida na perspectiva da sociologia política de relação entre quem dá ordens e quem obedece, não é essencial, nem perene. A dominação, como parece revelar a existência de “ku pfumeta” e “ku fumisa”, depende em grande medida da existência desta relação. Isso significa, portanto, que qualquer análise que não procure saber como esta relação se desdobra na realidade corre o risco de ser incompleta. Ainda vou voltar para analisar mais de perto esta questão.

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