Peço desculpas pela forma como se apresenta o texto. A técnica nunca foi o meu forte e, ultimamente, parece que o computador quer provar a sua superioridade em relação a mim. As máquinas são estranhas e vaidosas!
Está a ser difícil blogar. O maior erro foi ter começado com muita força. Não devia ter começado assim. Devia ter começado com artigos esporádicos para não criar expectativas. Blogar o absolutamente necessário e possível. Não fiz nada disso. Preferi encher a blogosfera de reflexões e agora estou a pagar caro por isso. Milhares de temas ocupam a minha cabeça, mas falta tempo para me sentar, reflectir, ler, reflectir, escrever, rever, conversar com colegas, e postar. E mesmo depois de postar, falta-me o tempo de visitar com regularidade para manter as discussões suscitadas e aprender delas. Infelizmente, a vida académica é muito exigente. Há provas por corrigir e essas provas, pelo menos onde eu trabalho, são ensaios; há trabalho administrativo por fazer; há artigos científicos por escrever; há palestras que é preciso preparar; há conferências por assistir, muitas das quais implicam viagens longas de comboio ou avião; há artigos científicos de outros que é preciso avaliar e escrever parecer; há teses e dissertações por ler, comentar e orientar. Decididadamente: não é fácil. E isso até ajuda a apreciar a energia e força daqueles que sendo académicos conseguem arranjar tempo para blogar com regularidade.
Não vou insistir muito nisso para não dar a impressão de estar a arranjar desculpas. Nos intervalos destas desculpas e dos vários afazeres sempre se arranja tempo para ir pensando. As discussões em que me vou envolvendo noutros blogues estimulam-me. Um dos temas que me tem interessado muito nos últimos tempos é o tema da autoridade. É muito bicudo, mas vale à pena arriscar. Parto de coisas simples como, aliás, havia já anunciado em Outubro recém-chegado de Moçambique. Por exemplo, lembro-me de discutir com estudantes de ciências sociais na UEM e no ISCTEM, em Maputo, um aviso que se pode ver um pouco por todo o lado em Maputo e em muitos centros urbanos do nosso país: Proibido fazer xi-xi aqui. Ou: É proibido mijar aqui. Não é coisa só de Moçambique. Na Alemanha é frequente ver anúncios semelhantes, mas que têm cães na mira: Este espaço não é nenhum urinório para cães! Qualquer coisa assim. Em certos lugares em Maputo esse anúncio até é supérfluo. Algumas esquinas tresandam de tal maneira que o anúncio se torna até mesmo patético, pois o cheiro contradiz arrogantemente. E não só. É também frequente o anúncio: Proibido deitar lixo aqui. Coisas assim.
A ideia de discutir isso com os estudantes era de identificar temas de pesquisa e sua articulação com a sociedade de forma mais geral. Identificámos problemas relacionados com a suficiência da infra-estrutura urbana, problemas da capacidade das autoridades municipais de imporem uma certa disciplina, problemas relacionados com os efeitos da migração campo-cidade e, de uma forma geral, problemas de civismo. Cada uma destas abordagens pode conduzir a reflexões interessantes sobre o tipo de sociedade em que vivemos senão mesmo o tipo de senão que tornamos possível ao mesmo tempo que nos faz. Espero que alguns dos participantes dessas discussões se sintam suficientemente estimulados para pegar num e noutro aspecto e prosseguir com a reflexão. Eu vou pôr a bola a rolar nesta série com uma reflexão ligada à noção de autoridade. Vou tentar ver até que ponto fenómenos dessa natureza estão ligados a esta noção, ou melhor, se é possível estabelecer uma ligação entre eles.
Penso que podemos incluir na classe destes fenómenos vários outros que observamos ou vivemos no nosso quotidiano. A má condução, por exemplo. E isto não diz apenas respeito ao “chapa”. Penso que a má condução no sentido de desrespeito total pelas regras do trânsito é característica de uma boa parte dos nossos motoristas. É verdade que uma possível explicação para isso seria o facto de que o cancelamento de regras para as quais não existe uma instituição eficiente de imposição seria uma das poucas maneiras de garantir que o trânsito flua. Na verdade, é deveras curioso que haja menos acidentes em Maputo do que os que realmente ocorrem. Muito curioso. Creio, também, haver mais acidentes (e fatais) fora de Maputo e de cidades. O preço que pagamos por isso é muito elevado. Conduzimos com os nervos à flor da pele. E andamos também nesse estado. Outros fenómenos a incluir: falta de delicadeza em repartições públicas, em restaurantes; dificuldades de discutir com respeito e sem agressividade na esfera pública; falta de respeito pelo bem público, pelo público, pelas instituições e pelos colegas; dificuldades em cultivar um sentido crítico saudável que preserve a responsabilidade individual de cada um de nós. Como podem ver, os fenómenos vão das coisas simples do quotidiano até à mais alta esfera do político no sentido geral do termo.
Acho que pode valer à pena fazer este exercício. Gostaria, desde já, de anunciar que a reflexão vai me conduzir directamente a Norbert Elias, um grande sociólogo alemão, discípulo de Karl Mannheim. Elias escreveu uma das obras mais interessantes de sociologia: O processo civilizacional. Farei referência a algumas teses centrais (na minha óptica) dessa obra.
Está a ser difícil blogar. O maior erro foi ter começado com muita força. Não devia ter começado assim. Devia ter começado com artigos esporádicos para não criar expectativas. Blogar o absolutamente necessário e possível. Não fiz nada disso. Preferi encher a blogosfera de reflexões e agora estou a pagar caro por isso. Milhares de temas ocupam a minha cabeça, mas falta tempo para me sentar, reflectir, ler, reflectir, escrever, rever, conversar com colegas, e postar. E mesmo depois de postar, falta-me o tempo de visitar com regularidade para manter as discussões suscitadas e aprender delas. Infelizmente, a vida académica é muito exigente. Há provas por corrigir e essas provas, pelo menos onde eu trabalho, são ensaios; há trabalho administrativo por fazer; há artigos científicos por escrever; há palestras que é preciso preparar; há conferências por assistir, muitas das quais implicam viagens longas de comboio ou avião; há artigos científicos de outros que é preciso avaliar e escrever parecer; há teses e dissertações por ler, comentar e orientar. Decididadamente: não é fácil. E isso até ajuda a apreciar a energia e força daqueles que sendo académicos conseguem arranjar tempo para blogar com regularidade.
Não vou insistir muito nisso para não dar a impressão de estar a arranjar desculpas. Nos intervalos destas desculpas e dos vários afazeres sempre se arranja tempo para ir pensando. As discussões em que me vou envolvendo noutros blogues estimulam-me. Um dos temas que me tem interessado muito nos últimos tempos é o tema da autoridade. É muito bicudo, mas vale à pena arriscar. Parto de coisas simples como, aliás, havia já anunciado em Outubro recém-chegado de Moçambique. Por exemplo, lembro-me de discutir com estudantes de ciências sociais na UEM e no ISCTEM, em Maputo, um aviso que se pode ver um pouco por todo o lado em Maputo e em muitos centros urbanos do nosso país: Proibido fazer xi-xi aqui. Ou: É proibido mijar aqui. Não é coisa só de Moçambique. Na Alemanha é frequente ver anúncios semelhantes, mas que têm cães na mira: Este espaço não é nenhum urinório para cães! Qualquer coisa assim. Em certos lugares em Maputo esse anúncio até é supérfluo. Algumas esquinas tresandam de tal maneira que o anúncio se torna até mesmo patético, pois o cheiro contradiz arrogantemente. E não só. É também frequente o anúncio: Proibido deitar lixo aqui. Coisas assim.
A ideia de discutir isso com os estudantes era de identificar temas de pesquisa e sua articulação com a sociedade de forma mais geral. Identificámos problemas relacionados com a suficiência da infra-estrutura urbana, problemas da capacidade das autoridades municipais de imporem uma certa disciplina, problemas relacionados com os efeitos da migração campo-cidade e, de uma forma geral, problemas de civismo. Cada uma destas abordagens pode conduzir a reflexões interessantes sobre o tipo de sociedade em que vivemos senão mesmo o tipo de senão que tornamos possível ao mesmo tempo que nos faz. Espero que alguns dos participantes dessas discussões se sintam suficientemente estimulados para pegar num e noutro aspecto e prosseguir com a reflexão. Eu vou pôr a bola a rolar nesta série com uma reflexão ligada à noção de autoridade. Vou tentar ver até que ponto fenómenos dessa natureza estão ligados a esta noção, ou melhor, se é possível estabelecer uma ligação entre eles.
Penso que podemos incluir na classe destes fenómenos vários outros que observamos ou vivemos no nosso quotidiano. A má condução, por exemplo. E isto não diz apenas respeito ao “chapa”. Penso que a má condução no sentido de desrespeito total pelas regras do trânsito é característica de uma boa parte dos nossos motoristas. É verdade que uma possível explicação para isso seria o facto de que o cancelamento de regras para as quais não existe uma instituição eficiente de imposição seria uma das poucas maneiras de garantir que o trânsito flua. Na verdade, é deveras curioso que haja menos acidentes em Maputo do que os que realmente ocorrem. Muito curioso. Creio, também, haver mais acidentes (e fatais) fora de Maputo e de cidades. O preço que pagamos por isso é muito elevado. Conduzimos com os nervos à flor da pele. E andamos também nesse estado. Outros fenómenos a incluir: falta de delicadeza em repartições públicas, em restaurantes; dificuldades de discutir com respeito e sem agressividade na esfera pública; falta de respeito pelo bem público, pelo público, pelas instituições e pelos colegas; dificuldades em cultivar um sentido crítico saudável que preserve a responsabilidade individual de cada um de nós. Como podem ver, os fenómenos vão das coisas simples do quotidiano até à mais alta esfera do político no sentido geral do termo.
Acho que pode valer à pena fazer este exercício. Gostaria, desde já, de anunciar que a reflexão vai me conduzir directamente a Norbert Elias, um grande sociólogo alemão, discípulo de Karl Mannheim. Elias escreveu uma das obras mais interessantes de sociologia: O processo civilizacional. Farei referência a algumas teses centrais (na minha óptica) dessa obra.
3 comentários:
Caro Prof Elisio,
Deixo aqui este comentario, ironico, baseado numa das passagens desta postagem, alias apenas reescrevi o seu paragrafo pensando em muitos academicos e bloguistas que conheco por este Mocambique (este teclado nao tem acentos nem cedilhas, desculpa!!!)
"Felizmente, a vida académica é pouco exigente. Há sim provas por corrigir e essas provas, pelo menos nas muitas universidades onde trabalho, nunca sao ensaios; nao há trabalho administrativo por fazer, dado que hoje em dia os esse-eme-esses ajudam a fazer isso; nunca há artigos científicos por escrever; as palestras nao precisam de ser preparadas; nunca sobra tempo para assistir a conferências, mesmo que muitas delas nao impliquem viagens longas de chapa, machimbombo ou avião; nao ha tempo para ler artigos científicos de outros, por isso o melhor tem sido criticar antes de ler e avaliar; as teses e dissertacoes que ha por ler sao muito poucas, dado que na sua maioria podem ser avaliadas sem as ler. Basta ler o titulo (ou tema)! Decididadamente: fica tudo muito fantastico. E isso até ajuda a depreciar a energia e força daqueles que sendo académicos conseguem arranjar tempo para blogar, escrever artigos cientificos, viajar, ler jornais, assistir a conferencias, pesquisar, orientar e avaliar teses, etc., etc.,"
Abraco,
Tomas Selemane
oh, tomás! está de certeza a falar de uma minoria. abraços.
Meus caros,
penso que o Tomas deve estar a falar de si proprio...a brincadeira foi de pessimo gosto!!! Ha professores "turbo" que dao bem as suas aulas e que teem uma agenda como a do Prof Elisio. Outros os ha, que nao sendo "turbos" preocupam-se em levar uma vida academica decente. Nao me parece simpatico fazerem- se generalizacoes do tipo das que o Tomas fez...Este pais enfrenta dificuldades na area da educacao, mas nao eh tao mediucre como sempre fazemos crer...ou faca se um inquerito e falemos com base em numeros!!
Haja limites...ainda que tenha se ocultado p tras da ironia!!!
Abracos,
SJ
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