terça-feira, outubro 07, 2008

A caixa de ferramentas do sociólogo

Acção social

Conversei com muitos jovens que estão a estudar sociologia durante a minha estadia recente em Moçambique. Fiquei bastante bem impressionado pelo grande interesse que revelaram pela disciplina, mas também pela forma crítica como eles abordaram os desafios da sociologia no nosso país. Uma pergunta que colocaram com muita insistência e que aparentemente é discutida com frequência por eles e professores foi a pergunta sobre a relevância prática da sociologia.

Como é que a sociologia se pode tornar útil à sociedade? É uma pergunta bicuda porque a noção de relevância prática no nosso país (e não só!) está ligada a uma razão instrumental que não presta a devida atenção ao contexto cultural e intelectual dentro do qual a actividade científica emergiu. Na verdade, se no momento de emergência da actividade científica na Europa do Iluminismo ou nos séculos áureos do pensamento islâmico antes disso considerações da ordem da relevância tivessem sido preponderantes, possivelmente ainda hoje estaríamos a submeter a razão à aprovação de entidades eclesiásticas.

Espero brevemente debruçar-me sobre esta questão da relevância prática da sociologia como incentivo aos jovens sociólogos. Enquanto não o faço, gostaria de chamar a sua atenção para uma característica que me parece essencial num sociólogo que se preze: a curiosidade. Ser sociólogo não é saber tudo que é preciso saber sobre uma determinada sociedade, nem dominar os instrumentos teóricos e conceituais da disciplina. Embora esse conhecimento e essa dominação façam parte do equipamento de um sociólogo, o mais essencial parece-me ser a curiosidade. A questão, contudo, é de saber o que devemos entender por curiosidade. Não é, evidentemente, ser bisbilhoteiro. Ser curioso, no sentido em que entendo que um sociólogo devia ser, é interessar-se por saber o que preciso de saber para perceber o que me é dito ou o que vejo.

Infelizmente, muitos de nós dão muita coisa por adquirido, isto é, partem do princípio de que o que veem ou ouvem faz sentido e não precisa mais de ser interpelado. Em situações normais do nosso quotidiano até porque é prudente e sensato partir deste princípio se não queremos que as pessoas nos passem um atestado de incompetência social. Mas para quem quer ser sociólogo – e já agora, porque não, quem quer ser cidadão no verdadeiro sentido do termo – dar as coisas do quotidiano por adquirido é uma receita certa para perceber pouco. Mesmo se a nossa resistência ao senso-comum – dar as coisas por adquirido é mesmo do pelouro do senso-comum – não se manifesta através de uma interpelação complexa do que precisamos de saber para percebermos o que está a acontecer, podemos ainda assim interrogar as nossas próprias pressuposições. Porque é que partimos do princípio de que alguma coisa faz sentido? Que razões temos nós para entender uma determinada coisa da forma como a entendemos e, ainda por cima, estarmos certos de que o nosso entendimento é correcto?

Leiam a notícia que se segue e que extraí do jornal Notícias (ler aqui):

Crocodilos matam 12 pessoas em Sofala

DOZE pessoas morreram e outras quatro contraíram ferimentos, vítimas de ataques de crocodilos no primeiro semestre deste ano, na província de Sofala.

Maputo, Segunda-Feira, 6 de Outubro de 2008:: Notícias

O director nacional de Terras e Florestas, Raimundo Cossa, disse à Rádio Moçambique que a maior parte das vítimas encontrou a morte ao longo das margens do rio Zambeze. Cossa reconheceu que o conflito Homem/fauna bravia continua a tirar a vida a muitas pessoas em diversos pontos do país.

O que é que percebemos aqui? Que a humanidade em Moçambique está a sofrer baixas no conflito homem/fauna bravia? Que há um ferroz conflito homem/fauna bravia no nosso país?

Ou falta alguma coisa para realmente percebermos o que o jornal nos relata? Eu acho que falta muita coisa e não tenho a certeza se é o jornal ou o director nacional de terras e florestas que não nos está a dizer o que devíamos saber para podermos entender a notícia. Vamos fazer um recuo metodológico para entendermos melhor em que consiste a curiosidade. Apoio-me para este efeito em Clifford Geertz, um antropólogo americano, que introduziu na antropologia a ideia de descrição densa. Ele, por sua vez, apoiou-se num filósofo chamado Gilbert Ryle que reflectiu sobre o que chamou de descrição densa e fina.

O interesse de Geertz, contudo, era com a distinção entre acção e movimento, uma distinção bem trabalhada por Max Weber nos seus conceitos fundamentais da sociologia. Ryle introduziu uma distinção no piscar do olho dizendo que havia o piscar de olho involuntário (em inglês: twitch) e o piscar de olho intencional (em inglês: wink) para dizer que no primeiro caso estávamos em presença de um movimento natural sem sentido, enquanto que no segundo estávamos em presença de uma acção intencional com sentido.

Se por alguma razão qualquer (mosca, sopro de ar, etc.) pisco o olho não estou a agir no sentido sociológico do termo; contudo, se estou na rua, na discoteca, na sala de aulas ou numa reunião do partido e pisco o olho para alguém estou a agir, isto é a comunicar alguma coisa a alguém; e não só: estou a utilizar o repertório de comunicação que existe na sociedade para participar na construção do sentido e da própria realidade. Isto é, estou a indicar que sou competente socialmente, estou a transmitir uma mensagem, estou a agir sobre o meio, estou a transformar a sociedade, enfim, estou a participar na constituição de relações sociais. A curiosidade, neste sentido, consiste em entender a diferença entre acção e movimento, mas não só. Ela consiste também em perceber em que sentido uma acção é uma acção.

Este exercício passa, naturalmente, pela capacidade de perguntar, algo que muitos de nós ainda não aprendemos a cultivar. Preferimos, infelizmente, as conclusões (também estou já a tirar conclusões...). O que significa, portanto, a informação segundo a qual “crocodilos matam 12 pessoas em Sofala”? o que precisamos de saber para entendermos esta informação? Porque é que esta afirmação contém informação?

Que crocodilos são estes (não estou a perguntar se são crocodilos que “pertencem” a alguém...)? Qual é a população de crocodilos nos nossos rios ou nos rios em questão? Quem são as pessoas mortas? Crianças? Adultos? Homens? Mulheres? Camponeses? Pescadores? Turistas? Cooperantes? Forasteiros? Em que circunstâncias é que ocorrem os ataques? Onde ocorrem? Qual é a distribuição dos ataques? A que horas ocorrem? Qual é a história de ataques de crocodilos em determinadas zonas? O que se tem feito normalmente para evitar esses ataques? Como é que os ataques são explicados localmente? São vistos como problema? Porquê? Por quem? Porque é que a maior parte dos casos ocorreu no rio Zambeze? Porque uns são mortos (a maior parte) e outros apenas feridos (apenas quatro)? Porque é que o assunto interessa à direcção de terras e florestas? Que tipo de autoridade tem esta instituição para ser interlocutora válida da Rádio Moçambique? Como é que ela própria se informa? Que tratamento faz da informação? Para que precisa dessa informação? Porque é que o jornal Notícias acha que esta informação é de interesse público? A quem interessa isto?

É evidente que não vamos ter resposta para todas estas perguntas. Nem é absolutamente necessário que as tenhamos. Mas ser relevante é começar por ter interesse em se informar melhor sobre um assunto antes de poder emitir opinião. E se não dispomos da informação que nos permita emitir opinião com segurança, então pelo menos relativizar o que dizemos com esse desiderato de melhor informação.

A curiosidade faz falta ao país. E isso torna a sociologia relevante.

2 comentários:

Bayano Valy disse...

caro elísio,
não tivemos oportunidade para trocarmos ideias enquanto esteve cá. depois da mesa redonda fui para nampula para uma pequena consultoria e também o mês não me era favorável - era o mês de ramadan, o que tornava o dia mais curto ainda.

trazes uma questão interessante não apenas para o sociólogo que preze, mas também para o jornalista (aliás, bem o dizes quando afirmas que "quem quer ser cidadão no verdadeiro sentido do termo...") quero crer que o director possa ter dado informação incompleta, mas era dever do jornalista questioná-lo sobre a informação em falta de modo a que pudêssemos perceber melhor a estória. já tinha escrito algures que um dos atributos que se requer dum jornalista é a curiosidade, ie, ter um nariz apurado para cavar ao fundo das questões. penso eu que saber fazer perguntas não é algo que se adquire de um dia, mas também não obsta que o repórter procure fazê-las de modo a ter um melhor quadro.

quanto à questão dos estudantes, penso eu que há muito caminho a se percorrer não só nas ciências sociais como nas exactas para se ter uma ideia sobre a relevância deste e daquele no país. tenho para mim que a relevância resulta da possibilidade de qualquer disciplina se mostrar indispensável no catálogo social, cultural, económico e político de um país. para mim, até a questão nem devia ser de relevância, mas sim de como construir uma sociologia "moçambicana"? penso que não há muitos esforços sendo feitos para "domesticar" a sociologia. quero com isto dizer que talvez fosse necessário olhar para forjar um paradigma sociológico moçambicano através da adaptação dos instrumentos que os sociólogos têem ao seu dispor. apenas um pensamento...
abraços

Elísio Macamo disse...

olá bayano, foi de facto pena não termos tido mais tempo para conversa. o ramadão não impediu o camal de dar uma excelente contribuição para a mesa-redonda... o paralelo que estabeleces com o dever do jornalista é justo. na verdade, podemos colocar a questão ao nível da exigência do público leitor para que seja melhor informado. temos que apreciar a importância da informação completa para que os jornalistas se sintam obrigados a também proporcioná-la. sobre a necessidade de uma sociologia moçambicana estou contigo pelo menos no sentido em que é importante que os sociólogos moçambicanos se imponham no estudo das nossas questões. penso que neste sentido o trabalho que o professor carlos serra faz na sua oficina de sociologia merece louvor. será melhor valorizado ainda quando suscitar debate.