Há espaço para perguntar?
Por Eugénio Gujamo
Antes de mais nada, gostaria de agradecer ao responsável deste blog por ter aceite postar este pequeno texto e, se calhar, um conjunto de palavras sem qualquer “razão de ser”.
Bem, há dias, li uma entrevista do Prof. Dr. Carlos Machili, na qualidade de Director de Assuntos Religiosos no Ministério da Justiça, publicada no Jornal “Notícias” do dia 8 de Dezembro deste ano. O título da mesma foi-me bastante sugestivo: “Igreja ocupa vazio existente na relação Estado-cidadão”. Ao longo da entrevista, o entrevistado discorreu sobre o papel da igreja, sobretudo a Católica, a partir da década de 30 do século passado e da sua relação com o Estado colonial português; esboçou a relação entre a Concordata (uma espécie de regimento eclesiástico – tanto da igreja católica quanto das igrejas protestantes existentes na então Província ultramarina de Moçambique – instituído pelo Estado Novo, entre 1940/41) e o despertar do nacionalismo; falou um pouco das relações entre o Estado e as instituções religiosas no período “pós-independência”. Por fim, e por sinal o aspecto que se definia como o cerne da entrevista, teceu algumas considerações sobre a aprovação da Constituição de 1990 e o “boom” de denominações religiosas no país.
Ora, a meu ver, a religião – entendida como um conjunto de acções, interacções e práticas desenvolvidas pelos indivíduos ou grupos, permeadas pelas crenças que estes depositam ou manifestam em relação a uma realidade definida como sobrenatural, envolvendo o sagrado, o divino e/ou o mágico; é um dos aspectos da realidade social moçambicana que carece de alguma apreensão e interpretação, a partir de ferramentas “disponíveis” nas Ciências Sociais, pois parte desta realidade é incessantemente feita, desfeita e refeita neste campo específico.
Foi através dessas pré-noções que fui guiado à leitura da entrevista acima aludida [alerta: não sou nem considero-me cientista social, ou seja-qual-for o atributo que me vier a ser endereçado!], ao mesmo tempo que suscitavam-se em mim expectativas referentes ao que o Prof. traria para reflexão. No entanto, depois de lê-la foi tremenda a sensação de decepção que me veio, dado que a conclusão a que a entrevista me guiou foi a de que as igrejas não têm estado a desempenhar o seu papel [ainda não sei qual ou quais papéis], mas parece-me que se trata daquele que “normativamente”, devia ser desempenhado pelo Estado [mas, qual é esse papel?] e este último (o Estado) ainda enfrenta sérias dificuldades de relacionar-se com o cidadão.
Pois bem, não é sobre a conclusão dessa leitura que pretendo aqui, de forma esquiva, abordar, mas sobre determinados aspectos que constaram na argumentação do Prof., que para mim são assaz problemáticos, havendo, neste sentido, alguma relevância em esclarecê-los: questionando-os, claro! Além do mais, a lei – que se pretende aprovar para regular as actividades das igrejas, as relações entre elas, e delas com o Estado – e que transparece, na entrevista, como uma das preocupações do Prof. e do Ministério da Justiça, tem que ser objecto de interpelação, para que, de facto, seja uma lei que preste a todos os actores que se servirão dela, no seu dia-a-dia.
Não só de pão vive o homem, mas de perguntas também...
Como dizia no parágrafo acima, há pontos contidos na argumentação do Prof. que merecem a devida atenção. Desses, salientarei apenas 2 (dois), pois são relativamente mais significativos e de maior valor analítico, quando se faz menção à questão de fundo da mesma: a problemática do “boom” de igrejas em Moçambique e sua relação com o papel do Estado [talvez?!].
Assim sendo, vamos ao primeiro ponto, que diz respeito a razão da multiplicação de igrejas. A explicação dada para esta questão é a de que ela prende-se ao dom; sim, isso mesmo, dom. “Ainda não estudamos as causas deste fenómeno em profundidade, mas razão que está escrita é que se multiplicam por causa do dom” (o entrevistado). Humm... que razão tão forte quanto fraca! Mas o que é que isso significa? Dom de quê? Além do dom, quais outros factores estariam por detrás da multiplicação de denominações religiosas? Este “boom” ocorre em que tipo de igrejas: católica, protestante, pentecostal, neo-pentecostal, etc., etc.? Qual dessas denominações apresentam maior predisposição, pelas modalidades de relações sociais nelas existentes, para sua multiplicação?
Ademais, trata-se de um fenómeno ainda não estudado, nos dizeres do Prof., mas que para o qual tenciona-se aprovar leis! Qual pode ser a legitimidade de tais leis, uma vez que o fenómeno a que elas pretendem dar conta, não se encontra minimanente inteligível?
Outro aspecto, o segundo e último para os propósitos deste artigo, é a questão do vazio político entre o cidadão e a estrutura política (o Estado), que com o fluir dessas igrejas se veio preencher. “A meu ver estas igrejas vieram ocupar um vazio político na relação entre o cidadão e a estrutura política. Pensando bem verás que cada igreja que nasce, traz um novo líder para a comunidade, um líder que tem acesso, condiciona e manipula o íntimo das pessoas” (o entrevistado). Ora, o que se quer dizer com vazio político? Quando é que se está perante tal fenómeno e como é que ele se manifesta no país? O vazio político existe no íntimo das pessoas? Como é que (ou até que ponto é que) a partir do tipo de autoridade que o novo líder que a igreja coloca à disposição da comunidade representa, preenche tal vazio político, em suposição, provocado pelo Estado nesse espaço de sociabilidade (comunidade)?
Para tentar dar conta do fenómeno em questão, lembrei-me de uma obra clássica nas Ciências Sociais, “Ensaio sobre a Dádiva”, publicada em 1924, de Marcel Mauss (1872-1950). Nesta obra, Mauss referia que a vida social não tende apenas a repousar sobre contratos (todas disposições de natureza legal-burocrática: por exemplo, leis, decretos, Constituições, etc.; mas também, e de modo intenso, sobre 3 (três) obrigações complementares entre si e em relação a si, que são: dar, receber e retribuir. Nelas pode-se vislumbrar o reconhecimento do vínculo social, ou o fundamento da capacidade de acção dos indivíduos ou dos grupos e de interacção entre eles.
Este aspecto permite-me aventar a hipótese segundo a qual o crescendo do número de denominações religiosas pentecostais, por exemplo, em Moçambique, está relacionado com as acções e práticas retribuitórias desencadadas entre os seus fiéis ou crentes, que acabam encontrando fundamento na actual conjuntura sócio-política, cultural e económica do país. Isto é, existe uma lógica que guia a conduta destas igrejas, por um lado; e, por outro lado, o contexto social, político, económico e cultural do país favorece, em certa medida, sua implantação e seu crescente aumento.
É claro que para aceitar ou rejeitar esta hipótese, haja por percorrer um longo caminho. Contudo, foi minha intenção, através deste texto – o que não tem sido feito por poucos, profundamente empenhados na áreas das Ciências Sociais; ressaltar o facto de termos de compreender algo de forma razoável, antes de embrenharmo-nos em procurar soluções (mediante a aprovação de leis, políticas e programas de não-se-sabe-de-quê e de quantas), porque corremos sérios riscos de causar problemas ao invés das tão almejadas “boas soluções”.
Mas também não queria que este pequeno texto fosse interpretado como uma provocação ou ataque pessoal a seja lá quem for, pois tenho para mim que, uma das preciosíssimas maneiras de apreciar o esforço, o trabalho e a dedicação de outros indivíduos semelhantes a nós, é trazer o que eles fazem ao cenário da reflexão, mesmo que esta reflexão seja pobre e fraca, porém há que trazer o que podemos ao tal mundinho, porque nele há sempre espaço de e para alguma coisa!
Obrigado!
Por Eugénio Gujamo
Antes de mais nada, gostaria de agradecer ao responsável deste blog por ter aceite postar este pequeno texto e, se calhar, um conjunto de palavras sem qualquer “razão de ser”.
Bem, há dias, li uma entrevista do Prof. Dr. Carlos Machili, na qualidade de Director de Assuntos Religiosos no Ministério da Justiça, publicada no Jornal “Notícias” do dia 8 de Dezembro deste ano. O título da mesma foi-me bastante sugestivo: “Igreja ocupa vazio existente na relação Estado-cidadão”. Ao longo da entrevista, o entrevistado discorreu sobre o papel da igreja, sobretudo a Católica, a partir da década de 30 do século passado e da sua relação com o Estado colonial português; esboçou a relação entre a Concordata (uma espécie de regimento eclesiástico – tanto da igreja católica quanto das igrejas protestantes existentes na então Província ultramarina de Moçambique – instituído pelo Estado Novo, entre 1940/41) e o despertar do nacionalismo; falou um pouco das relações entre o Estado e as instituções religiosas no período “pós-independência”. Por fim, e por sinal o aspecto que se definia como o cerne da entrevista, teceu algumas considerações sobre a aprovação da Constituição de 1990 e o “boom” de denominações religiosas no país.
Ora, a meu ver, a religião – entendida como um conjunto de acções, interacções e práticas desenvolvidas pelos indivíduos ou grupos, permeadas pelas crenças que estes depositam ou manifestam em relação a uma realidade definida como sobrenatural, envolvendo o sagrado, o divino e/ou o mágico; é um dos aspectos da realidade social moçambicana que carece de alguma apreensão e interpretação, a partir de ferramentas “disponíveis” nas Ciências Sociais, pois parte desta realidade é incessantemente feita, desfeita e refeita neste campo específico.
Foi através dessas pré-noções que fui guiado à leitura da entrevista acima aludida [alerta: não sou nem considero-me cientista social, ou seja-qual-for o atributo que me vier a ser endereçado!], ao mesmo tempo que suscitavam-se em mim expectativas referentes ao que o Prof. traria para reflexão. No entanto, depois de lê-la foi tremenda a sensação de decepção que me veio, dado que a conclusão a que a entrevista me guiou foi a de que as igrejas não têm estado a desempenhar o seu papel [ainda não sei qual ou quais papéis], mas parece-me que se trata daquele que “normativamente”, devia ser desempenhado pelo Estado [mas, qual é esse papel?] e este último (o Estado) ainda enfrenta sérias dificuldades de relacionar-se com o cidadão.
Pois bem, não é sobre a conclusão dessa leitura que pretendo aqui, de forma esquiva, abordar, mas sobre determinados aspectos que constaram na argumentação do Prof., que para mim são assaz problemáticos, havendo, neste sentido, alguma relevância em esclarecê-los: questionando-os, claro! Além do mais, a lei – que se pretende aprovar para regular as actividades das igrejas, as relações entre elas, e delas com o Estado – e que transparece, na entrevista, como uma das preocupações do Prof. e do Ministério da Justiça, tem que ser objecto de interpelação, para que, de facto, seja uma lei que preste a todos os actores que se servirão dela, no seu dia-a-dia.
Não só de pão vive o homem, mas de perguntas também...
Como dizia no parágrafo acima, há pontos contidos na argumentação do Prof. que merecem a devida atenção. Desses, salientarei apenas 2 (dois), pois são relativamente mais significativos e de maior valor analítico, quando se faz menção à questão de fundo da mesma: a problemática do “boom” de igrejas em Moçambique e sua relação com o papel do Estado [talvez?!].
Assim sendo, vamos ao primeiro ponto, que diz respeito a razão da multiplicação de igrejas. A explicação dada para esta questão é a de que ela prende-se ao dom; sim, isso mesmo, dom. “Ainda não estudamos as causas deste fenómeno em profundidade, mas razão que está escrita é que se multiplicam por causa do dom” (o entrevistado). Humm... que razão tão forte quanto fraca! Mas o que é que isso significa? Dom de quê? Além do dom, quais outros factores estariam por detrás da multiplicação de denominações religiosas? Este “boom” ocorre em que tipo de igrejas: católica, protestante, pentecostal, neo-pentecostal, etc., etc.? Qual dessas denominações apresentam maior predisposição, pelas modalidades de relações sociais nelas existentes, para sua multiplicação?
Ademais, trata-se de um fenómeno ainda não estudado, nos dizeres do Prof., mas que para o qual tenciona-se aprovar leis! Qual pode ser a legitimidade de tais leis, uma vez que o fenómeno a que elas pretendem dar conta, não se encontra minimanente inteligível?
Outro aspecto, o segundo e último para os propósitos deste artigo, é a questão do vazio político entre o cidadão e a estrutura política (o Estado), que com o fluir dessas igrejas se veio preencher. “A meu ver estas igrejas vieram ocupar um vazio político na relação entre o cidadão e a estrutura política. Pensando bem verás que cada igreja que nasce, traz um novo líder para a comunidade, um líder que tem acesso, condiciona e manipula o íntimo das pessoas” (o entrevistado). Ora, o que se quer dizer com vazio político? Quando é que se está perante tal fenómeno e como é que ele se manifesta no país? O vazio político existe no íntimo das pessoas? Como é que (ou até que ponto é que) a partir do tipo de autoridade que o novo líder que a igreja coloca à disposição da comunidade representa, preenche tal vazio político, em suposição, provocado pelo Estado nesse espaço de sociabilidade (comunidade)?
Para tentar dar conta do fenómeno em questão, lembrei-me de uma obra clássica nas Ciências Sociais, “Ensaio sobre a Dádiva”, publicada em 1924, de Marcel Mauss (1872-1950). Nesta obra, Mauss referia que a vida social não tende apenas a repousar sobre contratos (todas disposições de natureza legal-burocrática: por exemplo, leis, decretos, Constituições, etc.; mas também, e de modo intenso, sobre 3 (três) obrigações complementares entre si e em relação a si, que são: dar, receber e retribuir. Nelas pode-se vislumbrar o reconhecimento do vínculo social, ou o fundamento da capacidade de acção dos indivíduos ou dos grupos e de interacção entre eles.
Este aspecto permite-me aventar a hipótese segundo a qual o crescendo do número de denominações religiosas pentecostais, por exemplo, em Moçambique, está relacionado com as acções e práticas retribuitórias desencadadas entre os seus fiéis ou crentes, que acabam encontrando fundamento na actual conjuntura sócio-política, cultural e económica do país. Isto é, existe uma lógica que guia a conduta destas igrejas, por um lado; e, por outro lado, o contexto social, político, económico e cultural do país favorece, em certa medida, sua implantação e seu crescente aumento.
É claro que para aceitar ou rejeitar esta hipótese, haja por percorrer um longo caminho. Contudo, foi minha intenção, através deste texto – o que não tem sido feito por poucos, profundamente empenhados na áreas das Ciências Sociais; ressaltar o facto de termos de compreender algo de forma razoável, antes de embrenharmo-nos em procurar soluções (mediante a aprovação de leis, políticas e programas de não-se-sabe-de-quê e de quantas), porque corremos sérios riscos de causar problemas ao invés das tão almejadas “boas soluções”.
Mas também não queria que este pequeno texto fosse interpretado como uma provocação ou ataque pessoal a seja lá quem for, pois tenho para mim que, uma das preciosíssimas maneiras de apreciar o esforço, o trabalho e a dedicação de outros indivíduos semelhantes a nós, é trazer o que eles fazem ao cenário da reflexão, mesmo que esta reflexão seja pobre e fraca, porém há que trazer o que podemos ao tal mundinho, porque nele há sempre espaço de e para alguma coisa!
Obrigado!
2 comentários:
Ola Gujamo, gostaria antes de comentar felicitar-lhe por ter-nos trazido esta discussão sobre a proliferação de igrejas de tipo pentecostais em Moçambique, e bastante interessante e sugestivo o artigo. Contudo, fiquei sem saber de que conjuntura sócio-politica cultural e económica te referes? Quem são estes fieis e crentes? Quais são as suas origens? Pelo que sei sobre o fenómeno religioso em Moçambique, grande parte delas vieram de fora do pais, não surgiram de iniciativas locais (i.e. IURD, Mana, Assembleia, etc).
Na minha opinião, há que ter em conta que o numero de Igrejas em Moçambique tem crescido na mesma proporção que o numero de ONGs e quiçá partidos políticos e associações, pois quando se deu a tal abertura politica em 1990, também deu-se a abertura económica e religiosa, e o fim de todo tipo de hegemonia. Surge um novo mercado politico, um novo mercado económico e um novo "mercado religioso". No caso religioso, e aberta a possibilidade de se criar uma igreja, por nacionais e estrangeiros. Neste caso, qual seria a finalidade destas igrejas? Duma forma geral e de expandir para todo mundo a fé crista (a palavra de Deus) como "função manifesta" e num contexto de todo tipo de desgraça e sofrimento, a promessa que trazem de salvação só podia resultar numa aderência em massa. E aproveitando-se desta aderência em massa para salvação começam a introduzir, nalgumas delas, aquela ideia da dádiva (dai e receberas). E por conseguinte introduz-se o dinheiro (dízimos e ofertas) como condição de salvação. E outros vendo que abrir uma Igreja da dinheiro, também vão seguindo a onda, abrindo mais igrejas e pouco a pouco vão se descaracterizando, deixando de ser lugares para os fieis e crentes poderem adorar as suas divindades, para ser tornarem em autenticas empresas em constante expansão...
Ola Gujamo.
Antes de mais nada quero lhe felicitar-lhe pelo artigo que escreveste. Gostaria de comentar sobre o primeiro argumento que levantas sobre dom. Nao sei se percebeste a intencao do Prof. ao tentar explicar o boom das igrejas em Mocambique e o proprio significado do termo dom. No cristianismo, dom tem significado sobrenatural, dadiva, graca, poder/capacidade sobre natural conferido pelo Alto que da a pessoa que recebe de capacidade/poderes especiais para ministrar em nome do Senhor. Pode ser a luz desta interpretacao que o Prof. usou o termo dom para tentar explicar as razoes por detraz da poliferacao das igrejas em Mocambique e nao so. Ou seja, muitos receberam ou afirmam terem recebido a chamada e/ou poderes especiais para ministrarem a palavra do Senhor acabando por fundar uma nova igreja, movidos pela crenca de terem recibido o dom.
Ademais, se pesquisarmos este assunto pelo mundo fora, podemos encontrar que nos utimos anos, ha um renascimento do movimento religioso em todo o mundo...
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